12 de abril de 2013

Para, escuta, olha. E ajuda.

Às vezes dou por mim a pensar na sorte que tenho. É um exercício que faço com alguma regularidade. Até porque no turbilhão dos dias, todos damos por nós…a ter pena de nós. Se não for a ter pena, será pelo menos a refilar com alguma coisa. E eu não sou excepção.

Ou é porque temos muito trabalho. Ou porque passamos demasiado tempo no trânsito. Ou porque estamos gordas. Ou porque chegamos a casa e ainda temos que ir fazer máquinas de roupa. Ou porque chove. Ou porque está calor. Ou porque…enfim, qualquer coisa serve. Porque há sempre alguma coisa.
E isto é estúpido. É muito estúpido. É mais que isto. É ridículo e injusto.

Porque hoje em dia é uma sorte: ter trabalho, ter um carro e dinheiro para a gasolina, ter comida, ter uma casa, sentir a chuva e o sol na pele.
Porque hoje em dia, há quem não tenha nada. Nada de nada. Porque hoje em dia, há quem nem um amigo tenha para poder pedir ajuda. Para chorar.

Porque hoje em dia, há quem durma na rua, ao frio. Enrolado em caixas de papelão que desmancham e com que se tapam para cortar o frio. Sempre houve, é certo, mas agora há mais. Tantos mais…

É preciso parar para pensar. Contra mim falo, que tantas vezes me incluo naquele grupo de pessoas que, quando se dá conta, está a refilar com tudo. Cada vez menos. Felizmente, cada vez menos.


Porque a vida, com tudo o que ela me trouxe de pior, também me trouxe o melhor. Ensinou-me, pelo menos, a parar, escutar e olhar. Olhar para a sorte que tenho em ter uma vida equilibrada, com amigos, conforto, trabalho. Uma cama onde posso descansar. Onde posso dormir, acordar e saber que tenho café fresco, bolo de laranja, bolachas e manteiga para o pequeno-almoço.
E que a seguir tenho uma casa de banho onde posso tomar um bom banho quente, pôr a minha máscara no cabelo, os meus cremes no corpo. Uma prateleira cheia de tudo.

E que vai haver o que comer ao almoço e ao jantar. Naquele dia e nos dias seguintes. Uns dias com mais dinheiro, outros com menos, mas sempre com o que sirva as minhas necessidades. Mesmo que sem luxos.
Quantas pessoas têm esta sorte? E quantas pessoas também a tinham e deixaram de ter? De um momento para o outro acaba o dinheiro, vai-se a comida, depois o carro, depois a casa. E, porque como diz o velho ditado “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”, no fim desmembra-se uma família. Ou por isso ou porque é preciso partir para outro país à procura de dinheiro para a comida, o carro, a casa. Para viver. Para sobreviver. Sim, porque viver já começa a ser um luxo.

Depois deparo-me com a história de uma miúda que parece ter tudo o que falta a tantos, mas que se despe desse tudo, arranca para um país longínquo e decide viver meses quase na miséria. Mas feliz porque ensina crianças que vivem nessa miséria. E porque consegue tornar a vida desses miúdos menos miserável. É assim que essa jovem dedica tempo da sua vida: na maior favela do mundo, num qualquer país africano, a ajudar os outros. Depois volta para cá. Mas volta para ajudar os que cá também precisam de ajuda. Contudo, sempre com a promessa de voltar para lá, para garantir que aquela dúzia e meia de crianças pode ter mais um ano de novas palavras, conhecimento, uma oportunidade.
 
O mundo está virado de pernas para o ar. Não é a primeira vez que o digo aqui. Nem será, certamente, a última. Mas está mesmo.
A riqueza está toda concentrada. E cada vez mais. E a pobreza aumenta a cada dia que passa. Por cá e por lá. Por todo o lado. Mais do que nunca, à vista de todos.

