2 de fevereiro de 2013

"O sofrimento é um excelente remédio para acordar o espírito"


Já aqui falei da amizade, já aqui falei dos meus animais e de uma das pessoas mais importantes da minha vida, a minha irmã. Hoje gostava de vos falar de uma classe profissional a quem devo em grande parte o facto de estar cá para partilhar convosco as minhas aventuras. Os profissionais de saúde. Todos mas, em particular, os enfermeiros. De quem injustamente apenas nos lembramos quando estamos em apuros e que tão maltratados têm sido ultimamente.

Do Santa Maria tenho poucas memórias a este nível porque já se passaram muitos anos. Uns 23. Mas lembro-me de um enfermeiro que era um verdadeiro borracho e que eu rezava que não calhasse no turno da manhã, para não ter que ser ele a dar-me o raio do banho na cama. Mas nem sempre tive essa sorte. Morria de vergonha. Bolas pá, já tinha 15 anos!
 
Também me lembro de uma enfermeira que se produzia mais para ir trabalhar que para sair à noite. E que fazia um sucesso do caraças junto dos colegas. E eu disse dos colegas. Porque das colegas não fazia sucesso nenhum!
 
Depois foi a passagem por Alcoitão. Também se passaram os mesmos anos, por isso as recordações também escasseiam. Mas lembro-me de uma enfermeira durona que meteu na cabeça que eu tinha que aprender (no primeiro dia!) a transferir-me sozinha da cadeira para a cama. E, cada vez que eu me transferia mal, dava-me um arrebite no rabo e obrigava-me a repetir tudo. Isto para o meu belo feitio era lindo…

Depois havia outras com quem eu me divertia à brava porque adoravam ver os meus sutiãs, que na altura eram de renda e coloridos. Hoje confesso que morria se me tirassem o conforto de um belo algodãozinho mas, enfim, coisas da idade.
 
Mais tarde, há cerca de 10 anos, emagreci por causa de um problema na vesícula e, por esse motivo, desenvolvi escaras. São feridas próprias de pessoas na minha condição ou acamados e que aparecem porque se faz demasiada pressão em certas partes do corpo. Magrinha e com pouca sensibilidade, então, pior ainda.

Comecei por ser acompanhada pelas enfermeiras do Centro de Saúde Charneca de Caparica. Foram incansáveis. Trataram-me com profissionalismo, sim, mas, acima de tudo, com amor, com dedicação extrema. E foi assim durante um ano.

A certa altura as coisas complicaram-se,e, por muito que tentassem, por muito que mudassem de produtos e de táctica, uma das escaras infectou. Fui medicada, melhorava por uns dias, mas a infecção insistia em ganhar terreno e houve um dia em que ganhou terreno demais.

Fui às urgências do Garcia de Orta e já não saí de lá. A infecção já estava com níveis elevadíssimos. Estávamos perante uma septicemia (infecção generalizada). Mas não é da doença que aqui vos vou falar. É das pessoas que me ajudaram a ultrapassar aquele que foi o momento mais complicado da minha vida.
 
Este internamento durou 2 meses. Na altura fiquei num dos quartos de 3 pessoas, na cama perto da janela. O que era óptimo porque assim virava-me para a parede, fechava a cortina que me separava das outras senhoras e tinha algum descanso. Não tinha nada contra elas, mas aquilo não era a "minha praia".
 
Estava com 29 anos. Praticamente a mesma idade que as enfermeiras que me tratavam. Senti que os olhos delas estavam em cima de mim, todos os dias. Porque a situação era grave, mas também porque conheciam a história da paraplegia e achavam que aquilo tudo era grave, por isso, injusto.
 
A certa altura passaram-me para um quarto isolado, no fundo do corredor. Muito mais sossegado. Foi um alívio, confesso. Achei que era para estar mais à vontade, mas rapidamente percebi que eram quartos reservados para os casos mais graves. E o meu era um deles.


Durante estes 2 meses tive que parar a minha vida toda, tudo o que tinha cá fora. Tudo o que eu gostava. O que na altura mais me doeu foi não poder ver a Carlota durante esse tempo. As saudades destruíam-me por dentro todos os dias um bocadinho. E a falta dos serões em família, esparramadas no sofá a ver televisão. Aquelas merdas que, quando temos, nem importância damos.

