11 de setembro de 2013

Venha cá c'agente ajuda!

Se há coisas que me encanitam é que alguém resolva a falta de acessos para pessoas com mobilidade reduzida com um “mas não se preocupe que nós ajudamos, sem problema…”. Lamento mas, aqui, a boa vontade, serve-me de pouco.

Hoje foi no super fashion & so trendy Cais da Pedra, do também super fashion & so trendy Henrique Sá Pessoa. Gosto do rapaz. Acho-o talentoso. Mas contratou os arquitectos errados, sorry.

Os dias de trabalho têm sido bravos. A necessidade de sair à hora de almoço e relaxar num restaurante agradável é enorme. E quando conseguimos fazer uma reunião de trabalho num ambiente destes, melhor ainda. A coisa tem tudo para correr bem. Certo? Errado.

Lá fomos nós, eu e a Cristina. Precisávamos de falar de trabalho mas de uma forma descontraída, longe das interrupções que normalmente acontecem no bar da empresa ou nos restaurantes mais próximos.

Convenceu-me com um “vou levar-te a um sítio giro, bom ambiente, onde se comem uns bons petiscos, com o rio como pano de fundo. Aproveitamos e falamos dos temas que temos pendentes.” Nem pensei duas vezes.

Assim que me aproximo da porta de entrada, um degrau enorme com uma porta pesadíssima. Subimo-lo, abrimo-la. De seguida ainda tive que me desviar porque, depois dessa porta, me deparo com um pequeno hall que me leva…a uma nova porta. Novo peso pesado, portanto. “Isto de papo vazio também não ajuda”, pensámos. Bola prá frente.
 
 

Segue-se o mais curioso no meio deste cenário: uma rampa bastante aceitável. Ufa, estou no interior do restaurante.
 
O dia está fantástico e decidimos ficar na esplanada. A Cristina já havia comentado comigo que me esperavam dois degraus. Volta a comentar, desta vez perto dos empregados. E um deles, cheio de boa vontade, diz “mas não se preocupe que nós ajudamos, sem problema”. As minhas tripas remexem-se. Não consigo evitar e encanito-me toda. De cara fechada respondo “vai desculpar-me, agradeço, claro, mas não devia ser suposto eu precisar de ajuda.” O gerente – penso que era o gerente – desculpa-se com um “tem razão...No outro dia até tivemos cá um senhor que tinha a perna partida que também acabou por precisar de ajuda…Devíamos ter uma rampa…”. Pois, mas não têm.

E por não terem, tenho que aceitar a tal ajuda. Um deles faz um “cavalo”, o outro ampara na descida agarrando nos pedais. A esplanada em peso a olhar, ou não estivéssemos em Portugal. Vem aí o ET. Once again…

O almoço estava bom. A gaita voltou a ser na saída.

Mais uma vez, o mesmo filme, venham de lá os empregados para acartar comigo. Vira de costas para os degraus. Faz cavalinho. 1, 2, 3, sobe o primeiro, 1, 2, 3 sobe o segundo. Baixa a cadeira, vira, segue caminho. Esplanada em peso a olhar. Que caraças! Percorremos o restaurante, abrimos o “portão”, passo, abrimos o segundo, descemos o degrau para a rua, com alguma dificuldade. Estou no passeio. Acho que já não tenho mais obstáculos até ao carro. Estou a salvo. E inteira. Vá lá.

Não percebo. A sério que não percebo. Não consigo compreender qual é a dificuldade em, havendo espaço, fazerem uma porcaria de uma rampa. Principalmente no caso deste restaurante, que teve o cuidado de – segundo me dizem porque eu não fui ver, mas acredito – fazer uma casa de banho adaptada. Se pensaram “em nós”, porque é que se ficaram pela metade?

O Cais da Pedra não é, de longe, o único a ter este problema. Hoje há espaços muito modernaços – uaaaau até têm casas de banho adaptadas - mas depois valem-se “da ajuda e do desenrascanço” tão portugueses. Eu agradeço o jeito, claro. Sei que a boa vontade existe e facilita. Mas preferia não precisar. Ser como “os outros” e não precisar.

Desta vez não pedi o livro de reclamações. Infelizmente de pouco serve porque, no que toca a acessibilidades, é muito fácil fugir ao Decreto-Leinº163/2006, de 8 de Agosto. Basta passar directamente ao Artigo 10.º e alegar que “ah e tal, as Excepções…”. Já para não falar das entidades responsáveis por fiscalizar, que pouco ou nada fazem.

Por isso, também vou ser modernaça e usar as novas formas de comunicar. Neste caso, as redes sociais. Que, sendo certo que servem para disseminar muita treta, servem também para denunciar muita coisa mal feita. Chegam longe.

No entanto, deixo uma promessa: no dia em que o exemplo for bom, farei o mesmo caminho. Para chegar igualmente longe.