Por isso, temos que fazer um exercício muito importante: paremos para pensar, caramba. Não só em nós, que no meio desta porcaria toda ainda nos vamos safando, mas naqueles que já não se safam sozinhos.

Às vezes basta um sorriso. Uma graçola. Um abraço. Uma palavra que traga esperança. Às vezes basta olharmos menos para o nosso umbigo e darmos um bocadinho de nós. Sem esperar retorno. Só dar. Não custa nada. E faz-nos tão bem…
Hoje somos nós a ajudar. Mas como as coisas estão, um dia pode ser a nossa vez de precisar de ajuda. E vai saber-nos bem ter lá alguém para nos dar a mão.

7 de abril de 2013

Ao meu melhor amigo.

Faz hoje um ano que a vida me deu um murro no estômago. Daqueles que, mesmo sendo no estômago, me esmagou lá no fundo e chegou ao coração.

Faz hoje um ano que senti na pele o que foi perder uma pequena, mas tão importante, parte de mim.
Porque faz hoje um ano que, sem pré-aviso, a vida me levou aquele que era o meu melhor amigo.
Um ser, vivo como eu, mas em muitas coisas mais perfeito do que eu. Mais amigo. Mais fiel. Mais paciente. Mais feliz com o que tinha. Mais presente na vida de quem dele precisava. Muitas mais vezes do que alguma vez eu fui. Quantas vezes eu falhei nestas situações, sem sequer me aperceber. Ele, nunca. Nunca.

Sabia quando eu estava feliz, sabia quando eu estava triste. Sabia quando me podia interromper o trabalho. Sabia quando eu queria mimo. Sabia, como ninguém, pedir mimo. E sempre o recebeu.

Por ele mudámos tantas vezes as nossas vidas. Por ele adaptámos tantas vezes as nossas férias. As nossas saídas de casa. Mas tudo isto sem que fosse uma obrigação. Ele era parte das nossas vidas. Era mais um de nós. E nunca “um de nós” ficou para trás. Ou vamos todos, ou não vai nenhum.

Hoje, passado um ano, ainda sinto a dor daquele murro no estômago. E ainda sinto o coração a ficar mais pequeno quando dou por mim e pensar nele. Esparramado na varanda ao sol, deitado na cama ao lado da lareira, ao quente. A dar cabeçadas no comedouro a ver se encontrava os bagos de arroz que, em tempos, lá pusemos. A pedir pão seco assim que acordava. A passear num dia chuvoso, mas sem nunca pisar as poças de água.

 
O meu melhor amigo chamava-se Gaspar. Era peludo, louro, tinha 4 patas, olhos pretos de chinês, bigodes, nariz molhado e o rabo sempre a abanar. E isto tudo em 42 quilos de ternura e mimo. E inteligência.
Chamava-se Gaspar e não tenho a menor dúvida que, enquanto o tive por perto, fui muito mais feliz. Desde que o perdi, tenho feito tudo para o continuar a ser. Mas ainda são muitos os momentos em que não sou. Porque não o tenho. Porque não sinto o pêlo dele nas minhas mãos. O cheiro da baba. Porque não o vejo. Fisicamente. E vê-lo apenas no coração ou nos meus sonhos, ainda não aprendi a que me chegasse.
Uma palavra a quem não percebe esta dor. Que se lixe. Que se lixe quem não consegue compreender a dor devastadora que se sente quando se perde um animal como se de uma pessoa se tratasse. Porque a questão é mesmo essa: para nós ele era mais uma pessoa nesta casa. Que se lixe quem responde “sim, mas era um cão e cada um deve ter o seu lugar.” Este tinha. E um lugar muito especial: nos nossos corações. Onde, aliás, poucas pessoas cabem. Era um cão especial. E felizmente que, para além de nós, foram alguns os que tiveram a oportunidade de perceber isso.


A quem não percebe esta dor que nos aperta o coração, só posso desejar que um dia tenham a sorte de viver e conviver com uma amizade tão pura como a que recebemos e demos ao Gaspar.

