15 de fevereiro de 2013

Carta de amor para o amor da minha vida.

Hoje estás aqui, deitada ao meu lado. Na minha almofada. E eu a meia-luz, para não te incomodar. 

De vez em quando mexes-te. E o teu cheiro espalha-se no ar. Cheiras a lavadinho, a novo, a fresco, a puro. Cheiras a tudo ao que de bom a vida te vai dar. Cheiras ao que de melhor a vida me podia ter dado.

Estás aqui, ao meu lado, enroscada. Enroscadinha. Com uma das mãos por cima de mim e a outra a agarrar na porca de peluche que a mãe te deu. E na fralda de sempre. Hás de ter 18 anos e dormir com a fralda. Pensando bem, espero que sim. Quer dizer que ainda não deixaste de ser a minha miúda bebé.

Apetecia-me conseguir não adormecer para poder ficar a olhar para ti. Aqui, quentinha, ao meu lado, no conforto. Não fosse o cansaço de um dia de nervos e era o que fazia.
Mas estes dias esquecem-se e tornam-se irrelevantes quando chego a casa, tenho a minha malta à espera, a televisão nas notícias, o jantar preparado, a lenha a crepitar. Risos. Os teus risos. E “tia-para-aqui-tia-para-ali”.
Vês-me no computador enquanto jantas e dizes-me “pronto, já estás a escrever para o teu blog!”. Explico-te que não, que "ainda estou a trabalhar”. Respondes-me “mas não devias”. E tens razão. De facto, não devia.
Depois dizes-me que tiveste Muito Bom a tudo. Mas que ainda tens mais uma surpresa para mim. E dás-me um postal do Dia dos Namorados. O postal que tu fizeste para o Dia dos Namorados. “Porque ninguém liga às tias, não têm dias…Estúpidos. Nunca ninguém se lembrou de lhes dar um dia. Pronto, assim, este fica o meu dia para ti.”
Já tínhamos um, o 18 de Abril, lembras-te? Nem me lembro porque foi o 18 de Abril. Mas já o é há 2 anos. Na altura fizeste-me um desenho com esta data e colaste na parede do meu quarto. “Assim não nos esquecemos nunca” disseste. Agora também temos este. “Porque não tens namorado e porque assim é também um dia a que muitas pessoas dão atenção”. Seja isto o que for…!


Há 9 anos a minha vida ganhou cor. Ganhou um arco-íris tão grande, que torna qualquer dia de chuva num momento fantástico e memorável. És tu, a “txuca da tia”, como gostas que te chame. 

Quando cresceres vais ser uma miúda porreira. Tenho a certeza. Uma miúda de quem me vou continuar a orgulhar todos os dias de ser tia.

Vá querida, agora dorme bem, que tens que acordar cedo. A tia está mesmo aqui ao lado. Sempre. 

Um beijo e bons sonhos. Amo-te.

13 de fevereiro de 2013

Aos professores que, não só me ensinaram, mas que também me marcaram.

Há professores que nos marcam para a vida. Acho que eles nem se apercebem. E nós, tantas vezes, só mais tarde.

A mim marcaram três. Uma pela negativa e dois pela positiva. Comecemos pela pior, para podermos acabar com os melhores.
Chamava-se Silvina e foi minha professora da 1ª à 4ª classe. Era velha e "má como as cobras”. Tinha uma régua enorme e grossa – pelo menos na altura parecia-me enorme e grossa – com que nos batia nas mãos quando nos portávamos mal.

Lembro-me do António. Para nós, o Tony. Era um rapaz gorducho, de bochechas coradas, que se portava mal com alguma frequência e quase nunca fazia os trabalhos de casa. A vida familiar dele não era fácil. Nós sabiamos que não tinha um ambiente equilibrado em casa.

Quando chegava a altura do Tony mostrar os TPC's, e a professora percebia ele que não os tinha feito, a sala ficava mais pequenina. O tecto mais perto de nós. Porque sabíamos o que aí vinha.


A professora levava-o para a casa de banho, que ficava num dos cantos da sala, baixava-lhe as calças e dava-lhe reguadas atrás de reguadas. Até a mim me doía. Aliás, doía à turma inteira. Mas nem piávamos, com medo. E ele nem uma lágrima deitava. Mas percebiamos pelo seu olhar a dor que ele sentia por dentro. A dor de ter sido, mais uma vez, humilhado por aquela mulher. Lembro-me bem da cara dele.

Um dia foi comigo. Devo ter feito alguma coisa que ela não gostou e imediatamente me mandou estender as mãos. Estendi, claro. Deu-me três reguadas em cada uma. Nunca mais me esqueci. A força foi tal que as mãos incharam. Chegou a hora de almoço e, como fazia sempre, fui almoçar à cantina. Mas com as mãos doridas não conseguia pegar bem no prato. A D. Noémia, cozinheira, reparou. E passou-se. Obrigou-me a ir ao gabinete da Drª. Sara, directora do externato, e contar o que se tinha passado. Contei não só as minhas reguadas, mas também as reguadas do Tony, e as de todos os outros meninos. Nesse dia fui a heroína da turma! Mas bem me tramei nos dias seguintes!
A professora Silvina também foi chamada ao gabinete. Não sei o que se passou lá dentro. Só sei que nunca mais nos bateu. Só que, de vez em quando, vingava-se de mim. Não me batia mas obrigava-me a ir para o “cochicho”, uma mesa, separada de todos os outros colegas por uma parede fininha de madeira. Só tinha vista para…a professora. Isto antes de eu ir para lá. Porque enquanto lá estive, e com o bico de uma caneta velha, fui fazendo um buraco na parede, devagarinho, devagarinho, e também fiquei com vista para a mesa da Cláudia. Ora a Cláudia era "só" a melhor aluna da turma. E, quando se apercebeu do buraco, punha os trabalhos a jeito para que eu conseguisse copiar se precisasse. Nem precisava, mas se fosse necessário, dava para ver. Ao fim de 2 semanas, voltei ao meu lugar, perto do resto da turma. Mas o buraco lá ficou. Para o próximo.
Mas este foi o mau exemplo, vamos aos bons.
 
