20 de fevereiro de 2013

A dor dos outros.

Hoje pus-me a pensar, e percebi que lido melhor com a minha dor, do que com a dor dos outros.

É que com a minha sei como dar a volta. Se não sei, arranjo, invento. Distraio-a, troco-lhe as voltas. Passo-lhe uma rasteira. Ou dou-lhe, simplesmente, um belo pontapé no cu.
Com a dos outros não é assim. Com a dos outros fico muitas vezes sem saber o que dizer, sem saber o que fazer, sem conseguir ajudar. Sinto-me impotente. Eu, que estou habituada a saber sempre o que dizer. A controlar a dor. Mas, sim, a minha.
O que mais me custa é quando são causas aparentemente perdidas. Cientificamente perdidas. Causas onde o que nos resta é a esperança. Mas também o que é isto de nos "agarrarmos à esperança" quando estamos a falar de casos sem ela? Ou mesmo de pessoas que, por natureza, não a têm?
“Tens que ter calma”. “A vida é mesmo assim”. “Temos que aprender a aceitar”. “A ciência avança muito rapidamente”. “Pensa que algo vai acontecer de bom”. “És forte e vais superar”. "Luta, luta, luta". “Tem esperança”. Pronto, estão a ver…? Até eu digo aos outros para se agarrem à esperança, mesmo sentindo no meu coração que de pouco vale. Mas, se não disser isto, digo o quê?
“Se acreditas em Deus, reza”. “Se acreditas noutra coisa qualquer, segue-a”. “Acima de tudo, faz o que o teu coração te manda fazer”. “Se for gritar, grita”. “Se for chorar, chora”. “Se for partilhar, partilha”. Porque quando gritamos, choramos ou partilhamos, deitamos cá para fora um bocadinho desta dor. Porque se a deixamos lá dentro, ainda nos corrói mais. E não lhe podemos dar esse espaço. É que se o fazemos, ela é má e toma mesmo conta de nós.
Tenho tanta pena...Mesmo. Há alturas, há casos, em que é difícil ter uma palavra de conforto. Daquelas que confortam. Que aliviam. Que mostram um caminho. O caminho.
E, por isso, nessas alturas só podemos dar o que temos. Um ombro forte. Um sorriso que compreende. Um abraço demorado. Um beijo mais profundo. Um dar a mão mais apertado. Como quem diz, “Nada posso fazer ou dizer, mas estou aqui”. E estou. E fico. E vou. Mesmo que esteja longe. Desenrasco-me e vou.
 
A presença da possibilidade da morte nas vidas dos outros, é uma merda. Rouba-me as palavras. Curioso que na minha soube quase sempre como a enfrentar. E vos garanto que não passou por aceitar. Porque isso, nunca fiz. Mas, se calhar, era diferente.

No fundo, mesmo lá no fundo, este texto todo só porque hoje o que me vai na alma era mesmo a vontade ter um dom. Não o da palavra. Esse, têm muitos. Mas o da palavra certa. No momento certo. Sempre na ponta da língua. Que acalmasse a dor nos outros, Que, bolas, é tão pior que a minha.
 
 

19 de fevereiro de 2013

I Will Survive!

Hoje estive o dia todo a contar os minutos para chegar a esta hora. Queria muito partilhar convosco mais uma história.

Bom, digamos que esta não é bem uma história. É mais uma memória. E daquelas que o meu cérebro, se tivesse algum juízo, esquecia. Ou não. Mas, antes de começar, mais um dado importante para que percebam porque é que me lembrei disto hoje. Porque sonhei com este dia. Quase como ele se passou.
Por fim, um alerta: este texto exige algum…estômago!
Devíamos estar perto do final de Abril de 2005. E eu já internada há cerca de quatro meses, intervalados com algumas melhoras que me devolviam ao meu mundo, à minha casa, à minha família. Mas que dias depois me faziam regressar ao hospital porque voltava a febre, ou seja, a bicharoca. A septicémia, causada por uma escara infectada na nádega, estava a ganhar terreno.

Fui uma primeira vez ao bloco para fazer uma abertura na perna. Os médicos queriam conseguir chegar às “partes moles” (carne, músculos, etc) porque achavam que, atacando a bactéria na zona, na sua zona, o tratamento seria mais eficaz. Durante semanas mantiveram-me a perna com essa abertura para irem fazendo limpezas localizadas.
Mas aquilo não estava a resultar. O raio da febre não paráva e, ao fim da tarde, fazia-me sempre uma visita. Um amor, portanto.

Até ao dia em que os médicos, eu acho que quase em desespero, decidem avançar e ir mais fundo. Chegar ao osso.
Nunca mais me vou esquecer do dia em que um grupo de homens de bata branca entra no meu quarto, e um deles me diz “Vamos que mudar o tratamento, temos que ir mais longe.”

