9 de março de 2013

"Mulher: a mais nua das carnes vivas e aquela cujo brilho é o mais suave."

Ser mulher é ser um montão de coisas boas.

É pensar com o coração. Mas saber dar tempo de antena à cabeça. Aliás, saber juntar as duas na perfeição.

É saber que a vida é gerada dentro dela. Sentir cada dia, cada semana, cada mês. Ter esse poder. Ser a única a tê-lo. Sim, e vomitar pelo meio.

É ter um filho a chorar de dor, mas a rir de felicidade. Tudo ao mesmo tempo. E depois esquecer tudo num instante e voltar a dar vida a uma nova vida.
É saber que, para chegar mais longe, ou tão longe como um homem, tem que lutar o dobro. O triplo. E isso não a fazer parar. Antes, motivá-la.

É saber que um sorriso vale mais que muitas palavras. Mas saber dizer aquelas palavras para conseguir aquele sorriso.
 
É falar pelos cotovelos. Mas saber parar e ouvir os outros.

É passar o dia a trabalhar, chegar a casa e ter uma máquina de roupa para fazer. Para depois estender. E um jantar para preparar. E uma cozinha para arrumar. E mais um dia para preparar. E saber viver assim todos os dias.
É ter um dedo que adivinha. Um sexto sentido. Ou fingir que tem.

É ser justa quando é preciso ser justa. E quando é injusta ser justa o suficiente para voltar atrás e reconsiderar.
É conseguir atravessar tempestades como quem navega em mares calmos.


É conseguir fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo. E tudo feito de uma forma que parece ter sido apenas aquela a tarefa do dia.

É sonhar acordada. Porque sonhar de noite é para quem não consegue imaginação para mais.

É ter um lado forte e fazer dele o pilar da sua vida. Mas gostar de ser protegida e abraçada. Não abafada. Abraçada.
É gritar, refilar e chorar desalmadamente sempre que lhe apetece. E depois parar e seguir a vida. Porque a vida pede. Ou nunca chorar. Até ao dia em que a vida lhe pede que o faça. E fazê-lo sem vergonha.

É apaixonar-se perdidamente por um olhar, por uns lábios, por umas mãos, por um timbre de voz. Mais do que por umas boas pernas, um bom rabo, uma bela peitaça. Mas não deixar de olhar para isso também.

É perder o pé mas aguentar-se, dar ao braços, até chegar ajuda. E aceitá-la.


É não pescar nada de futebol mas ser a melhor treinadora de bancada. E saber o nome dos jogadores mais giros. Mesmo que sejam de outras equipas.

É não saber mudar uma lâmpada ou um pneu de um carro mas ter sempre um amigo por perto para o fazer por ela. Não saber nem querer saber como se faz. Até porque a prioridade é manter as unhas sempre impecáveis.
 
Ser mulher é isto tudo e muito mais. Porque ser mulher é não ter limites. Nem para o ser.

Hoje o dia é nosso. E porque se é nosso também é meu, este eu dedico-o às mulheres da minha vida: mana, mãe e sobrinha. As melhores que a vida me podia ter dado.
Para elas, a melhor canção:


O mundo não seria mundo sem nós. E isto, é um facto. Venham de lá essas mulheres!

6 de março de 2013

“Devemos aceitar o que é impossível deixar de acontecer.”


“Marta, viste aquela notícia que deu ontem na televisão sobre uma possível cura para lesões medulares?”
“Junto envio imagem do tal aparelho, tipo robot, que encontrei na net e que consegue pôr um paraplégico em pé e a andar. Vê se te interessa!”

“Já ouviste falar daquele médico português que tira células do nariz e implanta na medula porque descobriu que a capacidade de regeneração das células nasais é grande e pode fazer o mesmo na medula?
“Dissera-me que em Israel é que é”. “A mim foi em Cuba”.