Fui-me abaixo. Dei por mim com vontade de chorar por tudo e por nada. Mas as enfermeiras não me deixavam um minuto sozinha. E quando o serviço estava calmo, algumas delas sentavam-se entre os pés da minha cama e o cadeirão que ficava no canto do meu quarto e passavam largos minutos na treta comigo e a ouvir as minhas histórias. E eu adorava. Até colares que amigas minhas faziam eu levava para lhes vender!
 
Um dia entrou um batalhão delas pelo quarto a dentro “porque a Marta quer lavar a cabeça e nós vamos tratar disso”. Relembro que eu não podia sair da cama. A ferida afectada era na nádega e eu não podia sentar-me numa cadeira. Foi um filme. Mas um filme cómico. E o cabelo ficou lindo e cheiroso outra vez. Depois ajudaram-me a secar, pentear, escolheram a t-shirt mais colorida, borrifaram-me com o meu perfume e puseram-me blush. Continuava esquelética, toda maradinha, mas muito mais eu: arranjadinha, cheia de creminhos, cheirosa e rosadinha.
Durante aqueles 2 meses, estabeleceu-se uma relação tão próxima com estas pessoas - nas quais incluo também o pessoal auxiliar – que, quando a febre baixou e me deram alta, me fartei de chorar por ter que as deixar. E eu bem vi os olhos delas cheios de lágrimas também. Era uma despedida, mas era uma despedida boa, por um bom motivo: eu estava a recuperar da infecção. Achava eu. Achávamos todos.
 
Fui para casa e tive que ficar deitada. Mas revi a Carlota – foi nesta altura que aprendi todas as músicas infantis existentes em Portugal porque ela passava o tempo à volta da minha cama -, os meus cães (a Matilde e o Gaspar), voltei a sentir o cheiro do meu quarto, olhei de novo para o meu pinhal.

Mais uma vez foram as enfermeiras do Centro de Saúde que me seguiram diariamente. E mais uma vez, imparáveis. Viveram cada minuto da minha vida como se  da vida de alguém das suas famílias de tratasse.
 
Os serões passaram para o meu quarto, onde se jantava em família e onde a minha mãe chegou a pôr uma espreguiçadeira ao lado da minha cama onde se deitava a ver tv comigo. E com a Matilde e o Gaspar do outro lado.
 
Mas a bicharoca que me tinha infectado era rija e umas semanas depois voltou. Resultado: tive que regressar ao hospital. E lá estive mais 1 mês. Depois melhorei, voltei para casa, piorei, mais infecção, de novo hospital, e assim sucessivamente. Acho que fui e vim umas 4 ou 5 vezes. Estava esgotada. Houve uma altura em que me apeteceu “pendurar as chuteiras” e desistir. Mas quem me rodeava não deixou.


Demorei um ano a recuperar mesmo. Foi um autêntico braço de ferro entre mim e aquela bactéria. Durou 5 ou 6 meses. Mas ganhei eu. E ganhei porque o meu corpo, contra todas as probabilidades, resistiu. E resistiu graças aos medicamentos, é certo, mas também graças àquele grupo de homens e mulheres que, mais do que me tratarem do corpo, trataram-me da alma.

Os médicos não desistiram nunca, as enfermeiras não me largaram um minuto, a família mais próxima nem se fala. E os amigos. Tantos…
 
Os meses que se seguiram foram para voltar a sentir-me bem, engordar, recuperar. Assim que me senti melhor, voltei ao trabalho (que, verdade seja dita, só por pouco tempo larguei a 100%). Quando ganhei peso suficiente, dois anos depois, ainda tive que fazer uma plástica reconstrutiva. Mais um internamento. Mais um serviço, mais um grupo de enfermeiros de excelência. Mais mimo.
 
No fim disto tudo, e aí sim, safei-me. E quem supera, vence.
 
E porque a vida nos reserva surpresas todos os dias, há 3 anos parti uma perna. Nada de internamentos mas, mais uma vez, Centro de Saúde ao domicílio. Desta vez, para fazer a fisioterapia necessária depois de tirar o gesso. Ainda hoje cá vêm uma vez por semana. Para continuar a forçar a perna a descer mais uns graus, passar revista às zonas do corpo que sofreram estas tretas todas. E, porque há relações que não acabam nunca, também para me verem.

