2 de março de 2013

Sim, a palavra certa é clã.

E cá estamos nós as quatro, como sempre, ao Sábado. Depois de deitar abaixo mais um repasto da mãe e uma garrafa de espumante.

Antes eramos só as três. Durante anos foi assim. Sempre.
Três amigas mas uma delas, acima de tudo, mãe. Para não confundir as coisas. E outras tantas vezes o árbitro!

Eu, a mana e a mãe. Sempre.
Quando uma tinha um problema, tínhamos as três. Quando uma não tinha problemas, as outras também não tinham.

Com a mana – sim, eu chamo-a assim mas ela nunca me chamou (coisas de irmã mais nova) – passei todos os dias da minha infância. Tínhamos os mesmos amigos. Frequentávamos os mesmos locais. Só não tínhamos os mesmos namorados mas, de preferência, ajudava que fossem os melhores amigos. E quase sempre foram.
A roupa, a mesma. A voz, a mesma. De tal maneira que um dia fui eu que terminei um namoro dela, pelo telefone, porque, claro, a mim não me ia custar nada.

Hoje a roupa dela já não me cabe, mas a voz continua igual. E as expressões. E as gargalhadas. E o que temos de diferente, complementa-nos.
Fomos crescendo e cada uma seguiu o seu caminho em termos de estudos. Ela totalmente virada para o desporto. Eu totalmente virada de costas para o mesmo.

Acho que das únicas vezes que decidi mexer-me um bocadinho mais foi quando resolvi dedicar-me à dança jazz, onde ia depois das aulas terminarem. Mas antes passava pela Sul América, na Avenida de Roma, e pedia ao meu querido Aristides uma brisa. A maior, de preferência. Depois passava por casa, levava o cão à rua, arranjava uma carcaça com geleia (ou de geleia com pão) e, dança jazz com ela. Eu até achava que tinha jeito. Mas duvido que o professor tivesse a mesma opinião porque me punha sempre na fila de trás. Palhaço.
Passadas duas ou três aulas, deixei de aparecer, mas mantive-me fiel às brisas e às carcaças com geleia. Ah, e segui Humanidades/Jornalismo. Percebi que no Desporto não me safava. Suar incomodava-me.

Mas fora isto, fora o percurso profissional, sempre juntas.
Aos 15 anos tenho o acidente em casa que me deixa de cadeira de rodas. Quem chega na hora H e me tira de dentro da casa de banho? A mana. Sim, salvou-me a vida. Ainda hoje brincamos com isto. Mas é a mais pura das verdades. Se não fosse aquela miúda de 16 anos e o seu sangue frio, eu hoje não estava aqui a partilhar alguns dos meus momentos convosco.

Se ainda havia dúvidas que eramos uma, depois deste dia, elas acabaram. Onde estava uma estava outra. Para onde ia uma, ia a outra. E sempre juntas. Muitas das vezes, de táxi. Com os 1000 escudos que a mãe nos dava para sair.
Foi sempre assim. Quando eramos pequenas, na adolescência. E hoje, como adultas.

Agora a mãe. Sempre amiga mas, acima de tudo, mãe. Vá, um bocadinho de tudo mas sem misturar as coisas. O chamado “respeitinho é bonito e eu gosto”. Mas uma mãe que confiava a 100% e que metia as mãos no fogo pelas filhas. E tantas vezes contra tudo e contra todos. Mas nunca se queimou.
Em 29 anos, e por duas vezes, foge-lhes o chão debaixo dos pés. Primeiro, com o episódio da paraplegia, depois o da septicemia. As duas a aguentarem as pontas. Sem saber se iam ter força para as agarrar até ao fim, ou se acabariam por ter que as largar. Mas aguentaram.

Perto daquilo que viria a ser a segunda tempestade, surge o quarto elemento. A Carlota.
Um bocadinho de pessoa que veio mudar as nossas vidas. Para melhor. Um anjo que hoje tenho a certeza que também veio para ajudar a ultrapassar aqueles momentos que tanto nos assustaram mas que também ainda mais nos uniram. E para nos compensar com outros maravilhosos.

