14 de março de 2013

E tu, acreditas em Deus?

Isto de “acreditar em Deus” não é fácil de explicar. E até eu tenho ideias contraditórias. Mas tento conviver bem com elas.

Foi a minha avó Olinda que me ensinou a rezar. O Pai-Nosso, a Avé-Maria. E outras orações que, para seu desespero, nunca decorei. Como a do “senhor morto, senhor vivo…” que desta só sei esta parte.

Lembro-me de ir para casa da dela depois da escola e de a ver sempre de terço por perto. Que seguia religiosamente (e aqui o religiosamente é literal) pela rádio Renascença. Ou apenas enquanto nos arranjava o lanche ou dava ao pedal na Singer, onde fazia as suas próprias roupas. Batas, ela adorava batas.
Quando dormia na nossa casa, e quando passava da reza ao ressono, eu tentava acordá-la para ver se conseguia que se calasse. Respondia-me sempre “estou agora a ressonar! Nem estou a dormir, estou a rezar!” Uma frase que nunca mais me esqueci. E é claro que estava a dormir que nem uma pedra.

 
De vez em quando levava-nos à missa. À igreja São João de Brito. Aquilo era estranho. E, por inerência à idade, uma seca. Hoje entro numa igreja e sinto-me bem. Confortável. Protegida.
Mas fui crescendo com a história de que, lá longe, tinha existido um homem que tinha sido enviado para salvar o mundo. Um homem que se tinha sacrificado pelos outros. Que tinha morrido numa cruz, onde teria sido pregado de mãos e pés, e com uma coroa de espinhos presa à cabeça. Que ali morre e que ressuscita ao 3º dia. Uma história trágica, que me impressionava e que me suscitava alguma desconfiança.

Eu e mana sempre partilhámos o quarto. Dormíamos num beliche. Ela em cima e eu em baixo. Antes de adormecermos, tínhamos um ritual. Com alguma falta de sentido, é certo, mas um ritual. O nosso. Dizíamos sempre uma à outra “bons sonhos e boa noite, fica com Deus, igualmente e dorme bem”. Nunca falhávamos. E não, não fazemos ideia de como isto surgiu.
Com o passar dos anos fui aprendendo a acreditar. Não em Deus como ele é descrito, escrito e ensinado. Mas em alguma coisa ou alguém, superior a mim, que me ajudava a levar a vida. A ter fé que as coisas iam melhorar. O meu Deus. Que me dava força para continuar.
E lá fui criando, devagarinho, a minha relação com Ele. Comecei, como todos, por pedir ajuda, sempre que me via em apuros. Ah, e rezava antes me deitar. Mas aquilo era um bocado “automático”. Soava-me a falso. Toma lá um Pai Nosso, uma Avé-Maria, Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, vira-te para o outro lado e dorme.

Actualmente, e depois de tudo o que de menos bom me foi acontecendo na vida, a coisa mudou. Continuei, sim, a pedir ajuda quando sentia necessidade mas, acima de tudo, a agradecer. Por ter passado mais um dia. Por não me ter fugido de novo a saúde. Por ver bem quem me rodeava.

 
Sinto que fui mudando a minha forma de encarar o “acreditar em Deus”. E foi assim que tudo se foi descomplicando de explicar. De sentir. E a soar melhor. Mais cá de dentro. Mais verdadeiro. Menos automático. Mais à minha maneira. Sem obrigações, sem complicações, sem compromissos. No fundo, acho que nos tornámos amigos. Porque com eles também costuma ser assim. Sem obrigações, sem complicações, sem compromissos. Hoje é “alguém” a quem eu recorro sempre que “ a coisa aquece”.
E não, não é uma relação interesseira, de momento. É, eu diria, transparente. E ele sabe disso. Só o chateio quando preciso. De resto, agradeço. Se a coisa se mantiver assim, dá-me ideia que não haverá divórcio.