 
O Filipe. Era o nosso novo professor de Educação Física. Por questões familiares, tive que faltar à apresentação. Por isso, assim que entrei na 2ª aula, oiço um “ah, então esta é que é a espertinha que se baldou à 1ª aula”. Disse-o para toda a turma ouvir. A relação tinha começado mal. Mas cedo percebi que o Filipe era um professor diferente. E a grande diferença estava na forma como se relacionava com os alunos e a paixão com que se dedicava ao seu trabalho. Não ensinava apenas as cambalhotas, os pinos, o futebol e as coisas normais de um professor de Educação Física. Esforçava-se por ensinar outras modalidades, promover o espírito de equipa, ser amigo dos alunos. Até Basebol, Jogo do Pau e Folclore aprendi. E, como eramos apenas três miúdas na turma de Desporto, a luta para fazer os pares no Folclore era sempre caótica. O Filipe também foi o primeiro professor de Educação Física que nos pôs a fazer testes escritos da disciplina. E não dentro da sala. Sentados nas bancadas do Estádio 1º de Maio.
Fiquei de cadeira de rodas precisamente na altura em que era aluna dele. Talvez um ou dois meses antes. Lembro-me de termos ido passar um fim de semana à Serra da Estrela pno fim de Fevereiro. O acidente aconteceu a 11 de Março. Já não puderam contar comigo em Peniche (acho que era Peniche…), para o jogo de vólei contra uma escola da zona.

O Filipe entrou assim na minha vida. E nunca mais saiu. 23 anos depois, é um dos meus melhores amigos.

E, para terminar em grande, mais um bom exemplo: a professora Fátima. Ensinou-me a disciplina de Jornalismo, penso que no 11º ano. Nem ela sabe, mas foi a responsável por eu ter seguido o caminho da Comunicação e, claro, por me ter lembrado de escrever esta história.

Tantos e tantos anos depois, recebi ontem um email dela que me tocou profundamente.

Dizia mais ou menos isto:

"Minha querida Marta, um dos meus filhos soube do seu blog e deu-me conhecimento. Fiquei tão contente por ter notícias suas!
Não sei se ainda se lembra de mim, fui sua professora de jornalismo no "Rainha". Nunca vou esquecer aquela miúda "refilona", cheia de alegria e muito querida. Já li tudo o que escreveu e acho que escreve muito bem. Não sei se este email vai chegar, pois não sei se o endereço está correcto.
Um beijinho grande."

Foi esta senhora que me ensinou a escrever notícias e a interessar-me por jornais. As aulas dela eram, a par das do Filipe, das únicas que eu gostava. Lembro-me que já estava de cadeira de rodas e do trabalho de fim de ano ser fazer uma reportagem. Tinha saído de Alcoitão há um ano e, como tinha odiado lá estar, queria aproveitar para denunciar o que eu achava que se passava de errado naquela instituição. Não me deram autorização, claro.

A vida avançou, entrei para a faculdade, tirei Comunicação e hoje cá estou, a trabalhar na área.
Foram 20 e tal anos a estudar e, de todos os professores que me marcaram, estes foram os tais. Um agradecimento do tamanho do mundo ao Filipe e à Fátima por terem influenciado, de alguma forma e em algum momento, a minha vida, o meu percurso.

A professora Silvina já morreu, o Filipe continua por perto, muito perto. E a Fátima apareceu de novo na minha vida. Se este blog não servir para mais nada, já serviu para isto. Fico feliz por isso.

11 de fevereiro de 2013

Às "senhoras da limpeza”. Porque não se deve esquecer ninguém.


Maria, menina Sofia, Lena, D. Piedade, Gina, Maria José, Paula, Gorette, Lucy e, mais recentemente, Emília e Alcione. Houve outras mas destas lembro-me bem.
E a pergunta é? O que terão em comum estes nomes? Pois eu respondo. São os nomes de algumas senhoras que, ao longo dos meus 37 anos, trabalharam em nossa casa. Algumas mais tempo, outras menos. Mas todas, de alguma forma, me marcaram e, por isso, merecem uma história só para elas. Aqui está.

Falemos da Maria. A Maria devia ter uns 40 anos. Tinha um ar meio alucinado e três características maravilhosas. 1º, todos os dias de manhã trazia de sua casa duas carcaças com manteiga “para as meninas”. A 2ª característica não era assim tão simpática: enquanto arrumava a casa bebia o vinho todo que havia na dispensa. E a 3ª, penso eu que ligada à segunda, fazia chichi na pia da cozinha (sim, a nossa casa em Alvalade era antiga e, antes das obras que entretanto fizemos, ainda existiam pias ao lado dos lava-loiças). Claro que, quando a 2ª e a 3ª foram descobertas, tivemos que dispensar a Maria.
Depois vem a menina Sofia. Não era propriamente uma menina, mas como já vinha com esse nome de casa dos meus tios, onde já trabalhava há alguns anos, manteve-o. Ora, a menina Sofia era tipo madame Rottenmeier, da Heidi. Ríspida, dura, intransigente. Comigo e com a mana. Porque com o Pantufa, o nosso cão da altura, era um doce. Gostava mais dele do que de nós. Ah, e obrigava-me a beber sumo de maracujá, que ainda hoje odeio. Claro que quando ela virava as costas por minutos, eu despejava o copo de sumo numa das plantas lá de casa. Note-se que ditas murcharam em pouco tempo.