Lembro-me de pensar que, se houvesse uma máquina onde se programasse de um lado o género de bebé que queríamos que saísse do outro lado, era exactamente uma daquelas que eu queria que me calhasse.
Lembro-me da minha mãe dizer que tinha sonhado com uma miúda linda, de cabelos compridos aos caracóis e loira. Foi o que nos saiu. Se bem que tivemos que penar uns anos até ter cabelo de jeito para por um gancho!

Hoje é a melhor sobrinha, a melhor neta, a melhor filha.

Como ela diz “chanfrada”. Mas, quem bem a conhece, “com todos os valores no sítio”. Uma obra de arte e a sobrinha mais gira do mundo. Diz a tia babada.

Hoje somos quatro. Quatro sortudas porque, saia quem saia, entre quem entre, estas quatro nunca saem de cena. Refilam, refilam. Mas, de cena, não saem. Sim, e coitadinho de quem entra...!

E no palco da vida, cada vez mais vazio de gente que sente de verdade, que se quer bem de verdade, com o coração, ter tido sempre por perto as pessoas mais importantes da minha vida, é razão para agradecer todos os dias.

E quem não o faz, eu própria falho às vezes, um dia arrepende-se.

Farei tudo para que isso não me aconteça. Um conselho? Façam o mesmo. Porque um dia, quando olharem para trás, podem já ter perdido a oportunidade de o fazer. Ou, pelo menos, de terem lá as pessoas que queriam que vos ouvissem.

História do outro mundo. Ou apenas de uma pistoleira do Velho Oeste.

A famosa Calamity Jane. Uma mulher que nasceu em 1852 e viveu nos Estados Unidos. Dizem que terá sido mulher de Wild Bill Hickok, personagem que, depois de ter lutado durante a Guerra Civil Americana, ganhou fama como jogador profissional. Mas foi também um homem da lei e chegou mesmo a xerife do Kansas e do Nebraska. E grande amigo do famoso Buffalo Bill.

Mas voltemos à Calamity Jane. Começou por fazer trabalho de guia e para isso usava sempre um uniforme masculino que lhe dava um ar durão. Entrava nos saloons sem medo, mascava tabaco como um homem. Era audaz e independente. Ah, e praguejava com frequência.
Mais tarde dedica-se à prostituição, depois passa a cozinheira, mineira, lavadeira, entre muitas outras profissões. Sempre se fez à vida, portanto. Desde cedo. Por necessidade, claro. Mas também por temperamento.


Lutou em tempos contra os índios. Mas dela também se dizia que era uma mulher bondosa, e especialmente preocupada com os doentes e com os mais necessitados.
Wild Bill morre em 1876. Calamity Jane perde aquele que foi o amor da sua vida. Mas como mulher lutadora que era, resolve dar-se uma segunda oportunidade e, em 1885, casa-se com Clinton Burke. 10 anos depois separam-se e Calamity junta-se ao show Buffalo Bill, velho amigo do seu grande amor, e ao Buffalo Bill's Wild West Show. Era a contadora de histórias. E, a viajar, vive até ao final da sua vida em 1903, altura em que morre com uma pneumonia. Tinha 51 anos.

Muito bem, tudo muito é interessante mas, por esta altura, estão vocês a perguntar: porque raio a Marta nos está a dar esta chazada de Calamity Jane? Em primeiro lugar, podia responder-vos com um “aprender não ocupa lugar”. Mas é mais que isso. Já lá vamos.
Sempre tive colado a mim o rótulo de “mau feitio”. Aprendi a viver com ele e, confesso, já pouco me incomoda. Felizmente que os que melhor me conhecem, encaram-no mais como personalidade forte. Aliada a pavio curto, é certo, mas personalidade forte. E frontal. Ou isso ou aprenderam a lidar com ele. Seja o que for, tudo bem.


