26 de julho de 2013

Se for preciso, manda um grito e volta para dentro.

Há dias em que acordamos porque sim. Tomamos o pequeno-almoço porque sim. Depois um duche porque sim.

Saímos para o trabalho porque sim. Vá, e porque no fim do mês chegam as contas e têm que ser pagas.

Dias em que chegamos a casa à noite e só nos lembramos daquilo que correu mal. Que queremos mudar de vida, blá, blá, blá, queremos menos stresse. Menos caos à nossa volta.

E este filme devia ser visto ao contrário.

Devíamos levantar o cu da cama, ir à janela e respirar o ar daquele dia. De mais um dia. E agradecer por isso.

Acordar quinze minutos mais cedo que o habitual para pôr a mesa do pequeno-almoço e comer com calma, saboreando e lendo mais umas páginas daquele livro que nos tem feito sonhar. E agradecer por isso.

Tomar um duche sim, sentindo a água a escorrer pelo corpo, milímetro por milímetro. Cara, pescoço, ombros, peito, barriga, pernas e pés. Tocar com as mãos na água. Sentir a água nas mãos. E agradecer por isso.

Escolher a roupa que melhor nos fica. Dar uma pintadela no rosto. Ou pôr um bocadinho de rímel e um brilho nos lábios. E agradecer por isso.


Chegar ao emprego e espalhar “bons dias”, com um sorriso no rosto. Por muito que venha de lá um dia complicado e cheio de trombas de elefante, cobras venenosas, sapos para engolir, caras de osga, olhos de carneiro mal morto e macacos de imitação. E, claro, agradecer por isso.
 
Depois, chegar a casa, desligar o botão “trabalho”, ligar o “chegaste a casa, agora relaxa, sff”. E agradecer por isso.

Há dias filhos da mãe. Há pessoas, nesses dias, que nem filhos da mãe devem ser.
 
Há momentos em que focar no essencial é luta de bravos.

Mas eu já estive perto de não acordar. Já estive mais de um ano sem fome e a emagrecer. Já estive quase dois sem poder tomar um duche. Já estive quase um ano sem conseguir trabalhar. E hoje só posso agradecer por ter voltado a conseguir fazer tudo isto.

Nem todos os dias o faço. Mas há outros, como este, dias filhos da mãe, em que me obrigo a parar. Respirar fundo. E seguir em frente. Mesmo que só o faça depois de olhar para trás. E, em particular, para este “atrás”.
 
Aconteça o que acontecer, sintas-te como te sentires, nunca te esqueças disto: acorda, veste-te, aparece e, cum caraças, nunca desistas!

15 de julho de 2013

I Love Me. Do You Love You?

A vida corre tão depressa que nem nos lembramos de como somos maravilhosos. E hoje apetece-me.

Passamos o dia preocupados com os prazos para cumprir, a olhar para o relógio, em reuniões, agarrados ao telefone. A tratar dos filhos, da casa. A contar os trocos para chegar ao fim do mês. Ficamos cansados. Por vezes engolimos tantos sapos que chegamos a duvidar das nossas capacidades.

Depois há alguém que nos abre os olhos com uma palavra, um gesto, nos puxa o lustre e que nos mostra todo o brilho que temos, o que valemos.

Sou uma gaja porreira. Feitio lixado, teimosa também, mas porreira.

Amiga dos meus amigos. Mas sem lamechices pelo meio.

Fui mimada em criança, mas não sou de grandes abracinhos ou agarranços. Sou de estar lá quando é preciso. Seja para dar um beijo, um abraço. Ou uma bronca.

Não sou a pessoa mais ternurenta do mundo, talvez a vida me tenha endurecido um bocadinho, mas sei ser ternurenta quando é preciso. E depois, claro, há meia dúzia de pessoas que me inspiram mais ternura e em que gosto mais de tocar. Vá, se calhar meia dúzia é muito.

Mas isto não significa que não goste que me abracem. Só não curto exageros e “gente cola-tudo”.

Sou justa. Regra geral consigo sair da situação, olhá-la de fora, e analisar a coisa de uma forma minimamente racional. E decido “contra mim”, se for necessário.

