6 de fevereiro de 2013

"A felicidade está em conhecer os nossos limites e em apreciá-los."

Portugal não é um país preparado para uma pessoa com mobilidade reduzida. E sim, aprendam o termo certo: mobilidade reduzida. Mas Portugal não está isolado neste problema. E porque gosto de contar histórias, conto mais uma que se passou comigo há cerca de 2 ou 3 anos. 

Um dia o telefone tocou. Era a M, uma ex-colega da faculdade, militante de um partido de esquerda. Já não falávamos há anos. Tinha um convite para me fazer. Ir a Bruxelas conhecer o Parlamento Europeu. Tratava-se de uma iniciativa do partido dela, no âmbito de um daqueles dias/anos internacionais que alguém decidiu dedicar-nos mas que, infelizmente, de pouco servem.

Esclareci que o meu partido não era o dela e que não fazia parte de nenhuma associação. E que, por esse motivo, podia fazer mais sentido passar o convite a outra pessoa. Mas a M disse que não, que queria que fosse eu.

A viagem ia ser de autocarro, com várias paragens. Aí agradeci o convite mas expliquei que, por razões físicas, não ia conseguir aguentar a viagem que, se não me falha a memória, iria demorar 3 ou 4 dias. Sugeri fazer antes a viagem de avião, em low cost que fosse. E assim foi.
 


Convite aceite e depois de ter explicado tim-tim por tim-tim o que ia precisar em termos de acessibilidades, a minha cabeça começa a processar a informação. “Marta, enlouqueceste! Acabaste de aceitar um convite para estares 3 dias fora da tua casa, com pessoas que não conheces, num país que não é o teu. E vais sozinha. Pela primeira vez, sozinha.” E de avião, que odeio.  Fiquei um bocadinho em pânico mas, se por um lado a ideia me assustava, por outro desafiava-me a ultrapassar o meu medo.

Claro que a primeira reacção da minha mãe foi “Isso é que era bom! Sozinha? Só podes estar doida!”. Mas depois ponderou, percebeu que isto era um passo de gigante na minha independência e apoiou-me.

Nos dias que antecederam a viagem, e já sabendo em que hotel ia ficar, certifiquei-me que este tinha todas as condições que eu ia precisar. E não era nada do outro mundo: um quarto com a cama alta (ao nível da minha cadeira), uma casa de banho em que a sanita tivesse barras laterais e uma banheira com uma cadeira de banho rotativa. Tudo o que de mais básico um quarto adaptado deve ter. Deram-me todas as certezas de que tudo estaria preparado para me receber, para eu não me preocupar. Cá e lá.

Mesmo assim fui com o coração nas mãos. Parecia bruxa.

Viajei na TAP. E ao serviço que a companhia aérea disponibiliza para acompanhar pessoas com mobilidade reduzida, o My Way, nada tenho a apontar. Foram impecáveis.



Aterro em Bruxelas e espera-me um mini-bus adaptado para nos levar ao hotel. Íamos ficar no Hilton, 5 estrelas. Íamos porque comigo viajaram mais dois convidados. 

Quando me levam ao quarto, no 26º andar, já tarde, o meu queixo caiu. E não foi por ter um quarto de sonho, onde chegava a todo o lado. Deparei-me, sim, com uma suite com uns 50 metros quadrados, sem barras laterais na sanita e banheira sem cadeira de banho. Ah, e importantíssimo, uma zona de sofás e digna de uma casa de luxo. A única coisa que se safava era a cama, relativamente alta mas onde cabiam 5 Martas. 

Conclusão: não pescaram nada do que lhes foi dito. E mais do que uma vez. Para aquela gente, o equivalente a quarto adaptado era espaço. Muito espaço. Sim, de facto, ali cabiam umas 20 cadeiras de rodas.



Desci à recepção, expliquei o que se passava, e pedi um novo quarto. Pediram desculpa mas disseram que não tinham no momento. Quase a passar-me pedi um pc com acesso à net para lhes explicar o que era uma cadeira rotativa. Era o mínimo para poder passar ali duas noites. Na manhã seguinte disse-lhes: “Vou agora ao Parlamento Europeu. Quando voltar, agradeço que já tenham comprado uma coisa destas para eu tomar banho.” 

E lá fui, visitar o Parlamento, com o resto do grupo. Aqui conhecemos o espaço, as rotinas, os objectivos, todo o funcionamento. 



Seguiu-se uma conversa com a deputada do partido. Rapidamente percebi que a ideia era falar do que estava mal, do que tinha que ser mudado, da luta. E da luta. E da luta. E, ainda, da luta. E falou-se. Sempre com um ambiente tenso e pesado. Que me sufocava. Mantive-me quase sempre calada.

Depois, cada pessoa podia contar a sua história. Não ouvi uma contada pela positiva. Umazinha. Só queixas. No fim ganhei coragem e decidi correr o risco. Expliquei que era feliz de cadeira de rodas, que tinha um bom emprego, conseguido à minha custa, onde me tratavam bem, aliás, como qualquer outra colaboradora. Que, sim, havia muito para mudar em termos de acessibilidades e discriminação, mas que tínhamos que tentar fazer as coisas pela positiva. 

Atrevi-me ainda a defender que muitas vezes a discriminação partia de nós próprios. Que era verdade que tínhamos que lutar o triplo que os outros para conseguirmos chegar onde queríamos, mas que era possível. Que eu tinha conseguido, e não era melhor do que ninguém naquela sala. Nunca entregar os pontos, nunca desistir. Não nos sentirmos vítimas mas sim vencedores. Que era necessário cada um fazer a sua parte. E, acima de tudo, que havia várias formas de contribuir para melhorar a nossa situação. E todas elas mereciam respeito. 