Agora a Lena. Era uma jovem. Vaidosa. Sempre que podia, enfiava-se no quarto dos meus pais onde passava o tempo a vestir as roupas da minha mãe, pintar-se com a sua maquilhagem e a borrifar-se com os seus perfumes. Eu e a mana víamos aquilo e não achávamos graça nenhuma. Um dia apanhámo-la distraída e, para a castigarmos, decidimos trancar a Lena no quarto. E assim foi. Devíamos ter uns 4 ou 5 anos. Unimos as nossas mãos, ainda pequenas, agarrámos na maçaneta da porta e, com todas as nossas forças…pumba, batemos com aquilo. Falta dizer que aquela porta estava com um problema e, quando fechada desta forma, dificilmente se abria. Foi preciso chamar a D. Susana, a vizinha do andar de cima, quase nossa 2ª avó, para vir salvar a rapariga. E lá veio a velhota, com um afiador de facas, tentar tirar a Lena ali de dentro. E eu e a mana a rirmo-nos num dos cantos da sala. A operação de resgate demorou. A mãe entretanto chegou a casa e deparou-se com aquele belo cenário. Claro que, quando a porta finalmente se abriu, a Lena foi…simpaticamente dispensada. Mas atenção: ia cheirosa. Viemos mais tarde a saber que até o leiteiro pensava que ela era irmã da minha mãe porque, quando lhe abria a porta, estava sempre vestida com as roupas iguais às da sua suposta “mana”.
Entramos na era Piedade. A Piedade era pequenina e usava um coque grisalho no alto da cabeça. Tinha uns 60 anos e cara de bruxa. Mas, coitada, não era má pessoa. Só se transformava quando via na televisão o Torres Couto, na altura secretário-geral da UGT. Quase que o comia. Um dia, antes de sair, estava a Piedade na casa de banho a ajeitar o cabelo e retirou o coque. Nunca a tínhamos visto sem aquilo na cabeça. Tinha o cabelo comprido. Até aos joelhos… Quando me viu a mim e à minha irmã à espreita, olhou para nós com os olhos de bruxa que tinha. A partir daí, ganhámos-lhe um medo de morte. Passado poucos dias, também foi “à vida”.

Veio a Maria José. Uma velhota com 70 anos que se mexia melhor que uma rapariga de 30. A casa arrumada por ela ficava um brinco. Na altura eu já estava de cadeira de rodas mas, como a minha cadeira não entrava na casa de Alvalade, e ela não podia comigo ao colo, a Maria José esticava um cobertor no chão, sentava-me lá, e puxava-me pela casa, até ao sítio onde eu queria ir! Não parava nunca. Só quando caiu em casa dela, partiu uma perna e teve que deixar de trabalhar.

Passemos à Gina. Uma cabo-verdiana com 1m80, gira, gira. Mas estragada pela vida dura que levava. Gostava muito dela. Dava-me uma ajuda enorme. De tal maneira ficámos amigas, que era a única que, a par da minha mãe e irmã, eu deixava que me fizesse o penso a uma escara terrível que tinha feito na zona do coxis. Mas, apanhada em algumas mentiras, tivemos que a dispensar também.

Depois veio a Paula. Baixinha e gordinha, devia ter a minha idade. Era a tal que arrumava a casa a abrir para irmos as duas para a Sul América beber cafés e fumar cigarros. Pegava em mim às cavalitas, descíamos 3 lances de escadas, sentava-me na cadeira que ficava no hall do prédio, e lá íamos nós. Uma companheira. Mas um dia apaixonou-se por um rapaz e decidiu seguir a sua vida.
Da Gorette só me lembro porque era a senhora que trabalhava lá em casa no dia em que eu fiquei de cadeira de rodas. Nesse dia era para vir de manhã mas não conseguiu e ligou a dizer que vinha à tarde. Se tivesse vindo de manhã, talvez eu não tivesse ficado de cadeira de rodas.
Foi durante esta fase que eu e a mana eramos conhecidas como as irmãs metralha. Vá-se lá saber porquê…
Depois largámos Alvalade e fomos viver para a outra margem. Aqui tivemos a Linda, uma cabo-verdiana loira de olhos verdes e cabelo aos caracóis, mas que passados uns anos preferiu regressar à terra. Seguiu-se a Lucy, uma prima dela, boa rapariga, caladona, brutamontes e metódica. Tão metódica que, quando era preciso começar a arrumar a casa por uma divisão diferente, se baralhava toda. Ah, e era exímia em dar-nos cabo de aspiradores. Na era Lucy, que durou quase 7 anos, devemos ter tido uns 4.

Chegamos, por fim, a 2012. E com a saída da Lucy e a morte do Gaspar – que largava pêlo por todo o lado, o que nos obrigava a aspirar a casa diariamente – optámos por contratar uma empresa para, uma vez por semana e em 2 horas, nos dar uma volta à casa. Apareceram-nos 2 irmãs brasileiras – a Emília e a Alcione. Enxutas, bem-dispostas, espertas que nem alhos, rápidas e que não estão ali para brincar. Acabamos por falar sempre um bocadinho, é certo, porque gosto delas, mas em duas horas a casa fica pronta. E num brinco.