Hoje estou alive and kicking. E sem medo nenhum de, se um dia for necessário, voltar àquele hospital. Porque sei que vou estar rodeada de gente competente e, acima de tudo, de amigos.
 
Ao Centro de Saúde da Charneca de Caparica, à Cirurgia II, à Ortopedia, à Traumatologia, à Cirurgia Plástica e Reconstrutiva, ao pessoal do RX, TAQ, Ressonâncias, ao secretariado destes serviços todos do HGO: grande parte do meu coração é vosso. Para sempre.

E para quem leu esta crónica, acreditem no SNS. É lá que estão os melhores profissionais de saúde do mundo.

1 de fevereiro de 2013

Eu e os meus amigos animais.

Hoje vou falar-vos da minha pancada por animais. Aliás, da nossa pancada por animais. 

Desde que me lembro que sempre fizeram parte da nossa vida. E a nossa relação com eles sempre foi muito estreita.

Aos 2 ou 3 anos tivemos o Marco. Um cão preto, rafeirão. Só estávamos com ele quando íamos de férias para o Magoito, para casa dos meus tios. E, claro, chamava-se Marco. Ou não fosse esse o nome da personagem principal dos desenhos animados que víamos na altura. “Vai-te embora mamã, não me deixes aqui…”. Lembram-se? Puxa, só de me lembrar, aperta-se-me o coração.
Aos 4 anos os meus pais decidem alugar uma casa de férias ao ano na Charneca de Caparica. Para passarmos fins de semana e férias, estarmos perto da praia. Foi nessa altura que o meu pai nos apareceu com um Pequinês albino, lindo de morrer. Uma raça chinesa que, segundo diz a lenda, é o resultado de um amor entre um leão e uma macaca minorca. Este chamou-se Pantufa. Ou não fossemos nós, eu e a mana, completamente fãs dos livros da Anita.

Mas o Pantufa era um cão com o verdadeiro “feitio de cão”. Quando o chateávamos mais um bocado – e acreditem que duas crianças de 4 e 5 anos gostavam particularmente de o fazer - ele arreganhava a dentuça e mordia-nos. Mas também era um cão querido, e amigo. Aninhava-se em nós a pedir mimo.

Lembro-me do dia em ele estava a olhar para dentro da máquina de lavar e eu, do alto dos meus 6 ou 7 anos, achei por bem enfiá-lo lá dentro. Só para ver o que acontecia. A porta fechou-se e nem eu nem a mana sabíamos abri-la. E o cão lá dentro. Salvou-nos a D.Susana, a velhota do 3º andar. Lá se safou o Pantufa. Mas eu de uma bronca da minha mãe já não.

Viveu até aos 12 anos. Já cegueta e cheio de artroses. Foi feliz.

Mas a morte do Pantufa aconteceu num momento muito complicado para a nossa família e, talvez por isso, tenha tido um impacto menor dentro de nós. Estávamos em 1991 e eu tinha ficado paraplégica há poucas semanas. Só soube da morte dele uns dias mais tarde, porque estava internada no Centro de Recuperação de Alcoitão e ninguém me quis contar.

Depois do Pantufa foi a vez do Coca-Cola. E chamava-se Coca-Cola porque o pai era o Pepsi, o cão dos meus tios.

O Coca – era assim que o chamávamos para facilitar - era uma mistura entre uma Bichon e um Caniche. Por isso não tinha nem pelo liso da mãe nem encaracolado, como o pai. Era mais parecido com um desperdício, daqueles de limpar carros. O que ainda lhe dava mais graça.

O Coca era um cão maravilhoso. Amigo, carinhoso, muito bem-educado. Aliás, todos os nossos cães foram sempre bem-educados e asseados. Nunca houve nem tretas de jornais nem caixinhas tipo gatos. Cocó e chichi era na rua e eles sabiam disso. Mas aprenderam porque foram ensinados.

Mas o Coca desenvolveu problemas de coração que, a partir dos 8 ou 9 anos, começaram a agravar-se. Nós íamos controlando a coisa com a medicação necessária.