Era o chefe de serviço. Um excelente técnico (e não digo excelente profissional porque, para mim, excelente profissional tem também que ter um lado mais humano, que este não tinha). Olha para mim e diz-me claramente “Marta, somos da opinião de que a bactéria está alojada no teu fémur, mas só conseguimos ter a certeza abrindo mais, chegando mais perto. Vendo.”
Fiquei a olhar para ele à espera que me dissesse mais qualquer coisa. Qualquer coisa que resolvesse aquilo, um caminho. Uma solução, pá! E ele acrescentou “Por isso, vais agora para o bloco e o que se vai passar é o seguinte: se o problema estiver na cabeça do fémur, tiramos-ta, se estiver em toda a perna, amputamos-te a perna, se já tiver passado para o outro lado (anca)…”. Calou-se e baixou a cabeça. Havia um ser-humano ali dentro, afinal.

Como não sou burra nem estava balhelhas, percebi o recado. Se estivesse na anca, já nada podiam fazer, a não ser continuarem a dar-me antibióticos e acreditar que o corpo ia acabar por reagir. Algo que até ao momento, era um facto, não tinha acontecido. Ou seja, sem parar a porcaria da bicha, nada a fazer.

Olhei para ele, depois para o médico assistente, um espanhol pouco mais velho que eu e com quem já tinha estabelecido uma relação mais próxima. Lindo, diga-se de passagem! Percebi que era grave. Respirei fundo. Mesmo fundo. E respondi “Vamos a isso. Se é mesmo assim, se é para ir, é agora.”. Ele respondeu que sim, que iam preparar o bloco.
Na altura não sabia mas o ortopedista que me operou, e que anos depois me tratou de uma perna partida, contou-me que nesse dia estava de banco e que lhe disseram apenas “Tens que vir rápido. Temos ali uma miúda que, se não for tratada rapidamente, se apaga.”

As enfermeiras, na altura já grandes companheiras de “aventura”, prepararam-me para descer. E lá fui eu, sempre deitada na minha cama. Lembro-me de ir pelo corredor do serviço, passar por elas e de as ver de lágrimas nos olhos. E a passarem-me as mãos pela colcha que me tapava como quem diz “Vai correr bem”. Se eu tinha acabado de saber a gravidade da situação, elas já a sabiam. Há que tempos.
Enquanto descia no elevador que nos levava ao bloco, percebi claramente que aquela era a minha hipótese de me safar. Nem sei bem o que senti. Só sei que não parei de chorar de medo. Sim, medo daquilo não funcionar – estava farta de tratamentos que nada tinham adiantado - e de ter que ficar à espera de algo que poderia nunca acontecer.

Quando cheguei ao bloco fui transferida para outra cama, acho que esterilizada. E deixaram-me à espera encostada a uma das paredes, num daqueles corredores onde cada porta é um bloco operatório. Via as enfermeiras a passar, os médicos, os auxiliares. E pensava “Eu não pertenço aqui, caraças. O meu lugar é esparramada no sofá lá de casa a ver televisão e enrolada numa manta. O meu lugar é a ver a Carlota a crescer e a ser uma referência na vida dela. Esta merda vai passar.”
A certa altura, há um médico que olha para mim, vê-me a chorar, pára e diz “Então? Uma cara tão bonita a chorar? Não pode ser…”. Respondi-lhe que estava com medo. Ele deu-me a mão e disse-me que naqueles blocos tinha que se entrar a pensar que se ia sair bem. Era um médico veterano, com cabelos brancos. Experiente e com ar de Pai-Natal. Mas aquela touca cheia de bonecos tipo banda desenhada fez-me rir. Vá, sorrir. E ele disse “Isso mesmo. Uma miúda gira não pode chorar. Vai correr bem”. E vai-se embora.

Passados uns minutos uma enfermeira conduz-me até ao bloco. Um sítio gelado, com paredes de mármore, cheio de máquinas esquisitas. E um monte de enfermeiros a correr de um lado para o outro. Passado um bocado entram os meus médicos. Os cirurgiões. Mas acompanhados pelo ortopedista. O tal que tinha sido chamado para “safar a miúda”. Ah, e a música que se ouve nos filmes durante as cirurgias é verdadeira. Os meus médicos ouviam rock. Pensei: 'Tou feita!
Vejo o espanhol que me pisca o olho. Depois apaguei-me com uma bela anestesia geral.

Lembro-me de acordar no recobro cheia de fome e a perguntar quando é que ia poder comer um bife com batatas fritas. Os enfermeiros de serviço riram-se e disseram “Quanto muito damos-te um suminho, mas tens que beber devagar…”. Devia ser o pior sumo do mundo mas, na altura, soube-me ao melhor.
Passadas umas horas volto ao serviço e ao meu quarto. E vejo os sorrisos rasgados das enfermeiras. Tinha corrido bem, e elas já o sabiam.

