Mesmo assim não ficámos na esplanada. Preferimos ir lá para baixo, para os
chapéus. Para perto do mar.
Ninguém à frente. Ninguém ao lado. Praia quase vazia. Gosto de ver as marcas das patas das gaivotas na areia. Ninguém,
depois delas, passou por ali.
O mar estava picado. Na Costa há dias assim.
Sem me aperceber, deixei-me levar por aquele cenário. O som das ondas a bater na areia e o
cheiro do mar sempre me embalaram.
Andei anos para trás e lembrei-me dos nossos dias de praia, quando eramos miúdas.
No início íamos para onde a mãe queria. Depois fomos crescendo e...continuámos
a ir para onde a mãe queria. Mas, vá, pelo menos já íamos contrariadas.
Nessa altura ainda era possível encontrar praias desertas. Parávamos o
carro no fim da estrada da praia da Fonte da Telha e andávamos um bom bocado
a pé. Queríamos uma praia só para nós. Queríamos é como quem diz…queria a nossa
mãe! Porque eu e a mana preferíamos mesmo a confusão das praias da moda. Mas como
ainda não tínhamos voto na matéria, nada feito.
Naquela praia havia uma fonte de argila, onde nos besuntávamos de alto a baixo, e assim andávamos
um tempão, a brincar enroladas pela areia. Naquela praia perdemos vários relógios à beira-mar.
Aliás, sempre que a nossa mãe nos via de rabo para o ar, aflitas, com a água pelos
tornozelos, já sabia. Menos um relógio. Foi assim que perdi o meu Pop Swatch
preferido, preto às bolinhas brancas.
Mais tarde, rendidas ao facto de termos mesmo que gramar com aquele lugar, optámos
por começar a aproveitar o que de bom ele nos proporcionava: jovens surfistas. E assim
arranjámos dois, um para cada uma.
Devíamos ter uns 12 ou 13 anos. O Miguel e o
Bruno. Foram os nossos primeiros namorados. O Miguel era o da mana. Lindo.
Parecido com o James Dean. O Bruno era o meu. Magrelas mas com uma cara gira.
Sardenta. Surfistas, que era o máximo naquela época. Ah e, claro, os dois de cabelo loiro. Natural
mas ajudado pelo wax que esfregavam nele.
Do Miguel nunca mais ouvimos falar. Já do Bruno, encontrámo-nos várias
vezes, anos depois, entretanto casado, com filhos. Continuava giro, sardento, mas menos
magrelas.
Naquelas idades ainda não pensávamos em dietas e todos os dias comíamos uma
bola de berlim. Já conhecíamos a “música” que a senhora que as vendia entoava lá no fundo: “há
bola, há pão com chouriço, há merenda!”. Assim que a ouvíamos, pedíamos dinheiro
à mãe e púnhamo-nos em sentido. Venha ela.
Passava os dias para trás e para a frente, ziguezagueando por entre os chapéus-de-sol coloridos enfiados
na areia seca. Parava de dois em dois minutos para vender o que levava. Era cansativo mas nunca vi uma expressão de desagrado na cara dela.
Assim
que montava a mesinha, e em cima dela pousava a caixa dos bolos, era uma
questão de segundos até que dezenas de pessoas a rodeavam. Muitas crianças
atrás de bolos e gelados mas, acima de tudo, das suas bolas de Berlim.
Um dia percebi que aquilo era um negócio familiar. Umas vezes passava ela,
outras a irmã, outras ainda o marido. E o filho trazia os bolos no carro, que estacionava no parque da praia e onde eles iam reabastecer sempre que já tinham vendido tudo.
Durante vários Verões cruzámo-nos com aquela senhora. Acompanhou de perto
os anos a passarem por nós. Já crescidas e ainda nos vendia as suas bolas de berlim. Passavam vários vendedores, mas nós esperávamos sempre por
ela. E tantas vezes o fizemos, que outras tantas ela acabou
por nos oferecer. Primeiro a nós e, anos mais tarde, à Carlota.
Num desses Verões achei-a mais magrinha, pálida. De um ano para o outro
deixámos de a ver. Soubemos depois que lhe tinha aparecido um cancro e que
tinha morrido. Foi há poucos anos. Contou-nos o marido. Ao mesmo tempo que
limpava as lágrimas com as mãos deformadas de carregar as malas de
refrigerantes, dos gelados e a caixa dos bolos. Tinha saudades, dizia ele. A
partir daí, nunca mais vestiu outra cor que não o preto.
Tinha umas as unhas dos pés enormes, curvadas. Por alguma falta de cuidado,
é certo, mas claramente massacradas por anos naquela vida tão dura. Eu sempre
odiei pés. E os dele tantas vezes me afastaram. Mas os olhos verdes esmeralda enterneciam-me. E voltava a
aproximar-me. Deixámos de olhar para os pés, deixámos de ligar. Preferiamos olhar-lhe para os olhos.
Hoje continua a ser assim. Hoje ainda é a ele que compramos as nossas bolas de berlim. São as melhores. E o ritual mantém-se: sempre que o ouvimos lá ao fundo, pegamos
nas carteiras, damos dinheiro à Carlota, que corre ao seu encontro. Recebe-a sempre
com um sorriso. Um mesmo sorriso com que a mulher nos recebia quando tínhamos a idade dela. Conhece-a desde pequenina. Conhece-nos desde
pequeninas.
Distinguimos o canto dele à distância. Porque manteve o da mulher. Quando
ouvimos o “há bola, há pão com chouriço, há merenda!”, se fecharmos os olhos,
viajamos no tempo e voltamos a ser crianças. Besuntadas de argila, a brincar à
beira-mar, nas praias ainda desertas da Fonte da Telha.







