11 de março de 2019

O que é que me faz feliz?


Há uns dias, durante um painel que assinalava o Dia Internacional da Mulher em que eu participava, perguntaram-me o que é que me fazia feliz.

Respondi “eh pá…tanta coisa…”, porque tinha aprendido a encontrar felicidade nos pequenos momentos que a vida me trazia todos os dias. E aprendi mesmo.

Nasci no último dia do verão, de cesariana, e depois de um parto difícil, que ia acabando mal.

“Vou salvar a mãe, porque a filha já não será possível”. Foi assim que o meu pai recebeu a notícia de que as coisas estavam a complicar-se lá para dentro.

No fim, tudo acabou bem, comigo cá fora, num berreiro digno de quem tinha esperado 9 meses para sair e que tinha estado perto de não conseguir. “Eras linda, filha. Cor-de-rosa, perfeitinha e, como todos diziam, a bebé mais bonita da maternidade”, lembra-me tantas vezes a minha mãe.

Vivi e cresci no bairro de Alvalade, em Lisboa. Uma infância feliz, com direito a liberdade na rua, nos quintais das traseiras, onde nos imaginávamos sempre em Angra dos Reis, inspiradas nas novelas que a noite nos trazia.

Era um prédio antigo, a casa do avô, estrela do futebol e do clube que me acompanha até hoje. Era a vizinha de cima, 2ª avó, onde ficávamos depois das aulas e à espera que os nossos pais chegassem do trabalho. Eramos as irmãs Metralha, sempre prontas para fazer a vida negra a alguém.

Foi assim por 15 anos. Até àquele décimo primeiro dia de março de 1991.

Arrancou frio, ainda com cheiro a inverno. Com ele, uma casa de banho, um esquentador ligado, uma janela e uma porta fechadas, uma adolescente a preparar o banho para depois seguir para mais um dia de escola. Tudo normal.

Depois veio uma campainha que tocou porque eram horas de ir ao café fumar um cigarro às escondidas antes das aulas, mas uma porta que já não se abriu porque, do outro lado, algo tinha acontecido.

Um dia que resumiu àquele banho da manhã 15 anos de uma vida curta mas cheia de aventuras, namoricos, saídas à noite, idas à praia com os amigos, boas notas, más notas, verdades e mentiras. 

Foram 15 anos com tudo o que cabia neles. Nada ficou por fazer.

Naquele dia, um acidente estúpido, quase fatal. Mas também um recomeço. Uma realidade desconhecida que me propus enfrentar com todas as forças do meu corpo. E que fiquei a dominar como poucos.

Hoje comemoro essa 2ª oportunidade que a vida me deu.

Passaram-se 28 anos. Mesmo que custe a acreditar, porque o tempo corre mais rápido do que conseguimos acompanhar.

28 anos vividos sentada numa cadeira que se tornou na minha mais fiel companheira e que me leva para todo o lado. 28 anos de malta boa à minha volta. Alguma todos os dias, outra só de vez em quando - mas com um lugar cativo no meu melhor canto, o coração - e sempre com vontade de deixar entrar novas personagens, desde que elas acrescentem valor e me deem na mesma proporção que lhes dou. 28 anos e com a capacidade de me renovar a cada dia, de viver como nunca.

28 anos depois, estou hoje mais atenta ao que me rodeia porque deixei de olhar só para mim. 28 anos depois, estou hoje mais tolerante com quem não pensa como eu, mas cada vez menos em relação às injustiças que acontecem à minha volta e com cada vez mais necessidade de fazer algo para as mudar.

Nestes 28 anos, aprendi a conviver com as minhas zonas de conforto, mas já ouso sair delas de vez em quando. Aprendi a afastar-me do que não quero e a aventurar-me por caminhos que nunca tinha equacionado, talvez por achar que não seriam para mim. Aprendi que não sou finita, e a querer eternizar em mim experiências que antes não sentia vontade de viver.

Aceito com mais serenidade que há dias em que enfrento o mundo sozinha e cheia de pica, mas outros em que rezo para que se esqueçam do meu nome e me deixem em paz. Aceito que há pessoas que se aproximam de mim para me iluminarem, outras que apenas o fazem para se iluminarem a elas próprias. Aceito que também me engano e que, quando isso acontece, posso voltar atrás. Aceito que a verdade não é sempre a minha e que por vezes é preciso saber ouvir e seguir os outros. Aceito que tudo o que nos acontece, acontece no tempo que o tempo quer, e que os astros se alinham, se for o caso. Se não for o caso, também aceito e deixo seguir.