Quando o tal médico, o chefe de serviço, entra no meu quarto disse com o seu ar austero mas, pareceu-me a mim, com um sorriso nos olhos “Confirma-se. O teu fémur estava desfeito pela bactéria, tivemos que o retirar, limpar e a coisa parece que ficou com bom aspecto.” Agora iam ser carradas de antibióticos, análises todos os dias, mais carradas de antibióticos, mais análises todos os dias. E ver se resultava.
E assim foi durante semanas e semanas e, de um momento para o outro, os períodos de febre começam a ser mais espaçados. E mais espaçados. E mais espaçados. Até pararem.

Sabendo que eu tinha boas condições em casa, os médicos arriscam mandar-me para casa com os Cuidados Continuados. Ou seja, com o serviço de enfermagem móvel do hospital que, 2 vezes por dia, me ia dar o antibiótico intravenoso.
Com a medicação fui melhorando. E fui deixando de estar enjoada. E comecei a comer. E a ganhar peso. E, finalmente, a recuperar.

Foram minutos que pareceram horas. Foram horas que pareceram dias. E foram 5 ou 6 meses que mudaram para sempre as nossas vidas.

Depois de tudo isto - acho eu que depois de uns 8 ou 9 meses entre ter sido internada e regressado a casa - decido voltar devagarinho ao trabalho. Primeiro remotamente, porque tinha mesmo que ir com calma. Mas um dia quis mesmo ir lá. À empresa. À minha sala. À minha mesa. E estava tudo como eu tinha deixado. Fez-me bem sentir que continuava a fazer parte daquilo. Como se nem um dia tivesse estado fora dali.
E no meu coração não tinha. A minha vida tinha ficado apenas em stand-by. E era chegada a altura de voltar a carregar no play. Hoje faço rewind muitas vezes, porque gosto de recorrer aos ensinamentos que me ficaram destes dias. Mas, quem me conhece, sabe que o estado normal é mesmo o forward! E, de preferência fast forward...

PS – Não me levem a mal, mas não quero elogios por ter passado/utrapassado tudo isto. Oiço-os há 23 anos, desde que fiquei de cadeira de rodas. Agradeço-os, claro, e até os compreendo. Mas a única coisa que quero que entendam com esta história é que, por muito má que a situação seja, quando tudo parece que não funciona, se acreditarmos que nos safamos, safamo-nos mesmo.
Ah, e para terminar, só podia ser em grande:

Bactéria de merda, esta é para ti!

18 de fevereiro de 2013

Vida, se me estás a ouvir, regista isto. Porque não quero ter que repetir.


Quero mais tempo de vida. A média que me dás não me chega para fazer tudo o que quero.

Quero mais dias felizes. Aliás, é mais simples que isso: não quero dias infelizes.

Quero mais sorrisos. Melhor, quero gargalhadas.

Quero mais gente preocupada com a própria vida, do que com a vida dos outros.

Quero a vida profissional vs pessoal mais equilibrada.

Quero que me rodeies de gente verdadeira. Já não se aguenta malta invejosa.

Quero gente optimista e que não desiste, apesar da caca de momento que estamos a passar.
Quero mais equilíbrio social. Porque a balança anda baralhada e precisa de arranjo.
Quero estações do ano definidas. As de hoje roubam os dias umas às outras, e assim nunca sabemos com que contar. E isso irrita-me.



Quero menos carros. Mas transportes públicos que sejam alternativas viáveis.
Quero mais bicicletas, mas também ruas com mais condições para as receber.
Quero mais acessos para as pessoas com mobilidade reduzida. Os que existem são inúteis, para não dizer ridículos.
Quero um Governo sério, que lute pelo meu país. O que lá está, só sabe lutar por ele próprio.

Quero uma igreja credível, que nos ajude a ultrapassar os males da alma. Não quero Papas com sapatos Prada e ouro por todo o lado.
Quero um país onde os jornais em papel não tenham um fim. Porque o cheiro das folhas e o ritual das folhear não se pode perder.

Quero um país onde os jovens consigam acabar os seus cursos e encontrar o emprego dos seus sonhos.
Quero um país que explique as vantagens de emigrar. E que não nos obrigue simplesmente a fazê-lo.

Quero um país que trate bem as crianças. E que não as deixe sentir na pele os erros dos adultos.
Quero um país que trate bem os velhotes. E que não os abandone em casa, onde um dia são encontrados mortos, ou os deposite num lar.


E, aproveitando que falo dos velhotes, quero um país que os recompense financeiramente de anos de trabalho e não lhes passe uma rasteira quando já poucos anos lhes restam.

Quero um país que permita a um doente terminal morrer com dignidade. Hoje, para o fazer, ou contamos connosco, ou quem nos ajuda é preso.

