17 de abril de 2013

"Não tenha medo da perfeição. Você nunca a vai atingir."





Há uns dias circulou nas redes sociais uma campanha de publicidade brilhantemente criada por um português, da Maia, que me emocionou. E o que me emociona, regra geral, inspira-me.
Fala sobre um tema em que poucos pensam e, se pensam, poucos falam. E por pouco se falar, torna-se num problema.

Fala sobre gostarmos de nós. Ou melhor, sobre o não gostarmos de nós.
Fala, em particular, do nosso corpo. De não nos contentarmos com o que a natureza nos reservou. É muito mais um problema feminino que masculino. Apesar da balança se começar a equilibrar nos dia de hoje, até nisto.

Todos nós nascemos com um aspecto. Com um feitio de corpo, um tipo de cara, uma forma e cor de cabelo. Com um conjunto de pontos que, unidos, formam a nossa figura. O tal “aspecto”.
Mas a campanha vai mais longe, fala sobre mais do que isto. Fala sobre a diferença entre a forma como nos vemos e a forma como os outros nos vêem.

Fala sobre aceitarmos as nossas imperfeições. Olharmos para elas com um certo carinho. São nossas.
Fala sobre o avançar da idade, o chegar das rugas e dos cabelos brancos. Fala de estar vivo.

Fala sobre percebermos que, ao aceitarmos o que temos de menos bonito – e atenção que eu não uso a palavra “feio” -, somos pessoas mais completas e mais equilibradas. Inteiras.
Mas nada como dar um exemplo. E nada como me usar a mim como tal.

Antes de ficar de cadeira de rodas, até aos 15 anos, era uma “pequena mulher”. Pequena porque era quase uma criança, mulher porque o corpo já se tinha desenvolvido bastante. Na altura, eram poucos os que me davam a idade que, de facto, tinha.
Quando me acontece o acidente que me deixa de cadeira de rodas, muita coisa mudou. E o corpo foi uma delas.

Emagreci quilos atrás de quilos. Fiquei literalmente pele e osso. Perdi tudo o que me poderia tornar mulher.
Com o tempo, fui recuperando o peso, as curvas e a coisa foi-se recompondo..

Anos depois deparo-me com uma septicemia e voltei ao modo “tábua-de engomar-nº2" lá de casa. Todos os quilos que até ali tinha ganho, voltaram a desaparecer. Estava com aspecto de doente. E estava mesmo.
Na altura olhava para o espelho e não gostava do que via. Não encontrava roupa que disfarçasse a magreza e os ossos. Nada me assentava no corpo.

Na altura tentava lidar o melhor possível com a situação, mas não foi fácil.
Depois de 1 ano e meio de recuperação dos internamentos e das cirurgias, o meu corpo volta a estabilizar. E, porque voltou a ser saudável, atrás disso vieram os quilos. Sem infecções, voltou o apetite.

Na altura da septicemia devo ter estado um ano sem fome ou a comer mal. Quando me vi livre da má disposição e recuperei a vontade de comer, não me privei de nada. Resultado: passei um bocadinho do peso “ideal”. Ou melhor, passei a ter o peso “ideal” para não ter feridas, logo, infecções, mas ultrapassei o peso “ideal” para caber em todas as roupas.

Acabei por me habituar. Nada como comprar um ou dois números acima e quase tudo volta ao normal. Mas este facto também implicou habituar-me a viver com esses um ou dois números acima.
Hoje olho para o espelho e, apesar de gostar do que vejo, claro que mudaria algumas coisas. Mas não conheço ninguém que não mudasse. Por isso posso considerar-me, no mínimo, dentro da média.

A verdade é que, perto dos 40,o corpo já não é o mesmo que aos 20. A lei da gravidade já espreita, as dietas não surtem efeito como antigamente, alguns dos cabelos já são brancos, as rugas já fazem parte de um sorriso mais aberto.
Para além disso, todas as cirurgias pelas quais passei deixaram marcas. Cicatrizes. Mas também aprendi a conviver com elas. São bonitas? Não, não são. Se as exponho? Só se precisar mesmo. Se as aceito? Caro que sim! Prefiro olhar para elas como marcas de ter sobrevivido a um momento mau da minha vida. Um momento que já lá vai. Que faz parte da história. Da minha história. E que, só por isso, e apesar disso, nunca vou querer esquecer.