Foi assim durante muito tempo e, curiosamente, ainda hoje, 23 anos depois, isto acontece. Com menos frequência, mas acontece.
É bom sinal, eu sei. É sinal que os meus amigos, que eu sei que gostam de mim assim, continuam, no entanto, atentos a tudo o que aparece de novo para me verem a andar. Para alguns, muitos deles, seria mesmo a primeira vez.

É bom sinal e eu agradeço sempre, de coração. Que fique claro.
No primeiro ano de acidente, depois do período inicial de internamentos em hospitais – que penso que terminou em Agosto – lembro-me que os meus pais me perguntaram se eu queria parar um ano para me dedicar apenas à fisioterapia. Ou se preferia partilhar o meu tempo entre isso e continuar na escola. Optei pela segunda hipótese. A ideia de centrar toda a minha atenção apenas na recuperação, parar durante um ano e afastar-me de tudo, não me agradava.

Nos 3 ou 4 primeiros anos após acidente, fui a todas. Fisioterapia em Alcoitão, depois fora dele, em centros especializados. Também em casa. Homeopatia, acupunctura. Voei até Londres. Onde me disseram que o tratamento para casos como o meu estava “em ratinhos e pode demorar 10, 20, 30, 40 anos. Ou, simplesmente, nunca acontecer.” E acrescentaram no relatório, por escrito “que o essencial seria manter o espírito positivo” que já à época mostrava ter. Isso consegui.
Depois destes primeiros anos, senti uma necessidade de mudança dentro do meu coração. Que me levou a tomar uma decisão. Já estava farta da fisioterapia. Já nem a fazia de jeito. O que era um facto é que pouca ou nenhuma recuperação tinha havido. E eu sentia isso como ninguém. Estava na hora de parar.

Mas, durante esses primeiros anos, uma coisa tinha acontecido. Num ambiente sempre cheio de esperança, tinha-me habituado a viver numa cadeira de rodas. E a viver feliz. Percebi que o tempo que “gastava” em horas de fisioterapia com o objectivo de recuperar, me estavam a “roubar” tempo com amigos. Tempo de torradas no Continental, o café ao lado da faculdade. Tempo de passeios pelos jardins da Gulbenkian com os meus colegas da altura. Tempo "normal" da minha idade. Tempo de vida. Tempo a viver.
Por isso decidi abrandar o ritmo e retomar a minha vida normal. À vida normal de uma miúda de 18 ou 19 anos, que tudo o que queria era o que qualquer outra miúda dessa idade poderia querer. Estudar, sair à noite, aproveitar a adolescência. Uma decisão que foi claramente compreendida e apoiada pela família. Sabiam que só assim eu poderia ser feliz.

E, assim, segui a vida e cheguei aos dias de hoje. Com montanhas de obstáculos pelo meio, mas cheguei. Com montanhas de cicatrizes, uma literais outras não, hoje fechadas, mas cheguei.
Agoro volto às citações iniciais, para tentar apenas que compreendam algo que para muitos sei que é algo difícil de compreender. Ou mesmo impossível.

Neste momento da minha vida, e depois de tudo o que passei, ultrapassei e conquistei, nenhuma hipótese de tratamento que visesse “do outro lado do mundo” me faria parar e ir, sem saber sequer quando voltava. Neste momento da minha vida, e depois de tudo o que passei, ultrapassei e conquistei, nada me faria afastar-me das pessoas que amo, do trabalho que adoro, da vida que escolhi, para ir “experimentar”/tentar voltar a andar. Porque, lamento, mas não acredito que haja uma cura científica para a minha situação. E já há algum tempo que só sigo aquilo em que realmente acredito. No meu coração.
Já agora, quanto à tal hipótese do robot, que me voltaria a pôr em pé, percebi e agradeci a quem mo indicou. Mas a ideia de me tornar numa máquina estranha, aos meus olhos e aos olhos dos outros, está fora dos meus planos. Até porque máquina já eu sou. Quando acordo de manhã, me arranjo e saio de casa cheia de pica para trabalhar (vá, tem dias!) ou para me ir divertir. Mesmo num país que pouco pensa em mim em termos de acessibilidades. Mesmo num país que pouco ou nada me motiva para continuar a lutar por ele.