Hoje o dia vai ficar na história. Foi eleito mais um Papa. Um homem que subiu à varanda da Basílica de São Pedro e que falou sem um discurso grandemente preparado. E, com sentido de humor, dizendo que o no meio de tantos, “o foram buscar ao fim do mundo”.
Que gosta de futebol. Que andava de bicicleta e de transportes públicos antes de ser cardeal. Que cozinhava as próprias refeições.

Dizem que é um homem comum. Simples. Que escolheu o nome Francisco, que vem de Assis. Um Francisco que, depois de uma juventude inquieta, se torna sacerdote e se dedica a defender os pobres. Numa igreja que é podre de rica. E que só por isso me enerva. Não espero que este Francisco vá mudar isto. Mas espero que ajude a dar uma volta ao estado em que a igreja se encontra.

Nem tanto por mim, porque a forma como a igreja hoje se apresenta, opulenta e cheia de desconfianças, nada me diz. Mas porque cada um acredita no que quer. E porque temos que respeitar que aquilo é mesmo importante para milhares de pessoas conseguirem levar a vida em frente. Para milhares de pessoas acreditarem que vale a pena andar por cá e continuar a lutar para melhorar. E sentir que lá em cima alguém ou alguma coisa vai estar a olhar por nós.
Afinal, como alguém alguma vez disse, “"A razão de ser de qualquer fé é trazer-nos uma certeza."

Bom, habemos papam. Vamos, pelo menos, tentar acreditar.

11 de março de 2013

22 anos sentada. Mas ‘muita’ bem sentada.


22 anos depois, estou aqui.
A desconfiar que foi necessário, para encontrar o caminho certo. Para ser o que sou hoje. Parte boa e parte má incluída.

Para saber que há beleza cá fora. Mas saber que a que conta mesmo é a que está lá dentro.
22 anos depois, estou aqui.

Para perceber que há o trigo e o joio. E que é nestas alturas que eles se desligam um do outro.
Para que alguns percebam que é bom viver. Apenas, quem sabe, vendo-me viver. E constatando que se vive. Muito bem.

22 anos depois, estou aqui.
Para conseguir chegar onde os outros chegam. Ou ainda mais longe.

Para saber que mesmo nas fortalezas se aceitam as fraquezas. Porque todos nós temos limites.
22 anos depois, estou aqui.

Para ouvir música. Para viajar a ler livros. Para fumar um charuto. Para saborear um vinho do Porto. Para contar histórias. Para acompanhar quem eu gosto e gosta de mim.
Para abrir a boca para me rir e a torneira se me apetecer. E marimbar-me no que os outros possam pensar.

Ilustração por Rita Salgueiro

22 anos depois, estou aqui.

Para aprender que cada um tem um caminho. Não exactamente um destino. Mas um caminho que tem que ser trilhado. E tantas vezes desbravado com bravura.

Para saber que a vida pede calma, mas que por vezes é preciso dar um murro na mesa. Ou em alguém. E dar.

22 anos depois, estou aqui.

Para viver a vida assim. Como sei, algumas vezes como posso, quase sempre como gosto.
A sentir o corpo pela metade mas o coração por inteiro. E tendo a certeza de que tenho uma metade que vale por muitos por muitos “inteiros” que por aí andam.

Faz hoje, 11 de Março, 22 anos que fiquei de cadeira de rodas. E estou cá. Para ficar. Para tentar ser feliz.
Como já disse um dia, posso não andar mas, quando e se for preciso, com a ajuda das pessoas certas, voo. E alto.

Disso, nunca ninguém tenha dúvidas.

9 de março de 2013

"Mulher: a mais nua das carnes vivas e aquela cujo brilho é o mais suave."

Ser mulher é ser um montão de coisas boas.

É pensar com o coração. Mas saber dar tempo de antena à cabeça. Aliás, saber juntar as duas na perfeição.