Expliquei que jamais criticaria uma associação, porque são muito necessárias – algumas das quais já me tinham convidado para fazer parte do grupo -, mas que preferia não optar por nenhuma e contribuir antes tentando ser um exemplo no meu dia-a-dia. Para quem me rodeava, para quem partilhava comigo os dias de trabalho, no meu círculo de amigos. No meu mundo. Claro que isto soou bem a uns e mal a outros. Mas a vida é mesmo assim. Ninguém agrada a todos. Muito menos eu.

Bom, quando voltei ao hotel tinham-me mudado de quarto, agora para um adaptado, no 6º andar. E, sim, compraram uma cadeira de banho. Mas, ignorantes, sem ser rotativa. Ou seja, própria para alguém que precisa de tomar banho sentado, mas que se pode levantar para entrar e sair da banheira. Expliquei que não servia, prontificaram-se a mudar – espero que o tenham feito -, mas para mim já iam tarde e desenrasquei-me com aquilo.

Para se desculparem, deram-me acesso gratuito ao último andar do hotel, zona VIP, para tomar um pequeno-almoço executivo. Eu que acordo sempre sem fome. O jeitão que me deu…

Tudo isto se passou em Bruxelas, um dos países onde residem e por onde passam pessoas do mundo inteiro. E onde situa o Parlamento Europeu, o centro da democracia de 500 milhões de cidadãos, dizem. Mas também já se passou comigo noutros sítios.

Não é só Portugal que está a anos-luz do que é isto de acessibilidades. A iniciativa do partido teve o seu mérito e valeu muito a pena. Os outros nem nunca tinham pensado em fazer isto. 
Mas, enquanto não houver vontade política de todos os partidos, nada vai acontecer. 

Quero deixar aqui bem clara que a minha admiração por quem se dedica a fundo a esta luta é gigantesca. Mas também pedir que respeitem a minha forma de luta. Viver feliz assim. E passar essa mensagem todos os dias.

Mas não fazer disto o centro do meu mundo. Porque jamais será.

5 de fevereiro de 2013

"Tira-me o pão, se quiseres, tira-me o ar, mas não me tires o teu riso."

Devo confessar que ser mãe nunca teve nos meus planos. Nem casar. Sempre me achei uma pessoa demasiado independente para o fazer. Queria ter um emprego sólido, ganhar dinheiro para dar uma boa vida a quem me rodeava, viajar. Não ter satisfações a dar a ninguém. E esta opinião não mudou depois de ter ficado paraplégica.

Note-se que estar paraplégica em nada interfere com o facto de ser mãe. Em situações normais, ou seja, se não houver outra causa, não é a paraplegia que impede uma mulher de ser mãe. Aliás, vendo a coisa pela positiva, até temos uma epidural natural!
Não faço, portanto, parte daquele grupo de mulheres cujo grande sonho é casar e ter filhos, e blá, blá, blá.
Achava graça a crianças…mas no colinho das mães delas. O que era curioso porque sempre que havia dessas pequenas criaturas por perto, era comigo que elas vinham ter. E, confesso, até tinha jeito para as ditas.
No entanto, fascinava-me quando via uma mãe com o mesmo problema que eu a cuidar de um filho sozinha. Tal como me emocionava quando via um casal apaixonado de verdade. Ainda hoje.
Mas a vida havia de me ensinar mais uma lição.
Em 2003 a minha irmã diz-me feliz: “estou grávida”. E eu pensei: “bolas, vou ser tia! Pela primeira vez, tia”. Sabia lá eu o que era isso e, acima de tudo, como a minha vida iria mudar.
Lembro-me de ter chegado à empresa no dia seguinte e ter contado a novidade às minhas colegas. Uma delas disse: “ui, coitadinha da miúda! Vai levar cada berlaita quando se portar mal!” E eu, claro, com a mania que era dura, acenei com a cabeça como quem dizia: “sim, é bom que se porte bem, caso contrário, palmadinha.” Nunca lhe toquei com um dedo.
Um dia vi uma das ecografias e, chamem-me maluquinha, mas eu vi a minha irmã de perfil. Vi mesmo.
9 meses depois nasce uma bebé com pouco mais de 3 quilos e uns 50 cm. Um pedacinho da minha irmã. Perfeita. E com cara de Carlota. Abanei por dentro.
Quis o destino que aos 9 meses a Carlota e a mana viessem viver para a minha casa e da minha mãe, onde viveram sensivelmente durante um ano e meio.
Foi durante esse período que me deixei conquistar por aquele bocadinho de gente. Foi durante esse período que me tornei numa tia-mãe, como gosto de chamar.
Nada me dava mais prazer que ajudar no banho, dar a papa, a sopa. Mais tarde, quando começou a comer “comida de crescidos”, cozinhar para a Carlota era um bálsamo. Não, estar com a Carlota era um bálsamo. Mesmo quando tinha que cantar e fazer as macacadas mais impensáveis para a distrair. Sim, também eu fingi que as colheres eram aviões e a boca dela a pista de aterragem. 
Sentava-a no carrinho da papa, que tinha rodinhas, e levava-a para onde eu ia. Lembro-me de precisar de secar o cabelo e de a levar até à minha casa de banho, onde ela se divertia com tudo o que apanhava: escovas, tampas, toalhas. O que estava à mão. Depois eu deitava o banco para trás e ela adormecia como um anjo até a mãe chegar do trabalho.