Passou um ano. E 365 vezes pensei que encontrar outro amigo destes poderia ser uma forma de superar a falta que ele me faz. Que ele nos faz. Mas até agora, a mim faltou-me a coragem. Talvez a tenha esgotado em tudo o que de mau me aconteceu ao longo da vida. Ou talvez ainda não tenha chegado a altura certa. Acredito que o tempo vai acabar por ajudar. Mas, por agora, não. Se um dia esse dia chegar, logo se verá.

Mas, no meio de tudo isto, uma coisa já ninguém nos tira: a sorte de, durante 10 anos, termos vivido uma amizade como esta. Incondicional.

Estejas onde estiveres, Gaspar, serás sempre o nosso cão. E tenho a certeza que, estejas onde estiveres, estarás esparramado num canto, confortável, a ressonar e a tremelicar, como quando fazias aqui enquanto sonhavas. E que continuas a ser feliz como foste connosco.
Nós, por aqui, vamos continuar a fazer tudo para sermos também. Sempre contigo no coração. Como sabemos que também nos tens no teu. Para sempre.

 
 

29 de março de 2013

Ai Portugal, Portugal...

O meu país está “de pernas para o ar”. E a solução não passa por simplesmente pegar nele e pô-lo direito. Ou apenas aconchega-lo nas minhas mãos, trazê-lo para junto do meu peito e dizer-lhe: “vá, tem calma que isto vai passar.”

Até eu tenho dias em que me apetece deixar tudo para trás. Pegar nas pessoas que mais gosto e sair daqui. Mas acredito que isto passe pela cabeça de tantos...Pelo menos algumas vezes na vida. E hoje mais do que nunca.

Não sei se é da falta de sol que não consegue furar as nuvens e a chuva mas, nos últimos dias, era o que fazia. Pegava na trouxinha e desaparecia. A gaita é que não tenho essa coragem. E depois – muito importante - sinto que o meu país precisa mais de mim aqui que lá fora. Ou que os que ficam precisam mais de mim aqui do que longe.
Mas aguentar não é para todos. Quando diariamente, nos media, nos cafés, nos corredores, em todo o lado, o tema é sempre o mesmo. Crise, crise, crise. Já não há boas notícias. E quando elas existem, não se espalham. Porque não vendem. Incrivelmente por isso.

Desespero é olhar para o lado – e agora é mesmo isto, olhar para o lado - e ver uma montanha gigante de gente a sofrer. Gente que de repente deixou de ter dinheiro para pagar contas, para comer. Que teve que emigrar e largar a família para trás. Deixar cá metade do seu coração. Para muitos, a metade mais importante. Que, sempre que se despede, morre um bocadinho por dentro. E vá lá que ainda vai havendo quem têm a oportunidade de emigrar. Porque outros há que nem isso podem fazer e que se limitam a viver na miséria.
Nunca as instituições de solidariedade tiveram tantas pessoas a pedir ajuda. Pessoas que antes tinham uma vida equilibrada. Não de luxo, mas equilibrada. E que agora fazem parte dos chamados “novos-pobres”. Há uns anos atrás havia os “novos-ricos”, hoje há os “novos-pobres”. Um número que dispara todos os dias.
Depois ligamos as televisões, os jornais, e as notícias desmotivam qualquer um. Governantes que não se entendem, que mentem. Que se digladiam aos olhos de todos. Mais austeridade, mais cortes, mais pobreza, mais miséria. Mais desemprego. E nada indica que a coisa melhores nos próximos tempos. Como consequência, o desespero e o aumento daqueles que perdem a cabeça e que, pensando não ter saída, decidem parar de sofrer e acabam com as suas vidas. Muitas vezes também com as dos outros.