É saber que a vida é gerada dentro dela. Sentir cada dia, cada semana, cada mês. Ter esse poder. Ser a única a tê-lo. Sim, e vomitar pelo meio.

É ter um filho a chorar de dor, mas a rir de felicidade. Tudo ao mesmo tempo. E depois esquecer tudo num instante e voltar a dar vida a uma nova vida.
É saber que, para chegar mais longe, ou tão longe como um homem, tem que lutar o dobro. O triplo. E isso não a fazer parar. Antes, motivá-la.

É saber que um sorriso vale mais que muitas palavras. Mas saber dizer aquelas palavras para conseguir aquele sorriso.
 
É falar pelos cotovelos. Mas saber parar e ouvir os outros.

É passar o dia a trabalhar, chegar a casa e ter uma máquina de roupa para fazer. Para depois estender. E um jantar para preparar. E uma cozinha para arrumar. E mais um dia para preparar. E saber viver assim todos os dias.
É ter um dedo que adivinha. Um sexto sentido. Ou fingir que tem.

É ser justa quando é preciso ser justa. E quando é injusta ser justa o suficiente para voltar atrás e reconsiderar.
É conseguir atravessar tempestades como quem navega em mares calmos.


É conseguir fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo. E tudo feito de uma forma que parece ter sido apenas aquela a tarefa do dia.

É sonhar acordada. Porque sonhar de noite é para quem não consegue imaginação para mais.

É ter um lado forte e fazer dele o pilar da sua vida. Mas gostar de ser protegida e abraçada. Não abafada. Abraçada.
É gritar, refilar e chorar desalmadamente sempre que lhe apetece. E depois parar e seguir a vida. Porque a vida pede. Ou nunca chorar. Até ao dia em que a vida lhe pede que o faça. E fazê-lo sem vergonha.

É apaixonar-se perdidamente por um olhar, por uns lábios, por umas mãos, por um timbre de voz. Mais do que por umas boas pernas, um bom rabo, uma bela peitaça. Mas não deixar de olhar para isso também.

É perder o pé mas aguentar-se, dar ao braços, até chegar ajuda. E aceitá-la.


É não pescar nada de futebol mas ser a melhor treinadora de bancada. E saber o nome dos jogadores mais giros. Mesmo que sejam de outras equipas.

É não saber mudar uma lâmpada ou um pneu de um carro mas ter sempre um amigo por perto para o fazer por ela. Não saber nem querer saber como se faz. Até porque a prioridade é manter as unhas sempre impecáveis.
 
Ser mulher é isto tudo e muito mais. Porque ser mulher é não ter limites. Nem para o ser.

Hoje o dia é nosso. E porque se é nosso também é meu, este eu dedico-o às mulheres da minha vida: mana, mãe e sobrinha. As melhores que a vida me podia ter dado.
Para elas, a melhor canção:


O mundo não seria mundo sem nós. E isto, é um facto. Venham de lá essas mulheres!

6 de março de 2013

“Devemos aceitar o que é impossível deixar de acontecer.”


“Marta, viste aquela notícia que deu ontem na televisão sobre uma possível cura para lesões medulares?”
“Junto envio imagem do tal aparelho, tipo robot, que encontrei na net e que consegue pôr um paraplégico em pé e a andar. Vê se te interessa!”

“Já ouviste falar daquele médico português que tira células do nariz e implanta na medula porque descobriu que a capacidade de regeneração das células nasais é grande e pode fazer o mesmo na medula?
“Dissera-me que em Israel é que é”. “A mim foi em Cuba”.

Foi assim durante muito tempo e, curiosamente, ainda hoje, 23 anos depois, isto acontece. Com menos frequência, mas acontece.
É bom sinal, eu sei. É sinal que os meus amigos, que eu sei que gostam de mim assim, continuam, no entanto, atentos a tudo o que aparece de novo para me verem a andar. Para alguns, muitos deles, seria mesmo a primeira vez.