 
Outra coisa com que ela delirava era andar sentada ao meu colo, virada para a frente. Atava-a a mim com um cinto de roupão e corríamos a casa toda. O que ela se ria! E com apenas aqueles dois dentes de cima….E eu, a babar.
Quando começou a falar também foi uma fase inesquecível. Queria explicar-se mas ninguém percebia nada do que queria dizer.
Quando ela tinha um ano, fui hospitalizada. Quando voltei a casa e só podia estar na cama, a Carlota já estava a viver noutra casa com a mãe, no prédio em frente ao meu. Mas continuava a passar grande parte do seu tempo na minha e, em particular, à volta da minha cama. Nessa altura aprendi todas as músicas infantis do mercado. Ela pegava nos cds apontava para a aparelhagem que eu tinha na minha mesa-de-cabeceira e dizia: “muca, muca!” Tradução: queria ouvir música. Lá vinha a Bola do Manel, o Balão do João, a Rosa arredonda a saia e tooooodas as outras. Todas mesmo. E cantava. Mas à deliciosa maneira dela: “Oia a boia Maneli, oia a boia Maneli, foiximboia, fugiu!”…
Quando saía do banho e sentia frio dizia: tenho pio! E quando via a sopa cantava: “xopa, xopa, eu goto de xopa!” Eu, mais uma vez, a babar.
Entretanto a Carlota foi crescendo. E sempre comigo por perto. E por isso cresceu a perceber que a diferença existe mas que deve ser respeitada. Isso sempre lhe foi explicado de uma forma simples, clara. Um dia um colega do infantário que estava numa cadeirinha de rodas recusava-se a fazer algo que todos os outros meninos faziam. Achava que, pela sua condição, tinha o direito de não fazer. Conta-nos a educadora que a Carlota, do alto dos seus 3 anos, se levantou, pôs a mão na anca e disse: “oia, eu tenho uma tia de cadeira de rodas que faz tudo lá em casa. Até se pinta!” Meus Deus, no meio de tudo o que eu fazia por e com ela, do que a miúda se foi lembrar! Mas a mensagem estava lá. A tia era como as outras pessoas.
Hoje tem 9 anos e continua a viver do outro lado da rua. Todos os dias sai para a escola com a mãe às 7h30. E nós, eu e a minha mãe, vamos à varanda só para lhe dizer adeus. Isto desde que nasceu. Tornou-se num hábito que aqui ninguém abdica. E quando não nos vê na varanda assobia o nosso assobio. Só nosso.
É uma miúda equilibrada, feliz. Chanfrada, gozona, teimosa e respondona (hum, sairá a quem…?). Mas responsável, amiga, carinhosa. Adora dar-nos a mão. O que nos derrete. Esteja onde estiver. É das melhores alunas da aula, dança hip-hop e joga futebol como um rapaz. Mas também gosta de pet shops, barriguitas, legos e bonecas. De preferência as Monster High que, para quem não sabe, são umas personagens tipo Barbie mas filhas do Lobisomen, do Frankenstein, do Conde Drácula, entre outros monstros simpáticos. Enfim.
Com esta miúda descobri como é bom ser tia. Muito mais do que isso. Descobri que o amor pode mesmo ser incondicional, não ter limite. E que não há certezas absolutas. Quem sabe se um dia também decido ser mãe. Se tivesse a certeza que me saía uma cópia destas, era 
hoje!
 
Mas uma coisa é certa, se isso nunca acontecer, serei para sempre a tia-mãe mais orgulhosa do mundo.

3 de fevereiro de 2013

Falar de sexo é tabu? Ok, então falemos de sexo.

Sexo. É sempre um tema que prende a atenção...Pois bem, é precisamente sobre isso que vos vou falar hoje.

Escrever-vos sobre isto é expor-me, bem sei. Mas também é ajudar pessoas na mesma condição que eu a desbloquearem este tema, e vocês a entenderem um bocadinho como é estar deste lado. Posto isto, acho que vale o risco.

A idade é, de facto, um posto. À medida que avança, a cabecinha evolui e, o que antes nos constrangia, vai-se relativizando.

Desde que fiquei de cadeira de rodas, sinto que este é um tema tabu. Para muita gente e, durante muito tempo, para mim também. Não me sentia de todo confortável a partilhar o tema "sexualidade na pessoa com deficiência." (é assim que os especialistas lhe chamam)

Por isso não o fazia e deixava que pensassem o que quisessem.

Confesso que já não me lembro quantas vezes me fizeram perguntas sobre o que tinha realmente mudado na minha vida depois do acidente. Mas, tirando uma ou duas pessoas, nunca me perguntaram sobre a sexualidade de uma pessoa nas minhas condições.

Pois falemos de sexo, então.

E primeiro lugar, que fique claro que defendo sexo com amor. Não concebo a ideia de os separar. Chamem-me pudica, careta, o que quiserem mas, para mim, são uma coisa só. Ter e dar prazer, se não for com a pessoa que amamos, de pouco serve. E isto é válido para todos. Não só para pessoas com limitações físicas

Os jovens de hoje não percebem isto. Para eles, sexo é sexo. Não é fazer amor. O que é pena, porque não há nada mais bonito do que FAZER AMOR. E amor, meus caros, faz-se com a pessoa que se ama. 

Não pode ser algo descartável, como quem mastiga uma pastilha elástica e, quando perde o sabor, a deita fora.

Mas voltemos ao tema tabu: sexo em pessoas com limitações físicas. E notem que eu disse físicas, não psicológicas.