Sou bem-disposta. Gosto de uma boa gargalhada. Mas não me rio por “dá cá aquela palha”.

Gente exagerada põe-me doente. Gente que chora demais. Gente de grita demais. Gente que bebe demais. Gente que dorme demais. Gente lenta demais. Gente eléctrica demais. Gente que come demais. Gente que ri demais. Gente trombuda demais. Gente inteligente demais. Gente burra demais. Gente que não sabe onde está o seu limite. Limite máximo ou limite mínimo. Gosto de gente equilibrada, é só isso. E, atenção que eu nem sempre sou. Tenho dias em que passo por todos os estádios acima. Por isso não são poucas as vezes que sou alvo da minha própria irritação.

Sempre soube mais ou menos o caminho que queria seguir. Da mesma forma que sempre soube o que não queria.

Por isso nunca me droguei, nunca fiz figuras tristes com a bebida - apesar de ter apanhado boas/divertidas e inesquecíveis bebedeiras - nunca arranjei problemas de maior a quem me rodeia.

Sempre me considerei uma pessoa segura. Mas sem vergonha nenhuma de assumir que tenho momentos de insegurança. Nessas alturas olho para dentro de mim e percebo que gosto do que vejo. Gosto, aliás, muito do que vejo. Acredito nas minhas capacidades e avanço. Algumas vezes com o cu apertado, mas avanço. Quando não consigo isto sozinha, vou ter com alguém que me ajude a olhar cá para dentro. Está tudo cá dentro.

Porque me lembro de tudo o que passei, e ainda passo, para conseguir sobreviver num país que não está preparado para pessoas como eu, com mobilidade reduzida.

Porque me lembro que, mesmo sentada numa cadeira de rodas, e com todas as mazelas que me marcam o corpo por causa disso, continuo a sentir-me mulher e feliz.

Porque olho para o meu percurso profissional e percebo que só alguém com garra o poderia ter feito. Ainda para mais sentada numa cadeira.

Porque olho para o meu núcleo de amigos e sinto que só as boas pessoas têm a sorte de estar rodeadas de gente assim.

Porque olho para os pinduricalhos que não gostam de mim e sinto que só as boas pessoas têm inimigos destes.

Porque olho para o espelho e continua a apetecer-me pintar o cabelo, por batom, rímel, blush, pintar as unhas com cores fluorescentes. Arranjar-me. Estar bem. Para mim e para quem que me vê.

Não sou nem vou lutar para ser perfeita, porque isso não existe. Mas não tenho dúvidas que sou uma gaja 5*. Daquelas que vale a pena ter como amiga. Como colega. Como filha. Como irmã. Como tia.

Mesmo com todos os meus defeitos, tenho um orgulho do caraças em mim e em ser como sou.

E quanto aos poucos que ainda tentam passar-me aquela rasteirinha marota, tantas vezes movidos por invejas estranhas que nunca entenderei, jamais se esqueçam: estou sentada, meus caros; não tropeço. Quanto muito passo-vos com as rodas por cima dos pezinhos.

Aos outros: acreditem em vocês. Adorem-se. Todos os dias.
 






11 de julho de 2013

Dia sim, dia não. Dia assim-assim. Mas dia.

Há dias em que choramos a rir. Em que temos que agarrar as bochechas com as mãos para que os músculos do rosto parem de doer de tanto rir. Outros em que também nos enchemos de lágrimas mas pelos piores motivos. E em que nenhuma mão nos consegue limpar o mesmo rosto.

Dias em que acordamos de manhã com uma energia que contagia. Que chega a enervar. Outros em que procuramos em todo o lado, mas a energia e vontade estão tão bem escondidas que, mesmo dando a volta a tudo, não as encontramos.

Dias em que só queremos confusão. Barulho. Gente. Conversa. Noutros, paz. E o sossego que só conseguimos na nossa companhia.

Dias em que está tudo contra nós. Ou aqueles em que estamos contra todos. E depois os outros, em que os ventos sopram a nosso favor, viremo-nos para onde nos virarmos.