Assumo que me irrita acima de tudo a incompetência, a falta de garra, de querer aprender. A vontade de ser a desgraçada cá da praça. A inércia. O cinismo. Este último também na vida pessoal porque, na vida profissional, o caso muda naturalmente de figura. Mas não lhe chamaria cinismo. Prefiro chamar-lhe “aprender a sobreviver”. Aprender a trabalhar com todo o tipo de pessoas. Das que gostamos e das que não gostamos. A vida é mesmo assim e as empresas estão cheias de gente de quem gostamos mais que outras. É um facto. E também é um facto que temos que aprender a lidar – leia-se trabalhar - com ambas. Confesso que nesse campo tenho tido alguma sorte.
Mas assumo tudo isto e ainda que, quando me deparo com situações que me desagradam, a tampa tende a saltar-me. Mas também tenho noção que a vida tem-me ensinado a ser mais tolerante. Menos dona da verdade. Mais flexível. E calma, estou nos 37 anos, por isso tenho ainda muito caminho pela frente para aprender. Ou seja, vou tentando sempre melhorar.

“Mas isto não explica a conversa sobre a pistoleira do velho oeste”. Pois não. Mas se vos contar o fim da história, talvez este meu “mau feitio”, “personalidade forte”, ou que quiserem chamar-lhe, tenha, finalmente, uma explicação.
A Calamity Jane não nasceu com este nome. A Calamity Jane nasceu como Martha Jane Cannary. Sim, Martha Cannary. Como eu, Marta Canário.

Quem sabe, não estamos de alguma forma ligadas? O mesmo nome, a mesma garra, a mesma “personalidade forte”. E também contadora de histórias...
Coincidência? Talvez, mas que é curioso é! E eu, confesso, adoro a ideia de um dia, noutra vida, poder ter sido uma pistoleira do velho oeste…

 

PS – ah, e para aqueles que ainda tinham a esperança que eu me tornasse mesmo, mesmo “boazinha”, esqueçam. Pelos vistos está-me nos genes…

1 de março de 2013

"Amar não é olhar um para o outro. É olhar juntos na mesma direcção."

O amor. A paixão. Hoje apeteceu-me falar-vos disto. Não sou especialista na matéria mas, como qualquer mulher que se preze, tenho opinião sobre o tema...!

Acho que tudo começa com paixão. Até aqui parece-me consensual. Depois, das duas, uma. Ou acaba em amor. Ou acaba…e pronto. E se acaba e pronto é porque não chegou ao amor. Ficou-se pela paixão.

A paixão é louca. E torna-nos meios loucos. Mas loucos de, por vezes, perder a cabeça.

Ao ponto de sentirmos as tais borboletas na barriga. E o coração a 100 batidas por minuto só de sentir que o outro está por perto.
É ficar exagerado. Rir demais, falar demais. Tudo demais.

É ser "a princesa". Ou "o príncipe".
Estar apaixonado deixa-nos patetas. Leva-nos a fazer coisas que jamais pensaríamos um dia vir a fazer. Ir por caminhos que antes até criticámos. "Eu, fazer isso? Nunca!!" Mas só porque não estávamos apaixonados. Agora que estamos, é precisamente esse o caminho que fazemos. E conscientes. O nunca deixa de fazer sentido.

A paixão queima. E o que queima dói. É intranquila. É frágil. A mim até me faz perder o apetite. O que, vendo bem, não deixava de dar jeito...
No início leva-nos às nuvens. Faz-nos contar as horas, os minutos e os segundos para voltar a estar com o outro. Tudo passa para segundo plano. A prioridade é aquilo. Aquele.

Faz-nos feliz, também é certo.
Mas a paixão tem um tempo. E vai perdendo a força ao longo dele.

E agora, vamos ao amor. Ai o amor...Haveria tanta coisa para dizer sobre o amor, mas serei concisa.
O amor começa quase sempre com a paixão. Com o tal arrepio que se sente quando os olhares se cruzam. Mas depois da fase pateta, louca, depois do subir às nuvens…há uma espécie de mudança. E é aí que, mais uma vez, das duas, uma: ou se transformou em amor…ou não se transformou em amor.
E o amor é ficar feliz por ter aquela pessoa ao nosso lado. Para sempre.

É aceitá-la como ela é. Com defeitos incluídos. Todinhos.