 

Sempre achei que o nosso corpo era o que de mais precioso tínhamos e que não fazia sentido partilhá-lo com quem pouca ligação emocional se tivesse. Só porque sim. Porque sabia bem. Porque que é bom ninguém discute.

Conto-vos uma história engraçada. Um dia convidaram-me para dar uma palestra numa escola situada numa zona complicada, com alunos igualmente complicados. Para partilhar com eles a minha história.

Quando entrei naquele ginásio deparei-me com uma plateia de uns 300 alunos, entre os 15 e os 20 anos. No auge da sua sexualidade, portanto. Ah, e de referir que a sua permanência ali era obrigatória. Não podiam baldar-se. O que ajudava imenso.

O barulho era ensurdecedor. Nem deram pela minha presença. E os que deram, olhavam-me com curiosidade. Mantive-me calada até perceberem que só começaria a falar quando se calassem. O que aconteceu passados alguns minutos.

E lá comecei a contar a história da Marta, que aos 15 anos tinha ficado paraplégica devido a uma intoxicação por monóxido de carbono, etc, etc, etc, como tinha ultrapassado a situação e optado por viver em vez de sobreviver. Expliquei que pouco tinha perdido depois do acidente. Que a minha vida tinha-se mantido encarrilada e quase “normal”.

No fim, fiquei à disposição para responder a todas as perguntas e para esclarecer todas as dúvidas que eles tivessem. Mal eu sabia onde me estava a meter!

É importante referir que na altura passava na tv uma novela brasileira onde a protagonista ficava paraplégica na sequência de um acidente. A história desenrolava-se à volta da vida dela. Até que conhece um rapaz por quem se apaixona. E ele por ela, sem que o facto de estar de cadeira de rodas fosse um problema. Nem a perspectiva de vir a ter uma vida sexual diferente.

Aquilo estava bem contado e até eu, durona, me emocionava com algumas cenas de grande ternura e realismo.

E porque os temas das novelas acabam sempre por estar na ordem do dia, uma das alunas, de forma atrevida mas envergonhada, pergunta-me: então mas se está paraplégica não sente, como é que consegue ter uma relação sexual?

A professora dela ia tendo uma síncope. Olha para mim com cor de pimento vermelho, pede desculpa pela pergunta e diz à plateia para alguém fazer outra pergunta.


Eu não tive uma síncope mas gelei. Pior: calou-se tudo para me ouvir. Tudo. E pensei: olha que caraças, como é que eu me safo desta? Como é que eu explico a miúdos de 15 a 20 anos esta conversa de fazer sexo vs fazer amor…?

É um tema bicudo mas pensei: se estas são as dúvidas destes miúdos, porquê fugir delas? Se o fizer, afinal vim aqui fazer exactamente o quê? Respirei fundo, decidi ser sincera, simples e responder com honestidade.

Foi o que fiz. Comecei por defender que, quando nos entregamos a alguém, esse alguém tem que ser mesmo especial. E que quando o fazemos, para além de levarmos o corpo, devemos levar a alma e o coração.

Expliquei que sexo é bom, mas que fazer amor é muuuuito melhor...

Achei que o caso estava encerrado mas enganei-me. A miúda responde: ok, mas se não há sensibilidade, ou pelo menos se não é igual às outras pessoas, como é que sente prazer?

Percebi que estava lixada e que não me ia safar facilmente. Mas lá continuei. Expliquei-lhe que havia várias formas de sentir prazer. E em várias zonas do corpo. E arrisquei perguntar: gostas quando o teu namorado te dá um beijo apaixonado no pescoço? Ou quando te acaricia a orelha? Ela respondeu de imediato: “A-d-o-r-o!” Gargalhada geral.

Disse-lhe que aí estava a resposta e que ela estava a chegar onde eu queria. O nosso corpo é uma caixinha cheia de surpresas e, se investirmos tempo a explorá-lo e a conhecê-lo, ele nos vai surpreender. Muito. E que quando fazemos amor com quem amamos, dar prazer é também mais uma forma de o sentir. Estava tudo ligado.

Quando me calei, o silêncio na sala foi total. Olhei em volta, já não via risinhos escondidos, expressões de gozo, ou de provocação. Via, sim, um grupo de miúdos atentos, com um sorriso sincero nos lábios como quem diz: “Bolas, se calhar tens razão…”

E vi outra coisa que nunca mais me vou esquecer: um rapaz a piscar o olho à namorada, a dar-lhe a mão, e a abraçá-la, apertando-a contra ele.

No fim da sessão, que em vez de durar 1h durou 2h, levantaram-se e bateram palmas. Que bom, tinham gostado, pensei. E tinham gostado porque queriam mesmo perceber isto e nunca ninguém lhes tinha explicado de uma forma simples e directa.

Foi nessa altura que percebi que a mensagem tinha passado: que a fórmula é juntar amor ao sexo e, claro, alguma imaginação! E que, se assim for, o corpo corresponde.

E que o amor, quando é sincero, não é descartável. Porque, ao contrário da pastilha elástica, o amor quando é verdadeiro, nunca perde o sabor. 

2 de fevereiro de 2013

"O sofrimento é um excelente remédio para acordar o espírito"


Já aqui falei da amizade, já aqui falei dos meus animais e de uma das pessoas mais importantes da minha vida, a minha irmã. Hoje gostava de vos falar de uma classe profissional a quem devo em grande parte o facto de estar cá para partilhar convosco as minhas aventuras. Os profissionais de saúde. Todos mas, em particular, os enfermeiros. De quem injustamente apenas nos lembramos quando estamos em apuros e que tão maltratados têm sido ultimamente.