Tudo se resume a uma frase simples. Daquelas de apenas duas palavras: sou feliz. Mesmo assim, sentada.
E o resto são tretas. No fundo é como diz a senhora da música abaixo: eu sou o que sou.
 

5 de março de 2013

Dos anos 80 aos 90. Dos melhores que já vivi!

Eram os “loucos anos 80/90”. Mas os meus foram calminhos. Calminhos mas muito divertidos.

Chegar a casa, depois de um dia de escola, fazer uma panqueca ou uma tosta mista - com 3 fatias de fiambre e 4 de queijo -, um refresco de café e ligar a televisão era uma das minhas “loucuras” diárias preferidas.
Na altura só havia um canal, e parte da tarde era preenchida pela mítica Vera Roquette e o seu Agora Escolha.


Espaço 1999, Acção em Miami, Modelo e Detective, Kung fu, Alf, MacGyver, A-Team, o Justiceiro, o Homem da Atlântida. Bloco A ou Bloco B. Um número de telefone para onde ligávamos e a escolha era nossa. E eu ligava sempre.

O Agora Escolha não foi um programa qualquer! O Agora Escolha foi um dos primeiros programas interactivos da televisão.

Depois havia o Adam Curry e o Countdown. Um programa de videoclipes. Era a nossa MTV. Vá, e o Adam, uma das minhas grande paixões...Europe, Level 42, Bananarama, Pet Shop Boys, The Smiths, Housemartins, Kim Wilde, Lloyd Cole, Nik Kershaw. Bom, foram tantos, que ficaríamos aqui um eternindade. 

Na mesma altura, eu, a minha irmã e a minha prima Tété, que já tinha perto de 15 anos, fazíamos parte do Clube Oficial de Fãs dos Duran Duran. Cada uma de nós tinha o seu eleito. Mas se eu optava por um que elas decidissem gostar, mesmo que de um dia para o outro, lá tinha que eu mudar de ídolo. Eu, não elas. Aconteceu umas vezes. Mas enfim, já se sabe que as mais novas são sempre as mais sacrificadas. Acabei por ficar com o Nick Rhodes…O mais feínho, diga-se de passagem.

Mas os Duran Duran não eram os únicos que seguíamos com atenção. Apesar de não fazermos oficialmente parte do clube de fãs, também gostávamos dos Kajagoogoo. E, sim, sabíamos o single “To Shy” de cor…Aliás, ainda hoje sei.
Nunca mais me vou esquecer no dia em que eles vieram a Portugal. E, claro, lá foram as primas para a porta do hotel Penta ver se tinham a sorte de os ver entrar. Esperámos horas. Horas! E nada. Nós e mais umas centenas de fãs.
A certa altura, e porque já era tarde, a mana e a Tété foram ao café mais próximo ligar para as nossas mães. Era preciso avisá-las de que ainda íamos demorar “porque eles ainda não saíram mas devem estar mesmo, mesmo a sair…!”. E lá foram as duas.

Mandaram-me ficar à porta da garagem do Penta, que estava longe da confusão da porta por onde se esperava que eles saíssem. A principal. “Não saias daí que nós não demoramos”. Aquilo para mim era mesmo uma ordem. Nem me mexi.
E ainda bem porque a sorte, meus amigos, estava do meu lado. Lá fiquei eu, encostada à parede da garagem do Penta, absolutamente sozinha, à espera que elas chegassem. Muito bem-mandada, portanto.

 
Eis senão quando acontece uma cena digna de filme: do nada abre-se a porta da garagem. Lá de dentro sai uma limusine branca. "Valha-me Deus que são eleeees"! E eu ali sozinha! Com as pernas a tremer e sem ninguém a quem me agarrar…a quem contar, com quem partilhar, pá!
Paraliso por completo. Só me lembro do ver o Limahl e o Nick Beggs a abrirem as janelas, olharem-me nos olhos, a mandarem-me um beijo e dizerem-me adeus. Tudo aquilo só para mim! Tinha 8 anos, caraças! Por muitos anos que viva, nunca mais me vou esquecer daquele momento.