Quero um país que permita que dois homens ou duas mulheres que se amam, possam transmitir esse amor a um filho. Ao seu filho.

Quero um país que feche na cela quem mata e burla, mas que esse “quem” seja rico ou pobre. Hoje a justiça não é igual para todos.
Quero um país que não enfie alguém numa prisão três anos por roubar comida num supermercado e os mesmos três anos a quem abusa de uma criança.
Quero um país dê direitos aos animais. E que puna quem os maltrata. E puna a sério. E isto também implica acabar com touradas.
 
Quero um país que se una para passar para fora o que de melhor se faz cá dentro. Porque o que é nacional é mesmo bom.

Quero um país que não seja apenas conhecido pelo fado, futebol e saudade. Gosto dos três, mas quero mais.

Quero um país atraente para jovens empreendedores estrangeiros montarem empresas inovadoras.

Quero um país que aposte fortemente no ensino do Inglês, do Português, Educação Física e Cívica e Artes Visuais. Só assim teremos adultos preparados para enfrentar o mundo, que sabem escrever e falar correctamente a sua língua e outras, saudáveis, criativos e civilizados.
Quero um país que lute e que nunca desista. E que se una a sério quando é preciso falar mais alto para se fazer ouvir.

Enfim, quero isto e muito mais. Porque sou uma jovem que, apesar de tudo, se orgulha do seu país e que ainda acredita que Portugal vale a pena. Por isso quero o melhor.



E pronto Vida, assim de repente é disto que me lembro.
Sei que são ideias soltas e sem grande sequência lógica, mas podes organizá-las como quiseres. Desde que te mexas. Porque alguma coisa tem que acontecer. Parada é que não pode ser.
 

17 de fevereiro de 2013

Chorar lava a alma.

Sou uma chorona, confesso. Mas dizem que chorar é bom.

Quem olha para mim pensa que não, que sou uma fortalhuda. “Ah, já passou por tanto que ganhou calo”. Ganhei, é verdade, mas, lamento desapontar, continuo uma chorona.

Pensando bem, talvez a culpa das pessoas pensarem assim até seja culpa minha. Durante muito tempo, sempre contei os zigue-zagues da minha vida pela positiva, sem grandes dramas. Sei que foram, claro, mas não as sabia, nem sei, contar de outra forma. E isso rotulou-me. Hoje, se me vou abaixo, estranham. Assustam-se. Dizem “não…a Marta…não pode ser…!”

A verdade é que, mesmo contando as minhas histórias desta forma, tal não lhes retira a crueldade com que rasgaram a minha vida. Rasgaram, mas cozi-a com as melhores agulhas do mundo: o amor das mãos de quem sempre acreditou que a vida podia e ia continuar. A minha mãe, a minha irmã, os meus amigos. E, continuou, é um facto. Afinal, estou cá, não estou?

 
É certo que a vida me endureceu. Mas não é linear que, porque a vida me fez passar por situações complexas, o que para os outros é um problema, deixou de o ser para mim. Talvez haja apenas uma diferença: perco pouco tempo a chorar e a bater com a cabeça nas paredes. Porque me obrigo a parar, a analisar friamente a situação, a procurar encontrar caminhos e a seguir aquele que acho que me vai tirar mais rapidamente daquela situação. Funciona sempre? Não. Galo…Aí repito o processo, e repito, e repito, até resolver a situação. Pode demorar um bocadinho. Mas não “penduro as chuteiras”. Nunca. 

Depois há um truque que, eu diria, é infalível: quando não se consegue encontrar estes caminhos sozinha, pede-se ajuda a quem achamos que pode ajudar. No meu caso, nem é preciso porque, quem me conhece bem, apanha a coisa no ar e põe-se em campo antes de eu abrir a boca para me queixar.
 
Mas a vida surpreende-nos sempre. E se alguma coisa aprendi com a minha foi que, mesmo das situações mais difíceis, quase sempre podemos retirar alguma coisa de positivo, algum ensinamento.

Às vezes penso: quem seria eu hoje se aos 15 anos não tivesse ficado de cadeira de rodas? Quem seria eu hoje se aos 29 não tivesse estado a patinar 6 meses com uma infecção que decidiu dominar o meu corpo? A mesma Marta que todos conhecem? Duvido. E duvido muito.

