10 de junho de 2013

Obrigada amor da tia.

Hoje, sem razão nenhuma em especial, lembrei-me do período pós septicémia, já em casa. Safa, mas ainda com muito para recuperar. Acamada.

Não podia sentar-me na cadeira porque a cirurgia que me tinha retirado a cabeça do fémur, entretanto destruída por uma bactéria, ainda estava fresquinha.

Durante o dia via televisão, lia e controlava como podia o trabalho à distância, via computador.

Mas ao fim da tarde, quando a Carlota chegava do infantário, o meu dia ganhava outro sentido. Aí estava ela, feliz, barulhenta. Entrava no meu quarto a rir, dava-me um beijo, sentava-se no chão, ao lado da minha cama. E ali ficava a brincar.

Começava por olhar para a aparelhagem que estava em cima da minha mesa-de-cabeceira e dizia “Muca, muca!”. Queria ouvir música.

“Olha a bola Manel”, “Atirei o pau ao gato”, “O balão do João”. E todas cantadas por ela, à maneira dela, que me derretia. “Oiá bóia Maneli” era a minha preferida.

Quando me via no computador dizia “cookie monster”. Era altura do site da Rua Sésamo e de jogar os jogos do Monstro das Bolachas. O monstro falava com a sua voz cavernosa e ela partia-se toda em gargalhadas. Maravilhosas gargalhadas que espero lembrar-me para sempre.
 

Outras vezes pegava no telefone fixo e simulava uma conversa com alguém. Digo “com alguém” porque nunca percebi uma palavra. E, claro, era sempre a refilar com esse alguém, não tivesse ela a quem sair.

Não podia ver uma caixa de creme Nivea. E como sabia que tinha sempre uma no balcão da casa de banho, ia lá de fininho, trazia-a para perto de mim e dava-ma para a mão. Queria que lhe pusesse uma noz de creme na ponta do nariz.”Tia, no naís”, dizia-me a apontar com o dedo gordo e a rir. Mentira. Queria era que eu a enchesse de creme. Cara e mãos. E, claro, eu enchia, e ela a mim. Mais uma vez, vinha dali aquela gargalhada encantadora. Depois enfiava-se debaixo do meu edredon, tapava a cabeça e dizia “tapa, tá piu!”. Está frio, dizia ela…

Foi uma das melhores fases da Carlota. Era Verão, ela andava coradinha do sol, cabelo cheio de caracóis loiros, sempre maravilhosamente desalinhados. Simplesmente irresistível...E sempre com a chucha agarrada a um lenço e a fralda atrás. “Chucha e a fauda”, como ela dizia.

Foi uma das fases mais difíceis da minha recuperação. Mas aqueles fins de tarde quentes, na companhia da Carlota, sempre no meu quarto, que durante um longo período de tempo foi o quarto das brincadeiras dela, foram inesquecíveis. De bons. Sabia que estava ali uma amiga para sempre.

Obrigada, amor da tia. Não é por seres um bocadinho minha, mas és um espectáculo!

8 de junho de 2013

Saúde e Amigos. What else?

"A todos os que sofrem e estão sós, dai sempre um sorriso de alegria. Não lhes proporciones apenas os vossos cuidados, mas também o vosso coração."

Madre Teresa de Calcutá

Passei a semana no hospital a acompanhar a minha mãe numa cirurgia.

Garcia de Orta. Conheço aqueles corredores como as palmas das minhas mãos. Sei como chegar ao bloco operatório sem ser pelo caminho que todos fazem. Sei onde estão as máquinas de café usadas pelo pessoal do hospital. Sei como chegar até à farmácia. Sei andar nos elevadores de serviço. Sei entrar nas urgências sem ter que passar pelo segurança. Aprendi isto tudo durante os meses em que estive lá internada.
Foram muitas as vezes que tive que sair do quarto, sempre na cama, para viajar por aqueles caminhos secundários até chegar às salas onde me esperavam técnicos de todos os tipos de exame. Desde RX, Ecografia, passando pela TAC, Ressonância Nuclear Magnética, até à complexa Cintigrafia Ósseas. Papei todos.