Quando voltei ao meu estado normal lembro-me de ter pensado “e aquelas totós que foram ligar às nossas mães precisamente agora. E as outras especadas à porta do hotel e eles a saírem pela garagem…!” Lucky me!

Nesta altura jogava Pac-Man, comprava a Bravo em alemão e forrava as paredes dos quartos com os posters que ali eram publicados. Ouvia a Nena e os "99 red balloons".


Ensaiávamos coreografias durante a tarde, ligávamos aos nossos pais para eles chegarem mais cedo. Temos “uma surpresa preparada para vocês”. Pais que, depois de um dia extenuante de trabalho, ainda se sentavam no sofá a assistir ao nosso espectáculo.

Entre vários, cantavamos o We are the world. Com a minha irmã. Cada uma de nós imitava um cantor. Ainda hoje fazemos isso na perfeição! É só porem-nos à prova.
 
Eram os anos 80/90. Eu vivi-os, calmamente, entre os 5 e os 14. E, quem como eu viveu estes anos e estes momentos, mesmo que assim, calmamente, sem grandes loucuras, teve uma sorte gigante. Porque estava tudo a começar.

Novas bandas, novos estilos, novos canais. Mais informação, mais tudo. Inovação, atrás de inovação. Muita coisa a acontecer pela primeira vez. Portugal estava a abrir-se ao mundo a uma velocidade enorme. E eu a viver aquilo tudo. Ao vivo e preto e branco. Mais tarde, a cores.
E sim, passaram-me as paixões platónicas. Começaram as mais…eu diria, realistas. Mas dessas, quem sabe se falarei noutro dia? :)

2 de março de 2013

Sim, a palavra certa é clã.

E cá estamos nós as quatro, como sempre, ao Sábado. Depois de deitar abaixo mais um repasto da mãe e uma garrafa de espumante.

Antes eramos só as três. Durante anos foi assim. Sempre.
Três amigas mas uma delas, acima de tudo, mãe. Para não confundir as coisas. E outras tantas vezes o árbitro!

Eu, a mana e a mãe. Sempre.
Quando uma tinha um problema, tínhamos as três. Quando uma não tinha problemas, as outras também não tinham.

Com a mana – sim, eu chamo-a assim mas ela nunca me chamou (coisas de irmã mais nova) – passei todos os dias da minha infância. Tínhamos os mesmos amigos. Frequentávamos os mesmos locais. Só não tínhamos os mesmos namorados mas, de preferência, ajudava que fossem os melhores amigos. E quase sempre foram.
A roupa, a mesma. A voz, a mesma. De tal maneira que um dia fui eu que terminei um namoro dela, pelo telefone, porque, claro, a mim não me ia custar nada.

Hoje a roupa dela já não me cabe, mas a voz continua igual. E as expressões. E as gargalhadas. E o que temos de diferente, complementa-nos.
Fomos crescendo e cada uma seguiu o seu caminho em termos de estudos. Ela totalmente virada para o desporto. Eu totalmente virada de costas para o mesmo.

Acho que das únicas vezes que decidi mexer-me um bocadinho mais foi quando resolvi dedicar-me à dança jazz, onde ia depois das aulas terminarem. Mas antes passava pela Sul América, na Avenida de Roma, e pedia ao meu querido Aristides uma brisa. A maior, de preferência. Depois passava por casa, levava o cão à rua, arranjava uma carcaça com geleia (ou de geleia com pão) e, dança jazz com ela. Eu até achava que tinha jeito. Mas duvido que o professor tivesse a mesma opinião porque me punha sempre na fila de trás. Palhaço.
Passadas duas ou três aulas, deixei de aparecer, mas mantive-me fiel às brisas e às carcaças com geleia. Ah, e segui Humanidades/Jornalismo. Percebi que no Desporto não me safava. Suar incomodava-me.