Este é o meu exemplo. É extremo, verdade, mas é aquele que posso partilhar convosco.
Também sei que a verdadeira beleza vem de dentro. Parece um cliché mas é verdade. Quantas pessoas bonitas por fora abrem a boca e perdem a graça? Quantas pessoas menos interessantes fisicamente quando o fazem fascinam qualquer um/a?

Muito bem, todos concordamos com isto. Mas também é verdade que ainda não existe visão rx para conseguir, num primeiro olhar, perceber a beleza interior e, por isso, o que está cá fora é muito importante. É o que causa a primeira impressão. E a primeira impressão é, normalmente, a que fica.
Mas aceitar o aspecto com que nascemos não invalida que não o tentemos melhorar, caso não gostemos do que vemos. Que venham de lá essas dietas, sempre com exercício físico, e até as plásticas! Porque não? Desde que não se entre em excessos, porque não?

E depois, tudo o que não se resolve com as ditas dietas, exercício ou plásticas, resolve-se com pequenos truques. Barriga grande, camisola larga na zona, braços gordos, camisolas “asas de morcego”, pernas curtas, sapatos com saltos mais altos, olhos pequenos demais, um bocadinho de maquilhagem no local certo, etc, etc, etc…! Há que saber valorizar o que de melhor temos, disfarçando o que temos de menos, eu diria, perfeito. Há sempre uma solução. Sejamos espertas (e espertos) e façamos um esforço para encontrar a que melhor se adequa a nós.
Mas antes de tudo isto, há uma regra de ouro: aceitar o corpo com que nascemos. Porque há coisas que não conseguimos mudar. É fácil? Às vezes não é. Mas é algo que tem que ser trabalhado. Fazer tudo para melhorar. Aceitar. Até porque, quem nasceu com as ancas largas, nunca as vai ter estreitas, e quem nasceu com 1m60, nunca terá 1m80. Aceitar. E melhorar o que pode ser melhorado.

Porque uma coisa é certa: se aceitarmos, vamos ser muito mais felizes. E, tal como o contrário acontece, se nos acharmos bonitas, os outros vão achar-nos deslumbrantes. Se nos acharmos bonitas, vamos ser mais seguras. Se formos mais seguras, passamos mais credibilidade e força. Se passarmos esta força, chegamos mais longe. E o longe pode ser meeeesmo muito longe!
A campanha criada pelo rapaz da Maia fez-me pensar nisto. Fez-me pensar em tudo o que o meu corpo já passou. Que houve tempos em que o espelho do quarto quase saiu disparado pela janela. Mas não saiu e ainda hoje está. E que hoje gosto de olhar para ele.

Esta campanha fez mais que isto: lembrou-me que, para além dos percalços da vida, a idade também se vai reflectindo no corpo, e que contra isso nada poderemos fazer. A não ser aceitar que a vida é mesmo assim, aprender a valorizarmos o que de melhor temos, e aproveitar a vida. Até porque ela é curtinha!
E termino com o que me emocionou, esperando que vos inspire. A criatividade do Hugo Veiga, um rapaz do norte. Vejam com atenção e pensem bem na mensagem que ele passa. Partilhem.

Porque é preciso pôr toda a gente a sentir-se a pessoa mais bonita do mundo.

15 de abril de 2013

É tão simples como isto. E, por isso mesmo, bom.

Costumo dormir uma sesta aos fins-de-semana. Sempre gostei. Desde miúda. Tal como gosto de me levantar cedo, mesmo que a noite tenha sido longa. Acho que me habituei a isto na altura em que as noites eram até às tantas, mas a ordem da mãe sempre a mesma: "deitem-se tarde à vontade mas, nesta casa, acorda-se cedo para tomar o pequeno-almoço. Querem dormir, dormem de tarde.”

Bom, mas hoje, a partir das 17h, mesmo que tenhamos estado juntas até há poucas horas, mana e sobrinha batem à porta.
Entram. A Carlota, assim que me sente sossegada, quase sempre com um objectivo: entrar no quarto devagar e, pé ante pé, tentar pregar-me um susto. A mim, que a sinto a quilómetros…

Ainda vem de cabelo molhado do banho, com aquele cheiro que me enfeitiça há 9 anos. Deita-se em cima da cama, ao meu lado - quando tenho a sorte de não ser em cima de mim - e diz “Titi,  não estava a dormir, pois não?”. Apetece responder-lhe “Claro que não , meu amor. Mas, se estivesse, isso não teria sido um problema para ti, certo?”. Mas não respondo e deixo-a estar por ali, na mimoca, mais uns minutos.