Aprendi todas as rotinas. Sabia a que horas me davam a última medicação do dia e a primeira da manhã. Sabia as horas das mudanças de turno. Sabia quando morria alguém no serviço. O que não via com os olhos, aprendi a sentir com o coração.
Naquele dia cheguei à urgência do hospital com febre e mal disposta. E com pouco mais de 40 quilos. Levava vestidas umas calças de ganga e o camisolão de riscas que costumava usar em casa. Não me apeteceu vestir outro quando saí.

Pedimos uma maca. Precisava de me deitar. Fui atendida muito rapidamente. Fizeram-me análises. Esperei, sempre com a minha mãe ao meu lado.
Enquanto esperava, lembro-me de ter passado um polícia, que estava ali a acompanhar alguém que tinha ficado ferido num assalto . Olhou para mim, viu-me enfiada debaixo do lençol, só com a cabeça de fora. E a chorar. Parou e disse-me “uma cara tão linda e a chorar…? Isso não pode ser…” Sorri-lhe com esforço. Sentia-me demasiado em baixo para mais que isso.

Vieram as análises e com elas o Dr. Nuno. Aproximou-se da minha maca, pegou-me na mão, olhou para a minha mãe e disse “a Marta está com os indicadores de infecção muito altos e vai ter que ficar connosco para conseguirmos perceber de onde vem disto. A ferida que tem na nádega é uma hipótese e temos mesmo que debelar esta infecção.” Foi nesta altura que aprendi o que era a Proteína C Reactiva.
Chorei mais um bocadinho, mas sentia-me tão mal que tudo o que queria era que me ajudassem a sair daquela situação. “Sim, eu fico.” disse eu.

Subi ao piso 4, Cirurgia II. Fiquei no primeiro quarto à direita, na cama encostada à janela. Foi a minha casa nos 2 meses seguintes. Até que me passaram para o quarto 27. Isolado. Onde ficam os “infectados”. Os que podem não sobreviver. Perguntaram-me se me importava de estar sozinha. Respondi que não, que preferia. Não por estar triste, apenas porque não gostava mesmo de partilhar aquele espaço. Que, por esta altura era o mesmo que partilhar toda a minha intimidade, uma vez que não saía da cama para nada. Mesmo.
Tive dias em que chorei como uma condenada. Mas a verdade é que tive outros em que me ri que nem uma perdida. Quando tive fome, comi sardinhas assadas, bitoques, pregos no pão. Caracóis e McDonald`s. Mas no início tive fome poucas vezes.

Durante o dia a febre cedia, mas ao fim da tarde, voltava a atacar. Mau sinal.
Lembro-me de raramente estar sozinha, de ter quase sempre a companhia de uma auxiliar, uma enfermeira, um médico. Ou de todos ao mesmo tempo. Não para me tratarem, mas porque começávamos a conversar e perdíamos o tempo. Enquanto ali estive internada, fiz amizades para a vida.

Lembro-me de um dos médicos me pedir para ir falar com a doente do quarto ao lado. Para a tentar animar. Uma miúda de pouco mais que 15 anos que, depois de uma infecção, teve que cortar partes dos membros, superiores e inferiores. Quase não falava com ninguém. Porque havia de falar comigo? Mas falou. Pouco, quase nada sobre o que lhe tinha acontecido, mas falou.
Anos mais tarde vi-a com o pai, já com próteses, feliz, no paredão da Costa, a andar. Uma vencedora. Chamava-se Carla.

No dia em que finalmente tive alta, depois de tantos meses, apenas com semanas de intervalo, chorei. Porque deixava ali as pessoas que me devolveram a vida. À vida. Porque tinha medo de sair de perto delas e de me sentir malde novo.
Elas também choraram. Mas também de felicidade, penso. Afinal eu tinha entrado ali a 18 de Janeiro, a dar as últimas, e agora estava a sair de lá ainda com um longo caminho a percorrer mas, finalmente, com a esperança de uma vida pela frente.