Mas fora isto, fora o percurso profissional, sempre juntas.
Aos 15 anos tenho o acidente em casa que me deixa de cadeira de rodas. Quem chega na hora H e me tira de dentro da casa de banho? A mana. Sim, salvou-me a vida. Ainda hoje brincamos com isto. Mas é a mais pura das verdades. Se não fosse aquela miúda de 16 anos e o seu sangue frio, eu hoje não estava aqui a partilhar alguns dos meus momentos convosco.

Se ainda havia dúvidas que eramos uma, depois deste dia, elas acabaram. Onde estava uma estava outra. Para onde ia uma, ia a outra. E sempre juntas. Muitas das vezes, de táxi. Com os 1000 escudos que a mãe nos dava para sair.
Foi sempre assim. Quando eramos pequenas, na adolescência. E hoje, como adultas.

Agora a mãe. Sempre amiga mas, acima de tudo, mãe. Vá, um bocadinho de tudo mas sem misturar as coisas. O chamado “respeitinho é bonito e eu gosto”. Mas uma mãe que confiava a 100% e que metia as mãos no fogo pelas filhas. E tantas vezes contra tudo e contra todos. Mas nunca se queimou.
Em 29 anos, e por duas vezes, foge-lhes o chão debaixo dos pés. Primeiro, com o episódio da paraplegia, depois o da septicemia. As duas a aguentarem as pontas. Sem saber se iam ter força para as agarrar até ao fim, ou se acabariam por ter que as largar. Mas aguentaram.

Perto daquilo que viria a ser a segunda tempestade, surge o quarto elemento. A Carlota.
Um bocadinho de pessoa que veio mudar as nossas vidas. Para melhor. Um anjo que hoje tenho a certeza que também veio para ajudar a ultrapassar aqueles momentos que tanto nos assustaram mas que também ainda mais nos uniram. E para nos compensar com outros maravilhosos.

Lembro-me de pensar que, se houvesse uma máquina onde se programasse de um lado o género de bebé que queríamos que saísse do outro lado, era exactamente uma daquelas que eu queria que me calhasse.
Lembro-me da minha mãe dizer que tinha sonhado com uma miúda linda, de cabelos compridos aos caracóis e loira. Foi o que nos saiu. Se bem que tivemos que penar uns anos até ter cabelo de jeito para por um gancho!

Hoje é a melhor sobrinha, a melhor neta, a melhor filha.

Como ela diz “chanfrada”. Mas, quem bem a conhece, “com todos os valores no sítio”. Uma obra de arte e a sobrinha mais gira do mundo. Diz a tia babada.

Hoje somos quatro. Quatro sortudas porque, saia quem saia, entre quem entre, estas quatro nunca saem de cena. Refilam, refilam. Mas, de cena, não saem. Sim, e coitadinho de quem entra...!

E no palco da vida, cada vez mais vazio de gente que sente de verdade, que se quer bem de verdade, com o coração, ter tido sempre por perto as pessoas mais importantes da minha vida, é razão para agradecer todos os dias.

E quem não o faz, eu própria falho às vezes, um dia arrepende-se.

Farei tudo para que isso não me aconteça. Um conselho? Façam o mesmo. Porque um dia, quando olharem para trás, podem já ter perdido a oportunidade de o fazer. Ou, pelo menos, de terem lá as pessoas que queriam que vos ouvissem.

História do outro mundo. Ou apenas de uma pistoleira do Velho Oeste.

A famosa Calamity Jane. Uma mulher que nasceu em 1852 e viveu nos Estados Unidos. Dizem que terá sido mulher de Wild Bill Hickok, personagem que, depois de ter lutado durante a Guerra Civil Americana, ganhou fama como jogador profissional. Mas foi também um homem da lei e chegou mesmo a xerife do Kansas e do Nebraska. E grande amigo do famoso Buffalo Bill.