Depois lá a consigo convencer a distrair-se no computador "só um bocadinho, querida, vai lá". Apetece-me mesmo ficar mais um pouquinho colada à cama, com a televisão, ao fundo, com imagem, mas muda.

Na sala, o rebuliço. Mãe e mana falam de tudo, como se não se vissem há semanas. E há sempre assunto. Comenta-se de tudo e também o filme nojento que passa na televisão, em que extraterrestres gordos e cheios de baba tentam roubar o país a humanos. Humanos que, com humor lá pelo meio, conseguem salvar a terra.
No meu quarto, do outro lado da casa, onde ainda não saí do “modo-ronha”, oiço as gargalhadas da Carlota, que delira com tantas cenas estúpidas. Carlota que, de cinco em cinco minutos, me vem contar, eufórica, a parte do “bicho que entra na pele no homem e que anda por dentro dele, pá, que nojo!”. Sai do quarto a correr, para ir ver mais, para depois vir contar-me nova cena arrepiante. Sempre se riu assim, à gargalhada. Lá do fundo.

São sete da tarde e o jantar já está pronto. Quando vemos o empadão, não resistimos e a máquina liga-se. Mãe-tira-o-repasto-do-forno-mana-prepara-a-sangria-de-espumante-com-frutos-silvestres-a-sopa-e-a-fruta-da-miúda-eu-preparo-a-mesa-na-sala-os-tabuleiros. São sete e cinco, está tudo pronto para jantarmos.
E assim se começa a jantar bem cedo, com o tal filme a passar na tv e a continuar a captar a atenção, agora de todas. Filme que continua nojento, por sinal. E com cenas para rir. Que continuam a provocar as gargalhadas pouco discretas da Carlota. Nesta altura, já de todas.

Chegou a Primavera e já não se acende a lareira. Mas a sangria de espumante cumpre praticamente a mesma função. Aquecer-nos. Para além de nos alegrar…!

Aqui come-se rápido. É terrível, mas é verdade. São oito horas e estamos despachadas. Máquina liga de novo. Levar-tabuleiros-para-a-cozinha-arrumar-tudo. Oito e quinze e está a casa organizada. Como se nada tivesse saído do sítio.

É Domingo. Dia de jantarmos as quatro com a calma que a semana não nos permite. E ao mesmo tempo. Juntas. Só as quatro.

Ilustração por Rita Salgueiro

Por ser Domingo, é também dia da Carlota se deitar cedo porque amanhã tem escola. E queremos que mantenha os “5-a-tudo”, como ela diz.

Durante a semana foi dia de reunião de pais e professores. Foi lá a avó, que a mãe estava a trabalhar. “Tem uma neta fantástica. No recreio, uma louca a brincar. E sempre a liderar as brincadeiras. Mas quando entra na sala respira fundo, faz um rabo-de-cavalo, concentra-se e acaba-se a loucura. Tem é um feitio…ui…mas é uma maravilha de miúda. Se continuar assim, nunca vão ter problemas.” E não vamos. Acredito profundamente que não vamos.

Também tem um lado de complicómetro. Quando se explica, não vai a direito. "É a tua fotocópia, Marta. Quando a oiço, estou a ouvir-te a ti com a idade dela. É uma segunda edição", diz-me a minha mãe. A-d-o-r-o.

Quando elas se vão embora, entramos noutra fase da noite. Igualmente boa. A fase do charuto, da novela, do serão.

Foi assim desde sempre. Ou, pelo menos, é assim há muito tempo. É a nossa forma de nos preparamos para mais uma semana. Ganharmos energia. Semana que passa, e que no Domingo queremos que volte ao mesmo.

São serões simples, é certo. Muitas vezes - tantas vezes - parecidos uns com os outros. Sem luxos.

É o NOSSO serão. Que todos deviam fazer por ter. São as NOSSAS rotinas. Precisamos delas. Se as quebramos, estranhamos. Por isso, tentamos não o fazer.

Mantemo-las. Preservamo-las. Porque é bom. Porque nos sabem sempre bem e porque, enquanto assim for, é sinal que a coisa está no caminho certo. Que estamos juntas. Sempre.


12 de abril de 2013

Para, escuta, olha. E ajuda.