É ser um mas dar espaço ao outro.
É partilhar com ela como correu o nosso dia. E ela ouvir com interesse. Mesmo que o dia tenha sido uma belíssima seca.

É ter na outra pessoa, a sua melhor amiga. A quem nada se esconde. Com quem tudo se partilha. Sem pudores ou constrangimentos.
É não querer nunca magoar. E quando isso acontece, sem querer, pedir desculpa, conseguir ser desculpado, e não repetir.

É sentir o mesmo que a outra pessoa sente. Feliz quando ela está feliz. Triste quando ela está triste.
É achá-la bonita sem maquilhagem, de carrapito e pijama vestido. E ele…vá, com graça de camisola de alças, boxers e meias até ao joelho. Sim, esta custa, mas amor também é isto.

É ser "a rainha". Ou "o rei".
É nunca nos deitarmos chateados. Ou deitar, mas dormir agarradinhos na mesma. Porque assim amanhã já passou.

Amor é encontrar a tal tampa para a nossa panela. A outra metade da laranja.
É comer as omeletes com cogumelos que ela fez como quem come um prato de sinfonia de porco preto com gnocchis e batata com limão e molho de carbonara. Tudo regado pelo melhor vinho do mundo.

É saber na ponta da língua a cor preferida, o filme preferido e a música preferida. Ou, pelo menos, acertar numa delas.
O amor nunca acaba. Mesmo que as pessoas se separem. Porque o amor, quando isso acontece, transforma-se. Em amizade. E a amizade, se for de verdade, essa sim, é eterna.

Eu amei uma vez e apaixonei-me outra. E, pelo menos comigo, foi assim. Mas cada um sente à sua maneira.
Termino com um vídeo que me tocou. Sobre o amor e o que fica quando ele passa. Se é que passa.

Mas antes, uma explicação sobre o que vão ver:
"Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver.

23 anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente.

Ulay chegou sem que ela soubesse e...foi assim."



PS – para os que ainda acreditavam que eu era uma pedra e que não ligava a estes temas...estavam enganados!

27 de fevereiro de 2013

“As tartarugas conhecem as estradas melhor do que os coelhos”



Daqui de cima, da minha varanda, sem pressa, vejo de tudo.

Vejo quem chega. Vejo quem parte.

Vejo quem chega mas quer partir. Vejo quem parte mas quer ficar.

Vejo quem não parte mas que devia partir.

Vejo a vizinha vaidosa que acha que deslumbra com o olhar. Mas não percebe que já ninguém sequer lhe olha para o resto, quanto mais para os olhos.

Vejo gente que nunca via, mas que passei a ver porque perdeu o emprego.

Vejo a avó que fica com os netos e que todos os dias lhes ralha porque eles não fazem os que ela lhes manda.

Vejo o vizinho enfermeiro que, por ser enfermeiro, anda sempre desencontrado nas horas.

Vejo o casal de velhotes que todos os dias, à mesma hora, apanha o autocarro para algures.

Vejo os pais a saírem cedo demais, com os filhos encasacados, para mais um dia de escola e trabalho.

Vejo os senhores das obras do prédio ao lado a saírem juntos para almoçar na tasca do fundo da rua porque “é barata e come-se bem”.

Vejo o casal engraçado - ele muito magrinho, ela muito gordinha - que entra no carro a discutir, mas que quando regressa já vem de mão dada. E ela com uma flor numa das mãos.

Vejo o motorista do autocarro cuja pausa na paragem é sagrada para fazer um chichi num desgraçado de um pinheiro escondido num canto do parque de estacionamento.


Vejo o grupo de senhoras mais velhas que fazem as suas caminhadas, de manhã bem cedo e ao fim do dia. Todas com uns ténis calçados e de coletes reflectores vestidos. Falam das noras, dos genros, dos maridos. Da vida. Sim, na maioria das vezes, da vida dos outros.

Vejo os sofás, as cadeiras, os armários - ou outras tralhas velhas que alguém deixou de querer e que, por isso, encostou ao caixote do lixo -, a desaparecer em menos de minutos. Uns levam por gozo, é certo, mas outros por necessidade.