Esta semana voltei passar à porta do quarto 27. E a encontrar estas pessoas. Pessoas que passaram a fazer parte da minha vida. Pessoas que, mais uma vez, me ajudaram. Que me receberam com um abraço. Como aquele que me deram quando me viram sair. Com a saúde que elas me devolveram. Com os seus cuidados médicos, mas também com o carinho diário.
Por muitos anos que viva, e que fique claro que tenciono viver muitos, não vou esquecer o que sofri naquele quarto, naqueles corredores. Mas, mais do que os maus momentos, vou sempre preferir agarrar-me aos bons e a tudo o que aprendi ali. Do que ganhei. Que não foi pouco. Saúde e amigos. Afinal, o que é realmente importante.

2 de junho de 2013

"O rato que tem um só buraco não tarda a ser apanhado."

Há uns dias, em conversa com alguém da minha empresa, falávamos de sonhos. De ir atrás deles.

Esse alguém perguntava-me se eu era feliz no meu trabalho. Disse-lhe que sim. Mas que não tinha sido para aquilo que tinha estudado. Estava ali por mero acaso.

Perguntou-me “e estudaste para quê?”. “Para trabalhar em televisão”, respondi.

“E porque não seguiste o teu sonho?”. Respondi “a vida levou-me por este caminho, aceitei o desafio, comecei a ganhar algum dinheiro, necessário na altura, e fui-me deixando ir. Quando dei por mim, já não dava para voltar para trás.”

Mas às vezes penso “e será que não dava mesmo?”. Depois passo à frente.

Em miúda não fui diferente das outras crianças da minha idade. Quis ser hospedeira. Astronauta. Depois veterinária. Mas cedo decidi que o que queria mesmo era ser jornalista. De Televisão. E, quando surgiu, da SIC.

Era com aquele canal que me identificava. Com a Informação. E também visualmente. Sabia, tinha a certeza que ali eu ia ser feliz.

Mas a meio do caminho, um dia, na praia, uma amiga pergunta-me se eu estava interessada em ir a uma entrevista na empresa onde trabalhava, para a função de assessora de imprensa. Perguntei “isso não é para ministros?”, e ri-me. Mas fui.

Nesse dia pintei as unhas e vesti uma camisa da minha mãe. Cinzenta com riscas brancas. Nunca mais me esqueço. Estava-me larga e, por isso, tive que a prender debaixo do rabo.

Quando cheguei fui encaminhada por essa minha amiga para uma sala. “Ficas aqui que eu vou chamar a pessoa que te vai entrevistar.”

Quando ele entra na sala, vejo um homem com cerca de 40 anos, bom aspecto. Sentou-se e começou a fazer-me perguntas. Entre elas “percebe de computadores, interessa-se por esta área”. Pensei “estou frita! Nem aguento o Pac Man, quanto mais gostar disto…!” Mas respondi “nunca me debrucei sobre este tema, confesso que não sou muito sensível a tecnologia, mas aprendo rápido! Para além disso gosto de escrever e, se o fizer de uma forma que eu perceba, vos garanto que todos os jornalistas vão perceber o que aqui se faz”.
 

 
Não estava nervosa. Ao contrário da minha amiga, que numa hora bebeu todas as garrafas de água que estavam em cima da mesa…

Explicaram-me a função, o objectivo da função e eu disse “se é para falar com jornalistas, se é preciso à vontade, isso sim, é comigo. Acho que me safo bem porque não me calo, falo pelos cotovelos...” E rimo-nos.
 
No fim da conversa, o entrevistador perguntou-me “quando pode começar?”. Apanhou-me de surpresa porque, podia não perceber nada de entrevistas de emprego, mas sabia que normalmente nos mandavam para casa e só depois nos contactavam com uma resposta. Mas ele disse “não vamos procurar mais. Parece-meque encontrámos a pessoa certa. Vamos experimentar?”. “Sim, vamos, se correr mal, volto à minha vida”, respondi com um sorriso despreocupado. Mas com curiosidade em perceber se ia estar à altura.

E assim fiquei na empresa onde estou há 14 anos. Cresci com ela, e ela comigo.

O outro sonho, o da televisão, passou para segundo plano. Guardei-o numa gaveta.