Às vezes dou por mim a pensar na sorte que tenho. É um exercício que faço com alguma regularidade. Até porque no turbilhão dos dias, todos damos por nós…a ter pena de nós. Se não for a ter pena, será pelo menos a refilar com alguma coisa. E eu não sou excepção.

Ou é porque temos muito trabalho. Ou porque passamos demasiado tempo no trânsito. Ou porque estamos gordas. Ou porque chegamos a casa e ainda temos que ir fazer máquinas de roupa. Ou porque chove. Ou porque está calor. Ou porque…enfim, qualquer coisa serve. Porque há sempre alguma coisa.
E isto é estúpido. É muito estúpido. É mais que isto. É ridículo e injusto.

Porque hoje em dia é uma sorte: ter trabalho, ter um carro e dinheiro para a gasolina, ter comida, ter uma casa, sentir a chuva e o sol na pele.
Porque hoje em dia, há quem não tenha nada. Nada de nada. Porque hoje em dia, há quem nem um amigo tenha para poder pedir ajuda. Para chorar.

Porque hoje em dia, há quem durma na rua, ao frio. Enrolado em caixas de papelão que desmancham e com que se tapam para cortar o frio. Sempre houve, é certo, mas agora há mais. Tantos mais…

É preciso parar para pensar. Contra mim falo, que tantas vezes me incluo naquele grupo de pessoas que, quando se dá conta, está a refilar com tudo. Cada vez menos. Felizmente, cada vez menos.


Porque a vida, com tudo o que ela me trouxe de pior, também me trouxe o melhor. Ensinou-me, pelo menos, a parar, escutar e olhar. Olhar para a sorte que tenho em ter uma vida equilibrada, com amigos, conforto, trabalho. Uma cama onde posso descansar. Onde posso dormir, acordar e saber que tenho café fresco, bolo de laranja, bolachas e manteiga para o pequeno-almoço.
E que a seguir tenho uma casa de banho onde posso tomar um bom banho quente, pôr a minha máscara no cabelo, os meus cremes no corpo. Uma prateleira cheia de tudo.

E que vai haver o que comer ao almoço e ao jantar. Naquele dia e nos dias seguintes. Uns dias com mais dinheiro, outros com menos, mas sempre com o que sirva as minhas necessidades. Mesmo que sem luxos.
Quantas pessoas têm esta sorte? E quantas pessoas também a tinham e deixaram de ter? De um momento para o outro acaba o dinheiro, vai-se a comida, depois o carro, depois a casa. E, porque como diz o velho ditado “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”, no fim desmembra-se uma família. Ou por isso ou porque é preciso partir para outro país à procura de dinheiro para a comida, o carro, a casa. Para viver. Para sobreviver. Sim, porque viver já começa a ser um luxo.

Depois deparo-me com a história de uma miúda que parece ter tudo o que falta a tantos, mas que se despe desse tudo, arranca para um país longínquo e decide viver meses quase na miséria. Mas feliz porque ensina crianças que vivem nessa miséria. E porque consegue tornar a vida desses miúdos menos miserável. É assim que essa jovem dedica tempo da sua vida: na maior favela do mundo, num qualquer país africano, a ajudar os outros. Depois volta para cá. Mas volta para ajudar os que cá também precisam de ajuda. Contudo, sempre com a promessa de voltar para lá, para garantir que aquela dúzia e meia de crianças pode ter mais um ano de novas palavras, conhecimento, uma oportunidade.
 
O mundo está virado de pernas para o ar. Não é a primeira vez que o digo aqui. Nem será, certamente, a última. Mas está mesmo.
A riqueza está toda concentrada. E cada vez mais. E a pobreza aumenta a cada dia que passa. Por cá e por lá. Por todo o lado. Mais do que nunca, à vista de todos.

Por isso, temos que fazer um exercício muito importante: paremos para pensar, caramba. Não só em nós, que no meio desta porcaria toda ainda nos vamos safando, mas naqueles que já não se safam sozinhos.

Às vezes basta um sorriso. Uma graçola. Um abraço. Uma palavra que traga esperança. Às vezes basta olharmos menos para o nosso umbigo e darmos um bocadinho de nós. Sem esperar retorno. Só dar. Não custa nada. E faz-nos tão bem…
Hoje somos nós a ajudar. Mas como as coisas estão, um dia pode ser a nossa vez de precisar de ajuda. E vai saber-nos bem ter lá alguém para nos dar a mão.