Um dia vi um filme curioso, com o James Belushi (Larry) e o Michael Caine (Mike), que me marcou. Chamava-se Mr. Destiny e contava a história de um jogador de basebol que falhava uma bola decisiva na equipa do liceu, e que atribui a esse momento o fracasso em que a sua vida se tinha tornado. A certa altura, ao fugir da polícia, Larry entra num bar onde conhece um barman, que não é mais que o seu anjo da guarda. E que lhe dá a oportunidade de experimentar viver a vida se não tivesse falhado aquela bola, naquele momento. Torna-se, assim, num homem rico, invejado. Mas também cheio de problemas e que perde quem, de facto, amava. No fim, vêem-se luzes fora do bar. E, quando tudo indicava que se seria a polícia, não passavam das luzes de um carro de reboque. Larry percebe que voltou à sua vida normal, aquela vida em que falhou a bola. Luta e volta a arranjar emprego, a endireitar a sua vida. Mas uma vida onde pode contar com quem o ama para o ajudar a reerguer-se.

Eu não tive oportunidade de ver “como seria se” mas, sinceramente, sinto que se não tivesse passado por nada disto, talvez não me orgulhasse tanto de mim como me orgulho. Desta Marta, com coisas boas e coisas más, mas que ultrapassou, está cá para contar a história e, por vezes, até dá alguma esperança a quem precisa dela.

 
Por outro lado, com estas rasteiras da vida, também aprendi a aceitar que não controlamos nada. Que o que tiver que acontecer, acontece. Se for mau, ou nos entregamos à coisa, ou a enfrentamos. Mas sem contemplações, sem medo. Sem nunca entrar na luta a pensar que a vamos perder. Entrar para ganhar.

Para terminar, só uma nota para aqueles que me acham uma fortalhuda que não chora. Estão longe de me conhecer bem. Basta porem-me à frente de uma criança, de um velho ou até de um cão felizes. Dêem-me um dia bom no trabalho, uma palavra de conforto num dia mais complicado. E o mais certo é a torneira pingar.

Não é assim todos os dias, calma, mas é sempre que sinto que preciso. Vergonha? Hoje em dia, nenhuma.

Afinal, “Quando se não chora, parece que as lágrimas nos caem todas cá dentro e queimam; e o padecimento é, então, de morte."
 
E, eu, caso não saibam, só estou a pensar em patinar lá para os...vá, 115!

15 de fevereiro de 2013

Carta de amor para o amor da minha vida.

Hoje estás aqui, deitada ao meu lado. Na minha almofada. E eu a meia-luz, para não te incomodar. 

De vez em quando mexes-te. E o teu cheiro espalha-se no ar. Cheiras a lavadinho, a novo, a fresco, a puro. Cheiras a tudo ao que de bom a vida te vai dar. Cheiras ao que de melhor a vida me podia ter dado.

Estás aqui, ao meu lado, enroscada. Enroscadinha. Com uma das mãos por cima de mim e a outra a agarrar na porca de peluche que a mãe te deu. E na fralda de sempre. Hás de ter 18 anos e dormir com a fralda. Pensando bem, espero que sim. Quer dizer que ainda não deixaste de ser a minha miúda bebé.

Apetecia-me conseguir não adormecer para poder ficar a olhar para ti. Aqui, quentinha, ao meu lado, no conforto. Não fosse o cansaço de um dia de nervos e era o que fazia.
Mas estes dias esquecem-se e tornam-se irrelevantes quando chego a casa, tenho a minha malta à espera, a televisão nas notícias, o jantar preparado, a lenha a crepitar. Risos. Os teus risos. E “tia-para-aqui-tia-para-ali”.
Vês-me no computador enquanto jantas e dizes-me “pronto, já estás a escrever para o teu blog!”. Explico-te que não, que "ainda estou a trabalhar”. Respondes-me “mas não devias”. E tens razão. De facto, não devia.
Depois dizes-me que tiveste Muito Bom a tudo. Mas que ainda tens mais uma surpresa para mim. E dás-me um postal do Dia dos Namorados. O postal que tu fizeste para o Dia dos Namorados. “Porque ninguém liga às tias, não têm dias…Estúpidos. Nunca ninguém se lembrou de lhes dar um dia. Pronto, assim, este fica o meu dia para ti.”
Já tínhamos um, o 18 de Abril, lembras-te? Nem me lembro porque foi o 18 de Abril. Mas já o é há 2 anos. Na altura fizeste-me um desenho com esta data e colaste na parede do meu quarto. “Assim não nos esquecemos nunca” disseste. Agora também temos este. “Porque não tens namorado e porque assim é também um dia a que muitas pessoas dão atenção”. Seja isto o que for…!


Há 9 anos a minha vida ganhou cor. Ganhou um arco-íris tão grande, que torna qualquer dia de chuva num momento fantástico e memorável. És tu, a “txuca da tia”, como gostas que te chame. 

Quando cresceres vais ser uma miúda porreira. Tenho a certeza. Uma miúda de quem me vou continuar a orgulhar todos os dias de ser tia.

Vá querida, agora dorme bem, que tens que acordar cedo. A tia está mesmo aqui ao lado. Sempre. 

Um beijo e bons sonhos. Amo-te.