Continuei, porém, atenta a tudo o que se fazia naquele canal. Até hoje. Sempre que faz anos, sempre que muda de cenário, sempre que um dos jornalistas faz uma reportagem inovadora, original, o meu coração acelera. É como se fosse um bocadinho meu. Confesso.

Tenho hoje amigos ex-colegas em todos os canais. Mas, que me desculpem, aquele continua a ser O canal.

Entretanto, a pessoa com quem falei dos sonhos, tornou-se num bom exemplo. Seguiu o seu e tem hoje um cargo de topo na minha empresa. Começou devagarinho, foi ganhando cada vez mais responsabilidade. E, acreditem, chegou longe.

Hoje posso dizer que o meu coração tem dois amores. O que faço hoje e o que não fiz há uns anos.

Por muito que por vezes dê por mim a pensar “e se tivesse antes ido por ali?”, sou feliz. E, porque quem ama de verdade fica feliz pelo outro, fico ainda mais quando vejo o meu segundo amor a fazer um bom trabalho.

A verdade é que passamos demasiado tempo na vida…a planear a vida. E, enquanto estamos distraídos a controlar tudo, prever tudo, corremos o risco de estar a deixar escapar por entre os dedos outros caminhos que também nos podem fazer felizes. Contra mim falo.
 
Ter sonhos é óptimo, nunca devemos deixar de sonhar. Mas, para isto ser minimamente interessante, vale a pena acreditar que a vida tem reservadas para nós muitas surpresas.  

Afinal, como já li algures, “as coisas boas vem com o tempo. As melhores, de repente.”

1 de junho de 2013

Um dia de cada vez.

Há dias em que valem por uma montanha deles. Que devemos recordar…e saborear cada minuto.

Bem sei que deviam ser todos assim mas sabemos que isso não acontece sempre.

Mas o dia de hoje foi bom.

Para começar acordei sem as minhas famosas enxaquecas, que me dão náuseas, depois quebra total e no, fim, cabo dos nervos. Fico inutilizável. Imprópria para consumo. Nestes dias não presto p-a-r-a n-a-d-i-n-h-a.

Depois o meu pinhal estava lindo. Metade ao sol, metade à sombra. Metade verde alface, metade verde-escuro.

Os meus amigos corvos vieram brindar-me. Fartaram-se se cantar. Para mim.

Desta vez ouvi um piar novo. Tentei perceber de onde vinha mas o pássaro estava escondido nas árvores. Vou estar atenta porque quero saber se é tão lindo como canta.

O gato coxo lá estava. Passando por baixo dos carros estacionados no parque, rasteirinho, um a um. Até ao canteiro onde a senhora platinada, que desce todos os dias do autocarro à minha porta, lhe deixa água e comida.

Passam poucos minutos e vejo o gato amarelo, companheiro de aventura do coxo, a aproximar-se devagarinho. Amigos, amigos, mas cada um come do seu. Ali há regras. Ali o amarelo não pica. E ele sabe. Por isso, fica a uns palmos, e espera que ele acabe. Depois enfiam-se os dois no pinhal. Deixo de os ver.
 
Toca-me o telemóvel e vejo no visor o nome de uma amiga que gosto muito. Daquelas de quem podemos estar algum tempo afastada, mas que liga sempre no momento certo. Falamos a correr mas deixamos a certeza de que estamos ali para o que der e vier. "Beijinhos, tenho que desligar, depois falamos!"

Volto para dentro e para o computador. Comprometi-me com a Sónia dar-lhe uma entrevista para o jornal onde trabalha e estava quase na hora. Rubrica “Lutadores”. Quando me pediu pensei: bom, lá vou eu repetir a minha história. Mas como já não o faço há algum tempo, aceito. Combinamos falar via skype.

Toca o “telefone”, atendo com vídeo. Do outro lado, uma cara de quem apenas conheço o blog “Cocó na Fralda”, que vejo de vez em quando. É giro quando ouvimos a voz e vemos a cara de quem conhecemos apenas o nome e os textos.

Começamos a falar…e o tempo voa.