É bom sinal e eu agradeço sempre, de coração. Que fique claro.
No primeiro ano de acidente, depois do período inicial de internamentos em hospitais – que penso que terminou em Agosto – lembro-me que os meus pais me perguntaram se eu queria parar um ano para me dedicar apenas à fisioterapia. Ou se preferia partilhar o meu tempo entre isso e continuar na escola. Optei pela segunda hipótese. A ideia de centrar toda a minha atenção apenas na recuperação, parar durante um ano e afastar-me de tudo, não me agradava.

Nos 3 ou 4 primeiros anos após acidente, fui a todas. Fisioterapia em Alcoitão, depois fora dele, em centros especializados. Também em casa. Homeopatia, acupunctura. Voei até Londres. Onde me disseram que o tratamento para casos como o meu estava “em ratinhos e pode demorar 10, 20, 30, 40 anos. Ou, simplesmente, nunca acontecer.” E acrescentaram no relatório, por escrito “que o essencial seria manter o espírito positivo” que já à época mostrava ter. Isso consegui.
Depois destes primeiros anos, senti uma necessidade de mudança dentro do meu coração. Que me levou a tomar uma decisão. Já estava farta da fisioterapia. Já nem a fazia de jeito. O que era um facto é que pouca ou nenhuma recuperação tinha havido. E eu sentia isso como ninguém. Estava na hora de parar.

Mas, durante esses primeiros anos, uma coisa tinha acontecido. Num ambiente sempre cheio de esperança, tinha-me habituado a viver numa cadeira de rodas. E a viver feliz. Percebi que o tempo que “gastava” em horas de fisioterapia com o objectivo de recuperar, me estavam a “roubar” tempo com amigos. Tempo de torradas no Continental, o café ao lado da faculdade. Tempo de passeios pelos jardins da Gulbenkian com os meus colegas da altura. Tempo "normal" da minha idade. Tempo de vida. Tempo a viver.
Por isso decidi abrandar o ritmo e retomar a minha vida normal. À vida normal de uma miúda de 18 ou 19 anos, que tudo o que queria era o que qualquer outra miúda dessa idade poderia querer. Estudar, sair à noite, aproveitar a adolescência. Uma decisão que foi claramente compreendida e apoiada pela família. Sabiam que só assim eu poderia ser feliz.

E, assim, segui a vida e cheguei aos dias de hoje. Com montanhas de obstáculos pelo meio, mas cheguei. Com montanhas de cicatrizes, uma literais outras não, hoje fechadas, mas cheguei.
Agoro volto às citações iniciais, para tentar apenas que compreendam algo que para muitos sei que é algo difícil de compreender. Ou mesmo impossível.

Neste momento da minha vida, e depois de tudo o que passei, ultrapassei e conquistei, nenhuma hipótese de tratamento que visesse “do outro lado do mundo” me faria parar e ir, sem saber sequer quando voltava. Neste momento da minha vida, e depois de tudo o que passei, ultrapassei e conquistei, nada me faria afastar-me das pessoas que amo, do trabalho que adoro, da vida que escolhi, para ir “experimentar”/tentar voltar a andar. Porque, lamento, mas não acredito que haja uma cura científica para a minha situação. E já há algum tempo que só sigo aquilo em que realmente acredito. No meu coração.
Já agora, quanto à tal hipótese do robot, que me voltaria a pôr em pé, percebi e agradeci a quem mo indicou. Mas a ideia de me tornar numa máquina estranha, aos meus olhos e aos olhos dos outros, está fora dos meus planos. Até porque máquina já eu sou. Quando acordo de manhã, me arranjo e saio de casa cheia de pica para trabalhar (vá, tem dias!) ou para me ir divertir. Mesmo num país que pouco pensa em mim em termos de acessibilidades. Mesmo num país que pouco ou nada me motiva para continuar a lutar por ele.