Do Santa Maria tenho poucas memórias a este nível porque já se passaram muitos anos. Uns 23. Mas lembro-me de um enfermeiro que era um verdadeiro borracho e que eu rezava que não calhasse no turno da manhã, para não ter que ser ele a dar-me o raio do banho na cama. Mas nem sempre tive essa sorte. Morria de vergonha. Bolas pá, já tinha 15 anos!
 
Também me lembro de uma enfermeira que se produzia mais para ir trabalhar que para sair à noite. E que fazia um sucesso do caraças junto dos colegas. E eu disse dos colegas. Porque das colegas não fazia sucesso nenhum!
 
Depois foi a passagem por Alcoitão. Também se passaram os mesmos anos, por isso as recordações também escasseiam. Mas lembro-me de uma enfermeira durona que meteu na cabeça que eu tinha que aprender (no primeiro dia!) a transferir-me sozinha da cadeira para a cama. E, cada vez que eu me transferia mal, dava-me um arrebite no rabo e obrigava-me a repetir tudo. Isto para o meu belo feitio era lindo…

Depois havia outras com quem eu me divertia à brava porque adoravam ver os meus sutiãs, que na altura eram de renda e coloridos. Hoje confesso que morria se me tirassem o conforto de um belo algodãozinho mas, enfim, coisas da idade.
 
Mais tarde, há cerca de 10 anos, emagreci por causa de um problema na vesícula e, por esse motivo, desenvolvi escaras. São feridas próprias de pessoas na minha condição ou acamados e que aparecem porque se faz demasiada pressão em certas partes do corpo. Magrinha e com pouca sensibilidade, então, pior ainda.

Comecei por ser acompanhada pelas enfermeiras do Centro de Saúde Charneca de Caparica. Foram incansáveis. Trataram-me com profissionalismo, sim, mas, acima de tudo, com amor, com dedicação extrema. E foi assim durante um ano.

A certa altura as coisas complicaram-se,e, por muito que tentassem, por muito que mudassem de produtos e de táctica, uma das escaras infectou. Fui medicada, melhorava por uns dias, mas a infecção insistia em ganhar terreno e houve um dia em que ganhou terreno demais.

Fui às urgências do Garcia de Orta e já não saí de lá. A infecção já estava com níveis elevadíssimos. Estávamos perante uma septicemia (infecção generalizada). Mas não é da doença que aqui vos vou falar. É das pessoas que me ajudaram a ultrapassar aquele que foi o momento mais complicado da minha vida.
 
Este internamento durou 2 meses. Na altura fiquei num dos quartos de 3 pessoas, na cama perto da janela. O que era óptimo porque assim virava-me para a parede, fechava a cortina que me separava das outras senhoras e tinha algum descanso. Não tinha nada contra elas, mas aquilo não era a "minha praia".
 
Estava com 29 anos. Praticamente a mesma idade que as enfermeiras que me tratavam. Senti que os olhos delas estavam em cima de mim, todos os dias. Porque a situação era grave, mas também porque conheciam a história da paraplegia e achavam que aquilo tudo era grave, por isso, injusto.
 
A certa altura passaram-me para um quarto isolado, no fundo do corredor. Muito mais sossegado. Foi um alívio, confesso. Achei que era para estar mais à vontade, mas rapidamente percebi que eram quartos reservados para os casos mais graves. E o meu era um deles.


Durante estes 2 meses tive que parar a minha vida toda, tudo o que tinha cá fora. Tudo o que eu gostava. O que na altura mais me doeu foi não poder ver a Carlota durante esse tempo. As saudades destruíam-me por dentro todos os dias um bocadinho. E a falta dos serões em família, esparramadas no sofá a ver televisão. Aquelas merdas que, quando temos, nem importância damos.

Fui-me abaixo. Dei por mim com vontade de chorar por tudo e por nada. Mas as enfermeiras não me deixavam um minuto sozinha. E quando o serviço estava calmo, algumas delas sentavam-se entre os pés da minha cama e o cadeirão que ficava no canto do meu quarto e passavam largos minutos na treta comigo e a ouvir as minhas histórias. E eu adorava. Até colares que amigas minhas faziam eu levava para lhes vender!
 
Um dia entrou um batalhão delas pelo quarto a dentro “porque a Marta quer lavar a cabeça e nós vamos tratar disso”. Relembro que eu não podia sair da cama. A ferida afectada era na nádega e eu não podia sentar-me numa cadeira. Foi um filme. Mas um filme cómico. E o cabelo ficou lindo e cheiroso outra vez. Depois ajudaram-me a secar, pentear, escolheram a t-shirt mais colorida, borrifaram-me com o meu perfume e puseram-me blush. Continuava esquelética, toda maradinha, mas muito mais eu: arranjadinha, cheia de creminhos, cheirosa e rosadinha.
Durante aqueles 2 meses, estabeleceu-se uma relação tão próxima com estas pessoas - nas quais incluo também o pessoal auxiliar – que, quando a febre baixou e me deram alta, me fartei de chorar por ter que as deixar. E eu bem vi os olhos delas cheios de lágrimas também. Era uma despedida, mas era uma despedida boa, por um bom motivo: eu estava a recuperar da infecção. Achava eu. Achávamos todos.
 
Fui para casa e tive que ficar deitada. Mas revi a Carlota – foi nesta altura que aprendi todas as músicas infantis existentes em Portugal porque ela passava o tempo à volta da minha cama -, os meus cães (a Matilde e o Gaspar), voltei a sentir o cheiro do meu quarto, olhei de novo para o meu pinhal.