Dias em que guardamos em nós toda a felicidade do mundo. E os dias em que a nuvem negra teima em não nos largar as saias. Como as crianças. E que ainda nos deitam a língua de fora, de gozo.

Dias em que acreditamos em tudo. Em que juramos que conseguimos conquistar o mundo inteiro. Noutros desacreditamos de tudo.

Dias em que desatamos todos os nós. Noutros sentimo-nos atados por eles.

Dias de dor fisica, de alma ou de coração. Que contrariam aqueles em que sentimos que podemos curar o mundo de todas as dores.

Dias em achamos que todas as nossas cicatrizes estão fechadas. Noutros em que elas se abrem com uma facilidade que assusta.
 
 
Dias em que queremos os focos virados na nossa direcção. E os outros em que só queremos estar atrás do palco, sem luzes, sem aplausos. Que não nos notem.

Dias em que o nosso umbigo é o nosso melhor amigo. Noutros em que o nosso mundo só se realiza na felicidade dos outros.

Dias em que arriscamos tudo. Outros em que davamos tudo para não ter que arriscar.

Dias em que carregamos os dias às costas. Outros em que só queríamos que os dias nos levassem ao colo.

Dias em que atacamos tudo o que não gostamos. Outros em que nada fazemos para mudar o que nos desagrada.

Dias em que não damos pelo cheiro das flores, da terra molhada, pelo cantarolar dos pardais. Noutros não nos concentramos em mais nada senão nisso.

Dias em que sentimos que só existem porque sim. Mas outros que nos fazem voar, em que sonhamos e que sentimos que não viviamos sem eles.

Dias em que fechamos os olhos e, quando os abrimos, continuamos lá. Noutros fazemos o mesmo mas, quando damos conta, já não estão lá.

Dias com tempo. Outros em que o tempo passa sem lhe pormos a vista em cima.

Dias que duram dias. Outros, apenas segundos.
 
Os dias passam. Uns melhor, outros pior. Outros, ainda, assim-assim. Só que não voltam para trás.

Podemos vê-los a passar, ou passar por eles. Vivermos ou sobrevivermos. A escolha é nossa.
 
A vida esgota-se enquanto piscamos os olhos. Por isso, vivamos. Sempre.

Abrir os olhos de manhã. Encher o peito e respirar fundo. Estar por cá. Por aqui ou por ali. Agora ou depois. Mas por cá. Sempre. E, sempre que possível, viver a melhor parte.

2 de julho de 2013

Ainda hoje, aquele prédio.

O melhor dos programas era sair porta fora, descer as escadas a correr e ir passear para o jardim do Campo Grande. Era perto da nossa casa. Bastava-nos seguir até ao fundo da avenida onde morávamos.

Aquelas estradinhas por entre árvores enormes eram sinónimo de divertimento.

Ali brincava-se. Muito e a muita coisa. Ou andávamos de patins (eu tinha uns vermelhos com rodinhas), ou íamos para as piscinas, ou andávamos de calhambeque, ou passeávamos de barco no lago, ou bastava-nos o parque infantil. Tudo nos servia. E gelados. Comíamos sempre um gelado. Perna de Pau, Super-Maxi ou Epá.

A minha brincadeira preferida era nadar nas piscinas. Andar de barco assustava-me por não ver o fundo do lago, por causa do verde das águas. Já para não falar do raio dos patos mais atrevidos, que nos vinham roubar a comida que traziamos. Depois, andar de patins nunca foi o meu forte e os calhambeques também eram um problema, porque os meus pés insistiam em se enfiarem por entre os pedais e o chão do jardim. Resultado? Ficava sempre toda negra. Por isso, o que eu mais gostava era mesmo nadar nas águas das piscinas, sempre cheias de crianças.

Ali perto, mesmo do outro lado da rua, havia um prédio velho. Degradado. Ao lado do restaurante Tatu. Onde viviam famílias pobres, maioritariamente de raça negra.

Era onde vivia a Raquel com a família. A Raquel era a minha nova colega de turma da Eugénio dos Santos. Era muito pobre. Mas eu não me preocupava. Gostava dela e eramos amigas.