E algo que tanto me angustia: até o número dos divórcios diminui pelas piores razões... Com esta p _ _ _ desta crise, as pessoas desistem até da felicidade. Preferem aguentar um casamento de fachada, um amor que já deixou de ser, simplesmente porque dependem do outro, porque sozinhas não conseguem fazer face às despesas. Desistir de ser feliz devia ser proibido.
Todo este cenário arrasta consigo também o aumento dos números da violência doméstica que, desde o início do ano, já ceifou dezenas de vidas. E, atenção, passaram-se apenas três meses.

E o mundo vai-se degradando.
 
Como uma vez disse o grande escrito italiano, Cesare Pavese, “só uma doença nos revela as profundezas funcionais do nosso corpo. Do mesmo modo, pressentimos as do espírito quando estamos em crise.”
E o nosso espírito, a nossa alma sente-se tentada a desistir. E quando isso acontece, é o fim.

Infelizmente não tenho uma solução...No limite, tenho um conselho. Um pedido.
 
 
Agarrem-se às coisas boas da vida. À família, à saúde, aos amigos. A viver um dia de cada vez. A nunca desistir. A nunca se renderam. A lutarem. A terem fé que as coisas vão melhorar. A arranjarem força para enfrentar esta tormenta. Sempre de mãos dadas com quem mais gostam e que partilhem convosco a vontade de vencer.

A história de Portugal é a prova de que os Portugueses são um povo lutador. Destemido. Que, como mais ninguém, há centenas de anos atrás se enfiou em caravelas toscas e enfrentou mares desconhecidos. Descobriu o mundo. Literalmente.
 
Munamo-nos então da coragem de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães, Gil Eanes e Diogo Cão, e agarremos o touro pelos cornos.

Lembrem-se: Portugal e os Portugueses nunca desistem. E eu acredito mesmo nisto. Por favor, por vocês, por todos nós, acreditem também.

28 de março de 2013

Gostar que gostem de nós.

Têm sido dias tramados estes últimos. Daí a minha ausência.

Dias em que não tenho tido tempo para as coisas e pessoas que realmente gosto. Tempo de qualidade. Tempo em que a minha alma está com essas pessoas e não apenas o meu corpo.
Sinto falta disso. Porque não sei viver sem isso.

Têm  mesmo sido dias tramados. Muito trabalho. Algum que gosto, outro nem por isso. Mas, tendo em conta o momento que o nosso país passa, só posso agradecer ter.
Depois, trabalho reconhecido e trabalho menos reconhecido. O segundo modelo entristece-me mas também me motiva. De uma maneira diferente do primeiro, é certo, mas motiva. Porque me irrita. E quando eu me irrito, nem sei bem explicar porquê, ganho mais força. Mais vontade de mostrar que sou capaz.

Claro que há alturas em que este tipo de auto-motivação não é imediato. Mas tento parar, respirar, pensar e analisar a situação. Friamente. Preparo o corpo mas também a alma. E vou com tudo. Contra todos, se for necessário. Ou, pelo menos, contra os que for preciso.
E depois agarro-me muito ao trabalho reconhecido. Ao que faço de melhor e que é notado. Sim, gosto que notem. Algum problema? Gosto de ser mimada. Gosto da palmadinha nas costas. Pois gosto! Aliás, quem não gosta?
 
Em tempos, tive alguém hierarqucamente superior a mim que, estando de saída da empresa para novos desafios, me perguntou se eu tinha gostado do seu estilo de liderança. De trabalhar com ela. Naquele momento lembrei-me da sua falta de apoio. Da falta do tal “mimo”. Da falta da palmadinha nas costas. E disse-lhe. “Nada contra ti, mas precisas de saber reconhecer. Agradecer. Motivar. Isso é saber liderar. Por isso, e respondendo à tua pergunta, não, não gostei.” Hoje somos amigos. Amigos profissionais, mas amigos. E acho que o facto de ter sido sincera, ajudou.