Quando ele tinha 9 anos, eu, a mana e a mãe decidimos dar uma volta nas nossas vidas. Se onde nos sentíamos bem era na Charneca, perto da praia, porque não mudar de vez para lá? Para além disso, a casa de Alvalade não tinha condições para receber a minha cadeira. Mesmo assim vivemos lá 10 anos.

Foi assim que fomos parar à margem a sul do Tejo, onde comprámos uma casa. Bendita hora. Foi nesta casa que o Coca ainda viveu o seu último ano de vida. Feliz, com os problemas de coração a piorarem, é certo, mas feliz.

Sofremos muito com o desaparecimento dele mas tomámos a decisão de ir buscar outro. Achámos que nos ia ajudar a atenuar a dor. 

Foi assim que, num belo dia de Junho, fomos ter com um criador de Goldens Retrievers a Colares, perto de Sintra. Quando lá chegámos vimos 2 Goldens adultos a correr na nossa direcção. Atrás, a rebolar, trapalhonas, 8 crias. 

Íamos morrendo de amor por todos. Mas tínhamos que escolher apenas 1. E escolhemos o mais patudo, o Gaspar. Minutos depois, um amigo que foi connosco disse-me “Marta, escolhe outro que eu ofereço-te.” O meu coração quase parou. Perguntei ao criador se estes cães podiam viver felizes num apartamento, mesmo que fosse grande como o nosso e com varandas espaçosas. Ele respondeu “esta raça não quer espaço, quer carinho.” Escolhemos uma que nos olhava fixamente, como se nos dissesse “escolham-me!”. E assim trouxemos os dois. E que fosse o que Deus quisesse! 

Demos-lhes o nome de Matilde e de Gaspar.



Os primeiros meses foram um autêntico inferno. Rodapés roídos, caquinha e chichi por todo o lado, almofadas destruídas. Mas, pelo meio, muita graça e, claro, muita paciência nossa. O olhar deles desarmava-nos. Mas acabaram por aprender rapidamente que era na rua que tinham que se “orientar”.

A Matilde era a líder. O Gaspar, o pacholas que a seguia. Ensinámo-la a dar a pata, o Gaspar aprendeu a fazer o mesmo, por observação.

Mas a sorte escapou-nos quando, num dia quente de Verão, a Matilde, gordinha por ter sido esterilizada – apesar de todos os cuidados com a alimentação – nos morre com um ataque cardíaco. Tinha 5 anos. Foi um desgosto do tamanho do mundo. Para quem entende, foi um membro da família que perdemos. 

Mas tínhamos o Gaspar. Triste. À procura da irmã. Na rua, espreitava detrás dos arbustos, onde antes costumavam brincar, à procura dela. Os dias foram passando e ele ultrapassou a tristeza com muito mimo. Mas ficou ainda mais dependente de nós.

Durante os anos seguintes, as nossas atenções concentraram-se apenas no Gaspar. Era um cão como nunca tivemos outro. Percebia o que lhe dizíamos. Acreditem ou não. Não pisava poças de água, quando chovia ia a rua à pressa e por baixo das varandas para não se molhar. Todos os dias de manhã me pedia pão seco. Só com olhar. Passava o dia deitado ao meu lado porque eu trabalhava quase 80% do meu tempo em casa. Era o meu melhor amigo. 

Sim, exactamente isso: o meu melhor amigo.



Com 10 anos, em Abril de 2012, sentimos o Gaspar mais cansado. Pensámos que era da idade mas, numa ida ao veterinário, aconteceu o pior. O Gaspar tinha um cancro, já espalhado por órgãos vitais. Quando tentaram tirar o líquido que já tinha no pulmão, foi-se abaixo. Entrou no veterinário às 13h, recebemos a notícia da gravidade da doença às 14h, e tivemos que o mandar abater às 15h.

Foi uma das decisões mais difíceis da nossa vida. Perdemos mais do que um cão ou um animal doméstico. Perdemos mais um elemento da família, um companheiro. E eu perdi o meu melhor amigo.

Tenho que confessar que ainda hoje, quase um ano depois, não ultrapassei a dor desta perda. Aliás, acho que, no fundo, ninguém aqui em casa ultrapassou. Apesar disso, já consigo olhar para as fotos dele que estão no meu quarto e sentir saudade sem chorar. Mas o coração fica pequeno e apertado. Muito apertado.