Usava um carrapito no alto da cabeça, mas alguns cabelos ficavam sempre soltos por serem mais curtos, o que lhe dava um ar despenteado. Tinha a pálpebra do olho direito descaída. Dizia-se que tinha ficado assim depois da morte do irmão mais novo. Nunca soube se era verdade. Ninguém jogava ao elástico como ela. Saltava mais alto que qualquer uma de nós.

Andava sempre com roupa velha. Lavada, mas velha. Via-se que passava de irmão para irmão. Estava usada. Muito usada.

Um dia perguntou-me se a podia acompanhar até casa. Precisava de ir lá buscar uns livros. Tremi. Estava a convidar-me para entrar, pela primeira vez, naquele prédio. Que sempre me tinha metido medo de tão degradado, de tão escuro.

Mas fui. Quando começámos a subir a escada, percebi que a degradação que me habituara a ver de fora era, de longe, menor que a que se via - e vivia - por dentro. Vi bebés de fraldas de pano a brincar pelos corredores dos pisos. Cheios de ranho, despidos, sozinhos, sem adultos por perto. Entregues a eles.

Chegámos a casa dela. O cheiro não era agradável. Mas o que mais me impressionou foi a falta de paredes. As divisões estavam todas separadas por lençóis agarrados ao tecto por uns pequenos pregos.

Tinha três quartos, cozinha, casa de banho. A sala tinha sido transformada em quarto para receber mais família. Eram 5 irmãos, e não sei quantos primos. Viviam todos juntos.

Quem nos recebeu foi a mãe. Uma senhora magrinha com um aspecto envelhecido e cabelo esbranquiçado, sem dentes. Mas recebeu-me de braços abertos e com um grande sorriso. A “menina da avenida” estava lá em casa com a filha.

Levou-me à cozinha, queria que eu comesse “qualquer coisa”. Agradeci mas recusei. Não consegui, confesso.

Por cada divisão pela qual passávamos, dava com a Raquel a olhar para mim, discretamente. Senti que tentava perceber o que me ia na alma enquanto me mostrava a pobreza em que vivia. Mas eu nunca me mostrei incomodada. Fi-lo com esforço, mas tentei encarar sempre tudo o que via com naturalidade.

Para não deixar dúvidas, pedi-lhe um copo com água. Dirigimo-nos à cozinha, ela abriu o frigorífico. Estava quase vazio. Pegou numa garrafa de vidro com água fresca que deitou no copo e deu-mo para a mão. Bebi sem pestanejar. Era da torneira, sabia mal, mas não pensei duas vezes. Bebi e pronto. Agradeci com um sorriso. Que ela retribuiu. Tipo "passaste no teste".

Pegámos nos livros e saímos pelo mesmo caminho pelo qual tínhamos entrado. Volto a ver os miúdos de fraldas espalhados pelos corredores, a brincar. Continuavam sozinhos.

Naquele dia fiquei a conhecer melhor a Raquel. E ela a mim. Eramos amigas. Ficámos mais, desde que partilhou comigo aquela parte da vida, que mais ninguém da escola conhecia. E por mim não ficariam a conhecer.
 
Tínhamos uns 10 ou 11 anos. Com 13 deixei aquela escola, passei para o Rainha D. Leonor. Deixei de ver a Raquel.

Uns anos depois a Câmara de Lisboa mandou demolir o prédio onde ela vivia. Sei que realojaram os moradores mas nunca soube onde. Perdi-lhe o rasto.

No lugar daquele prédio construíram um outro, de luxo. Mas sempre que passo por lá imagino a Raquel na janela do quarto, naquele que partilhava com as duas primas.

Há pessoas que passam pelas nossas vidas e que ficam. A Raquel, por alguma razão, foi uma dessas pessoas. Mesmo que os nossos destinos nos tenham afastado.
 
Mas a vida reserva-nos montes de surpresas. Quem sabe se um dia nos voltamos a ver?
 

22 de junho de 2013

Porque não quero esquecer.