Estes foram também dias em que me ensinaram a tentar mostrar a quem de direito e sempre que necessário, que espero reconhecimento, que preciso dele para continuar a lutar. Mas virando o bico ao prego.“Põe a questão ao contrário. Não ataques. Não te queixes. Diz que o problema está em ti. Que precisas desse alimento. É muito provável que essa pessoa não se tenha apercebido disso e que só precise de um alerta.” Aquilo ficou-me na cabeça. “És capaz de ter razão”, respondi. E um dia, quando a oportunidade surgir, vou fazê-lo.
Para além disto, foram dias em que também me surpreenderam com uma informação que me intrigou. Vá, confesso que magoou um bocadinho. Foi saber que alguém - ok, que já não trabalha comigo, mas que trabalhou durante alguns anos - na altura me “odiava”. Bolas… Aquilo apanhou-me de surpresa. ”Odiava”? Mas “odeia-se” assim alguém com quem pouca ligação se tenha, ou com quem se tem apenas uma relação profissional? Pelos vistos que há quem ache que sim.

Que “não vão com a minha cara”, que não gostem do meu feitio, ou do facto de ter dias em que estou mais "espaçosa", barulhenta, bruta, até posso entender. Afinal não conseguimos agradar a todos. Mas…”odiar”…? C`um caraças. Desta não esperava.

Claro que sei o porquê. Entre outros, terá tido a ver com o facto de ousado dizer não a uma questão de trabalho que, como profissional que sou, não deixei passar e travei.

No entanto, tenho consciência de que travei de forma certa e, acima de tudo, fundamentada. Mas, para essa pessoa, “confrontei”. E há quem não admita ser confrontado. Mas nem este episódio que, apesar de não ter esquecido fechei numa gaveta, era razão para um sentimento tão forte. E mau. E pobre.

Bem sei que devemos dar importância apenas às pessoas relevantes para nós. É o que sinto e foi o que ouvi de quem tem por mim algum apreço e acabou por saber deste caso. Mas isto de me “odiarem”, intrigou-me. E, como disse lá em cima, magoou-me um piquinho.
Há uns anos atrás ia gostar de ter quem de mim não gostasse. Mas a idade avança, a experiência pesa e hoje preferia passar mais despercebida.

Porque gosto que gostem de mim. Mas a vida é mesmo assim. E, se já sobrevivi a tanto, sobrevivo facilmente a isto. Com alguma mágoa e com algumas marcas, mas sobrevivo.
 

21 de março de 2013

Don`t be happy! Be very fucking happy!

Hoje é o Dia Mundial da Felicidade. Definido pela ONU. Mas também podia ter sido definido por mim, que gosto do tema. E é importante.

Por isso vou armar-me em guru e falar de felicidade. Começando por perguntar: o que é, afinal, a felicidade?

Para alguns é ter dinheiro ou fama, para outros, basta saúde. Saúde, paz de espírito. Tranquilidade. É nesta equipa que eu jogo.
Deitar a cabeça na almofada e conseguirmos dormir por não ter nada que nos pese na consciência. Pessoalmente, nada me deixa tão feliz.
Saber que temos amigos, daqueles que se preocupam connosco. Sem merdas. De verdade. Daqueles que nos conhecem bem e sabem que, por muito tempo que passemos sem nada lhes dizermos, quando precisam estamos lá. E o contrário também.

Ter uma família que pára tudo para nos ajudar sempre que precisamos. E por quem paramos tudo para fazer o mesmo. Sem nos apercebermos sequer que parámos. Sem queixas. Só porque é assim que tem ser.

É conseguir dormir as horas que o corpo pede. Acordar de manhã e estar sol. Mas também ver que chove. No fundo, acordar. Quer dizer que a vida nos brindou com mais um dia.
É lembrarmo-nos de um sonho bom quando acordamos. Tim-tim por tim-tim.

Para mim é ainda sonhar a cores. E que ando. Também gosto. E acontece-me com frequência. Mato saudades.