13 de fevereiro de 2013

Aos professores que, não só me ensinaram, mas que também me marcaram.

Há professores que nos marcam para a vida. Acho que eles nem se apercebem. E nós, tantas vezes, só mais tarde.

A mim marcaram três. Uma pela negativa e dois pela positiva. Comecemos pela pior, para podermos acabar com os melhores.
Chamava-se Silvina e foi minha professora da 1ª à 4ª classe. Era velha e "má como as cobras”. Tinha uma régua enorme e grossa – pelo menos na altura parecia-me enorme e grossa – com que nos batia nas mãos quando nos portávamos mal.

Lembro-me do António. Para nós, o Tony. Era um rapaz gorducho, de bochechas coradas, que se portava mal com alguma frequência e quase nunca fazia os trabalhos de casa. A vida familiar dele não era fácil. Nós sabiamos que não tinha um ambiente equilibrado em casa.

Quando chegava a altura do Tony mostrar os TPC's, e a professora percebia ele que não os tinha feito, a sala ficava mais pequenina. O tecto mais perto de nós. Porque sabíamos o que aí vinha.


A professora levava-o para a casa de banho, que ficava num dos cantos da sala, baixava-lhe as calças e dava-lhe reguadas atrás de reguadas. Até a mim me doía. Aliás, doía à turma inteira. Mas nem piávamos, com medo. E ele nem uma lágrima deitava. Mas percebiamos pelo seu olhar a dor que ele sentia por dentro. A dor de ter sido, mais uma vez, humilhado por aquela mulher. Lembro-me bem da cara dele.

Um dia foi comigo. Devo ter feito alguma coisa que ela não gostou e imediatamente me mandou estender as mãos. Estendi, claro. Deu-me três reguadas em cada uma. Nunca mais me esqueci. A força foi tal que as mãos incharam. Chegou a hora de almoço e, como fazia sempre, fui almoçar à cantina. Mas com as mãos doridas não conseguia pegar bem no prato. A D. Noémia, cozinheira, reparou. E passou-se. Obrigou-me a ir ao gabinete da Drª. Sara, directora do externato, e contar o que se tinha passado. Contei não só as minhas reguadas, mas também as reguadas do Tony, e as de todos os outros meninos. Nesse dia fui a heroína da turma! Mas bem me tramei nos dias seguintes!
A professora Silvina também foi chamada ao gabinete. Não sei o que se passou lá dentro. Só sei que nunca mais nos bateu. Só que, de vez em quando, vingava-se de mim. Não me batia mas obrigava-me a ir para o “cochicho”, uma mesa, separada de todos os outros colegas por uma parede fininha de madeira. Só tinha vista para…a professora. Isto antes de eu ir para lá. Porque enquanto lá estive, e com o bico de uma caneta velha, fui fazendo um buraco na parede, devagarinho, devagarinho, e também fiquei com vista para a mesa da Cláudia. Ora a Cláudia era "só" a melhor aluna da turma. E, quando se apercebeu do buraco, punha os trabalhos a jeito para que eu conseguisse copiar se precisasse. Nem precisava, mas se fosse necessário, dava para ver. Ao fim de 2 semanas, voltei ao meu lugar, perto do resto da turma. Mas o buraco lá ficou. Para o próximo.
Mas este foi o mau exemplo, vamos aos bons.
 
 
O Filipe. Era o nosso novo professor de Educação Física. Por questões familiares, tive que faltar à apresentação. Por isso, assim que entrei na 2ª aula, oiço um “ah, então esta é que é a espertinha que se baldou à 1ª aula”. Disse-o para toda a turma ouvir. A relação tinha começado mal. Mas cedo percebi que o Filipe era um professor diferente. E a grande diferença estava na forma como se relacionava com os alunos e a paixão com que se dedicava ao seu trabalho. Não ensinava apenas as cambalhotas, os pinos, o futebol e as coisas normais de um professor de Educação Física. Esforçava-se por ensinar outras modalidades, promover o espírito de equipa, ser amigo dos alunos. Até Basebol, Jogo do Pau e Folclore aprendi. E, como eramos apenas três miúdas na turma de Desporto, a luta para fazer os pares no Folclore era sempre caótica. O Filipe também foi o primeiro professor de Educação Física que nos pôs a fazer testes escritos da disciplina. E não dentro da sala. Sentados nas bancadas do Estádio 1º de Maio.
Fiquei de cadeira de rodas precisamente na altura em que era aluna dele. Talvez um ou dois meses antes. Lembro-me de termos ido passar um fim de semana à Serra da Estrela pno fim de Fevereiro. O acidente aconteceu a 11 de Março. Já não puderam contar comigo em Peniche (acho que era Peniche…), para o jogo de vólei contra uma escola da zona.

O Filipe entrou assim na minha vida. E nunca mais saiu. 23 anos depois, é um dos meus melhores amigos.