À hora do lanche fazíamos refresco de café e panquecas. Ou tostas mistas cheias de queijo que, de ser tanto, saía por todos os lados, derretido. Eram maravilhosas. Ainda consigo sentir o sabor do queijo na minha boca.

O refresco de café, continuo a beber todas as manhãs. E as panquecas ainda hoje me acompanham. Aliás, a que acabei de comer fez-me viajar no tempo e voltar àquelas tardes em casa, com a mana, depois das aulas terminarem. Hora da do lanche mas também da brincadeira.

Na altura não havia Barbies, havia Tuchas. Depois passámos para os bonecos carecas, uns bonecos do tamanho de um bebé real que a mãe nos trouxe de uma viagem a Paris. O Pedrito e a Sarita.
 
Eramos muito miúdas. Eu devia ter uns 8 ou 9 anos e a minha irmã 10 ou 11. Ou menos.

 
Sempre partilhámos o quarto. Dormíamos num beliche. Ela em cima, eu em baixo. De vez em quando, durante a noite, a mana lá me engatava para ir para a cama dela.

Começava a subir as escadinhas mas às tantas parava, olhava para a minha cama e - coisas da idade – de repente, ela ganhava olhos. Que me fitavam, tristes, por me verem ir dormir para a cama de cima. Aquilo era completamente superior a mim, por isso voltava para baixo e enfiava-me novamente lá dentro.
 
Mas a minha relação com a minha cama trazia-me outro "grande" problema. Todos os dias, quando estava quase a adormecer, imaginava bruxinhas a mexerem-me nos pés. Por isso, e porque aquilo me incomodava mesmo, todos os dias punha os pés para fora da cama por uns minutos, os suficientes até sentir que as bruxinhas já se tinham ido embora. E assim foi durante uns tempos. Entretanto foi passando. Fui crescendo…

 
Depois foi a vez dos carros passarem a “olhar para mim”… Gostava deles pelo “ar” dos faróis. Os redondos eram "queridos", os rasgados os "maus". E assim me divertia durante as viagens que fazíamos com os nossos pais. Com isso e a dizer adeus aos passageiros dos carros que vinham atrás do nosso. Quem respondia era presenteado com dois mega sorrisos, meu e da mana. Quem não reagia recebia de volta duas caretas e duas línguas de fora. E nós um ralhete da nossa mãe, sempre que se apercebia do que tínhamos acabado de fazer. Mas apercebia-se poucas vezes, nós eramos crianças...discretas!
 
E os cheiros…Os cheiros também foram importantes na minha infância. O do chão encerado dos corredores do João de Deus. O do leite que nos davam ao lanche, que me agoniava, tal como hoje. O do perfume Chloé, que a minha mãe trazia de fora, por ainda não haver em Portugal. Ou o dos frangos assados da rua dos restaurantes da Feira Popular.

Pena tenho eu de já não ter Tuchas para brincar. Ou a Feira Popular.

As bruxas que me mexiam nos pés durante a noite passaram a aparecer-me durante o dia. Mas já não me assustam.

Leite, esse, nem vê-lo. O Chloé até veio para Portugal, só que se esqueceu do seu verdadeiro cheiro em Paris.

Continuo a dizer “adeus” a quem bem me trata e a “fazer caretas e a deitar a língua de fora” quando fazem o contrário. Mas agora com aspas.

E o melhor de tudo: hoje comi uma panqueca igual à que fazia aos 8 ou 9 anos.

Afinal, já que temos que crescer e temos, enquanto guardarmos as nossas memórias de infância dentro de nós, a vida é muito mais colorida. E, no meu caso, saborosa. Literalmente.
 


20 de junho de 2013

"Se a morte fosse um bem, os deuses não seriam imortais."

Todos os dias morre gente que não devia.

Dias que nos relembram que a vida pode não passar de um fio fininho que qualquer sopro de um vento mais forte pode partir em dois. Dias em que nos deparamos com a fragilidade disto tudo. Que hoje estamos cá, mas que nada garante que o mesmo aconteça amanhã.

Ficamos pequeninos. Minúsculos. Ninguém, no meio disto tudo. E, por isso mesmo, sem permissão para pedir mais, para exigir mais. Apenas agradecer por estar cá mais um dia, mais dois, mais alguns. Há quem não tenha essa sorte.