Tudo se resume a uma frase simples. Daquelas de apenas duas palavras: sou feliz. Mesmo assim, sentada.
E o resto são tretas. No fundo é como diz a senhora da música abaixo: eu sou o que sou.
 

5 de março de 2013

Dos anos 80 aos 90. Dos melhores que já vivi!

Eram os “loucos anos 80/90”. Mas os meus foram calminhos. Calminhos mas muito divertidos.

Chegar a casa, depois de um dia de escola, fazer uma panqueca ou uma tosta mista - com 3 fatias de fiambre e 4 de queijo -, um refresco de café e ligar a televisão era uma das minhas “loucuras” diárias preferidas.
Na altura só havia um canal, e parte da tarde era preenchida pela mítica Vera Roquette e o seu Agora Escolha.


Espaço 1999, Acção em Miami, Modelo e Detective, Kung fu, Alf, MacGyver, A-Team, o Justiceiro, o Homem da Atlântida. Bloco A ou Bloco B. Um número de telefone para onde ligávamos e a escolha era nossa. E eu ligava sempre.

O Agora Escolha não foi um programa qualquer! O Agora Escolha foi um dos primeiros programas interactivos da televisão.

Depois havia o Adam Curry e o Countdown. Um programa de videoclipes. Era a nossa MTV. Vá, e o Adam, uma das minhas grande paixões...Europe, Level 42, Bananarama, Pet Shop Boys, The Smiths, Housemartins, Kim Wilde, Lloyd Cole, Nik Kershaw. Bom, foram tantos, que ficaríamos aqui um eternindade. 

Na mesma altura, eu, a minha irmã e a minha prima Tété, que já tinha perto de 15 anos, fazíamos parte do Clube Oficial de Fãs dos Duran Duran. Cada uma de nós tinha o seu eleito. Mas se eu optava por um que elas decidissem gostar, mesmo que de um dia para o outro, lá tinha que eu mudar de ídolo. Eu, não elas. Aconteceu umas vezes. Mas enfim, já se sabe que as mais novas são sempre as mais sacrificadas. Acabei por ficar com o Nick Rhodes…O mais feínho, diga-se de passagem.

Mas os Duran Duran não eram os únicos que seguíamos com atenção. Apesar de não fazermos oficialmente parte do clube de fãs, também gostávamos dos Kajagoogoo. E, sim, sabíamos o single “To Shy” de cor…Aliás, ainda hoje sei.
Nunca mais me vou esquecer no dia em que eles vieram a Portugal. E, claro, lá foram as primas para a porta do hotel Penta ver se tinham a sorte de os ver entrar. Esperámos horas. Horas! E nada. Nós e mais umas centenas de fãs.
A certa altura, e porque já era tarde, a mana e a Tété foram ao café mais próximo ligar para as nossas mães. Era preciso avisá-las de que ainda íamos demorar “porque eles ainda não saíram mas devem estar mesmo, mesmo a sair…!”. E lá foram as duas.

Mandaram-me ficar à porta da garagem do Penta, que estava longe da confusão da porta por onde se esperava que eles saíssem. A principal. “Não saias daí que nós não demoramos”. Aquilo para mim era mesmo uma ordem. Nem me mexi.
E ainda bem porque a sorte, meus amigos, estava do meu lado. Lá fiquei eu, encostada à parede da garagem do Penta, absolutamente sozinha, à espera que elas chegassem. Muito bem-mandada, portanto.

 
Eis senão quando acontece uma cena digna de filme: do nada abre-se a porta da garagem. Lá de dentro sai uma limusine branca. "Valha-me Deus que são eleeees"! E eu ali sozinha! Com as pernas a tremer e sem ninguém a quem me agarrar…a quem contar, com quem partilhar, pá!
Paraliso por completo. Só me lembro do ver o Limahl e o Nick Beggs a abrirem as janelas, olharem-me nos olhos, a mandarem-me um beijo e dizerem-me adeus. Tudo aquilo só para mim! Tinha 8 anos, caraças! Por muitos anos que viva, nunca mais me vou esquecer daquele momento.