Esperava uma entrevista igual às outras mas não. Foi divertida e fez-me reviver alguns momentos que guardo na memória. Uns bons, outros nem por isso. Mas todos importantes para ser o que sou hoje.
 
Quando estamos à conversa oiço do outro lado “Marta, dá-me um bocadinho que estão a bater-me à porta. Não saias daí.” Não saí. Oiço uma mãe a receber um filho, que lhe conta do exame da escola. E lembro-me da Carlota, que faz exactamente o mesmo assim que entra em casa depois de um dia de teste. Percebo depois que era suposto a Sónia ter ido buscar o filho à carrinha e que entre palavras se esquece do tempo…e do filho!

Hora e meia depois de muita conversa, e ainda mais gargalhadas, despedimo-nos. Mas prometemos voltar a falar porque “o espaço para esta rubrica é muito pequeno para tanta coisa e vou querer fazer algo mais com o material que me deste”. Com muito prazer, Sónia.

Volto ao trabalho, envio mais uns emails. Preparo o trabalho da semana para poder acompanhar mais de perto a cirurgia da minha mãe na segunda-feira.  
 
Faço-lhe um poema. Nunca tinha feito nenhum. Não está brilhante mas está como me saiu. Do coração. E percebo mais uma vez que é tão mais fácil escrever o que sinto. Sai-me melhor…

Está tudo preparado para mais esta prova. Mas andava-me a irritar a ideia dela estar no hospital sem poder ter acesso ao email e ao Facebook – que aprendeu a gostar e sempre que pode espreita – quando eu me venho embora.

Lembro-me do meu tablet, do meu querido tablet. Que a minha mãe “achava giro mas para ti”. Ponho-lhe um cartão de dados, configuro-lhe o acesso à conta de Facebook, o email do trabalho e ensino-a a mexer naquilo. Já passaram 2h e ainda não o largou. Já lhe mexe como eu. E assim fico descansada porque vai poder estar mais distraída quando eu não estiver por perto.

Abro o meu Facebook e deparo-me com uma foto da Carlota postada pela mãe, a minha irmã. Amanhã é o dia da criança. E a nossa vai estar ainda mais feliz porque sabe que tem uma surpresa.

A noite já caiu e o dia está quase acabar. Olho para trás, e sabe-me bem recordá-lo.

O trabalho correu bem. Conheci uma pessoa que me pareceu especial. Vi a minha mãe mais animada. E amanhã é o dia de uma das pessoas mais importantes da minha vida.

Foi um dia bom. Os próximos também vão ser. E vividos um de cada vez.

Há dias cheios de vírgulas. Outros cheios de reticências. Alguns com parêntesis a mais. Muitos com pontos finais. Mas hoje o meu acabou com um granda ponto de exclamação!
 

27 de maio de 2013

"Os golpes da adversidade são terrivelmente amargos, mas nunca estéreis."

Há notícias que nos abanam por dentro. Em que sentimos uma mão a sufocar-nos as entranhas. E que nos levam a pensar: mas porque raio tem que ser sempre assim?

Custam a aceitar. O coração estremece. O lado emocional do cérebro começa a fazer contas aos dias e ao que aí vem. Por vezes atrapalha-se todo, tropeça, cai. E chega a precisar da ajuda de alguém para se levantar de novo.
Mas, geridos e digeridos os primeiros momentos, o impacto inicial, o corpo reergue-se. Larga o word - simples e onde nos perdemos em emoções - e mune-se do excel da vida. Frio, distante, que calcula, que analisa. Que agrupa todas as células e faz o somatório. E que traz resultados claros.

É nesta altura que o lado matemático do cérebro começa a ganhar espaço e obriga o corpo a manter-se à tona. Comigo tem sido assim.
Na minha vida, em que o lado emocional foi sempre tão activo – pela paixão, pelo imediato, pelo “à flor da pele” – foram muitas as vezes em que foi preciso parar e deixar o lado oposto pegar nas rédeas. Tomar o controlo da situação. Tanto na vida pessoal como profissional.