Vejo um bando de pardais barulhentos que lutam por uma migalha deixada no meio da estrada.

Vejo o gato gordo e coxo a fazer o que mais gosta (depois de fugir aos cães): a vadiar entre carros e a dormir de barriga para o ar, ao sol.

Vejo o vizinho que todos os dias sai de casa para deitar o lixo, mas antes pára num canteiro que fica no cantinho da rua para deixar comida ao gato. Daí ele ser gordo.

Vejo o Mike, o cão do rapaz de cabelo grisalho do prédio ao lado, que ladra e pula enquanto passeia. De felicidade. Depois entra no carro do dono, e segue com ele para o trabalho.

Vejo o Mozart, o golden retriever aqui da rua, a passear com a dona, e fico com saudades do Gaspar. O coração sobe-me para a garganta.

Vejo o meu pinhal e, nele, três coelhos destemidos que se arriscam a chegar perto da estrada, mas que rapidamente voltam para trás, aos saltos. E se perdem por entre os arbustos.

Vejo o mar, ao longe. Mas vejo o mar. Tão azul, mas tão azul, que se entranha com o céu.

Na minha rua vive-se. Mais do que isso, vivem-se vidas reais. Diferentes. Mas verdadeiras. Iguais a tantas outras.

E eu, vendo-as cá de cima, da minha varanda, sem pressa, consigo imaginar a história que está por detrás de cada uma.

Liberdade de voar



Sempre sonhei experimentar a liberdade de voar. A liberdade dos pássaros.

Por isso, se hoje, agora, me fosse concedido um desejo, como do génio da lâmpada, era isso que lhe pedia. Que me fizesse voar. Voar sem parar. Voar. Apenas voar.

E que, em vez de me dar asas, chamasse as gaivotas e os corvos que vivem na minha rua para darem uma ajuda.

Era simples. Davam as asas uns aos outros, faziam uma espécie de cadeirinha de penas, e eu sentava-me nela. E íamos. Ou melhor, e voávamos.

Com as gaivotas podia fazer razias ao mar, tocar-lhe com as pontas das patas. E picar o peixe distraído que andasse à superfície.

Já os corvos podiam levar-me até ao cimo dos pinheiros mais altos. E fazer como eles costumam fazer, saltar de um para o outro. Ou cantar em cima das chaminés dos prédios lá da rua. Para acordar a vizinhança.

Depois, já todos juntos, subíamos a pique até uma nuvem. Nunca vi uma nuvem por dentro. Gostava de saber como é. De saber se a sentimos na pele quando passamos por ela. De saber se tem cheiro.

De seguida, e depois de subirmos a pique, fazíamos o contrário, descíamos a pique. E rasávamos as traineiras dos pescadores, daqueles que corajosamente se aventuram no mar, cheias de peixe. E riamo-nos com os seus protestos sempre que conseguíamos roubar-lhes um ou outro peixe.


Para terminar o dia, podíamos pousar na copa do pinheiro. Mas do mais alto. Devagarinho, mas muito devagarinho. Aí, quase de forma delicada, as gaivotas, com a ajuda dos corvos, sentavam-me suavemente e de novo, na minha cadeira, na minha varanda.

No fim, acenava-lhes num gesto de agradecimento. Por me terem ajudado a realizar um sonho. Voar e sentir, mesmo que apenas por um dia, a sua liberdade.

Depois as gaivotas regressavam ao mar, os corvos ao pinhal e às suas chaminés. E acabava assim.

Mas todos os dias nos víamos. E tenho a certeza de que me bastaria fazer-lhes um sinal, um pequenino sinal, e eles voltavam a unir as asas, a fazer a cadeirinha de penas e a levar-me para mais uma aventura. 

Até lá, basta-me fechar os olhos e pensar: sou uma sortuda. Já voei. Já senti a liberdade de um pássaro. E aí sorrio.

Um sonho? Talvez, mas isso é bom, porque como dizia o poeta, nós somos do tamanho dos nossos sonhos. E os meus são sempre assim, enormes.

25 de fevereiro de 2013

Missão: ser feliz.