É ter objectivos. E fazer o possível para os alcançar.

É ter coragem para dizer não quando o nosso coração nos segreda que aquilo não é para nós. Na vida pessoal e na profissional.

É olhar para trás e ver que mudámos para melhor. Que já não cometemos os mesmos erros. Que evoluímos.

É nunca perder a esperança. Acreditar sempre. Principalmente em nós e nas nossas capacidades.

Mas também é pormo-nos a jeito para que as oportunidades surjam. E, quando isso acontece, conseguir agarrá-las com a toda a força do nosso corpo. E, se precisarmos de mais um corpo para ajudar a agarrá-las, ter onde o ir buscar.
É ir trabalhar com a sensação de que a coisa nos vai correr bem. E a coisa correr melhor ainda. Depois chegarmos a casa e contar. Ter a quem contar. Ter quem nos oiça.

É conseguir fazer a diferença na vida de alguém. Nem que seja arrancar-lhe um sorriso num momento mais delicado. Mesmo que pequenino. Um “vá, dentinho, quero ver esse dentinho!”

É ter a capacidade, não apenas de ver, mas de observar e absorver o que nos rodeia. No meu caso, de imaginar, criar histórias à volta de quase tudo. Inventar, se necessário for.

É surpreendermo-nos todos os dias pela positiva. Nem que seja só por um bocadinho..

Aliás, ser feliz é isso mesmo, ter momentos felizes. E saber encontrar e reconhecer a felicidade em todos os minutos do nosso dia.

Porque a verdade é que ninguém é sempre feliz. Mas também ninguém é sempre infeliz.  E quem diz o contrário, mente.

Todos nós temos dias melhores e dias piores. Mas temos que nos esforçar para fazer com que o peso dos melhores, no fim do dia, seja muito, mas muito maior. E somos nós, a nossa cabeça em particular, que controla e comanda esta balança.

Porque acredito que há sempre duas formas de encarar um problema: com força, de frente e com coragem ou sem elas. Há sempre dois caminhos. O “a direito” e o “às curvas”. E, por vezes, vale mais ir fazendo uns "ésses", mas com calma, do que querer ir logo a direito, a abrir, e não ter a certeza de que aquele é o caminho que nos traz felicidade.

No fundo, ser feliz é ser livre. É ter as asas escondidas e, sempre que nos apetecer, fechar os olhos, abri-las e voar.
É estar vivo. É “saber o que se quer e querê-lo apaixonadamente."

Por isso, é simples: sejam felizes. Ou melhor: queiram ser felizes! Porque se não quiserem, nada feito...!

16 de março de 2013

Amizade em estado puro.

Ontem, por momentos, o meu coração ficou do tamanho de uma azeitona.

Lá fora estava um sol maravilhoso e decidi aproveitar a minha hora de almoço para ir até à varanda ler um livro.

Ao longe, começo a ouvir o som de pássaros a aproximarem-se.

Olho para o céu e vejo dois melros a rasarem as varandas dos prédios vizinhos. Pareciam crianças a divertirem-se quando fazem pequenos disparates. Mas pareciam fazê-lo a dançar. E os sons que emitiam… pareciam estranhamente coordenados. Desconfio que cantavam. Bom, iam felizes. Disso tenho a certeza.

De repente, naquele voo brincalhão, um deles distrai-se e embate com força - com tanta força… - contra o prédio em frente do meu. E cai no chão.

E eu a ver aquilo tudo. Nem queria acreditar.

Ali estava aquele pássaro, lindo, preto e de bico amarelo-torrado, no chão. Parado. Só mexia a cabeça. Magoado.

Nisto vejo o outro a voltar atrás. Aproxima-se devagarinho do amigo. Rodeia-o sem nunca lhe tocar. Depois abre as asas, em jeito de ritual, e faz uma espécie de dança à sua volta.