Nem sempre foi fácil. Houve grandes batalhas entre os dois. Umas vezes ganhou um, outras o outro. Mas o “2+1 = 2” sempre foi mais forte que o “2+1 = ao que eu quiser”. E, até ver, ainda bem.
Tudo começou pela saúde, área em que a vida me reservou algumas surpresas.

Desde logo com o “presente” de uma paraplegia aos 15 anos. O auge da mudança da vida de uma miúda. A passagem do estado criança para o estado adolescente.
Nesta altura, o meu lado “lógico” estava de olhos bem abertos. Um dia acordo (de coma) e percebo que metade de mim tinha adormecido. Mas rapidamente constato que se tratava da parte menos importante. Afinal, o coração, a cabeça, o que me ligava ao mundo mantinha-se intacto. Acordado. Em oposição ao que da cintura vai até lá abaixo, que entra num sono profundo. Sem hipótese de beijo para acordar. Não, aquilo não era, de todo, um conto de fadas.

Anos mais tarde, uma septicémia grave causada por uma escara infectada. Nos primeiros tempos, o lado esquerdo domina o palco. Mas, desta vez, o lado direito não lhe deu tréguas e ganhou na contracena. Acho que, no fundo, o venceu pelo cansaço. O meu lado “tubarão”, que resistia a tudo, estava estoirado.
Senti-me uma formiguinha. Pequenina e, pela primeira vez, a deixar-me levar pelo mar de emoções. E houve uma altura em que pedi isso mesmo. Que me levasse.
Mas era cedo. Era cedo e, por isso, o lado matemático deu um murro na mesa, começou a fazer contas. A somar força com força. A multiplica-la. Depois dividiu-a de forma equilibrada por todas as partes do meu corpo debilitadas pela infecção. E o resultado foi que ganhou a guerra. Contra todas as previsões, livrei-me da septicémia.

Depois parti a perna e, entre com gesso e sem gesso, deparei-me com quase 7 meses com ela esticada. Mais uma vez lado prático a funcionar: a primeira coisa que fiz foi replanear as férias para as poder aproveitar mesmo assim. E medir o elevador da empresa, para perceber se cabia lá dentro para poder voltar ao trabalho. Correu tudo bem. Mais uma vez, o “tubarão” esteve bem acordado e comandou a situação.

Pelo meio disto tudo tornei-me uma pessoa mais dura, menos paciente. Mas tentei nunca perder de vista o carinho, a tolerância, o toque. Não para todos – às vezes até infelizmente menos do que eu gostava - mas, tento, para quem merece ou precisa mesmo.
Por fim, a saúde deu-me, finalmente, tréguas. Mas o que aconteceu marcou-me para sempre. E, sim, formou-me. Ensinou-me a distinguir o essencial do acessório. O que interessa do que não interessa. Pelo que devemos lutar, pelo que não merece sequer o esforço. “Pelo que” e “por quem”.

Por isso, quando hoje me acontece alguma coisa menos boa, seja de saúde ou mesmo ao nível profissional, há um exercício que me obrigo a fazer: não me agarrar à reacção a quente e parar para pensar. Gerir o primeiro impacto.
Em primeiro lugar, tento “sair da situação” para depois, à distância, olhar para ela de uma forma fria, racional. Segundo passo: analisada a situação, traço o caminho para chegar onde eu quero. Onde é necessário chegar para sobreviver. Quando o percurso se prevê longo, dou um passo de cada vez. Vivo um dia de cada vez. Sempre focada no que defini à partida ser o ponto de chegada.

Por fim, e em paralelo, tento encontrar um lado positivo daquilo tudo. Porque, acreditem, há sempre. Mesmo nas coisas mais duras. Mesmo naquelas que nos parecem incompreensíveis e injustas.
Se consigo racionalizar sempre? Não. Mas tento. Há uns anos não tentava sequer e perdia-me mais facilmente na espuma dos dias. Hoje, mesmo não conseguindo sempre, quanto mais tento, melhor e mais rapidamente consigo. Porque também aqui vou devagarinho, degrau a degrau, até alcançar o meu objectivo final: fazer isto por instinto. E sei que um dia chego lá. Macacos me mordam se não chego!

18 de maio de 2013

Numa palavra? Amor.