7 de abril de 2013

Ao meu melhor amigo.

Faz hoje um ano que a vida me deu um murro no estômago. Daqueles que, mesmo sendo no estômago, me esmagou lá no fundo e chegou ao coração.

Faz hoje um ano que senti na pele o que foi perder uma pequena, mas tão importante, parte de mim.
Porque faz hoje um ano que, sem pré-aviso, a vida me levou aquele que era o meu melhor amigo.
Um ser, vivo como eu, mas em muitas coisas mais perfeito do que eu. Mais amigo. Mais fiel. Mais paciente. Mais feliz com o que tinha. Mais presente na vida de quem dele precisava. Muitas mais vezes do que alguma vez eu fui. Quantas vezes eu falhei nestas situações, sem sequer me aperceber. Ele, nunca. Nunca.

Sabia quando eu estava feliz, sabia quando eu estava triste. Sabia quando me podia interromper o trabalho. Sabia quando eu queria mimo. Sabia, como ninguém, pedir mimo. E sempre o recebeu.

Por ele mudámos tantas vezes as nossas vidas. Por ele adaptámos tantas vezes as nossas férias. As nossas saídas de casa. Mas tudo isto sem que fosse uma obrigação. Ele era parte das nossas vidas. Era mais um de nós. E nunca “um de nós” ficou para trás. Ou vamos todos, ou não vai nenhum.

Hoje, passado um ano, ainda sinto a dor daquele murro no estômago. E ainda sinto o coração a ficar mais pequeno quando dou por mim e pensar nele. Esparramado na varanda ao sol, deitado na cama ao lado da lareira, ao quente. A dar cabeçadas no comedouro a ver se encontrava os bagos de arroz que, em tempos, lá pusemos. A pedir pão seco assim que acordava. A passear num dia chuvoso, mas sem nunca pisar as poças de água.

 
O meu melhor amigo chamava-se Gaspar. Era peludo, louro, tinha 4 patas, olhos pretos de chinês, bigodes, nariz molhado e o rabo sempre a abanar. E isto tudo em 42 quilos de ternura e mimo. E inteligência.
Chamava-se Gaspar e não tenho a menor dúvida que, enquanto o tive por perto, fui muito mais feliz. Desde que o perdi, tenho feito tudo para o continuar a ser. Mas ainda são muitos os momentos em que não sou. Porque não o tenho. Porque não sinto o pêlo dele nas minhas mãos. O cheiro da baba. Porque não o vejo. Fisicamente. E vê-lo apenas no coração ou nos meus sonhos, ainda não aprendi a que me chegasse.
Uma palavra a quem não percebe esta dor. Que se lixe. Que se lixe quem não consegue compreender a dor devastadora que se sente quando se perde um animal como se de uma pessoa se tratasse. Porque a questão é mesmo essa: para nós ele era mais uma pessoa nesta casa. Que se lixe quem responde “sim, mas era um cão e cada um deve ter o seu lugar.” Este tinha. E um lugar muito especial: nos nossos corações. Onde, aliás, poucas pessoas cabem. Era um cão especial. E felizmente que, para além de nós, foram alguns os que tiveram a oportunidade de perceber isso.


A quem não percebe esta dor que nos aperta o coração, só posso desejar que um dia tenham a sorte de viver e conviver com uma amizade tão pura como a que recebemos e demos ao Gaspar.

Passou um ano. E 365 vezes pensei que encontrar outro amigo destes poderia ser uma forma de superar a falta que ele me faz. Que ele nos faz. Mas até agora, a mim faltou-me a coragem. Talvez a tenha esgotado em tudo o que de mau me aconteceu ao longo da vida. Ou talvez ainda não tenha chegado a altura certa. Acredito que o tempo vai acabar por ajudar. Mas, por agora, não. Se um dia esse dia chegar, logo se verá.

Mas, no meio de tudo isto, uma coisa já ninguém nos tira: a sorte de, durante 10 anos, termos vivido uma amizade como esta. Incondicional.

Estejas onde estiveres, Gaspar, serás sempre o nosso cão. E tenho a certeza que, estejas onde estiveres, estarás esparramado num canto, confortável, a ressonar e a tremelicar, como quando fazias aqui enquanto sonhavas. E que continuas a ser feliz como foste connosco.
Nós, por aqui, vamos continuar a fazer tudo para sermos também. Sempre contigo no coração. Como sabemos que também nos tens no teu. Para sempre.