E pronto, aqui deixo a minha homenagem a estas senhoras, de quem nunca ninguém fala mas que tanto nos ajudam diariamente. As nossas eram umas mais maradas que as outras, é certo, mas todas com algo em comum que sempre as distinguiu: partilharam e partilham o meu espaço. Fazem parte de importantes pedaços da minha vida. Estiveram lá e ajudaram no que puderam. Sem pensarem duas vezes. É por isso que também merecem estar aqui. É por isso que o meu agradecimento é público e de coração.


10 de fevereiro de 2013

Desistir, não obrigada!


Quis ser veterinária, quis ser hospedeira. E astronauta. Mas, afinal, quem não quis?

Depois, à medida que fui percebendo o que era isto de ter uma profissão, escolhi a minha. Foi assim que cedo decidi o que “queria ser quando fosse grande”. Jornalista. “Pivot de Telejornal”, como eu explicava.

Só mais tarde percebi que “Telejornal” era apenas o nome do noticiário da noite da RTP.

Na altura, tinha eu uns 12 anos, a minha referência era Manuel Moura Guedes. Gostava da irreverência dela. Depois a senhora descontrolou-se, é certo, mas teve tempos de grande jornalista.

Mais tarde passei a seguir a Alberta Marques Fernandes. Gostava da sua determinação. Hoje a minha preferência vai para a Clara de Sousa. Identifico-me com a firmeza com que me passa as notícias. Mas também gosto de ouvir o Rodrigo Guedes de Carvalho e o João Adelino Faria. Estilos diferentes mas ambos me agradam.

Quando a SIC nasceu, há 20 anos, rendi-me. À ousadia, ao formato, ao colorido e à dinâmica. À inovação. Gostei da vontade de fazer diferente. Era aquele tipo de informação que eu queria e sabia que ia ser boa a fazer. Confesso que só não me rendi ao entretenimento porque, de facto, não me identifiquei, nem identifico, muito com aquilo. Mas também não me identifico com o de nenhum outro canal.

Bom, mas foi com as antenas apontadas para a ir parar à SIC que fui tirar Ciências da Comunicação, vertente Audiovisuais e Media Interactivos, à Nova.

Contudo, no 3º ano da faculdade uma grande amiga pergunta-me o que é que eu achava da ideia de ir a uma entrevista à empresa onde ela trabalhava, de tecnologia, para o lugar de relações com os media. A minha resposta foi “epá, mas isso não é coisa de ministro”? Ela riu-se e respondeu “vamos entrar em bolsa e queremos começar a construir uma relação com os jornalistas que seguem a área de tecnologia, generalista e economia.” O skills necessários eram um curso na área (que ia ter), e algum à vontade para falar com um grupo de profissionais considerado “difícil”. “À vontade é comigo mas difícil porquê?” perguntei. “Bom, a ideia que se passa, se calhar até injusta, é que estão sempre à procura de polémica e nós só queremos mostrar o que andamos a fazer de bom e como o que fazemos pode mudar a vida das pessoas.”

Na altura tinha um objectivo: terminar o curso e seguir o sonho de ser pivot da SIC. Mas lá fui à entrevista e a vida acabou por me trocar as voltas, mostrar-me outros caminhos e comecei a estagiar nesta empresa.

Percebia zero vírgula zero de bit e bites. E disse-o na entrevista. Mas também disse que não era burra e ia aprender rapidamente. No entanto, acho que o que me safou foi quando acrescentei que, se eu percebesse o que escrevia, qualquer jornalista ia perceber. E se qualquer jornalista percebesse, passaria de forma correcta a mensagem ao leitor. E assim a nossa missão ia estar cumprida. Informar e tornarmos visível uma empresa que na altura ninguém conhecia.

Aceitaram-me como estagiária. Tinha 23 anos.




Comecei do zero. Houve alturas em que pensei que jamais iria conseguir fazer o que esperavam de mim. Chegava a casa a chorar e a jurar a mim própria que não ia voltar no dia seguinte. Lembro-me de um dia em que não estava a conseguir fazer o que um dos meus chefes me tinha pedido para fazer num prazo apertado, e que me enfiei na casa de banho a chorar. No fim, respirei fundo, olhei-me ao espelho e limpei as lágrimas. Ganhei coragem, cheguei ao pé dele e disse-lhe “olha, desculpa mas não sei fazer o que me pediste, vais ter que me ajudar.” Ajudou, claro. E cumprimos o prazo. Assunto resolvido, e assim, aprendi que não tinha que saber fazer tudo e que, por vezes, valia a pena assumi-lo e pedir ajuda.

Os primeiros anos não foram fáceis mas, à medida que o tempo foi passando, e que as notícias sobre a nossa actividade iam saindo na imprensa, fui ganhando confiança.

Isto foi há 14 anos. E, apesar de acreditar que estamos sempre a aprender, sinto que já domino bem o que preciso para fazer um bom trabalho nesta área. E gosto verdadeiramente do que faço.

Mas a empresa foi crescendo, o mundo mudando e, 14 anos depois, o palco onde se comunica e a forma como se comunica também. O que os levou a proporem-me manter a função que tinha mas a investir noutras áreas da comunicação. Áreas que nunca dominei. Aceitei. A medo, porque significava sair da minha zona de conforto. Mas aceitei. Mais uma vez pensei: se não souber aprendo, e posso sempre pedir ajuda. E sabem que mais? Há coisas boas e coisas menos boas, mas estou a gostar.

Claro que há ainda momentos em que me apetece largar tudo e ir vender legumes à beira da estrada, cocos no paredão da Caparica, sandes na praia, whatever! E, sim, ainda há momentos em que me irrito e digo: amanhã não volto! Mas são só momentos. Volto sempre. E volto para dar o meu melhor. Porque se der o meu melhor, tenho a certeza que consigo fazer. Até o que achava impossível. Se falho? Claro que falho. Montanhas de vezes! Mas tento outra vez até sair bem. E raios ma partam se não sai!