Mais uma vez foram as enfermeiras do Centro de Saúde que me seguiram diariamente. E mais uma vez, imparáveis. Viveram cada minuto da minha vida como se  da vida de alguém das suas famílias de tratasse.
 
Os serões passaram para o meu quarto, onde se jantava em família e onde a minha mãe chegou a pôr uma espreguiçadeira ao lado da minha cama onde se deitava a ver tv comigo. E com a Matilde e o Gaspar do outro lado.
 
Mas a bicharoca que me tinha infectado era rija e umas semanas depois voltou. Resultado: tive que regressar ao hospital. E lá estive mais 1 mês. Depois melhorei, voltei para casa, piorei, mais infecção, de novo hospital, e assim sucessivamente. Acho que fui e vim umas 4 ou 5 vezes. Estava esgotada. Houve uma altura em que me apeteceu “pendurar as chuteiras” e desistir. Mas quem me rodeava não deixou.


Demorei um ano a recuperar mesmo. Foi um autêntico braço de ferro entre mim e aquela bactéria. Durou 5 ou 6 meses. Mas ganhei eu. E ganhei porque o meu corpo, contra todas as probabilidades, resistiu. E resistiu graças aos medicamentos, é certo, mas também graças àquele grupo de homens e mulheres que, mais do que me tratarem do corpo, trataram-me da alma.

Os médicos não desistiram nunca, as enfermeiras não me largaram um minuto, a família mais próxima nem se fala. E os amigos. Tantos…
 
Os meses que se seguiram foram para voltar a sentir-me bem, engordar, recuperar. Assim que me senti melhor, voltei ao trabalho (que, verdade seja dita, só por pouco tempo larguei a 100%). Quando ganhei peso suficiente, dois anos depois, ainda tive que fazer uma plástica reconstrutiva. Mais um internamento. Mais um serviço, mais um grupo de enfermeiros de excelência. Mais mimo.
 
No fim disto tudo, e aí sim, safei-me. E quem supera, vence.
 
E porque a vida nos reserva surpresas todos os dias, há 3 anos parti uma perna. Nada de internamentos mas, mais uma vez, Centro de Saúde ao domicílio. Desta vez, para fazer a fisioterapia necessária depois de tirar o gesso. Ainda hoje cá vêm uma vez por semana. Para continuar a forçar a perna a descer mais uns graus, passar revista às zonas do corpo que sofreram estas tretas todas. E, porque há relações que não acabam nunca, também para me verem.

Hoje estou alive and kicking. E sem medo nenhum de, se um dia for necessário, voltar àquele hospital. Porque sei que vou estar rodeada de gente competente e, acima de tudo, de amigos.
 
Ao Centro de Saúde da Charneca de Caparica, à Cirurgia II, à Ortopedia, à Traumatologia, à Cirurgia Plástica e Reconstrutiva, ao pessoal do RX, TAQ, Ressonâncias, ao secretariado destes serviços todos do HGO: grande parte do meu coração é vosso. Para sempre.

E para quem leu esta crónica, acreditem no SNS. É lá que estão os melhores profissionais de saúde do mundo.

1 de fevereiro de 2013

Eu e os meus amigos animais.

Hoje vou falar-vos da minha pancada por animais. Aliás, da nossa pancada por animais. 

Desde que me lembro que sempre fizeram parte da nossa vida. E a nossa relação com eles sempre foi muito estreita.

Aos 2 ou 3 anos tivemos o Marco. Um cão preto, rafeirão. Só estávamos com ele quando íamos de férias para o Magoito, para casa dos meus tios. E, claro, chamava-se Marco. Ou não fosse esse o nome da personagem principal dos desenhos animados que víamos na altura. “Vai-te embora mamã, não me deixes aqui…”. Lembram-se? Puxa, só de me lembrar, aperta-se-me o coração.
Aos 4 anos os meus pais decidem alugar uma casa de férias ao ano na Charneca de Caparica. Para passarmos fins de semana e férias, estarmos perto da praia. Foi nessa altura que o meu pai nos apareceu com um Pequinês albino, lindo de morrer. Uma raça chinesa que, segundo diz a lenda, é o resultado de um amor entre um leão e uma macaca minorca. Este chamou-se Pantufa. Ou não fossemos nós, eu e a mana, completamente fãs dos livros da Anita.

Mas o Pantufa era um cão com o verdadeiro “feitio de cão”. Quando o chateávamos mais um bocado – e acreditem que duas crianças de 4 e 5 anos gostavam particularmente de o fazer - ele arreganhava a dentuça e mordia-nos. Mas também era um cão querido, e amigo. Aninhava-se em nós a pedir mimo.

Lembro-me do dia em ele estava a olhar para dentro da máquina de lavar e eu, do alto dos meus 6 ou 7 anos, achei por bem enfiá-lo lá dentro. Só para ver o que acontecia. A porta fechou-se e nem eu nem a mana sabíamos abri-la. E o cão lá dentro. Salvou-nos a D.Susana, a velhota do 3º andar. Lá se safou o Pantufa. Mas eu de uma bronca da minha mãe já não.

Viveu até aos 12 anos. Já cegueta e cheio de artroses. Foi feliz.

Mas a morte do Pantufa aconteceu num momento muito complicado para a nossa família e, talvez por isso, tenha tido um impacto menor dentro de nós. Estávamos em 1991 e eu tinha ficado paraplégica há poucas semanas. Só soube da morte dele uns dias mais tarde, porque estava internada no Centro de Recuperação de Alcoitão e ninguém me quis contar.

Depois do Pantufa foi a vez do Coca-Cola. E chamava-se Coca-Cola porque o pai era o Pepsi, o cão dos meus tios.