Morrer depois de cumprir a vida já é triste. Mas morrer antes disso é, no mínimo, estúpido.

O mundo, a vida, a nossa existência como ela foi pensada – se é que alguém um dia alguma vez a pensou – é uma máquina fantástica. Como o nosso corpo. Em que cada bocadinho está ligado ao outro. Em que a zona x da planta do pé tem um caminho invisível até ao fígado, que por sua vez, quando não funciona, se reflecte nos olhos, que amarelam e acendem um sinal vermelho para todos verem. Que o coração se atrapalha e faz doer o braço. Que a alma se baralha e faz cair o cabelo.

Nascer é um pequeno milagre. O facto de um bicharoco cabeçudo e de cauda poder ganhar a corrida, enfiar-se e desenvolver-se dentro de uma bolinha cheia de água, que por sua vez aumenta à medida que ele cresce, porque se vai alimentando por um “tubinho” e, 9 meses depois, sair dali um de nós…é obra.
 
 
Pensar que começamos por nada conseguir controlar, nenhum músculo, a fala, dependentes de alguém que nos ensine e ajude, e que o mais certo é acabarmos assim é…estranho.

Constatar que, dependendo da parte do mundo onde nascemos, saímos brancos, loiros, de olhos azuis, altos, ou antes de pele morena, cabelo escuro, olhos pretos, lábios grossos. E pensar que também dependendo dessa parte do mundo, cada um fala à sua maneira, da sua maneira…é do caraças.

Se isto foi inventado por alguém, esse alguém era um génio. Parece que pensou em tudo. Mas não pensou. Porque devia ter decretado uma lei, uma regra impossível de falhar: ninguém podia morrer antes de viver tudo o que há para viver.

Morre-se demasiado antes do tempo. Aos poucos. De repente. Por isto ou por aquilo. Mas tantas vezes antes do tempo. E isso não devia ser permitido.

Porque só se devia morrer quando já não houvesse nada para aprender ou ensinar. E, para isso acontecer, é preciso andar por cá muitos anos.

18 de junho de 2013

Dias de praia e bolas de berlim

Este fim-de-semana fomos até à praia. Estava um vento frio que gelava.

Mesmo assim não ficámos na esplanada. Preferimos ir lá para baixo, para os chapéus. Para perto do mar.

Ninguém à frente. Ninguém ao lado. Praia quase vazia. Gosto de ver as marcas das patas das gaivotas na areia. Ninguém, depois delas, passou por ali.

O mar estava picado. Na Costa há dias assim.

Sem me aperceber, deixei-me levar por aquele cenário. O som das ondas a bater na areia e o cheiro do mar sempre me embalaram.

Andei anos para trás e lembrei-me dos nossos dias de praia, quando eramos miúdas.

No início íamos para onde a mãe queria. Depois fomos crescendo e...continuámos a ir para onde a mãe queria. Mas, vá, pelo menos já íamos contrariadas.

Nessa altura ainda era possível encontrar praias desertas. Parávamos o carro no fim da estrada da praia da Fonte da Telha e andávamos um bom bocado a pé. Queríamos uma praia só para nós. Queríamos é como quem diz…queria a nossa mãe! Porque eu e a mana preferíamos mesmo a confusão das praias da moda. Mas como ainda não tínhamos voto na matéria, nada feito.

Naquela praia havia uma fonte de argila, onde nos besuntávamos de alto a baixo, e assim andávamos um tempão, a brincar enroladas pela areia. Naquela praia perdemos vários relógios à beira-mar. Aliás, sempre que a nossa mãe nos via de rabo para o ar, aflitas, com a água pelos tornozelos, já sabia. Menos um relógio. Foi assim que perdi o meu Pop Swatch preferido, preto às bolinhas brancas.

Mais tarde, rendidas ao facto de termos mesmo que gramar com aquele lugar, optámos por começar a aproveitar o que de bom ele nos proporcionava: jovens surfistas. E assim arranjámos dois, um para cada uma.
 