São as coisas mais simples que me fazem feliz. Não estão por nenhuma ordem em especial, mas não é por isso que deixam de me fazer feliz.

De acordar de manhã e ver que está sol. Ou a chover. Mas que acordei. Que estou viva. Mais um dia.

De sonhar e lembrar-me do sonho.
De me espreguiçar mas, ao fazê-lo, sentir cada bocadinho do meu corpo a descontrair.

De ouvir no quarto ao lado, a minha mãe a abrir o estore. Também a tenho mais um dia.
De acordar sem enxaquecas. Quem tem, sabe do que falo.

De tomar o pequeno-almoço e ir a correr para a varanda para me despedir da mana e da Carlota. Mais um dia de trabalho e de escola. Mais um dia que passa, e também elas estão por cá.
De tomar um banho quente, rápido, mas com tempo suficiente para sentir a água a escorrer-me pelo corpo. De preferência com o cheiro do gel de duche de chocolate.

De olhar para o espelho e ver algo que me agrada. Por fora. Durante os meses em que estive doente e magra, não queria sequer ter espelhos à minha volta. E foram meses demais.
Mas também de olhar para dentro de mim e gostar do que vejo. Orgulhar-me. Chama-se amor-próprio e ajuda-nos muito a viver na selva em que o mundo se tornou.

De ir à empresa e sentir que fiz falta nos dias em que não apareci. Que notam quando não estou.
 
De chegar ao fim de mais um dia de trabalho e sentir que piquei todas as tarefas que tinha listado. Sentir que tive um dia produtivo.

De ouvir a minha rádio enquanto trabalho em casa, enquanto arrumo o quarto, enquanto me arranjo para sair. Ou para estar em casa.
De chegar à hora de almoço e sentir fome. Passei meses a mais a não sentir, por estar doente.

De receber ou fazer um telefonema a uma amiga com quem já não falo há muito tempo. Mas esse tempo parecer quase nenhum.
De não deixar passar um dia sem sentir que fiz alguém feliz. Ou porque lhe sorri, ou porque lhe agradeci, ou porque a ouvi.

De pegar num livro e mergulhar na história. De tal forma, que o leio em poucos dias. Nunca mais me esquecer da história. E, quando escolho um presente para uma pessoa especial, escolho esse livro, na esperança que ela sinta o mesmo que eu senti ao lê-lo.
De me enfiar na cozinha e inventar. Ou apenas de cozinhar para a minha família. Desde umas simples costeletas com arroz até algo mais elaborado. E depois dizerem-me que “ficou bom”.

De fazer um grelhado na varanda para…as 4.
De beber uma garrafa de espumante com a minha irmã ao Sábado à noite, em casa, e ficar com a gargalhada mais fácil. E com as bochechas vermelhas. Depois disto, um charuto e um porto.

De chegar à noite a casa e ter a lareira acesa, a Carlota à espera, tratada, confortável e cheia de histórias para contar. Ou de ser eu a tratar dela.

De dormir uma sesta depois de almoçar em casa, no fim de semana. No Inverno, com os meus sacos de água quente.
De ouvir o crepitar da lareira numa noite de Inverno. Ou os grilos numa noite de Verão. E os corvos durante o ano todo.

De mantas. Muitas mantas. E almofadas. Muitas almofadas. E de sacos de água quente. Muito quentes.
De me lembrar do Gaspar sem chorar. Sei que ainda vai levar tempo.

 
De ver televisão esparramada no sofá.
De café acabado de fazer. Acompanhado de 3 quadradinhos de chocolate de leite Milka.

De estar na minha varanda. E ver o que vejo dela. A lua, por exemplo.
De escrever. Mesmo coisas assim, sem grande sentido. Mas escrever. Deitar cá para fora o que me vai na alma. Mesmo que só me interesse a mim.

Das histórias que vivi e que consegui passar para o papel com a intensidade com que as vivi.
De me sentir feliz só porque…sim. Sem mais grandes explicações. Só porque sim.
De poder fazer tudo o que acabei de escrever, mas ter a capacidade de sentir no coração que o estou a fazer. E ficar quentinho.