Tenho hoje o lado tranquilo e o lado louco bem arrumados cá dentro, mas dou-lhes como nunca dei antes a liberdade de se misturarem sempre que eles quiserem. Acelero nas retas e já não travo tanto nas curvas porque, se me despistar, sei que, mais ou menos dorida, com mais ou menos dentes, consigo sempre regressar à pista.

Hoje, 11 de março de 2019, é dia de comemorar a viagem incrível que tenho feito. De agradecer à tripulação brutal que a tem feito comigo. E de me orgulhar do piloto do caraças que tenho mostrado ser.

Mas porque eu não cheguei aqui para desistir, e porque conto viver ainda muitos momentos felizes, dizer-vos apenas que mais 28 parecem-me poucos, por isso que venha de lá, no mínimo, o dobro.

Se puderem, façam um “tchim tchim” ao dia de hoje. E mantenham-se por perto.




27 de janeiro de 2019

1000 razões para ficar, 1 para ir


“Muita gente não só lamenta o que não fez, como o que gostaria de ter feito diferente. Os grandes arrependimentos não dizem respeito a conquistas, mas a experiências. Todos os dias, abrimos mão de experiências que fazem sentido para a nossa vida, por causa do trabalho. Abrimos mão de um café porque só temos cinco minutos e então é melhor deixar para quando pudermos sair para jantar. Mas esse dia não chega nunca… Portanto, se tem cinco minutos, aproveite.”

As palavras são de uma médica brasileira que acaba de editar um livro sobre a sua experiência com doentes que enfrentam diagnósticos incuráveis. Li-as recentemente numa conversa que teve com o DN, e caíram cá dentro que nem uma bomba. “Porra, é isto”, foi mais ou menos assim.

Todos os dias deixamos coisas por fazer. Uma mensagem por enviar. Um telefonema por fazer. Um encontro que “fica para depois”. Um “gosto de ti”. Um “parabéns, és fantástico”. Um “olá, tudo bem contigo?”. Um “até ia, mas não vai dar”.

Refugiamo-nos na “falta de tempo” e no “digo/faço para a próxima”. Eu diria antes que é a nossa inacreditável incapacidade de perceber o que é realmente importante, e até medo de sair da nossa casca de sempre, do nosso quintal. No limite, de viver experiências novas.

Somos uma espécie de máquinas. Acordamos, vamos trabalhar sempre pelo caminho, ouvimos sempre as mesmas músicas, almoçamos sempre com as mesmas pessoas, nos mesmos sítios. No fim do dia, voltamos para casa, jantamos, lemos algumas notícias nos mesmos jornais, deitamo-nos, no dia seguinte, voltamos a ligar o botão “rotina” e entramos em modo “repeat”. E num mundo “repeat”. 

Quando damos por isso, temos mais 10 anos e não dissemos as palavras que devíamos ter dito, não demos os beijos que devíamos ter dado, não chorámos as lágrimas que devíamos ter chorado, não soltámos as gargalhadas que devíamos ter soltado, não tivemos as conversas que devíamos ter tido, não vivemos as experiências que devíamos ter vivido. É a tal “falta de tempo” ou o “digo/faço para a próxima” a marcar golos e a ganhar pontos.

Quando chegámos aos 40, fizemos muita coisa errada, mas já voltámos a encarrilar. Fomos os rookies da empresa, mas já somos respeitados profissionalmente. Vibrámos com o contrato promessa compra e venda da nossa casa, mas já a temos quase paga. Sonhámos com filhos, mas já os temos praticamente criados. Vivemos mergulhados em montanhas de dúvidas, mas já vivemos o suficiente para sabermos o que queremos. Tivemos vários grupos de amigos, mas mantivemos um e onde dificilmente deixamos entrar mais alguém.

E, depois, a gaita é que, aos 40, com o sucesso ou conforto que conseguimos, já não nos apetece mudar porque dá trabalho. Afinal, tornou-se tudo tão seguro, tão “direitinho” e controlado, que mudar para quê, não é? É, mas não devia ser.

No meu caso em particular - e admito que haja quem pense de outra forma - os 40 trouxeram-me isto tudo, mas também me trouxeram a certeza de que sou finita, que há muito mais para além disto, e que devo aproveitar a 2ª metade da minha vida para a viver em pleno, e divertir-me muito a fazê-lo.

Se depender de mim - e tal implica contrariar a minha também por vezes gigante incapacidade e medo de sair da minha casca, do meu quintal e de viver coisas novas - não vai ficar uma mensagem, um telefonema, um encontro, um “gosto de ti”, um “foste fantástico” ou um “olá, tudo bem contigo?” para mais tarde. 

Se depender de mim, por muito que também eu tenha mil razões para ficar, os 40 ensinaram-me que já só preciso de uma para ir.