Todos os dias penso nele. E todos os dias penso nas palavras dos amigos que me dizem para arranjar outro. Mas o meu coração não me deixa. Ainda. Sou corajosa, mas para isto sou fraquita.

Talvez o tempo me abra de novo esta porta. Por agora está fechada e sinto que perdi a chave. Se a voltarei a encontrar? Não sei. Mas por agora é assim que sinto que deve ser.

Pelo meio disto tudo houve dezenas de outros animais. Tivemos caturras (o Poupas), tartarugas sem nome, peixes (lembro-me do Zebedeu que comeu os irmãos todos e cresceu para o dobro), coelhos (o Tomás), canários (Chico Manel), rouxinóis do Japão sem nome, hamsters (o Rodolfo e a Rodolfina), e sei lá eu mais o quê! 

Actualmente temos apenas uma floreira onde deixamos comida para os pardais que andam pelas redondezas. Alpista, vitaminas, água, tudo. Sem grades. Com e em total liberdade. 

Sabem onde podem vir comer sem correrem o risco de ficarem presos para sempre.

E, por enquanto, isto é tudo o que o coração da malta aqui de casa aguenta. Um dia, lá mais prá frente, logo se verá.

29 de janeiro de 2013

Quem é pequenina hoje, quem é?


29 de Janeiro. Faz hoje anos uma das pessoas mais importantes da minha vida. Do mundo. Pelo menos do meu. Alguém que não só cresceu comigo, como o fez sempre ao meu lado. Eu diria até colada a mim. E, o mais giro é que, depois de tantos anos, continua a ser assim.
Faz hoje anos a minha companheirona, de todas as horas. Aquela que me atura as neuras, me pede conselhos, me acha trombuda mas também justa. Que me critica mas que também me elogia. Que me defende de tudo e de todos como se eu fosse uma criança indefesa.
Se fossemos gémeas não seríamos tão parecidas.
Faz 39 anos e tem só mais 18 meses que eu. Conta-me a nossa mãe que, no dia em que nasci, ainda no hospital e dentro no berço, ela se sentou ao lado e não deixou ninguém aproximar-se. Conta também que, numa noite em que os nossos pais recebiam amigos em casa, apareceu comigo ao colo na sala, agarrando-me a custo por baixo dos braços, virada para a frente. A mãe gelou, com medo que ela me largasse. “Patrícia, cuidado, devagarinho, pára, não largues a mana…” E ela justifica-se: “ Tava a chorar e por isso fui buscá-la…”
Quando vivíamos em Alvalade, tínhamos um quintal só para nós. Ficava nas traseiras dos prédios. E era ali que brincávamos.
O que nos gostávamos mesmo era imaginar que estávamos em plena Angra dos Reis e que aquelas eram as nossas mansões. É certo que não passavam de dois tijolos, uma madeira a uni-los e, a enfeitar, azulejos e vidros coloridos, vasos, tudo partido. Lixo, para os outros, luxo para nós. Nas nossas cabeças, não havia nada mais chique. Lembro-me do medo de ser apanhada pelas velhotas dos prédios ao lado quando saltávamos as vedações dos quintais delas à procura de tralha para levar para ali. Tudo o que servisse para aprimorar as nossas “casas de praia”.
À hora do lanche, uma de nós subia até casa e preparava uma garrafa com “refresco de café”. E duas carcaças com Tulicreme. Aliás, com muito Tulicreme. Carradas. E fazíamos um piquenique.
Fomos crescendo, e o cenário das brincadeiras muda para a Charneca de Caparica, onde os nossos pais alugam uma casa ao ano. Era para lá que íamos todos os fins de semana.
Ali já as brincadeiras eram diferentes. Passávamos o dia a roubar fruta dos quintais dos vizinhos e a andar de bicicleta com os nossos amigos. Eramos comportadas mas arrapazadas. Adorávamos passar com as bicicletas por dentro das poças. Ficávamos imundas. E cheias de nódoas negras.
Quando não andávamos nisto, estávamos no café Ferro - cujo dono era…o Sr. Ferro – a jogar matraquilhos e snooker. Eu não me safava mal mas a minha irmã, puxa, era profissional. Ganhava os jogos todos aos rapazes.
Com o tempo as bicicletas passaram a motas. Mas não nossas, que os nossos pais nunca nos deixaram ter uma. Mas íamos à pendura. Na altura só havia Zundapps e Famels. Só o Azeitona é que tinha uma DT LC 50cc. Acho que era o Azeitona. Também havia a Sofia, a Ana, a Raquel, o Tita, o Valente, o Tininho, o Guido, o Monhé, o Passinhas, o BX, o Vitinho e o Pedro Gordo. Estes eram os “residentes”, os “locals”. Depois apareciam uns que acabavam por não ficar muito tempo.
Todas as noites nos juntávamos no fundo da nossa rua. E ali ficávamos até à hora que a nossa mãe estipulava. Nem mais um minuto. Não falhávamos. Comprávamos manteiga e fiambre e contávamos os minutos para a padaria fazer sair a primeira fornada de bolinhas. Eram de babar. Ainda hoje lhes sinto o sabor.
Os anos foram passando e começámos a ter ordem de soltura para ir até aos bares de praia à noite. Mas sempre com horas marcadas para chegar a casa. Waikiki. Estava na berra. Vinha gente de Lisboa de propósito para se divertir ali.
Depois vieram os namorados. E, ui, fartámo-nos de namorar…
Depois, os 18 anos, as cartas de condução e as saídas à noite para Lisboa. Os arrufinhos com os namorados. E as zangas mais sérias.
Pelo meio destes anos todos as aventuras foram imensas. Mas foi assim que passámos a nossa infância e a nossa adolescência. Sempre juntas. Eu e a mana. As manas. E, tal como naquela altura, também agora, na idade adulta.
Hoje é o dia dela, mas também é o meu porque somos só uma.