Mas voltemos à Calamity Jane. Começou por fazer trabalho de guia e para isso usava sempre um uniforme masculino que lhe dava um ar durão. Entrava nos saloons sem medo, mascava tabaco como um homem. Era audaz e independente. Ah, e praguejava com frequência.
Mais tarde dedica-se à prostituição, depois passa a cozinheira, mineira, lavadeira, entre muitas outras profissões. Sempre se fez à vida, portanto. Desde cedo. Por necessidade, claro. Mas também por temperamento.


Lutou em tempos contra os índios. Mas dela também se dizia que era uma mulher bondosa, e especialmente preocupada com os doentes e com os mais necessitados.
Wild Bill morre em 1876. Calamity Jane perde aquele que foi o amor da sua vida. Mas como mulher lutadora que era, resolve dar-se uma segunda oportunidade e, em 1885, casa-se com Clinton Burke. 10 anos depois separam-se e Calamity junta-se ao show Buffalo Bill, velho amigo do seu grande amor, e ao Buffalo Bill's Wild West Show. Era a contadora de histórias. E, a viajar, vive até ao final da sua vida em 1903, altura em que morre com uma pneumonia. Tinha 51 anos.

Muito bem, tudo muito é interessante mas, por esta altura, estão vocês a perguntar: porque raio a Marta nos está a dar esta chazada de Calamity Jane? Em primeiro lugar, podia responder-vos com um “aprender não ocupa lugar”. Mas é mais que isso. Já lá vamos.
Sempre tive colado a mim o rótulo de “mau feitio”. Aprendi a viver com ele e, confesso, já pouco me incomoda. Felizmente que os que melhor me conhecem, encaram-no mais como personalidade forte. Aliada a pavio curto, é certo, mas personalidade forte. E frontal. Ou isso ou aprenderam a lidar com ele. Seja o que for, tudo bem.


Assumo que me irrita acima de tudo a incompetência, a falta de garra, de querer aprender. A vontade de ser a desgraçada cá da praça. A inércia. O cinismo. Este último também na vida pessoal porque, na vida profissional, o caso muda naturalmente de figura. Mas não lhe chamaria cinismo. Prefiro chamar-lhe “aprender a sobreviver”. Aprender a trabalhar com todo o tipo de pessoas. Das que gostamos e das que não gostamos. A vida é mesmo assim e as empresas estão cheias de gente de quem gostamos mais que outras. É um facto. E também é um facto que temos que aprender a lidar – leia-se trabalhar - com ambas. Confesso que nesse campo tenho tido alguma sorte.
Mas assumo tudo isto e ainda que, quando me deparo com situações que me desagradam, a tampa tende a saltar-me. Mas também tenho noção que a vida tem-me ensinado a ser mais tolerante. Menos dona da verdade. Mais flexível. E calma, estou nos 37 anos, por isso tenho ainda muito caminho pela frente para aprender. Ou seja, vou tentando sempre melhorar.

“Mas isto não explica a conversa sobre a pistoleira do velho oeste”. Pois não. Mas se vos contar o fim da história, talvez este meu “mau feitio”, “personalidade forte”, ou que quiserem chamar-lhe, tenha, finalmente, uma explicação.
A Calamity Jane não nasceu com este nome. A Calamity Jane nasceu como Martha Jane Cannary. Sim, Martha Cannary. Como eu, Marta Canário.

Quem sabe, não estamos de alguma forma ligadas? O mesmo nome, a mesma garra, a mesma “personalidade forte”. E também contadora de histórias...
Coincidência? Talvez, mas que é curioso é! E eu, confesso, adoro a ideia de um dia, noutra vida, poder ter sido uma pistoleira do velho oeste…

 

PS – ah, e para aqueles que ainda tinham a esperança que eu me tornasse mesmo, mesmo “boazinha”, esqueçam. Pelos vistos está-me nos genes…

1 de março de 2013

"Amar não é olhar um para o outro. É olhar juntos na mesma direcção."