Quando voltei ao meu estado normal lembro-me de ter pensado “e aquelas totós que foram ligar às nossas mães precisamente agora. E as outras especadas à porta do hotel e eles a saírem pela garagem…!” Lucky me!

Nesta altura jogava Pac-Man, comprava a Bravo em alemão e forrava as paredes dos quartos com os posters que ali eram publicados. Ouvia a Nena e os "99 red balloons".


Ensaiávamos coreografias durante a tarde, ligávamos aos nossos pais para eles chegarem mais cedo. Temos “uma surpresa preparada para vocês”. Pais que, depois de um dia extenuante de trabalho, ainda se sentavam no sofá a assistir ao nosso espectáculo.

Entre vários, cantavamos o We are the world. Com a minha irmã. Cada uma de nós imitava um cantor. Ainda hoje fazemos isso na perfeição! É só porem-nos à prova.
 
Eram os anos 80/90. Eu vivi-os, calmamente, entre os 5 e os 14. E, quem como eu viveu estes anos e estes momentos, mesmo que assim, calmamente, sem grandes loucuras, teve uma sorte gigante. Porque estava tudo a começar.

Novas bandas, novos estilos, novos canais. Mais informação, mais tudo. Inovação, atrás de inovação. Muita coisa a acontecer pela primeira vez. Portugal estava a abrir-se ao mundo a uma velocidade enorme. E eu a viver aquilo tudo. Ao vivo e preto e branco. Mais tarde, a cores.
E sim, passaram-me as paixões platónicas. Começaram as mais…eu diria, realistas. Mas dessas, quem sabe se falarei noutro dia? :)

2 de março de 2013

Sim, a palavra certa é clã.

E cá estamos nós as quatro, como sempre, ao Sábado. Depois de deitar abaixo mais um repasto da mãe e uma garrafa de espumante.

Antes eramos só as três. Durante anos foi assim. Sempre.
Três amigas mas uma delas, acima de tudo, mãe. Para não confundir as coisas. E outras tantas vezes o árbitro!

Eu, a mana e a mãe. Sempre.
Quando uma tinha um problema, tínhamos as três. Quando uma não tinha problemas, as outras também não tinham.

Com a mana – sim, eu chamo-a assim mas ela nunca me chamou (coisas de irmã mais nova) – passei todos os dias da minha infância. Tínhamos os mesmos amigos. Frequentávamos os mesmos locais. Só não tínhamos os mesmos namorados mas, de preferência, ajudava que fossem os melhores amigos. E quase sempre foram.
A roupa, a mesma. A voz, a mesma. De tal maneira que um dia fui eu que terminei um namoro dela, pelo telefone, porque, claro, a mim não me ia custar nada.

Hoje a roupa dela já não me cabe, mas a voz continua igual. E as expressões. E as gargalhadas. E o que temos de diferente, complementa-nos.
Fomos crescendo e cada uma seguiu o seu caminho em termos de estudos. Ela totalmente virada para o desporto. Eu totalmente virada de costas para o mesmo.

Acho que das únicas vezes que decidi mexer-me um bocadinho mais foi quando resolvi dedicar-me à dança jazz, onde ia depois das aulas terminarem. Mas antes passava pela Sul América, na Avenida de Roma, e pedia ao meu querido Aristides uma brisa. A maior, de preferência. Depois passava por casa, levava o cão à rua, arranjava uma carcaça com geleia (ou de geleia com pão) e, dança jazz com ela. Eu até achava que tinha jeito. Mas duvido que o professor tivesse a mesma opinião porque me punha sempre na fila de trás. Palhaço.
Passadas duas ou três aulas, deixei de aparecer, mas mantive-me fiel às brisas e às carcaças com geleia. Ah, e segui Humanidades/Jornalismo. Percebi que no Desporto não me safava. Suar incomodava-me.