 
 

29 de março de 2013

Ai Portugal, Portugal...

O meu país está “de pernas para o ar”. E a solução não passa por simplesmente pegar nele e pô-lo direito. Ou apenas aconchega-lo nas minhas mãos, trazê-lo para junto do meu peito e dizer-lhe: “vá, tem calma que isto vai passar.”

Até eu tenho dias em que me apetece deixar tudo para trás. Pegar nas pessoas que mais gosto e sair daqui. Mas acredito que isto passe pela cabeça de tantos...Pelo menos algumas vezes na vida. E hoje mais do que nunca.

Não sei se é da falta de sol que não consegue furar as nuvens e a chuva mas, nos últimos dias, era o que fazia. Pegava na trouxinha e desaparecia. A gaita é que não tenho essa coragem. E depois – muito importante - sinto que o meu país precisa mais de mim aqui que lá fora. Ou que os que ficam precisam mais de mim aqui do que longe.
Mas aguentar não é para todos. Quando diariamente, nos media, nos cafés, nos corredores, em todo o lado, o tema é sempre o mesmo. Crise, crise, crise. Já não há boas notícias. E quando elas existem, não se espalham. Porque não vendem. Incrivelmente por isso.

Desespero é olhar para o lado – e agora é mesmo isto, olhar para o lado - e ver uma montanha gigante de gente a sofrer. Gente que de repente deixou de ter dinheiro para pagar contas, para comer. Que teve que emigrar e largar a família para trás. Deixar cá metade do seu coração. Para muitos, a metade mais importante. Que, sempre que se despede, morre um bocadinho por dentro. E vá lá que ainda vai havendo quem têm a oportunidade de emigrar. Porque outros há que nem isso podem fazer e que se limitam a viver na miséria.
Nunca as instituições de solidariedade tiveram tantas pessoas a pedir ajuda. Pessoas que antes tinham uma vida equilibrada. Não de luxo, mas equilibrada. E que agora fazem parte dos chamados “novos-pobres”. Há uns anos atrás havia os “novos-ricos”, hoje há os “novos-pobres”. Um número que dispara todos os dias.
Depois ligamos as televisões, os jornais, e as notícias desmotivam qualquer um. Governantes que não se entendem, que mentem. Que se digladiam aos olhos de todos. Mais austeridade, mais cortes, mais pobreza, mais miséria. Mais desemprego. E nada indica que a coisa melhores nos próximos tempos. Como consequência, o desespero e o aumento daqueles que perdem a cabeça e que, pensando não ter saída, decidem parar de sofrer e acabam com as suas vidas. Muitas vezes também com as dos outros.

E algo que tanto me angustia: até o número dos divórcios diminui pelas piores razões... Com esta p _ _ _ desta crise, as pessoas desistem até da felicidade. Preferem aguentar um casamento de fachada, um amor que já deixou de ser, simplesmente porque dependem do outro, porque sozinhas não conseguem fazer face às despesas. Desistir de ser feliz devia ser proibido.
Todo este cenário arrasta consigo também o aumento dos números da violência doméstica que, desde o início do ano, já ceifou dezenas de vidas. E, atenção, passaram-se apenas três meses.

E o mundo vai-se degradando.
 
Como uma vez disse o grande escrito italiano, Cesare Pavese, “só uma doença nos revela as profundezas funcionais do nosso corpo. Do mesmo modo, pressentimos as do espírito quando estamos em crise.”
E o nosso espírito, a nossa alma sente-se tentada a desistir. E quando isso acontece, é o fim.

Infelizmente não tenho uma solução...No limite, tenho um conselho. Um pedido.
 
 
Agarrem-se às coisas boas da vida. À família, à saúde, aos amigos. A viver um dia de cada vez. A nunca desistir. A nunca se renderam. A lutarem. A terem fé que as coisas vão melhorar. A arranjarem força para enfrentar esta tormenta. Sempre de mãos dadas com quem mais gostam e que partilhem convosco a vontade de vencer.

A história de Portugal é a prova de que os Portugueses são um povo lutador. Destemido. Que, como mais ninguém, há centenas de anos atrás se enfiou em caravelas toscas e enfrentou mares desconhecidos. Descobriu o mundo. Literalmente.
 
Munamo-nos então da coragem de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães, Gil Eanes e Diogo Cão, e agarremos o touro pelos cornos.

