Um dia o
telefone tocou. Era a M, uma ex-colega da faculdade, militante de um partido de
esquerda. Já não falávamos há anos. Tinha um convite para me fazer. Ir a
Bruxelas conhecer o Parlamento Europeu. Tratava-se de uma iniciativa do partido
dela, no âmbito de um daqueles dias/anos internacionais que alguém decidiu dedicar-nos mas que, infelizmente, de pouco servem.
Esclareci que o
meu partido não era o dela e que não fazia parte de nenhuma associação. E que,
por esse motivo, podia fazer mais sentido passar o convite a outra pessoa. Mas
a M disse que não, que queria que fosse eu.
A viagem
ia ser de autocarro, com várias paragens. Aí agradeci o convite mas expliquei
que, por razões físicas, não ia conseguir aguentar a viagem que, se não me
falha a memória, iria demorar 3 ou 4 dias. Sugeri fazer
antes a viagem de avião, em low cost que fosse. E assim foi.
Convite aceite
e depois de ter explicado tim-tim por tim-tim o que ia precisar em termos de
acessibilidades, a minha cabeça começa a processar a informação. “Marta,
enlouqueceste! Acabaste de aceitar um convite para estares 3 dias fora da tua
casa, com pessoas que não conheces, num país que não é o teu. E vais sozinha.
Pela primeira vez, sozinha.” E de avião, que odeio. Fiquei um bocadinho
em pânico mas, se por um lado a ideia me assustava, por outro desafiava-me a
ultrapassar o meu medo.
Claro que a
primeira reacção da minha mãe foi “Isso é que era bom! Sozinha? Só podes estar
doida!”. Mas depois ponderou, percebeu que isto era um passo de gigante na
minha independência e apoiou-me.
Nos dias que
antecederam a viagem, e já sabendo em que hotel ia ficar, certifiquei-me que
este tinha todas as condições que eu ia precisar. E não era nada do outro
mundo: um quarto com a cama alta (ao nível da minha cadeira), uma casa de banho
em que a sanita tivesse barras laterais e uma banheira com uma cadeira de banho
rotativa. Tudo o que de mais básico um quarto adaptado deve ter. Deram-me todas
as certezas de que tudo estaria preparado para me receber, para eu não me
preocupar. Cá e lá.
Mesmo assim fui
com o coração nas mãos. Parecia bruxa.
Viajei na TAP.
E ao serviço que a companhia aérea disponibiliza para acompanhar pessoas com mobilidade reduzida, o My Way, nada tenho a
apontar. Foram impecáveis.
Aterro em
Bruxelas e espera-me um mini-bus
adaptado para nos levar ao hotel. Íamos ficar no Hilton,
5 estrelas. Íamos porque comigo viajaram mais dois convidados.
Quando me levam
ao quarto, no 26º andar, já tarde, o meu queixo caiu. E não foi por ter um
quarto de sonho, onde chegava a todo o lado. Deparei-me, sim, com uma suite com
uns 50 metros quadrados, sem barras laterais na sanita e banheira sem cadeira
de banho. Ah, e importantíssimo, uma zona de sofás e digna de uma casa de luxo.
A única coisa que se safava era a cama, relativamente alta mas onde cabiam 5
Martas.
Conclusão: não
pescaram nada do que lhes foi dito. E mais do que uma vez. Para aquela gente, o
equivalente a quarto adaptado era espaço. Muito espaço. Sim, de facto, ali
cabiam umas 20 cadeiras de rodas.
Desci à
recepção, expliquei o que se passava, e pedi um novo quarto. Pediram desculpa mas disseram que
não tinham no momento. Quase a
passar-me pedi um pc com acesso à net para lhes explicar o que era uma cadeira
rotativa. Era o mínimo para poder passar ali duas noites. Na manhã seguinte disse-lhes: “Vou agora
ao Parlamento Europeu. Quando voltar, agradeço que já tenham comprado uma coisa
destas para eu tomar banho.”
E lá fui,
visitar o Parlamento, com o resto do grupo. Aqui conhecemos o espaço, as
rotinas, os objectivos, todo o funcionamento.
Seguiu-se uma
conversa com a deputada do partido. Rapidamente percebi que a ideia era falar
do que estava mal, do que tinha que ser mudado, da luta. E da luta. E da luta.
E, ainda, da luta. E falou-se. Sempre com um ambiente tenso e pesado. Que me
sufocava. Mantive-me quase sempre calada.
Depois, cada
pessoa podia contar a sua história. Não ouvi uma contada pela positiva. Umazinha. Só queixas. No fim ganhei coragem e
decidi correr o risco. Expliquei que era feliz de cadeira de rodas, que tinha
um bom emprego, conseguido à minha custa, onde me tratavam bem, aliás, como
qualquer outra colaboradora. Que, sim, havia muito para mudar em termos de
acessibilidades e discriminação, mas que tínhamos que tentar fazer as coisas
pela positiva.
Atrevi-me ainda a defender que muitas vezes a discriminação
partia de nós próprios. Que era verdade que tínhamos que lutar o triplo que os
outros para conseguirmos chegar onde queríamos, mas que era possível. Que eu
tinha conseguido, e não era melhor do que ninguém naquela sala. Nunca entregar
os pontos, nunca desistir. Não nos sentirmos vítimas mas sim vencedores. Que
era necessário cada um fazer a sua parte. E, acima de tudo, que havia várias
formas de contribuir para melhorar a nossa situação. E todas elas mereciam
respeito.
Expliquei que
jamais criticaria uma associação, porque são muito necessárias – algumas das
quais já me tinham convidado para fazer parte do grupo -, mas que preferia não
optar por nenhuma e contribuir antes tentando ser um exemplo no meu dia-a-dia.
Para quem me rodeava, para quem partilhava comigo os dias de trabalho, no meu
círculo de amigos. No meu mundo. Claro que isto soou bem a uns e mal a outros.
Mas a vida é mesmo assim. Ninguém agrada a todos. Muito menos eu.
Bom, quando
voltei ao hotel tinham-me mudado de quarto, agora para um adaptado, no 6º
andar. E, sim, compraram uma cadeira de banho. Mas, ignorantes, sem ser
rotativa. Ou seja, própria para alguém que precisa de tomar banho sentado, mas
que se pode levantar para entrar e sair da banheira. Expliquei que não servia,
prontificaram-se a mudar – espero que o tenham feito -, mas para mim já iam
tarde e desenrasquei-me com aquilo.
Para se
desculparem, deram-me acesso gratuito ao último andar do hotel, zona VIP, para tomar um pequeno-almoço executivo.
Eu que acordo sempre sem fome. O jeitão que me deu…
Tudo isto se
passou em Bruxelas, um dos países onde residem e por onde passam pessoas do mundo
inteiro. E onde situa o Parlamento Europeu, o centro da democracia de 500
milhões de cidadãos, dizem. Mas também já se passou comigo noutros sítios.
Não é só
Portugal que está a anos-luz do que é isto de acessibilidades. A iniciativa do
partido teve o seu mérito e valeu muito a pena. Os outros nem nunca tinham
pensado em fazer isto.
Mas, enquanto não houver vontade política de todos os
partidos, nada vai acontecer.
Quero deixar
aqui bem clara que a minha admiração por quem se dedica a fundo a esta luta é
gigantesca. Mas também pedir que respeitem a minha forma de luta. Viver feliz
assim. E passar essa mensagem todos os dias.
Mas não fazer
disto o centro do meu mundo. Porque jamais será.