E eu sempre ali, a ver aquilo tudo...Sem perceber muito bem o que se passava, mas com a certeza de que aqueles movimentos tinham a ver com o sofrimento do companheiro.


Nesta altura passa o autocarro e o barulho do motor assusta o melro, que foge em direcção ao pinhal. E pousa num grande pinheiro. Mas não num pinheiro qualquer. Daquele podia ver de longe o amigo. Esse, magoado, permaneceu quieto. No passeio. Enroscado.

Passa um ciclista que pára, olha para o passarinho. Cá de cima tento explicar o que se tinha passado e pergunto como ele está. Responde-me de forma desinteressada que lhe parece apenas atordoado. E seguiu o seu caminho sem mais se preocupar. Nem olhou para trás. Nem para mim. Não percebo como conseguiu fazê-lo vendo o pássaro a sofrer, mas seguiu.

Passaram-se 20 ou 30 minutos e eu sempre com a esperança que ele acabasse por voar. Mas nada. Pensei "não deve haver nada a fazer. O bicho magoou-se e, sem a ajuda de alguém, vai mesmo acabar por morrer."

Eis que passam duas senhoras e reparam nele. "Olha...coitadinho...” disse uma delas. Mas, quando se aproxima um pouco mais, e sem que ninguém esperasse, o merlo ganha novamente força e faz um voo rápido até pinheiro onde estava o amigo. Que durante todo este tempo o esteve a observar. De longe mas a observar. Depois desaparecem juntos, por entre o verde da copa das árvores.


Respirei fundo. Respirei de alívio. Aliás, acho que aí sim, voltei a respirar de jeito.

Vim para dentro e pensei "safou-se". E deu-me um ataque de choro.

Ver aquele animal ali, sozinho, a sofrer, quebrou-me o coração. E ver a reacção do companheiro de voo, de aventura, do amigo, que nunca se afastou, emocionou-me.

Primeiro amaldiçoei o facto de ter ido à varanda àquela hora. Naquele momento. Mas acabei por agradecer tê-lo feito. Porque percebi que tinha tido a oportunidade de presenciar um momento único. De amizade, no seu estado mais puro. Entre animais. Mas amizade.

Há coisas que nos acontecem e que, muitas vezes, não conseguimos perceber a sua razão logo no momento. Mas que, mais tarde ou mais cedo, acabam por fazer sentido.

Enfim, há dias assim. Que valem a pena pelas pequenas coisas que nos relembram as grandes coisas. No fundo, as que interessam.

14 de março de 2013

E tu, acreditas em Deus?

Isto de “acreditar em Deus” não é fácil de explicar. E até eu tenho ideias contraditórias. Mas tento conviver bem com elas.

Foi a minha avó Olinda que me ensinou a rezar. O Pai-Nosso, a Avé-Maria. E outras orações que, para seu desespero, nunca decorei. Como a do “senhor morto, senhor vivo…” que desta só sei esta parte.

Lembro-me de ir para casa da dela depois da escola e de a ver sempre de terço por perto. Que seguia religiosamente (e aqui o religiosamente é literal) pela rádio Renascença. Ou apenas enquanto nos arranjava o lanche ou dava ao pedal na Singer, onde fazia as suas próprias roupas. Batas, ela adorava batas.
Quando dormia na nossa casa, e quando passava da reza ao ressono, eu tentava acordá-la para ver se conseguia que se calasse. Respondia-me sempre “estou agora a ressonar! Nem estou a dormir, estou a rezar!” Uma frase que nunca mais me esqueci. E é claro que estava a dormir que nem uma pedra.

 
De vez em quando levava-nos à missa. À igreja São João de Brito. Aquilo era estranho. E, por inerência à idade, uma seca. Hoje entro numa igreja e sinto-me bem. Confortável. Protegida.
Mas fui crescendo com a história de que, lá longe, tinha existido um homem que tinha sido enviado para salvar o mundo. Um homem que se tinha sacrificado pelos outros. Que tinha morrido numa cruz, onde teria sido pregado de mãos e pés, e com uma coroa de espinhos presa à cabeça. Que ali morre e que ressuscita ao 3º dia. Uma história trágica, que me impressionava e que me suscitava alguma desconfiança.