Lembrem-se: Portugal e os Portugueses nunca desistem. E eu acredito mesmo nisto. Por favor, por vocês, por todos nós, acreditem também.

28 de março de 2013

Gostar que gostem de nós.

Têm sido dias tramados estes últimos. Daí a minha ausência.

Dias em que não tenho tido tempo para as coisas e pessoas que realmente gosto. Tempo de qualidade. Tempo em que a minha alma está com essas pessoas e não apenas o meu corpo.
Sinto falta disso. Porque não sei viver sem isso.

Têm  mesmo sido dias tramados. Muito trabalho. Algum que gosto, outro nem por isso. Mas, tendo em conta o momento que o nosso país passa, só posso agradecer ter.
Depois, trabalho reconhecido e trabalho menos reconhecido. O segundo modelo entristece-me mas também me motiva. De uma maneira diferente do primeiro, é certo, mas motiva. Porque me irrita. E quando eu me irrito, nem sei bem explicar porquê, ganho mais força. Mais vontade de mostrar que sou capaz.

Claro que há alturas em que este tipo de auto-motivação não é imediato. Mas tento parar, respirar, pensar e analisar a situação. Friamente. Preparo o corpo mas também a alma. E vou com tudo. Contra todos, se for necessário. Ou, pelo menos, contra os que for preciso.
E depois agarro-me muito ao trabalho reconhecido. Ao que faço de melhor e que é notado. Sim, gosto que notem. Algum problema? Gosto de ser mimada. Gosto da palmadinha nas costas. Pois gosto! Aliás, quem não gosta?
 
Em tempos, tive alguém hierarqucamente superior a mim que, estando de saída da empresa para novos desafios, me perguntou se eu tinha gostado do seu estilo de liderança. De trabalhar com ela. Naquele momento lembrei-me da sua falta de apoio. Da falta do tal “mimo”. Da falta da palmadinha nas costas. E disse-lhe. “Nada contra ti, mas precisas de saber reconhecer. Agradecer. Motivar. Isso é saber liderar. Por isso, e respondendo à tua pergunta, não, não gostei.” Hoje somos amigos. Amigos profissionais, mas amigos. E acho que o facto de ter sido sincera, ajudou.

Estes foram também dias em que me ensinaram a tentar mostrar a quem de direito e sempre que necessário, que espero reconhecimento, que preciso dele para continuar a lutar. Mas virando o bico ao prego.“Põe a questão ao contrário. Não ataques. Não te queixes. Diz que o problema está em ti. Que precisas desse alimento. É muito provável que essa pessoa não se tenha apercebido disso e que só precise de um alerta.” Aquilo ficou-me na cabeça. “És capaz de ter razão”, respondi. E um dia, quando a oportunidade surgir, vou fazê-lo.
Para além disto, foram dias em que também me surpreenderam com uma informação que me intrigou. Vá, confesso que magoou um bocadinho. Foi saber que alguém - ok, que já não trabalha comigo, mas que trabalhou durante alguns anos - na altura me “odiava”. Bolas… Aquilo apanhou-me de surpresa. ”Odiava”? Mas “odeia-se” assim alguém com quem pouca ligação se tenha, ou com quem se tem apenas uma relação profissional? Pelos vistos que há quem ache que sim.

Que “não vão com a minha cara”, que não gostem do meu feitio, ou do facto de ter dias em que estou mais "espaçosa", barulhenta, bruta, até posso entender. Afinal não conseguimos agradar a todos. Mas…”odiar”…? C`um caraças. Desta não esperava.

Claro que sei o porquê. Entre outros, terá tido a ver com o facto de ousado dizer não a uma questão de trabalho que, como profissional que sou, não deixei passar e travei.

No entanto, tenho consciência de que travei de forma certa e, acima de tudo, fundamentada. Mas, para essa pessoa, “confrontei”. E há quem não admita ser confrontado. Mas nem este episódio que, apesar de não ter esquecido fechei numa gaveta, era razão para um sentimento tão forte. E mau. E pobre.

Bem sei que devemos dar importância apenas às pessoas relevantes para nós. É o que sinto e foi o que ouvi de quem tem por mim algum apreço e acabou por saber deste caso. Mas isto de me “odiarem”, intrigou-me. E, como disse lá em cima, magoou-me um piquinho.
Há uns anos atrás ia gostar de ter quem de mim não gostasse. Mas a idade avança, a experiência pesa e hoje preferia passar mais despercebida.