Parabéns mana. E agora é a minha vez de te dizer o que me dizes tantas vezes: “Obrigada por seres minha irmã!”

28 de janeiro de 2013

Viver sem amigos não é viver

Hoje apetece-me falar de amizade e de como a tenho descoberto ao longo da vida.
Acho que só me apercebi mesmo da importância disto em 91, quando fiquei de cadeira de rodas.
Antes do acidente era o que se podia chamar uma "miúda popular" lá na escola. Divertida, boa onda. Sim, e namoradeira. Tinha uma irmã mais velha que tinha entrado um ano antes no liceu, por isso tinha o terreno preparado e a vida facilitada. É certo que, nessa altura, era o raio da irmã da Canária mais velha. Só passados uns meses conquistei o meu espaço e passei a ser a Marta.

Quando fiquei de cadeira aproximaram-se mais pessoas. Não por pena, mas porque aquilo lhes tocou e acabou por facilitar a criação de uma relação.

Lembro-me que, nos primeiros anos, havia "discussões" sobre quem é que ia buscar a Marta a casa para a levar à Sul América. O que implicava pegar em mim às cavalitas e descer 3 lances de escadas (9-9-5) até chegar à cadeira, que costumava ficar estacionada no hall do prédio.

Normalmente era o R. namorado da altura, um miúdo fantástico, como poucos, com quem namorava há 2 meses antes do acidente. Namorámos 7 anos. Mas quando não era ele, havia sempre alguém.

Depois o tempo foi passando, e o que era novidade deixou de o ser. Ir buscar a Marta a casa passou a dar trabalho. Por isso iam sem mim e escondiam. Magoou-me mas não me atrapalhou. Na altura trabalhava em minha casa uma mi+uda novinha, mais nova do que eu, a Paula, que arrumava a casa a abrir e depois se aventurava comigo pelas avenidas. Cavalinho aqui, cavalinho ali, lá chegavamos à "Sul". E, como tinhamos a mania que eramos crescidas, aproveitavamos para fumar uns cigarros. Eu Ventil, ela SG Lights.

Mas o ano que marcou mesmo a minha vida no que diz respeito a amizades, deve ter sido o de 95/96.

Nessa altura já frequentava as praias da Caparica. A eleita era o Borda d'Àgua, ainda hoje do melhor que existe naquela margem. Aí encontrei um grupo de pessoas que me fez sentir...vá, "igual". Iamos juntas para todo o lado. Durante o dia na praia, à noite na mítica Kapital. Ai, Kapital, o que nós nos divertiamos na Kapital...Piso 2, junto ao DJ Miguel Espírito Santo, a melgá-lo para que pusesse as músicas que mais gostavamos...Coitado do Miguel.