Mas fora isto, fora o percurso profissional, sempre juntas.
Aos 15 anos tenho o acidente em casa que me deixa de cadeira de rodas. Quem chega na hora H e me tira de dentro da casa de banho? A mana. Sim, salvou-me a vida. Ainda hoje brincamos com isto. Mas é a mais pura das verdades. Se não fosse aquela miúda de 16 anos e o seu sangue frio, eu hoje não estava aqui a partilhar alguns dos meus momentos convosco.

Se ainda havia dúvidas que eramos uma, depois deste dia, elas acabaram. Onde estava uma estava outra. Para onde ia uma, ia a outra. E sempre juntas. Muitas das vezes, de táxi. Com os 1000 escudos que a mãe nos dava para sair.
Foi sempre assim. Quando eramos pequenas, na adolescência. E hoje, como adultas.

Agora a mãe. Sempre amiga mas, acima de tudo, mãe. Vá, um bocadinho de tudo mas sem misturar as coisas. O chamado “respeitinho é bonito e eu gosto”. Mas uma mãe que confiava a 100% e que metia as mãos no fogo pelas filhas. E tantas vezes contra tudo e contra todos. Mas nunca se queimou.
Em 29 anos, e por duas vezes, foge-lhes o chão debaixo dos pés. Primeiro, com o episódio da paraplegia, depois o da septicemia. As duas a aguentarem as pontas. Sem saber se iam ter força para as agarrar até ao fim, ou se acabariam por ter que as largar. Mas aguentaram.

Perto daquilo que viria a ser a segunda tempestade, surge o quarto elemento. A Carlota.
Um bocadinho de pessoa que veio mudar as nossas vidas. Para melhor. Um anjo que hoje tenho a certeza que também veio para ajudar a ultrapassar aqueles momentos que tanto nos assustaram mas que também ainda mais nos uniram. E para nos compensar com outros maravilhosos.

Lembro-me de pensar que, se houvesse uma máquina onde se programasse de um lado o género de bebé que queríamos que saísse do outro lado, era exactamente uma daquelas que eu queria que me calhasse.
Lembro-me da minha mãe dizer que tinha sonhado com uma miúda linda, de cabelos compridos aos caracóis e loira. Foi o que nos saiu. Se bem que tivemos que penar uns anos até ter cabelo de jeito para por um gancho!

Hoje é a melhor sobrinha, a melhor neta, a melhor filha.

Como ela diz “chanfrada”. Mas, quem bem a conhece, “com todos os valores no sítio”. Uma obra de arte e a sobrinha mais gira do mundo. Diz a tia babada.

Hoje somos quatro. Quatro sortudas porque, saia quem saia, entre quem entre, estas quatro nunca saem de cena. Refilam, refilam. Mas, de cena, não saem. Sim, e coitadinho de quem entra...!

E no palco da vida, cada vez mais vazio de gente que sente de verdade, que se quer bem de verdade, com o coração, ter tido sempre por perto as pessoas mais importantes da minha vida, é razão para agradecer todos os dias.

E quem não o faz, eu própria falho às vezes, um dia arrepende-se.

Farei tudo para que isso não me aconteça. Um conselho? Façam o mesmo. Porque um dia, quando olharem para trás, podem já ter perdido a oportunidade de o fazer. Ou, pelo menos, de terem lá as pessoas que queriam que vos ouvissem.

História do outro mundo. Ou apenas de uma pistoleira do Velho Oeste.

A famosa Calamity Jane. Uma mulher que nasceu em 1852 e viveu nos Estados Unidos. Dizem que terá sido mulher de Wild Bill Hickok, personagem que, depois de ter lutado durante a Guerra Civil Americana, ganhou fama como jogador profissional. Mas foi também um homem da lei e chegou mesmo a xerife do Kansas e do Nebraska. E grande amigo do famoso Buffalo Bill.