O amor. A paixão. Hoje apeteceu-me falar-vos disto. Não sou especialista na matéria mas, como qualquer mulher que se preze, tenho opinião sobre o tema...!

Acho que tudo começa com paixão. Até aqui parece-me consensual. Depois, das duas, uma. Ou acaba em amor. Ou acaba…e pronto. E se acaba e pronto é porque não chegou ao amor. Ficou-se pela paixão.

A paixão é louca. E torna-nos meios loucos. Mas loucos de, por vezes, perder a cabeça.

Ao ponto de sentirmos as tais borboletas na barriga. E o coração a 100 batidas por minuto só de sentir que o outro está por perto.
É ficar exagerado. Rir demais, falar demais. Tudo demais.

É ser "a princesa". Ou "o príncipe".
Estar apaixonado deixa-nos patetas. Leva-nos a fazer coisas que jamais pensaríamos um dia vir a fazer. Ir por caminhos que antes até criticámos. "Eu, fazer isso? Nunca!!" Mas só porque não estávamos apaixonados. Agora que estamos, é precisamente esse o caminho que fazemos. E conscientes. O nunca deixa de fazer sentido.

A paixão queima. E o que queima dói. É intranquila. É frágil. A mim até me faz perder o apetite. O que, vendo bem, não deixava de dar jeito...
No início leva-nos às nuvens. Faz-nos contar as horas, os minutos e os segundos para voltar a estar com o outro. Tudo passa para segundo plano. A prioridade é aquilo. Aquele.

Faz-nos feliz, também é certo.
Mas a paixão tem um tempo. E vai perdendo a força ao longo dele.

E agora, vamos ao amor. Ai o amor...Haveria tanta coisa para dizer sobre o amor, mas serei concisa.
O amor começa quase sempre com a paixão. Com o tal arrepio que se sente quando os olhares se cruzam. Mas depois da fase pateta, louca, depois do subir às nuvens…há uma espécie de mudança. E é aí que, mais uma vez, das duas, uma: ou se transformou em amor…ou não se transformou em amor.
E o amor é ficar feliz por ter aquela pessoa ao nosso lado. Para sempre.

É aceitá-la como ela é. Com defeitos incluídos. Todinhos.

É ser um mas dar espaço ao outro.
É partilhar com ela como correu o nosso dia. E ela ouvir com interesse. Mesmo que o dia tenha sido uma belíssima seca.

É ter na outra pessoa, a sua melhor amiga. A quem nada se esconde. Com quem tudo se partilha. Sem pudores ou constrangimentos.
É não querer nunca magoar. E quando isso acontece, sem querer, pedir desculpa, conseguir ser desculpado, e não repetir.

É sentir o mesmo que a outra pessoa sente. Feliz quando ela está feliz. Triste quando ela está triste.
É achá-la bonita sem maquilhagem, de carrapito e pijama vestido. E ele…vá, com graça de camisola de alças, boxers e meias até ao joelho. Sim, esta custa, mas amor também é isto.

É ser "a rainha". Ou "o rei".
É nunca nos deitarmos chateados. Ou deitar, mas dormir agarradinhos na mesma. Porque assim amanhã já passou.

Amor é encontrar a tal tampa para a nossa panela. A outra metade da laranja.
É comer as omeletes com cogumelos que ela fez como quem come um prato de sinfonia de porco preto com gnocchis e batata com limão e molho de carbonara. Tudo regado pelo melhor vinho do mundo.

É saber na ponta da língua a cor preferida, o filme preferido e a música preferida. Ou, pelo menos, acertar numa delas.
O amor nunca acaba. Mesmo que as pessoas se separem. Porque o amor, quando isso acontece, transforma-se. Em amizade. E a amizade, se for de verdade, essa sim, é eterna.