E, para terminar em grande, mais um bom exemplo: a professora Fátima. Ensinou-me a disciplina de Jornalismo, penso que no 11º ano. Nem ela sabe, mas foi a responsável por eu ter seguido o caminho da Comunicação e, claro, por me ter lembrado de escrever esta história.

Tantos e tantos anos depois, recebi ontem um email dela que me tocou profundamente.

Dizia mais ou menos isto:

"Minha querida Marta, um dos meus filhos soube do seu blog e deu-me conhecimento. Fiquei tão contente por ter notícias suas!
Não sei se ainda se lembra de mim, fui sua professora de jornalismo no "Rainha". Nunca vou esquecer aquela miúda "refilona", cheia de alegria e muito querida. Já li tudo o que escreveu e acho que escreve muito bem. Não sei se este email vai chegar, pois não sei se o endereço está correcto.
Um beijinho grande."

Foi esta senhora que me ensinou a escrever notícias e a interessar-me por jornais. As aulas dela eram, a par das do Filipe, das únicas que eu gostava. Lembro-me que já estava de cadeira de rodas e do trabalho de fim de ano ser fazer uma reportagem. Tinha saído de Alcoitão há um ano e, como tinha odiado lá estar, queria aproveitar para denunciar o que eu achava que se passava de errado naquela instituição. Não me deram autorização, claro.

A vida avançou, entrei para a faculdade, tirei Comunicação e hoje cá estou, a trabalhar na área.
Foram 20 e tal anos a estudar e, de todos os professores que me marcaram, estes foram os tais. Um agradecimento do tamanho do mundo ao Filipe e à Fátima por terem influenciado, de alguma forma e em algum momento, a minha vida, o meu percurso.

A professora Silvina já morreu, o Filipe continua por perto, muito perto. E a Fátima apareceu de novo na minha vida. Se este blog não servir para mais nada, já serviu para isto. Fico feliz por isso.

11 de fevereiro de 2013

Às "senhoras da limpeza”. Porque não se deve esquecer ninguém.


Maria, menina Sofia, Lena, D. Piedade, Gina, Maria José, Paula, Gorette, Lucy e, mais recentemente, Emília e Alcione. Houve outras mas destas lembro-me bem.
E a pergunta é? O que terão em comum estes nomes? Pois eu respondo. São os nomes de algumas senhoras que, ao longo dos meus 37 anos, trabalharam em nossa casa. Algumas mais tempo, outras menos. Mas todas, de alguma forma, me marcaram e, por isso, merecem uma história só para elas. Aqui está.

Falemos da Maria. A Maria devia ter uns 40 anos. Tinha um ar meio alucinado e três características maravilhosas. 1º, todos os dias de manhã trazia de sua casa duas carcaças com manteiga “para as meninas”. A 2ª característica não era assim tão simpática: enquanto arrumava a casa bebia o vinho todo que havia na dispensa. E a 3ª, penso eu que ligada à segunda, fazia chichi na pia da cozinha (sim, a nossa casa em Alvalade era antiga e, antes das obras que entretanto fizemos, ainda existiam pias ao lado dos lava-loiças). Claro que, quando a 2ª e a 3ª foram descobertas, tivemos que dispensar a Maria.
Depois vem a menina Sofia. Não era propriamente uma menina, mas como já vinha com esse nome de casa dos meus tios, onde já trabalhava há alguns anos, manteve-o. Ora, a menina Sofia era tipo madame Rottenmeier, da Heidi. Ríspida, dura, intransigente. Comigo e com a mana. Porque com o Pantufa, o nosso cão da altura, era um doce. Gostava mais dele do que de nós. Ah, e obrigava-me a beber sumo de maracujá, que ainda hoje odeio. Claro que quando ela virava as costas por minutos, eu despejava o copo de sumo numa das plantas lá de casa. Note-se que ditas murcharam em pouco tempo.