Quem bem me conhece sabe que não sou a pessoa mais paciente e nem a mais tolerante do mundo. Mas o que está em cima da mesa não é ser tolerante. Porque tolerar siginifica consentir, permitir, deixar passar. E eu não tenho que consentir nada, permitir nada, deixar passar nada. O que está em cima da mesa é apenas ser justo. É ser pelo bom senso. É ser pela liberdade. Também dos outros. E digo “também”, porque também é a minha.

A proposta do PS para a co-adoção por casais do mesmo sexo foi hoje aprovada por uma diferença de 5 votos, com 16 deputados do PSD a votarem a favor e 3 deputados do CDS a absterem-se.

A partir de hoje, um casal homossexual que se casou, e em que um deles adoptou uma criança, passa a poder partilhar legalmente a paternidade dessa criança. Um passo pequenino apenas, mas que espero que seja o primeiro de outros. Acima de tudo, de dar a um casal homossexual os mesmos direitos de um casal heterossexual. De não diferenciar.

Recebi a notícia com grande entusiasmo. Emocionei-me ao ver a reacção dos que, na Assembleia da República, assistiram em directo à decisão.

E foi com tristeza proporcional ao entusiasmo que li alguns comentários nas redes sociais, que se manifestaram contra a decisão. Respeito-os porque sou bem formada, mas não os aceito. Chocam-me. E mais me chocam quando vêm de jovens, muito jovens, que deveriam ter a mente mais aberta. Ou de gente informada. E isso entristece-me.

Acredito de coração que uma família deste género pode funcionar tão bem ou melhor que outra. Conheço alguns casos mas, mesmo que não conhecesse, bastava-me apenas uma palavra: amor. Tudo se resume ao amor. Tudo o que uma criança precisa é de amor. E com o amor vem o carinho, e com o carinho o equilíbrio. E, com o equilíbrio, um ser humano que ama e que sabe amar. Um ser humano de respeita o outro. Um ser humano daqueles que tanta falta fazem ao planeta.


E esse amor, carinho e equilíbrio podem ser ensinados/transmitidos por um pai e uma mãe, por um pai, por uma mãe, por dois pais, por duas mães.
Se um pai ama uma mãe, se uma mãe ama uma mãe, se um pai ama um pai, se todos amam os seus filhos, esses filhos vão ser felizes.

Não é “o comum”? Não. Mas o que é que é “o comum” hoje em dia? Quantos casais hetero vivem infelizes juntos uma vida inteira e passam essa infelicidade aos seus filhos, fazendo deles adultos problemáticos? Por outro lado, quantas famílias monoparentais (por opção ou não) criam adultos de excelência?
Que sociedade é esta que julga? Quem somos nós para decidir por decreto que o certo é um homem criar um filho com uma mulher. Até se podem maltratar, psicológica ou fisicamente, mas se é homem e mulher, tudo bem. É isso? Quem somos nós para decidir pelos outros que para gostar têm que gostar de alguém mas de sexo oposto. Caso contrário, são postos de lado. Por tantos e ainda pela lei. Perdem os direitos apenas por causa da sua orientação sexual. Porra, mas em que século vivemos?

Preconceito. É esta a palavra que, felizmente, me distingue de quem pensa assim. Que tento respeitar mas que ninguém me pode obrigar a aceitar.
É certo que o mundo continua cheio de injustiças, só que hoje estou mais feliz porque esta já não é uma delas. E isso faz-me acreditar um bocadinho mais na humanidade.

O que interessa mesmo? O seguinte: 
Projeto de Lei n.º 278/XII
Consagra a possibilidade de co-adoção pelo cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo e procede à 23.ª alteração ao Código do Registo Civil
Artigo 8.º

Entrada em vigor

A presente lei entra em vigor no primeiro dia do segundo mês seguinte ao da sua publicação.

E que as crianças sejam felizes. Com pai e pai, pai e mãe, ou mãe e mãe. O resto são tretas.


 

13 de maio de 2013

Porque, como eles dizem, Desporto Escolar é Não Parar!