Mas voltemos à Calamity Jane. Começou por fazer trabalho de guia e para isso usava sempre um uniforme masculino que lhe dava um ar durão. Entrava nos saloons sem medo, mascava tabaco como um homem. Era audaz e independente. Ah, e praguejava com frequência.
Mais tarde dedica-se à prostituição, depois passa a cozinheira, mineira, lavadeira, entre muitas outras profissões. Sempre se fez à vida, portanto. Desde cedo. Por necessidade, claro. Mas também por temperamento.


Lutou em tempos contra os índios. Mas dela também se dizia que era uma mulher bondosa, e especialmente preocupada com os doentes e com os mais necessitados.
Wild Bill morre em 1876. Calamity Jane perde aquele que foi o amor da sua vida. Mas como mulher lutadora que era, resolve dar-se uma segunda oportunidade e, em 1885, casa-se com Clinton Burke. 10 anos depois separam-se e Calamity junta-se ao show Buffalo Bill, velho amigo do seu grande amor, e ao Buffalo Bill's Wild West Show. Era a contadora de histórias. E, a viajar, vive até ao final da sua vida em 1903, altura em que morre com uma pneumonia. Tinha 51 anos.

Muito bem, tudo muito é interessante mas, por esta altura, estão vocês a perguntar: porque raio a Marta nos está a dar esta chazada de Calamity Jane? Em primeiro lugar, podia responder-vos com um “aprender não ocupa lugar”. Mas é mais que isso. Já lá vamos.
Sempre tive colado a mim o rótulo de “mau feitio”. Aprendi a viver com ele e, confesso, já pouco me incomoda. Felizmente que os que melhor me conhecem, encaram-no mais como personalidade forte. Aliada a pavio curto, é certo, mas personalidade forte. E frontal. Ou isso ou aprenderam a lidar com ele. Seja o que for, tudo bem.


Assumo que me irrita acima de tudo a incompetência, a falta de garra, de querer aprender. A vontade de ser a desgraçada cá da praça. A inércia. O cinismo. Este último também na vida pessoal porque, na vida profissional, o caso muda naturalmente de figura. Mas não lhe chamaria cinismo. Prefiro chamar-lhe “aprender a sobreviver”. Aprender a trabalhar com todo o tipo de pessoas. Das que gostamos e das que não gostamos. A vida é mesmo assim e as empresas estão cheias de gente de quem gostamos mais que outras. É um facto. E também é um facto que temos que aprender a lidar – leia-se trabalhar - com ambas. Confesso que nesse campo tenho tido alguma sorte.
Mas assumo tudo isto e ainda que, quando me deparo com situações que me desagradam, a tampa tende a saltar-me. Mas também tenho noção que a vida tem-me ensinado a ser mais tolerante. Menos dona da verdade. Mais flexível. E calma, estou nos 37 anos, por isso tenho ainda muito caminho pela frente para aprender. Ou seja, vou tentando sempre melhorar.

“Mas isto não explica a conversa sobre a pistoleira do velho oeste”. Pois não. Mas se vos contar o fim da história, talvez este meu “mau feitio”, “personalidade forte”, ou que quiserem chamar-lhe, tenha, finalmente, uma explicação.
A Calamity Jane não nasceu com este nome. A Calamity Jane nasceu como Martha Jane Cannary. Sim, Martha Cannary. Como eu, Marta Canário.

Quem sabe, não estamos de alguma forma ligadas? O mesmo nome, a mesma garra, a mesma “personalidade forte”. E também contadora de histórias...
Coincidência? Talvez, mas que é curioso é! E eu, confesso, adoro a ideia de um dia, noutra vida, poder ter sido uma pistoleira do velho oeste…

 

PS – ah, e para aqueles que ainda tinham a esperança que eu me tornasse mesmo, mesmo “boazinha”, esqueçam. Pelos vistos está-me nos genes…