O Coca – era assim que o chamávamos para facilitar - era uma mistura entre uma Bichon e um Caniche. Por isso não tinha nem pelo liso da mãe nem encaracolado, como o pai. Era mais parecido com um desperdício, daqueles de limpar carros. O que ainda lhe dava mais graça.

O Coca era um cão maravilhoso. Amigo, carinhoso, muito bem-educado. Aliás, todos os nossos cães foram sempre bem-educados e asseados. Nunca houve nem tretas de jornais nem caixinhas tipo gatos. Cocó e chichi era na rua e eles sabiam disso. Mas aprenderam porque foram ensinados.

Mas o Coca desenvolveu problemas de coração que, a partir dos 8 ou 9 anos, começaram a agravar-se. Nós íamos controlando a coisa com a medicação necessária.

Quando ele tinha 9 anos, eu, a mana e a mãe decidimos dar uma volta nas nossas vidas. Se onde nos sentíamos bem era na Charneca, perto da praia, porque não mudar de vez para lá? Para além disso, a casa de Alvalade não tinha condições para receber a minha cadeira. Mesmo assim vivemos lá 10 anos.

Foi assim que fomos parar à margem a sul do Tejo, onde comprámos uma casa. Bendita hora. Foi nesta casa que o Coca ainda viveu o seu último ano de vida. Feliz, com os problemas de coração a piorarem, é certo, mas feliz.

Sofremos muito com o desaparecimento dele mas tomámos a decisão de ir buscar outro. Achámos que nos ia ajudar a atenuar a dor. 

Foi assim que, num belo dia de Junho, fomos ter com um criador de Goldens Retrievers a Colares, perto de Sintra. Quando lá chegámos vimos 2 Goldens adultos a correr na nossa direcção. Atrás, a rebolar, trapalhonas, 8 crias. 

Íamos morrendo de amor por todos. Mas tínhamos que escolher apenas 1. E escolhemos o mais patudo, o Gaspar. Minutos depois, um amigo que foi connosco disse-me “Marta, escolhe outro que eu ofereço-te.” O meu coração quase parou. Perguntei ao criador se estes cães podiam viver felizes num apartamento, mesmo que fosse grande como o nosso e com varandas espaçosas. Ele respondeu “esta raça não quer espaço, quer carinho.” Escolhemos uma que nos olhava fixamente, como se nos dissesse “escolham-me!”. E assim trouxemos os dois. E que fosse o que Deus quisesse! 

Demos-lhes o nome de Matilde e de Gaspar.



Os primeiros meses foram um autêntico inferno. Rodapés roídos, caquinha e chichi por todo o lado, almofadas destruídas. Mas, pelo meio, muita graça e, claro, muita paciência nossa. O olhar deles desarmava-nos. Mas acabaram por aprender rapidamente que era na rua que tinham que se “orientar”.

A Matilde era a líder. O Gaspar, o pacholas que a seguia. Ensinámo-la a dar a pata, o Gaspar aprendeu a fazer o mesmo, por observação.

Mas a sorte escapou-nos quando, num dia quente de Verão, a Matilde, gordinha por ter sido esterilizada – apesar de todos os cuidados com a alimentação – nos morre com um ataque cardíaco. Tinha 5 anos. Foi um desgosto do tamanho do mundo. Para quem entende, foi um membro da família que perdemos. 

Mas tínhamos o Gaspar. Triste. À procura da irmã. Na rua, espreitava detrás dos arbustos, onde antes costumavam brincar, à procura dela. Os dias foram passando e ele ultrapassou a tristeza com muito mimo. Mas ficou ainda mais dependente de nós.

Durante os anos seguintes, as nossas atenções concentraram-se apenas no Gaspar. Era um cão como nunca tivemos outro. Percebia o que lhe dizíamos. Acreditem ou não. Não pisava poças de água, quando chovia ia a rua à pressa e por baixo das varandas para não se molhar. Todos os dias de manhã me pedia pão seco. Só com olhar. Passava o dia deitado ao meu lado porque eu trabalhava quase 80% do meu tempo em casa. Era o meu melhor amigo. 

Sim, exactamente isso: o meu melhor amigo.



Com 10 anos, em Abril de 2012, sentimos o Gaspar mais cansado. Pensámos que era da idade mas, numa ida ao veterinário, aconteceu o pior. O Gaspar tinha um cancro, já espalhado por órgãos vitais. Quando tentaram tirar o líquido que já tinha no pulmão, foi-se abaixo. Entrou no veterinário às 13h, recebemos a notícia da gravidade da doença às 14h, e tivemos que o mandar abater às 15h.

Foi uma das decisões mais difíceis da nossa vida. Perdemos mais do que um cão ou um animal doméstico. Perdemos mais um elemento da família, um companheiro. E eu perdi o meu melhor amigo.

Tenho que confessar que ainda hoje, quase um ano depois, não ultrapassei a dor desta perda. Aliás, acho que, no fundo, ninguém aqui em casa ultrapassou. Apesar disso, já consigo olhar para as fotos dele que estão no meu quarto e sentir saudade sem chorar. Mas o coração fica pequeno e apertado. Muito apertado.

Todos os dias penso nele. E todos os dias penso nas palavras dos amigos que me dizem para arranjar outro. Mas o meu coração não me deixa. Ainda. Sou corajosa, mas para isto sou fraquita.

Talvez o tempo me abra de novo esta porta. Por agora está fechada e sinto que perdi a chave. Se a voltarei a encontrar? Não sei. Mas por agora é assim que sinto que deve ser.