E pronto, já sabem: se tiverem um pé ou uma perna partida, um joelho todo lixado, bolhas nos pés, se estiverem grávidas, conduzirem um carrinho de bebé, ou se se depararem com um problema num tornozelo, e quiserem ir ao Cais da Pedra…vão!
 
Mas peçam ajuda...porque vão precisar!

2 de setembro de 2013

Um brinde às coisas que nos fazem felizes! Um brinde ao Verão de 2013!

Banhos. Criançada. Raquetes. Pranchas. Gelados. Fruta fresca que se partilha. “Prova! Está fresquinho este melão, prova lá!” Conversas de fim de tarde. Com montes de gargalhadas à mistura. O dia ainda quente. As toalhas cheias de sal. As caras em tons de laranja porque o sol se despede. Uma caipirinha. Uma morangoska. Várias. As bolas de Berlim do senhor Rocha. Os gelados do senhor Rogério. A nossa praia. Onde todos os anos nos encontramos. Olha a fotoooo…!

Estamos todos, e somos tantos…As amigas que lá fora contam os dias que faltam para passarem o Verão cá dentro. Aquelas que se preparam para embarcar no mesmo desafio, também à procura de uma vida melhor. Os que continuam por cá, por opção ou por falta dela, e que acabam também por fazer as mesmas contas para voltar a ver os que seguem viagem. Os nós na garganta na despedida. “Temos o facebook, fazemos uns skypes, pá! Vamos matando saudades assim…E vamos lá ter contigo...”.As lágrimas escondem-se por detrás dos óculos espelhados. Disfarçaaaaa…!

Misturam-se os amigos com os conhecidos. Misturam-se os de sempre com os de agora. Os de antes com os de hoje. E todos se cumprimentam como se se conhecessem há que tempos. Um jogo de futebol, um restaurante, um filme, uma notícia de jornal. Há sempre qualquer coisa em comum. E se não houver, inventa-se. Somos assim.

São horas e horas de praia que passam a correr. Que passaram a correr.

Arrisco-me a dizer que estas foram as melhores férias dos últimos anos. Conhecemos lugares novos. Reunimos amigos e com amigos. Fizemos outros que, quem sabe, ficarão para a vida.


No que me diz respeito, foi um Verão que me vai marcar para sempre. Descobri uma nova Marta. Quase, mesmo quase a fazer 38 anos, 23 deles sentada na minha cadeira de rodas, decidi deixar-me de tretas e aproveitar mais aquilo que a vida tem de bom para me dar. Podia tê-lo feito há mais tempo. Mas acredito que há uma altura certa para tudo. E essa altura chegou.

Vinha de um ano sem férias e de muitos meses de trabalho duro. De projectos que me tinham tirado grande parte da energia que, ao contrário do que tantos pensam, tem um limite. Vinha de um ano em que tantas vezes me tinha apetecido desistir. Precisava – precisávamos – urgentemente de férias. De parar. De recarregar baterias. Estávamos todas a zeros.
 
Aquele dia na praia no Alvor foi o ponto de viragem. Quando lá cheguei e vi que estava preparada para mim, decidi deixar-me levar pelo coração e enfiei-me de novo dentro do mar. Custou-me. Foram anos a viver de outra forma, mas a verdade é que tomei a decisão mais inteligente dos últimos anos. Uma espécie de regresso à liberdade.

Foi um impulso, mas hoje percebo a dimensão da coisa: abri uma porta que tem tudo para me fazer ainda mais feliz.

Foi também especialmente gratificante sentir que todos à minha volta - mesmo os que nunca tocaram no assunto e que há anos que convivem comigo sem fazerem grandes perguntas – estão tão ou mais entusiasmados do que eu com esta nova fase.

Pois, meus amigos, uma coisa vos posso garantir: como só tenho 37 anos (quase, quase 38), não vou voltar atrás na decisão e conto viver até aos 100, haverá tempo para mergulhos e nadadelas com todos!

Agora venham de lá os meses de trabalho. Os horários. As reuniões. As rotinas. Os projectos novos. Mesmo aqueles que me sugam a energia. Vá, venham! Porque, depois de um Verão como este, tenho tanta de reserva que estou preparada para ir à Lua e voltar. E estou a ser modesta!

21 de agosto de 2013

A Marta sabe nadar yoooooo!

Quando acordei pensei “vá, Marta, prá frente com isto, pá! Levas o fato de banho por baixo e só te descascas se te sentires à vontade.”

Pelo sim pelo não, pintei as unhas dos pés. Depilei-me (a palavra é feia mas não há outra). As pernas estavam cor de leite. O tronco, cor de café. Tentei não pensar muito nisso.

Praia do Alvor. Estava cheia. E era enorme. O local era novo para mim, mas isso, de alguma forma, tranquilizava-me.
 
O sol estava a escaldar. Quando estacionamos o carro reparo em rampas por todo o lado. Estava definitivamente numa praia acessível. Passo o bar, vejo que tem wc, faço o passadiço e chego ao areal.