Eu amei uma vez e apaixonei-me outra. E, pelo menos comigo, foi assim. Mas cada um sente à sua maneira.
Termino com um vídeo que me tocou. Sobre o amor e o que fica quando ele passa. Se é que passa.

Mas antes, uma explicação sobre o que vão ver:
"Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver.

23 anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente.

Ulay chegou sem que ela soubesse e...foi assim."



PS – para os que ainda acreditavam que eu era uma pedra e que não ligava a estes temas...estavam enganados!

27 de fevereiro de 2013

“As tartarugas conhecem as estradas melhor do que os coelhos”



Daqui de cima, da minha varanda, sem pressa, vejo de tudo.

Vejo quem chega. Vejo quem parte.

Vejo quem chega mas quer partir. Vejo quem parte mas quer ficar.

Vejo quem não parte mas que devia partir.

Vejo a vizinha vaidosa que acha que deslumbra com o olhar. Mas não percebe que já ninguém sequer lhe olha para o resto, quanto mais para os olhos.

Vejo gente que nunca via, mas que passei a ver porque perdeu o emprego.

Vejo a avó que fica com os netos e que todos os dias lhes ralha porque eles não fazem os que ela lhes manda.

Vejo o vizinho enfermeiro que, por ser enfermeiro, anda sempre desencontrado nas horas.

Vejo o casal de velhotes que todos os dias, à mesma hora, apanha o autocarro para algures.

Vejo os pais a saírem cedo demais, com os filhos encasacados, para mais um dia de escola e trabalho.

Vejo os senhores das obras do prédio ao lado a saírem juntos para almoçar na tasca do fundo da rua porque “é barata e come-se bem”.

Vejo o casal engraçado - ele muito magrinho, ela muito gordinha - que entra no carro a discutir, mas que quando regressa já vem de mão dada. E ela com uma flor numa das mãos.

Vejo o motorista do autocarro cuja pausa na paragem é sagrada para fazer um chichi num desgraçado de um pinheiro escondido num canto do parque de estacionamento.


Vejo o grupo de senhoras mais velhas que fazem as suas caminhadas, de manhã bem cedo e ao fim do dia. Todas com uns ténis calçados e de coletes reflectores vestidos. Falam das noras, dos genros, dos maridos. Da vida. Sim, na maioria das vezes, da vida dos outros.

Vejo os sofás, as cadeiras, os armários - ou outras tralhas velhas que alguém deixou de querer e que, por isso, encostou ao caixote do lixo -, a desaparecer em menos de minutos. Uns levam por gozo, é certo, mas outros por necessidade.

Vejo um bando de pardais barulhentos que lutam por uma migalha deixada no meio da estrada.

Vejo o gato gordo e coxo a fazer o que mais gosta (depois de fugir aos cães): a vadiar entre carros e a dormir de barriga para o ar, ao sol.

Vejo o vizinho que todos os dias sai de casa para deitar o lixo, mas antes pára num canteiro que fica no cantinho da rua para deixar comida ao gato. Daí ele ser gordo.

Vejo o Mike, o cão do rapaz de cabelo grisalho do prédio ao lado, que ladra e pula enquanto passeia. De felicidade. Depois entra no carro do dono, e segue com ele para o trabalho.

Vejo o Mozart, o golden retriever aqui da rua, a passear com a dona, e fico com saudades do Gaspar. O coração sobe-me para a garganta.

Vejo o meu pinhal e, nele, três coelhos destemidos que se arriscam a chegar perto da estrada, mas que rapidamente voltam para trás, aos saltos. E se perdem por entre os arbustos.

Vejo o mar, ao longe. Mas vejo o mar. Tão azul, mas tão azul, que se entranha com o céu.

Na minha rua vive-se. Mais do que isso, vivem-se vidas reais. Diferentes. Mas verdadeiras. Iguais a tantas outras.

E eu, vendo-as cá de cima, da minha varanda, sem pressa, consigo imaginar a história que está por detrás de cada uma.