Porque gosto que gostem de mim. Mas a vida é mesmo assim. E, se já sobrevivi a tanto, sobrevivo facilmente a isto. Com alguma mágoa e com algumas marcas, mas sobrevivo.
 

21 de março de 2013

Don`t be happy! Be very fucking happy!

Hoje é o Dia Mundial da Felicidade. Definido pela ONU. Mas também podia ter sido definido por mim, que gosto do tema. E é importante.

Por isso vou armar-me em guru e falar de felicidade. Começando por perguntar: o que é, afinal, a felicidade?

Para alguns é ter dinheiro ou fama, para outros, basta saúde. Saúde, paz de espírito. Tranquilidade. É nesta equipa que eu jogo.
Deitar a cabeça na almofada e conseguirmos dormir por não ter nada que nos pese na consciência. Pessoalmente, nada me deixa tão feliz.
Saber que temos amigos, daqueles que se preocupam connosco. Sem merdas. De verdade. Daqueles que nos conhecem bem e sabem que, por muito tempo que passemos sem nada lhes dizermos, quando precisam estamos lá. E o contrário também.

Ter uma família que pára tudo para nos ajudar sempre que precisamos. E por quem paramos tudo para fazer o mesmo. Sem nos apercebermos sequer que parámos. Sem queixas. Só porque é assim que tem ser.

É conseguir dormir as horas que o corpo pede. Acordar de manhã e estar sol. Mas também ver que chove. No fundo, acordar. Quer dizer que a vida nos brindou com mais um dia.
É lembrarmo-nos de um sonho bom quando acordamos. Tim-tim por tim-tim.

Para mim é ainda sonhar a cores. E que ando. Também gosto. E acontece-me com frequência. Mato saudades.

É ter objectivos. E fazer o possível para os alcançar.

É ter coragem para dizer não quando o nosso coração nos segreda que aquilo não é para nós. Na vida pessoal e na profissional.

É olhar para trás e ver que mudámos para melhor. Que já não cometemos os mesmos erros. Que evoluímos.

É nunca perder a esperança. Acreditar sempre. Principalmente em nós e nas nossas capacidades.

Mas também é pormo-nos a jeito para que as oportunidades surjam. E, quando isso acontece, conseguir agarrá-las com a toda a força do nosso corpo. E, se precisarmos de mais um corpo para ajudar a agarrá-las, ter onde o ir buscar.
É ir trabalhar com a sensação de que a coisa nos vai correr bem. E a coisa correr melhor ainda. Depois chegarmos a casa e contar. Ter a quem contar. Ter quem nos oiça.

É conseguir fazer a diferença na vida de alguém. Nem que seja arrancar-lhe um sorriso num momento mais delicado. Mesmo que pequenino. Um “vá, dentinho, quero ver esse dentinho!”

É ter a capacidade, não apenas de ver, mas de observar e absorver o que nos rodeia. No meu caso, de imaginar, criar histórias à volta de quase tudo. Inventar, se necessário for.

É surpreendermo-nos todos os dias pela positiva. Nem que seja só por um bocadinho..

Aliás, ser feliz é isso mesmo, ter momentos felizes. E saber encontrar e reconhecer a felicidade em todos os minutos do nosso dia.

Porque a verdade é que ninguém é sempre feliz. Mas também ninguém é sempre infeliz.  E quem diz o contrário, mente.

Todos nós temos dias melhores e dias piores. Mas temos que nos esforçar para fazer com que o peso dos melhores, no fim do dia, seja muito, mas muito maior. E somos nós, a nossa cabeça em particular, que controla e comanda esta balança.

Porque acredito que há sempre duas formas de encarar um problema: com força, de frente e com coragem ou sem elas. Há sempre dois caminhos. O “a direito” e o “às curvas”. E, por vezes, vale mais ir fazendo uns "ésses", mas com calma, do que querer ir logo a direito, a abrir, e não ter a certeza de que aquele é o caminho que nos traz felicidade.

No fundo, ser feliz é ser livre. É ter as asas escondidas e, sempre que nos apetecer, fechar os olhos, abri-las e voar.
É estar vivo. É “saber o que se quer e querê-lo apaixonadamente."

Por isso, é simples: sejam felizes. Ou melhor: queiram ser felizes! Porque se não quiserem, nada feito...!