Agora a Lena. Era uma jovem. Vaidosa. Sempre que podia, enfiava-se no quarto dos meus pais onde passava o tempo a vestir as roupas da minha mãe, pintar-se com a sua maquilhagem e a borrifar-se com os seus perfumes. Eu e a mana víamos aquilo e não achávamos graça nenhuma. Um dia apanhámo-la distraída e, para a castigarmos, decidimos trancar a Lena no quarto. E assim foi. Devíamos ter uns 4 ou 5 anos. Unimos as nossas mãos, ainda pequenas, agarrámos na maçaneta da porta e, com todas as nossas forças…pumba, batemos com aquilo. Falta dizer que aquela porta estava com um problema e, quando fechada desta forma, dificilmente se abria. Foi preciso chamar a D. Susana, a vizinha do andar de cima, quase nossa 2ª avó, para vir salvar a rapariga. E lá veio a velhota, com um afiador de facas, tentar tirar a Lena ali de dentro. E eu e a mana a rirmo-nos num dos cantos da sala. A operação de resgate demorou. A mãe entretanto chegou a casa e deparou-se com aquele belo cenário. Claro que, quando a porta finalmente se abriu, a Lena foi…simpaticamente dispensada. Mas atenção: ia cheirosa. Viemos mais tarde a saber que até o leiteiro pensava que ela era irmã da minha mãe porque, quando lhe abria a porta, estava sempre vestida com as roupas iguais às da sua suposta “mana”.
Entramos na era Piedade. A Piedade era pequenina e usava um coque grisalho no alto da cabeça. Tinha uns 60 anos e cara de bruxa. Mas, coitada, não era má pessoa. Só se transformava quando via na televisão o Torres Couto, na altura secretário-geral da UGT. Quase que o comia. Um dia, antes de sair, estava a Piedade na casa de banho a ajeitar o cabelo e retirou o coque. Nunca a tínhamos visto sem aquilo na cabeça. Tinha o cabelo comprido. Até aos joelhos… Quando me viu a mim e à minha irmã à espreita, olhou para nós com os olhos de bruxa que tinha. A partir daí, ganhámos-lhe um medo de morte. Passado poucos dias, também foi “à vida”.

Veio a Maria José. Uma velhota com 70 anos que se mexia melhor que uma rapariga de 30. A casa arrumada por ela ficava um brinco. Na altura eu já estava de cadeira de rodas mas, como a minha cadeira não entrava na casa de Alvalade, e ela não podia comigo ao colo, a Maria José esticava um cobertor no chão, sentava-me lá, e puxava-me pela casa, até ao sítio onde eu queria ir! Não parava nunca. Só quando caiu em casa dela, partiu uma perna e teve que deixar de trabalhar.

Passemos à Gina. Uma cabo-verdiana com 1m80, gira, gira. Mas estragada pela vida dura que levava. Gostava muito dela. Dava-me uma ajuda enorme. De tal maneira ficámos amigas, que era a única que, a par da minha mãe e irmã, eu deixava que me fizesse o penso a uma escara terrível que tinha feito na zona do coxis. Mas, apanhada em algumas mentiras, tivemos que a dispensar também.

Depois veio a Paula. Baixinha e gordinha, devia ter a minha idade. Era a tal que arrumava a casa a abrir para irmos as duas para a Sul América beber cafés e fumar cigarros. Pegava em mim às cavalitas, descíamos 3 lances de escadas, sentava-me na cadeira que ficava no hall do prédio, e lá íamos nós. Uma companheira. Mas um dia apaixonou-se por um rapaz e decidiu seguir a sua vida.
Da Gorette só me lembro porque era a senhora que trabalhava lá em casa no dia em que eu fiquei de cadeira de rodas. Nesse dia era para vir de manhã mas não conseguiu e ligou a dizer que vinha à tarde. Se tivesse vindo de manhã, talvez eu não tivesse ficado de cadeira de rodas.
Foi durante esta fase que eu e a mana eramos conhecidas como as irmãs metralha. Vá-se lá saber porquê…
Depois largámos Alvalade e fomos viver para a outra margem. Aqui tivemos a Linda, uma cabo-verdiana loira de olhos verdes e cabelo aos caracóis, mas que passados uns anos preferiu regressar à terra. Seguiu-se a Lucy, uma prima dela, boa rapariga, caladona, brutamontes e metódica. Tão metódica que, quando era preciso começar a arrumar a casa por uma divisão diferente, se baralhava toda. Ah, e era exímia em dar-nos cabo de aspiradores. Na era Lucy, que durou quase 7 anos, devemos ter tido uns 4.

Chegamos, por fim, a 2012. E com a saída da Lucy e a morte do Gaspar – que largava pêlo por todo o lado, o que nos obrigava a aspirar a casa diariamente – optámos por contratar uma empresa para, uma vez por semana e em 2 horas, nos dar uma volta à casa. Apareceram-nos 2 irmãs brasileiras – a Emília e a Alcione. Enxutas, bem-dispostas, espertas que nem alhos, rápidas e que não estão ali para brincar. Acabamos por falar sempre um bocadinho, é certo, porque gosto delas, mas em duas horas a casa fica pronta. E num brinco.

E pronto, aqui deixo a minha homenagem a estas senhoras, de quem nunca ninguém fala mas que tanto nos ajudam diariamente. As nossas eram umas mais maradas que as outras, é certo, mas todas com algo em comum que sempre as distinguiu: partilharam e partilham o meu espaço. Fazem parte de importantes pedaços da minha vida. Estiveram lá e ajudaram no que puderam. Sem pensarem duas vezes. É por isso que também merecem estar aqui. É por isso que o meu agradecimento é público e de coração.