Devíamos ter uns 12 ou 13 anos. O Miguel e o Bruno. Foram os nossos primeiros namorados. O Miguel era o da mana. Lindo. Parecido com o James Dean. O Bruno era o meu. Magrelas mas com uma cara gira. Sardenta. Surfistas, que era o máximo naquela época. Ah e, claro, os dois de cabelo loiro. Natural mas ajudado pelo wax que esfregavam nele.

Do Miguel nunca mais ouvimos falar. Já do Bruno, encontrámo-nos várias vezes, anos depois, entretanto casado, com filhos. Continuava giro, sardento, mas menos magrelas.

Naquelas idades ainda não pensávamos em dietas e todos os dias comíamos uma bola de berlim. Já conhecíamos a “música” que a senhora que as vendia entoava lá no fundo: “há bola, há pão com chouriço, há merenda!”. Assim que a ouvíamos, pedíamos dinheiro à mãe e púnhamo-nos em sentido. Venha ela.
 
 
Aquela mulher sempre me fascinou. De raça negra, sempre demasiado vestida para os dias de calor, sempre de branco imaculado, com uma caixa equilibrada no alto da cabeça. No ombro, uma mala cheia de gelados e bebidas. Numa das mãos, uma mesinha fechada.
 
Passava os dias para trás e para a frente, ziguezagueando por entre os chapéus-de-sol coloridos enfiados na areia seca. Parava de dois em dois minutos para vender o que levava. Era cansativo mas nunca vi uma expressão de desagrado na cara dela.
 
Assim que montava a mesinha, e em cima dela pousava a caixa dos bolos, era uma questão de segundos até que dezenas de pessoas a rodeavam. Muitas crianças atrás de bolos e gelados mas, acima de tudo, das suas bolas de Berlim.

Um dia percebi que aquilo era um negócio familiar. Umas vezes passava ela, outras a irmã, outras ainda o marido. E o filho trazia os bolos no carro, que estacionava no parque da praia e onde eles iam reabastecer sempre que já tinham vendido tudo.

Durante vários Verões cruzámo-nos com aquela senhora. Acompanhou de perto os anos a passarem por nós. Já crescidas e ainda nos vendia as suas bolas de berlim. Passavam vários vendedores, mas nós esperávamos sempre por ela. E tantas vezes o fizemos, que outras tantas ela acabou por nos oferecer. Primeiro a nós e, anos mais tarde, à Carlota.

Num desses Verões achei-a mais magrinha, pálida. De um ano para o outro deixámos de a ver. Soubemos depois que lhe tinha aparecido um cancro e que tinha morrido. Foi há poucos anos. Contou-nos o marido. Ao mesmo tempo que limpava as lágrimas com as mãos deformadas de carregar as malas de refrigerantes, dos gelados e a caixa dos bolos. Tinha saudades, dizia ele. A partir daí, nunca mais vestiu outra cor que não o preto.

Tinha umas as unhas dos pés enormes, curvadas. Por alguma falta de cuidado, é certo, mas claramente massacradas por anos naquela vida tão dura. Eu sempre odiei pés. E os dele tantas vezes me afastaram. Mas os olhos verdes esmeralda enterneciam-me. E voltava a aproximar-me. Deixámos de olhar para os pés, deixámos de ligar. Preferiamos olhar-lhe para os olhos.

Hoje continua a ser assim. Hoje ainda é a ele que compramos as nossas bolas de berlim. São as melhores. E o ritual mantém-se: sempre que o ouvimos lá ao fundo, pegamos nas carteiras, damos dinheiro à Carlota, que corre ao seu encontro. Recebe-a sempre com um sorriso. Um mesmo sorriso com que a mulher nos recebia quando tínhamos a idade dela. Conhece-a desde pequenina. Conhece-nos desde pequeninas.

Distinguimos o canto dele à distância. Porque manteve o da mulher. Quando ouvimos o “há bola, há pão com chouriço, há merenda!”, se fecharmos os olhos, viajamos no tempo e voltamos a ser crianças. Besuntadas de argila, a brincar à beira-mar, nas praias ainda desertas da Fonte da Telha.