Pelo meio disto tudo houve dezenas de outros animais. Tivemos caturras (o Poupas), tartarugas sem nome, peixes (lembro-me do Zebedeu que comeu os irmãos todos e cresceu para o dobro), coelhos (o Tomás), canários (Chico Manel), rouxinóis do Japão sem nome, hamsters (o Rodolfo e a Rodolfina), e sei lá eu mais o quê! 

Actualmente temos apenas uma floreira onde deixamos comida para os pardais que andam pelas redondezas. Alpista, vitaminas, água, tudo. Sem grades. Com e em total liberdade. 

Sabem onde podem vir comer sem correrem o risco de ficarem presos para sempre.

E, por enquanto, isto é tudo o que o coração da malta aqui de casa aguenta. Um dia, lá mais prá frente, logo se verá.

29 de janeiro de 2013

Quem é pequenina hoje, quem é?


29 de Janeiro. Faz hoje anos uma das pessoas mais importantes da minha vida. Do mundo. Pelo menos do meu. Alguém que não só cresceu comigo, como o fez sempre ao meu lado. Eu diria até colada a mim. E, o mais giro é que, depois de tantos anos, continua a ser assim.
Faz hoje anos a minha companheirona, de todas as horas. Aquela que me atura as neuras, me pede conselhos, me acha trombuda mas também justa. Que me critica mas que também me elogia. Que me defende de tudo e de todos como se eu fosse uma criança indefesa.
Se fossemos gémeas não seríamos tão parecidas.
Faz 39 anos e tem só mais 18 meses que eu. Conta-me a nossa mãe que, no dia em que nasci, ainda no hospital e dentro no berço, ela se sentou ao lado e não deixou ninguém aproximar-se. Conta também que, numa noite em que os nossos pais recebiam amigos em casa, apareceu comigo ao colo na sala, agarrando-me a custo por baixo dos braços, virada para a frente. A mãe gelou, com medo que ela me largasse. “Patrícia, cuidado, devagarinho, pára, não largues a mana…” E ela justifica-se: “ Tava a chorar e por isso fui buscá-la…”
Quando vivíamos em Alvalade, tínhamos um quintal só para nós. Ficava nas traseiras dos prédios. E era ali que brincávamos.
O que nos gostávamos mesmo era imaginar que estávamos em plena Angra dos Reis e que aquelas eram as nossas mansões. É certo que não passavam de dois tijolos, uma madeira a uni-los e, a enfeitar, azulejos e vidros coloridos, vasos, tudo partido. Lixo, para os outros, luxo para nós. Nas nossas cabeças, não havia nada mais chique. Lembro-me do medo de ser apanhada pelas velhotas dos prédios ao lado quando saltávamos as vedações dos quintais delas à procura de tralha para levar para ali. Tudo o que servisse para aprimorar as nossas “casas de praia”.
À hora do lanche, uma de nós subia até casa e preparava uma garrafa com “refresco de café”. E duas carcaças com Tulicreme. Aliás, com muito Tulicreme. Carradas. E fazíamos um piquenique.
Fomos crescendo, e o cenário das brincadeiras muda para a Charneca de Caparica, onde os nossos pais alugam uma casa ao ano. Era para lá que íamos todos os fins de semana.
Ali já as brincadeiras eram diferentes. Passávamos o dia a roubar fruta dos quintais dos vizinhos e a andar de bicicleta com os nossos amigos. Eramos comportadas mas arrapazadas. Adorávamos passar com as bicicletas por dentro das poças. Ficávamos imundas. E cheias de nódoas negras.
Quando não andávamos nisto, estávamos no café Ferro - cujo dono era…o Sr. Ferro – a jogar matraquilhos e snooker. Eu não me safava mal mas a minha irmã, puxa, era profissional. Ganhava os jogos todos aos rapazes.
Com o tempo as bicicletas passaram a motas. Mas não nossas, que os nossos pais nunca nos deixaram ter uma. Mas íamos à pendura. Na altura só havia Zundapps e Famels. Só o Azeitona é que tinha uma DT LC 50cc. Acho que era o Azeitona. Também havia a Sofia, a Ana, a Raquel, o Tita, o Valente, o Tininho, o Guido, o Monhé, o Passinhas, o BX, o Vitinho e o Pedro Gordo. Estes eram os “residentes”, os “locals”. Depois apareciam uns que acabavam por não ficar muito tempo.
Todas as noites nos juntávamos no fundo da nossa rua. E ali ficávamos até à hora que a nossa mãe estipulava. Nem mais um minuto. Não falhávamos. Comprávamos manteiga e fiambre e contávamos os minutos para a padaria fazer sair a primeira fornada de bolinhas. Eram de babar. Ainda hoje lhes sinto o sabor.
Os anos foram passando e começámos a ter ordem de soltura para ir até aos bares de praia à noite. Mas sempre com horas marcadas para chegar a casa. Waikiki. Estava na berra. Vinha gente de Lisboa de propósito para se divertir ali.
Depois vieram os namorados. E, ui, fartámo-nos de namorar…
Depois, os 18 anos, as cartas de condução e as saídas à noite para Lisboa. Os arrufinhos com os namorados. E as zangas mais sérias.
Pelo meio destes anos todos as aventuras foram imensas. Mas foi assim que passámos a nossa infância e a nossa adolescência. Sempre juntas. Eu e a mana. As manas. E, tal como naquela altura, também agora, na idade adulta.
Hoje é o dia dela, mas também é o meu porque somos só uma.

Parabéns mana. E agora é a minha vez de te dizer o que me dizes tantas vezes: “Obrigada por seres minha irmã!”