Fizémos esta vida durante anos seguidos. Depois fomos crescendo, arranjando empregos, mas os fds eram sagrados: praia, jantar no restaurante Taska e, depois, Kapital. Loucura mas sempre com consciência.

Desses tempos guardo um episódio giro. A viagem que fiz com a Catarina H, a Patrícia R e a Dora S, a Badajoz, de carro. Quando lá chegámos apeteceu-me fazer chichi. Missão seguinte, encontrar rapidamente um wc. E encontrámos, nojento, dentro de um parque de estacionamento escuro e mal-cheiroso. Pegaram em mim e sentaram-me na dita. Mas não reparámos que não tinha tampo e...enfiei-me lá dentro. Enfiei-me não, caí lá para dentro. Entre gargalhadas, num misto de gozo e nervos, lá me conseguiram tirar! Depois, Corte Inglés com elas, que ainda não havia cá. E sim, compras:).

Minhas queridas, esta é para vocês:)





E há outra pessoa que quero muito incluir nesta lista. A Ana D, que acreditou em mim e me levou para a empresa onde ainda hoje estou e onde me tornei a profissional ques ou hoje. Foi uma aposta baseada apenas no seu instinto, que resultou. Já não trabalhamos juntas, mas mantemo-nos...juntas no melhor: na vida:)

Bom, bom é que, quando hoje olho à minha volta, percebo que essas pessoas ainda fazem parte do meu grupo de amigos. Não nos vemos com a frequência que queríamos, mas contamos sempre uns com os outros. E, claro, as festas agora mudaram da noite para o dia. Literalmente: da 24 de Julho a partir das 23h, para as tardes nos aniversários da filharada.
 
Mas não fico por aqui. Porque a vida é uma caixinha de surpresas. E quando lhe/nos damos uma oportunidade, pode reservar-nos mais coisas boas. E, neste caso, mais uma amizade que no último ano se reforçou. Com a Cristina AT. Para ela, esta é a música (calma, não se assuste com o raio da imagem porque acho que vai gostar:)) :





E para terminar em grande, uma verdade que é a base de tudo o que disse acima: tenho a sorte de ter uma família fantástica. Uma mãe, uma irmã  e uma sobrinha que são mais que mãe, irmã e sobrinha. São as minhas melhores amigas. Mesmo quando me partem a cabeça.

Mas também tenho amigas daquelas que tenho a certeza de que vão ficar para a vida. E se nos esperar alguma coisa depois da vida - eu gostava - , tenho a certeza absoluta que elas vão continuar por lá.

Como alguém disse, viver sem amigos não é viver. Afinal, que graça tinha a vida sem eles?

Por fim, um desejo? Algo simples: sejam amigos uns dos outros.

Mais uma aventura. E esta é do caraças.

Hoje é um dia especial. Porque lanço uma nova experiência. Um blog. Ou blogue. Há quem diga que é o primeiro passo para iniciar o tão esperado livro.

Aqui vou escrever sobre tudo o que me apetecer. Mesmo coisas estúpidas. Se estiver para aí virada.

Mas, sobretudo, as histórias que fazem parte da minha vida. As minhas recordações. Os meus desejos. E, porque não, as minhas pancadas.

A vida do gato coxo aqui da rua. Do pinheiro que vive no pinhal que vejo da minha varanda. As brincadeiras com a minha sobrinha Carlota. Os meus desabafos depois de um dia de trabalho. A minha revolta pela falta de acessibilidades no meu Portugal. Os meus dias mais divertidos. Os que me deitam abaixo.

Falarei de amigos. E de inimigos, se eles se puserem a jeito. Vou partilhar fotos e videos (se esta gaita deixar, que ainda não pesco nada disto:))

Das músicas que eu gosto. Dos programas que eu gosto. Dos livros que me fazem viver outras vidas. E de tudo o que não gosto.

Espero, acima de tudo, ter inspiração suficiente. Para vos inspirar. Pelo menos um bocadinho todos os dias. Alguma esperança.

Não sei se sou uma super mulher, mas tenho a certeza de que sou uma mulher super.

E, para terminar, uma música que tanto me diz. Porque, afinal, aqui vai estar a minha vida.




Beijos a todos e divirtam-se por aqui.