Para terminar, que já me alonguei demais, uma frase que resume o que vos quis passar: os cobardes nunca tentam, os fracassados nunca terminam, os vencedores nunca desistem.
E desistir é uma palavra que devemos apagar dos nossos dicionários. Eu já apaguei do meu.





9 de fevereiro de 2013

"A força não provém da capacidade física, mas da vontade férrea."



Alcoitão 1991. Foi nesta data que fui para lá, depois de 1 mês internada em Santa Maria. Tinha ficado paraplégica e, afinal, na altura aquele centro era o melhor local para iniciar a minha recuperação. Mas eu diria que era antes praticamente o único.

Alcoitão era um edifício enorme, com grandes jardins à volta.

Lá dentro, os corredores eram largos. O chão, se a memória não me falha, era preto e branco. Em xadrês. Bar, minimercado e papelaria. Onde eu comprava quilos de Tio Patinhas.

Tinha 3 pisos. O dos adultos, o das crianças até aos 15 e o dos mais velhotes.

Como eu estava no limite dos 15, e porque se dizia que a equipa médica era a melhor, fiquei no das crianças.

No meu quarto havia 6 camas. E andaimes vermelhos por todo o lado, porque aquilo estava em obras. O que ajudava a tornar o sítio ainda mais desagradável e frio.

Quando fiquei paraplégica, ou melhor, quando me apercebi que não sentia as pernas – porque paraplegia era um termo que nem conhecia bem – não entrei em pânico. Talvez por alguma ignorância, porque nunca tinha ouvido falar do assunto. E, por esse motivo, não conhecia a gravidade de “não sentir as pernas”.

Por isso, a minha atitude foi de alguma tranquilidade e “bom-deixa-lá-ver-se-isto-passa”. E porque a atitude era esta, continuei bem-disposta e a lidar bem com a situação. Fiquei à espera. Até porque achei que era mesmo uma situação passageira. Aliás, durante algum tempo foi assim que encarei a coisa. Eu e todos os que me rodeavam. Hoje, à distância, percebo como isto foi importante para aceitarmos o que tinha acontecido: foi gradual.

Mas voltando a Alcoitão. Entrei, penso que em Abril. A ideia era fazer exercício ao máximo para recuperar a sensibilidade que tinha perdido da cintura para baixo.

Todos os dias tinha a visita dos meus pais e irmã mas, até me habituar à ideia de ter que ficar internada, custava-me muito quando chegava a hora do “bem, querida, temos que ir embora, está na hora de ires jantar…” Vê-los dobrar a esquina do corredor, vê-los a voltar à vida que eu não podia ter, mesmo sabendo que no dia seguinte estariam comigo de novo, o meu coração partia-se ao meio. Fartava-me de chorar.


Uma parte dos dias passava-se na sala de fisioterapia. E, porque estava no piso das crianças, também numa sala de jogos e pinturas. Ora, não sendo eu propriamente uma criança, sempre que podia pisgava-me para o bar do piso 0, onde trabalhavam dois jovens surfistas com muito bom aspecto e com quem eu, obviamente, preferia passar o tempo. Nem se contam as tostas mistas que eu comi na altura só para ter motivo para lá ir…!

Ainda houve quem me tentasse vir buscar e convencer que tinha que participar nas actividades de grupo. Mas não conseguiam. Cantar o “Atirei o pau ao gato” e desenhar casinhas com chaminés e flores não era, de todo, alternativa a estar no bar à conversa com surfistas tão giros.

Não posso dizer que arranjei amigos em Alcoitão porque não arranjei. Até porque eu estava lá para recuperar e à sexta-feira ia a casa de fim de semana.

E aí, sim, estava com os meus amigos. E aí sim, fazia o que gostava. Lembro-me de ir para a praia. Muita praia. De me pegarem ao colo e de me levarem para dentro de água. Algo que, com o tempo e por circunstâncias que darão um dia para mais uma crónica, deixei de fazer.

Quando me “apresentava ao serviço”, na 2ª feira de manhã, e eles viam os escaldões nas pernas, passavam-se comigo. Com razão, porque eu tinha que ter cuidado. Mas também me divertia ver as caras deles.

Lembro-me do cheiro daquilo. Lembro-me do cheiro do perfume que usava na altura. O El Charro. Lembro-me de gostar de sutiãs de renda às cores e das auxiliares se meterem comigo por isso. Lembro-me deles não entenderem que eu preferia tomar banho com o gel de banho que a minha mãe me comprava do que usar o Manipur, marca que eles usavam no Centro. Lembro-me que, por tudo isto, deixei de ser a Marta para passar ser “a Madame”.  

Na altura Alcoitão tinha poucos profissionais (diziam eles, porque o que eu acho é que gostavam de sair cedinho) e, por isso, não me punham na piscina. E tinham uma fantástica. Mas rapidamente arranjámos alternativa. Durante a hora do lanche, que coincidia com a hora das visitas, vestia o meu biquíni amarelo fluorescente com laçarotes de lado e ia nadar para a piscina do Muchaxo, no Guincho. Depois parávamos no Tamariz para lanchar. Também havia coisas boas.

Mas Alcoitão não via isto com bons olhos. Alcoitão não estava preparado para receber uma família que quebrava regras, rotinas. Que não perdia facilmente a esperança. E a minha era assim. Sabíamos que era difícil mas tínhamos que tentar. Em Portugal ou noutra parte do mundo.