Para mim, ser feliz passa por pouco. Porque estive perto demais de nunca mais poder sentir. Mas, se calhar, foi preciso. Para perceber como é bom poder sentir. E quando eu digo sentir, é mesmo isso: Sentir. Com S grande.

Como alguém um dia disse, "A felicidade não é um luxo: está em nós como nós próprios."
Ser feliz e fazer por ser, é isso mesmo, o meu luxo.

24 de fevereiro de 2013

“Em cada rosto, igualdade/ O povo é quem mais ordena.”

Antes de tudo, um esclarecimento. Com esta crónica, apenas constato o estado do meu País. Ou melhor, o mau estado do meu País. Porque ele merece que eu diga o que sinto. Até porque politica faz-me urticária.

Igualdade não tem havido. Nenhuma. No meu País. Sim, aquele que ganha prémios de melhor destino turístico em revistas estrangeiras. Aquele com gente única, clima de sonho, sitíos de cortar a respiração. Já para não falar do que por aqui se come, que conquista qualquer criatura que nos visita.

Mas o povo, esse, já nada ordena. O povo vota mas os Governos depois fazem o que querem e, acima de tudo, como querem.
A bem da verdade, o povo nunca tem grandes alternativas quando lhe dão a escolher. Afinal, tão bons são uns como os outros. A ambição desmedida, a ganância, a obsessão pelo poder. Hoje em dia, os valores pelos quais cada partido se rege, ficam-se apenas pelos livros. E já não nos corações e nas almas dos seus dirigentes. Já pouco lutam, de verdade, por eles.

Posso até aceitar que haja quem entre nesta vida com boas intenções. Mas não entendo que não saiam no momento exacto em que percebem como aquilo funciona.
Faz hoje 26 anos que o Zeca morreu. O Grândola Vila Morena, música bandeira, foi símbolo de uma revolução. Uma revolução que devolveu ao povo, quando ele, de facto, conseguia ordenar, a liberdade que não conhecia com a Ditadura.

É uma música que fala sobre a fraternindade. Fala sobre amor ao próximo. Valor que se foi perdendo com o tempo. Valor que o tempo, simplesmente, apagou.
Eram 00:20 minutos do dia 25 de Abril. 1974. O Grândola Vila Morena o sinal que a revolução ia avançar. Que o povo ia para a rua. Avançou, derrotou a Ditadura e ali nasceu a Democracia. Que quer dizer Governo ao povo. Governo em que o povo, de uma forma, directa ou indirecta, governa.

39 anos depois? Só tretas. O povo elege, escolhe, é verdade. Vai confiando que este ou aquele dará o seu melhor. Vai confiando que este ou aquele dará um rumo ao seu País. E depois? Depois acontece o mesmo de sempre. Enchem os bolsos, ajudam os amigos. E, os que realmente tentam mudar o sistema, ou se enrolam na teia e se deixam levar, ou acabam por desistir.

Facto: a vida das pessoas está cada vez pior. Facto: a vida das pessoas está cada vez mais longe de ser vida. Porque uma grande parte não vive. Limita-se a sobreviver.

Há mais fome, mais miséria. Que agora vem de onde antes não vinha. Hoje há vergonha de assumir que se passou a fazer parte daquele grupo de pessoas que não tem nada para comer no frigorífico. Que deixou de poder pagar um tecto para viver.

Grândola continua a ser uma vila morena. Pode até continuar a ser a terra da fraternidade. Mas já não é o povo quem, dentro dela, mais ordena.

Hoje voltou a cantar-se o Grândola Vila Morena. Virou moda. Mas hoje não há revoluções. Há pequenos grupos de pessoas que se juntam para se manifestarem. Alguns até com as intenções erradas. Usando os métodos errados. Mas, mesmo quando são muitas, continuam a conseguir fazer pouco. Porque a máquina é poderosa, finge-se de surda e o povo é demasiado sereno para voltar a revoltar-se com firmeza.

Mas as coisas tem vindo a aquecer. Por isso, hoje é assim. Mas eu pergunto: será para sempre assim?
Começo, finalmente, a ter esperança que não. E que, um dia, brevemente, isto mude.