Eu e mana sempre partilhámos o quarto. Dormíamos num beliche. Ela em cima e eu em baixo. Antes de adormecermos, tínhamos um ritual. Com alguma falta de sentido, é certo, mas um ritual. O nosso. Dizíamos sempre uma à outra “bons sonhos e boa noite, fica com Deus, igualmente e dorme bem”. Nunca falhávamos. E não, não fazemos ideia de como isto surgiu.
Com o passar dos anos fui aprendendo a acreditar. Não em Deus como ele é descrito, escrito e ensinado. Mas em alguma coisa ou alguém, superior a mim, que me ajudava a levar a vida. A ter fé que as coisas iam melhorar. O meu Deus. Que me dava força para continuar.
E lá fui criando, devagarinho, a minha relação com Ele. Comecei, como todos, por pedir ajuda, sempre que me via em apuros. Ah, e rezava antes me deitar. Mas aquilo era um bocado “automático”. Soava-me a falso. Toma lá um Pai Nosso, uma Avé-Maria, Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, vira-te para o outro lado e dorme.

Actualmente, e depois de tudo o que de menos bom me foi acontecendo na vida, a coisa mudou. Continuei, sim, a pedir ajuda quando sentia necessidade mas, acima de tudo, a agradecer. Por ter passado mais um dia. Por não me ter fugido de novo a saúde. Por ver bem quem me rodeava.

 
Sinto que fui mudando a minha forma de encarar o “acreditar em Deus”. E foi assim que tudo se foi descomplicando de explicar. De sentir. E a soar melhor. Mais cá de dentro. Mais verdadeiro. Menos automático. Mais à minha maneira. Sem obrigações, sem complicações, sem compromissos. No fundo, acho que nos tornámos amigos. Porque com eles também costuma ser assim. Sem obrigações, sem complicações, sem compromissos. Hoje é “alguém” a quem eu recorro sempre que “ a coisa aquece”.
E não, não é uma relação interesseira, de momento. É, eu diria, transparente. E ele sabe disso. Só o chateio quando preciso. De resto, agradeço. Se a coisa se mantiver assim, dá-me ideia que não haverá divórcio.

Hoje o dia vai ficar na história. Foi eleito mais um Papa. Um homem que subiu à varanda da Basílica de São Pedro e que falou sem um discurso grandemente preparado. E, com sentido de humor, dizendo que o no meio de tantos, “o foram buscar ao fim do mundo”.
Que gosta de futebol. Que andava de bicicleta e de transportes públicos antes de ser cardeal. Que cozinhava as próprias refeições.

Dizem que é um homem comum. Simples. Que escolheu o nome Francisco, que vem de Assis. Um Francisco que, depois de uma juventude inquieta, se torna sacerdote e se dedica a defender os pobres. Numa igreja que é podre de rica. E que só por isso me enerva. Não espero que este Francisco vá mudar isto. Mas espero que ajude a dar uma volta ao estado em que a igreja se encontra.

Nem tanto por mim, porque a forma como a igreja hoje se apresenta, opulenta e cheia de desconfianças, nada me diz. Mas porque cada um acredita no que quer. E porque temos que respeitar que aquilo é mesmo importante para milhares de pessoas conseguirem levar a vida em frente. Para milhares de pessoas acreditarem que vale a pena andar por cá e continuar a lutar para melhorar. E sentir que lá em cima alguém ou alguma coisa vai estar a olhar por nós.
Afinal, como alguém alguma vez disse, “"A razão de ser de qualquer fé é trazer-nos uma certeza."

Bom, habemos papam. Vamos, pelo menos, tentar acreditar.