Ali “pensava-se o pior, pode ser que aconteça o melhor”. A minha família preferia “pensar o melhor, porque era o melhor que ia acontecer.” Pensar positivo. E isto foi um problema lá dentro.

Desde logo comigo, quando a psicóloga meteu na cabeça que eu tinha que ir ao “fundo do poço” e depois sair de lá. “Fundo do poço”. Era uma expressão deles, não minha. Bem tentei explicar que acreditávamos que aquilo ia passar, que eu ia voltar a andar e que íamos tentar tudo. Mas eles insistiam no raio da conversa do poço. Claro que esta questão acabou por dar barraca, com a minha mãe a proibir a psicóloga de voltar a falar comigo. “Se a Marta precisar, ela vem ter consigo. O contrário eu não quero. Estamos entendidas?”. E Sim, ficaram. Nunca mais me chateou.

Mas as coisas nunca mais foram as mesmas. Nessa altura tomámos a decisão de sair de Alcoitão. 4 meses depois de ter entrado e ter aprendido a…passar para a cama. Claro que havia bons profissionais por lá, mas as memórias que guardo, no geral, são más. Dizem-me que apanhei a instituição num momento mau, que hoje não é assim. Espero que não seja, porque a mim pouco me ensinaram.

Mentira. Uso o cliché “o que não nos mata torna-nos mais fortes”. E se aquela merda não me matou, ensinou.me a resistir mais e a tornar-me numa mulher de aço. A mim e a quem me rodeava. E, vendo bem, isso não foi mau. Preparou-nos para a vida.


Seguiu-se Londres e os melhores Neurologistas. A resposta foi: estamos a testar o tratamento em ratinhos. Tanto pode demorar 10, como 20, 30 ou 40 anos. Ou nunca sair do laboratório. Já passaram 23 e ainda não aconteceu. Mas retive uma coisa que o médico disse. Esta miúda deve continuar a ter este espírito. E continuei. 

Podem dizer-me: mas eles tinham razão, tu não voltaste a andar e eles quiseram preparar-te para isso”. É verdade. Mas, se lhes tivesse dado ouvidos, se tivesse seguido a "estratégia" deles, não eram as pernas que eles me cortavam. Eram as asas. 

E, essas, meus caros, nunca ninguém mas vai conseguir sacar.



7 de fevereiro de 2013

Girls just wanna have fun!

Se calhar nem devia dizer isto mas, quando comecei a sair à noite, devia ter uns 13 ou 14 anos.

Comecei por experimentar as matinés do Crazy Nights e do Loucuras, mas sair à noite - mesmo sair à noite - foi por volta dessa idade. E não me esqueço porque fiquei de cadeira de rodas aos 15 e lembro-me de sair sem ser de cadeira de rodas.


Ia sempre com a minha irmã. A minha mãe dava-nos 1000 escudos para os táxis. E o nosso pai diza-lhe sempre “se alguma coisa lhes acontecer, a responsabilidade é toda tua!”. Mas a minha mãe confiava em nós. Acima de tudo, nos valores que nos tinha passado. E, a verdade, é que nunca lhe falhámos. Nunca. Mas não arredava pé da janela enquanto não chegassemos ou, pelo menos, não pregava olho enquanto não ouvisse o táxi a entrar na rua.


Morávamos em Alvalade e na altura íamos para o Alcântara-Mar. Anos depois, para a 24 de Julho. Mas havia dias em que nem chegavamos a sair da Av. de Roma: preferíamos ir ao Bingo Roma. Eu era "grandalhona" e passava bem por 18 anos. Aliás, a idade - ou falta dela - não era o problema. O problema era nunca que ganhava sequer uma linha. 


Mas quando optávamos por ir sair, a nossa preferência era, de facto, o Alcântara. Era a discoteca da moda. Também frequentámos o BBA no Bairro Alto, mas o Alcântara era "o Alcântara". Não era fácil entrar sem pagar mas conseguíamos sempre. Lá dentro era a loucura. E uma das coisas que mais gozo me dava na altura era subir para cima das colunas e dançar. Visto agora à distância, constato que só podia estar doida.


Os anos foram passando e “mudámo-nos” para a 24 de Julho, onde parávamos no Metalúrgica e no Última Ceia antes de entrarmos na Kapital.




Lembro-me da primeira vez que fomos à Kapital. O Lúcio que estava à porta. Conhecido como um porteiro duro de roer. A sua frase preferida era “desculpe, mas só clientes habituais”. Dito, claro, com um sorriso nos lábios.

Estávamos em 91 ou 92. O espaço tinha acabado de abrir. Nesse dia levava comigo um grupo de 10 ou 15 pessoas. Não ia ser fácil entrarmos todos. Respirei fundo, cheguei-me à frente e fiz um ar de “vá, tu não ias ter coragem de barrar a entrada a uma pessoa de cadeira de rodas…”. Ele olha para mim, perde o ar de durão e diz “está sozinha?”. Respondi que não, que me tinham dito que havia escadas dentro da discoteca e que por isso tinha trazido alguns amigos para me ajudarem…Sempre com aquele ar de “não ias ter coragem…”. E não teve. Perguntou-me quantas pessoas estavam comigo e eu olhei para o meu grupo de 15 pessoas e disse: “estes todos…”. Engoliu em seco e entrámos todos. Aliás, em boa verdade entrámos nós e mais uns quantos desconhecidos que se aproveitaram da situação para se infiltraram lá pelo meio. Achei graça e calei-me.

Este foi o primeiro dia de Kapital. De muitos.