Este fim-de-semana fiquei a conhecer um bocadinho melhor o mundo dos professores. Em particular, o mundo dos professores de Educação Física. Mais em particular ainda, o mundo do Desporto Escolar.

Desta vez foi em Évora. Nos Nacionais 2013.
Dezenas de escolas, centenas de miúdos dos 14 aos 16 anos. Basquetebol, Voleibol, Andebol, Futsal, Atletismo, Provas de Orientação e Corridas, Perícias em Patins.

Pavilhões novos ou pavilhões velhos. Pouco importava, porque a motivação pareceu-me sempre a mesma. Nas bancadas, a família, a torcer por eles. Os “seus meninos”, como ouvi de duas mães que estavam ao meu lado.
Caixotes de t-shirts coloridas para todos, listas de presenças. Organização. Mas que grande organização.

Carolice, trabalho de equipa. Sangue, suor e lágrimas. Mas também divertimento. Sim, eu que nada tinha a ver com aquilo, que de desporto nada pesco, aprendi. E diverti-me à brava. Gente boa.
Ao contrário do que por aí se diz, o que eu vi ali foi gente empenhada. Homens e mulheres que trabalham durante a semana e que depois ainda o fazem durante o fim-de-semana. Muitas vezes, em prejuízo das próprias famílias.

Pagam-lhes bem? Não. Pagam-lhes mais por isto? Não. Vi alguém de má cara, contrariado? Claramente que não.
O que vi foi a dedicação, a vontade de fazer tudo andar, de cumprir o programa, de dar medalhas, de valorizar os “atletas”. De os manter no caminho certo para serem alguém no futuro. Através da prática desporto e do que ela nos ensina.

Miúdos que, de Norte a Sul do país, se deslocaram das suas terras, tantas vezes longínquas, para competir. Quem pagou? O Desporto Escolar.
 
 
Entre vários, um momento que retive: no fim de um almoço no refeitório da escola que servia de quartel-general à organização, depois de passar a manhã a entrar e a sair das escolas envolvidas, um café na sala de professores. Depois de alguns momentos de anedotas e de gargalhadas, como só os alentejanos sabem contar, altura para ponto de situação. Momento mais sério. Profissional. De concentração.
Rever como estava a correr, o que faltava, em que ponto se estava do programa. Como o cumprir até ao fim. Nada podia falhar. Tudo em prol dos miúdos, que levam este momento tão a sério. Até ao fim.

Directores Gerais, Coordenador Nacional, Coordenadores Regionais, Professores Responsáveis de Grupos Equipa, Equipa Nacional, Professores de Apoio, Coordenadores Nacionais de Modalidade e Alunos. Todos juntos. Sem queixas. A remar para o mesmo lado.

Nas competições vi miúdos felizes, com vontade de dar palco às suas escolas, de lhes dar destaque. De as pôr no pódio. De subirem ao pódio.
Vi miúdos dedicados ao desporto ao invés de perdidos pelas ruas a fazer disparates e a tornarem-se delinquentes. Vi miúdos com vontade de fazer desporto. Vi miúdos com saúde. E tudo isto sem terem que pagar. O Desporto Escolar é gratuito. Combate o insucesso escolar. Melhora a aprendizagem e o ensino. Promove a vida saudável e o trabalho de equipa. Faz de a quem a ele tem acesso, pessoas mais equilibradas.

É uma máquina gigante. Nacional. E oleada. Pelo que eu vi, muito bem oleada. Tarefas bem definidas, cada um sabe o seu papel de cor. Máquina posta a trabalhar por gente que se dedica a fundo ao projecto. Gente que leva cortes no salário, mas que continua a organizar estes momentos apenas com um objectivo: mostrar aos jovens que é importante manterem-se ligados ao desporto. Que a prática do desporto os vai fazer chegar mais longe.
Mesmo que nem todos se tornem Cristianos Ronaldos, aprendem que há mais para lá de jogos de computador, televisão e noitadas desregradas.

Senhores governantes, ponham os olhos nisto, apostem nisto. O Desporto Escolar é um dos caminhos mais importantes para termos gente bem formada no nosso país. Que tanta falta fazem. Como tão bem sabemos.