Eram noites inesquecíveis. Tínhamos um grupo de gente divertida e saudável. Começávamos a noite por jantar na Taska, que ficava na pequena rua ao lado da Kapital. Depois entravamos por uma porta lateral, que nos dava acesso ao interior da discoteca. Chamávamos-lhes as "catacumbas". Por elas também tínhamos acesso ao Kremlin. 


Já lá dentro preferíamos sempre o piso do meio, onde o Miguel punha música. Aliás, a nossa música. Passávamos o tempo a chateá-lo com o que queríamos ouvir. Mas giro, giro era quando o Sporting jogava nessa noite e ganhava (sim, nessa altura o meu querido Sporting ainda ganhava…). Estávamos no espaço dos irmãos Rocha - que mais sportinguistas não podiam ser - e, por isso, tomávamos a pista com o hino da Maria José Valério e o “Só eu sei porque não fico em casa”. Era o delírio!


Eu tinha poiso fixo: na cabine d DJ, ao lado do armário dos cds do Miguel. Por brincadeira ponderou-se inclusive desenhar um dístico de cadeira de rodas no chão, a reservar o meu lugar.


Várias foram as vezes que os porteiros fecharam a porta quando eu chegava sozinha com a minha irmã. Ajudavam-me a subir as escadas até ao 2º piso, bebiam um shot connosco e voltavam ao trabalho.


Também não me esqueço do Paulo, o porteiro que e seguiu ao Lúcio que, como ele dizia “por tanto gostar de ti”, deu o meu nome à primeira filha. 


Passámos anos nisto. Às Sextas e aos Sábados. E alguns, os mais resistentes, também às Quintas. Mas eu e a minha irmã não alinhavamos nesses dias. No dia seguinte era dia de escola e a D.Teresa não ia na cantiga. Apesar de não termos hora para chegar a casa, raramente chegávamos depois das 4h. Sabíamos que, a partir dessa hora, a noite ganhava uma dimensão e um tipo de clientes com quem não nos identificávamos.

A primeira vez que entrei na Kapital devia ter uns 16 anos…E só parei com 25 ou 26. A partir dessa altura comecei a fartar-me de saídas à noite. Só saíamos esporadicamente.


Até porque foi com essa idade que comecei a ter alguns problemas de saúde. Primeiro a vesícula, depois as escaras, mais tarda a septicemia. Por isso, os nossos hábitos foram mudando. Mas não necessariamente para pior.


Passámos a preferir um bom jantar à roda de uma mesa cheia de amigos. Crescemos. Há mesmo um tempo para tudo. 


Hoje, quando saímos, ou melhor, se saímos, preferimos o Urban Beach. Os irmãos Rocha sempre nos souberem receber. Quando aparecemos, é como se o tempo tivesse parado.

Foram anos memoráveis. Deles guardo grandes momentos. E muita, muita amizade. Que, aliás, dura até hoje. O divertimento, a loucura. Mas também o juízo, o bom senso. Acima de tudo, sem precisarmos de perder o controlo. Como infelizmente hoje os jovens perdem. Sem drogas. Bastavam-nos uns bons jantares, um ou dois shots, muita música, dançar. E a noite estava feita.

O mundo mudou, a noite mudou. Hoje nada disto é assim. Tornou-se tudo demasiado perigoso, demasiado gratuito.

Mas os miúdos não podem ficar isolados e fechados em casa. Têm que continuar a divertir-se. Precisam de o fazer.

O segredo é educação.  Sensibilização. Conversar e explicar os perigos. Passar os valores certos. Precisamente porque a noite se tornou perigosa, acompanhar de perto. E, no fim, confiar. Porque, quando crescerem, é isso que vão passar aos filhos.

6 de fevereiro de 2013

"A felicidade está em conhecer os nossos limites e em apreciá-los."

Portugal não é um país preparado para uma pessoa com mobilidade reduzida. E sim, aprendam o termo certo: mobilidade reduzida. Mas Portugal não está isolado neste problema. E porque gosto de contar histórias, conto mais uma que se passou comigo há cerca de 2 ou 3 anos. 

Um dia o telefone tocou. Era a M, uma ex-colega da faculdade, militante de um partido de esquerda. Já não falávamos há anos. Tinha um convite para me fazer. Ir a Bruxelas conhecer o Parlamento Europeu. Tratava-se de uma iniciativa do partido dela, no âmbito de um daqueles dias/anos internacionais que alguém decidiu dedicar-nos mas que, infelizmente, de pouco servem.

Esclareci que o meu partido não era o dela e que não fazia parte de nenhuma associação. E que, por esse motivo, podia fazer mais sentido passar o convite a outra pessoa. Mas a M disse que não, que queria que fosse eu.

A viagem ia ser de autocarro, com várias paragens. Aí agradeci o convite mas expliquei que, por razões físicas, não ia conseguir aguentar a viagem que, se não me falha a memória, iria demorar 3 ou 4 dias. Sugeri fazer antes a viagem de avião, em low cost que fosse. E assim foi.
 


Convite aceite e depois de ter explicado tim-tim por tim-tim o que ia precisar em termos de acessibilidades, a minha cabeça começa a processar a informação. “Marta, enlouqueceste! Acabaste de aceitar um convite para estares 3 dias fora da tua casa, com pessoas que não conheces, num país que não é o teu. E vais sozinha. Pela primeira vez, sozinha.” E de avião, que odeio.  Fiquei um bocadinho em pânico mas, se por um lado a ideia me assustava, por outro desafiava-me a ultrapassar o meu medo.

Claro que a primeira reacção da minha mãe foi “Isso é que era bom! Sozinha? Só podes estar doida!”. Mas depois ponderou, percebeu que isto era um passo de gigante na minha independência e apoiou-me.

Nos dias que antecederam a viagem, e já sabendo em que hotel ia ficar, certifiquei-me que este tinha todas as condições que eu ia precisar. E não era nada do outro mundo: um quarto com a cama alta (ao nível da minha cadeira), uma casa de banho em que a sanita tivesse barras laterais e uma banheira com uma cadeira de banho rotativa. Tudo o que de mais básico um quarto adaptado deve ter. Deram-me todas as certezas de que tudo estaria preparado para me receber, para eu não me preocupar. Cá e lá.

Mesmo assim fui com o coração nas mãos. Parecia bruxa.

Viajei na TAP. E ao serviço que a companhia aérea disponibiliza para acompanhar pessoas com mobilidade reduzida, o My Way, nada tenho a apontar. Foram impecáveis.



Aterro em Bruxelas e espera-me um mini-bus adaptado para nos levar ao hotel. Íamos ficar no Hilton, 5 estrelas. Íamos porque comigo viajaram mais dois convidados. 

Quando me levam ao quarto, no 26º andar, já tarde, o meu queixo caiu. E não foi por ter um quarto de sonho, onde chegava a todo o lado. Deparei-me, sim, com uma suite com uns 50 metros quadrados, sem barras laterais na sanita e banheira sem cadeira de banho. Ah, e importantíssimo, uma zona de sofás e digna de uma casa de luxo. A única coisa que se safava era a cama, relativamente alta mas onde cabiam 5 Martas. 

Conclusão: não pescaram nada do que lhes foi dito. E mais do que uma vez. Para aquela gente, o equivalente a quarto adaptado era espaço. Muito espaço. Sim, de facto, ali cabiam umas 20 cadeiras de rodas.



Desci à recepção, expliquei o que se passava, e pedi um novo quarto. Pediram desculpa mas disseram que não tinham no momento. Quase a passar-me pedi um pc com acesso à net para lhes explicar o que era uma cadeira rotativa. Era o mínimo para poder passar ali duas noites. Na manhã seguinte disse-lhes: “Vou agora ao Parlamento Europeu. Quando voltar, agradeço que já tenham comprado uma coisa destas para eu tomar banho.” 

E lá fui, visitar o Parlamento, com o resto do grupo. Aqui conhecemos o espaço, as rotinas, os objectivos, todo o funcionamento. 



Seguiu-se uma conversa com a deputada do partido. Rapidamente percebi que a ideia era falar do que estava mal, do que tinha que ser mudado, da luta. E da luta. E da luta. E, ainda, da luta. E falou-se. Sempre com um ambiente tenso e pesado. Que me sufocava. Mantive-me quase sempre calada.

Depois, cada pessoa podia contar a sua história. Não ouvi uma contada pela positiva. Umazinha. Só queixas. No fim ganhei coragem e decidi correr o risco. Expliquei que era feliz de cadeira de rodas, que tinha um bom emprego, conseguido à minha custa, onde me tratavam bem, aliás, como qualquer outra colaboradora. Que, sim, havia muito para mudar em termos de acessibilidades e discriminação, mas que tínhamos que tentar fazer as coisas pela positiva. 

Atrevi-me ainda a defender que muitas vezes a discriminação partia de nós próprios. Que era verdade que tínhamos que lutar o triplo que os outros para conseguirmos chegar onde queríamos, mas que era possível. Que eu tinha conseguido, e não era melhor do que ninguém naquela sala. Nunca entregar os pontos, nunca desistir. Não nos sentirmos vítimas mas sim vencedores. Que era necessário cada um fazer a sua parte. E, acima de tudo, que havia várias formas de contribuir para melhorar a nossa situação. E todas elas mereciam respeito. 

Expliquei que jamais criticaria uma associação, porque são muito necessárias – algumas das quais já me tinham convidado para fazer parte do grupo -, mas que preferia não optar por nenhuma e contribuir antes tentando ser um exemplo no meu dia-a-dia. Para quem me rodeava, para quem partilhava comigo os dias de trabalho, no meu círculo de amigos. No meu mundo. Claro que isto soou bem a uns e mal a outros. Mas a vida é mesmo assim. Ninguém agrada a todos. Muito menos eu.

Bom, quando voltei ao hotel tinham-me mudado de quarto, agora para um adaptado, no 6º andar. E, sim, compraram uma cadeira de banho. Mas, ignorantes, sem ser rotativa. Ou seja, própria para alguém que precisa de tomar banho sentado, mas que se pode levantar para entrar e sair da banheira. Expliquei que não servia, prontificaram-se a mudar – espero que o tenham feito -, mas para mim já iam tarde e desenrasquei-me com aquilo.

Para se desculparem, deram-me acesso gratuito ao último andar do hotel, zona VIP, para tomar um pequeno-almoço executivo. Eu que acordo sempre sem fome. O jeitão que me deu…

Tudo isto se passou em Bruxelas, um dos países onde residem e por onde passam pessoas do mundo inteiro. E onde situa o Parlamento Europeu, o centro da democracia de 500 milhões de cidadãos, dizem. Mas também já se passou comigo noutros sítios.

Não é só Portugal que está a anos-luz do que é isto de acessibilidades. A iniciativa do partido teve o seu mérito e valeu muito a pena. Os outros nem nunca tinham pensado em fazer isto. 
Mas, enquanto não houver vontade política de todos os partidos, nada vai acontecer. 

Quero deixar aqui bem clara que a minha admiração por quem se dedica a fundo a esta luta é gigantesca. Mas também pedir que respeitem a minha forma de luta. Viver feliz assim. E passar essa mensagem todos os dias.

Mas não fazer disto o centro do meu mundo. Porque jamais será.