À esquerda chapéus de palha, à direita chapéus de palha. Em frente, uma tenda grande. Alguém nos informou de que era ali que nos devíamos dirigir. Foi o que fizemos. Eu, a mana, a mãe e a Carlota.
 
Dentro da tenda, algumas pessoas de cadeira de rodas, com os respectivos acompanhantes. Em linguagem de surfista, eram os locals. Rapidamente me explicaram como tudo se processava.
 
Vejo o monitor, rio-me para ele, ainda meio envergonhada. Nilson. Um italiano que foi viver para o Brasil com 3 anos e que já tinha andado a trabalhar pela Europa e por África. Bem-disposto, pergunta-me o nome, respondo “Marta”. Depois, se quero ir ao banho. Foi quando tremi por dentro, o estômago encolheu. Não o fazia há mais de 20 anos. Por um lado, porque as praias que sempre frequentei não tinham tiralô e, muitas vezes, mar suficientemente calmo. Mas, essencialmente, porque com o tempo me tinha desabituado de estar “despida”. Sentia-me demasiado exposta.

Pensei “cum caraças, se não for agora, não é nunca. Não conheces ninguém, todos aqui estão/são como tu, és apenas mais uma.” Respirei fundo e disse “mana, passa-me os calções de banho…”. Ela nem queria acreditar. Eu sei que estava igualmente nervosa só que não queria demonstrar. Mas feliz por mim. Ela e a mãe, que estava ainda meio incrédula.

A Carlota correu a besuntar-me com protector total. À pressa, porque queria ver-me no mar. "Quero ir lá para dentro contigo."

1, 2, 3, e, quando dei por mim, já estava sentada no tiralô. Um carrinho anfíbio, amarelo e azul - que de discreto nada tem. E lá fui eu, pelo trilho que me levava até ao mar. Alguns olhares curiosos, deitados nas toalhas. Aliás, muitos. Fingi não reparar. Concentrei-me apenas no mar, que estava cada vez mais perto. Uma piscina. Um postal perfeito. Parámos muito perto. O monitor olha para mim e faz-me sinal com a cabeça, como quem me pergunta “estás preparada?”. Também acenei com um “sim, estou, vamos a isto.”
 

Fomos entrando no mar. Já a flutuar no tiralô, pergunta-me se sei nadar. Respondo que sim, e que queria experimentar ali, no mar. Riu-se, afundou o carrinho e fez-me sinal para ir. E eu saí mesmo. Fui. Mesmo.

No areal, senti uma multidão a seguir-me com os olhos. Como a Carlota dizia “parece um programa da TVI, pá!” Virei-me de costas, olhei para o mar e pensei: já está. 20 anos depois, estava no mar outra vez. Com as ondas a enrolarem-se no meu corpo. Com o sal a ficar-me na pele. Com o sabor da água salgada nos lábios. A entranhar-se como quando tinha 17 ou 18 anos. Com a mesma intensidade. Se calhar com mais ainda, porque o meu corpo pedia-me aquilo há algum tempo.

Quando “desço à terra” percebo que as minhas miúdas estavam a aproveitar cada minuto. A Carlota sempre em cima de mim a dar-me beijos e abraços. A mana a tirar fotos. Depois guardou a máquina e enfiou-se comigo dentro de água. A mãe começou por ficar à beira da água, a tentar disfarçar o salgado das lágrimas com o salgado do mar. Depois juntou-se a nós.

Nadei, nadei, nadei. Tanto…No primeiro dia com os olhos dos monitores (no banho seguinte conheci também o Cristiano, um miúdo novo, giro, bonacheirão, com sentido de humor apurado) sempre em cima de mim. No segundo dia já me deixavam sozinha na água, sem tiralô, apenas com a minha família. Tinham percebido que eu me aguentava bem sozinha e que gostava de estar independente. Mas, mesmo dando-me a independência, nunca deixaram de ter um olho em cima de mim.

Gostava de o conseguir fazer mas a sensação de voltar a nadar não se descreve. Porque tudo o que possa dizer para caracterizar este momento seria reduzi-lo apenas a isso mesmo, um momento. E este regresso foi muito mais do que isso.

Desde miúda que praia, nadar, mergulhar, sempre foi um prazer. Sinónimo de liberdade. Com o tempo, e devido a algumas circunstâncias da vida, deixei de o fazer. Esta semana, mais de 20 anos depois, retomei. E prometo que não vou voltar a deixar escapar momentos destes.

As últimas palavras são de agradecimento profundo e vão directamente para o Nilson e para o Cristiano. Dois miúdos fantásticos que me fizeram esquecer a pele branca, a timidez, e que me ajudaram a voltar a sentir a sensação de liberdade que só o mar proporciona. Obrigada aos dois, ganharam um espaço no meu coração.

 

6 de agosto de 2013

Somos as duas faces da mesma moeda.

Nunca tinha lido nada do Paulo Coelho.

Apesar de me cruzar todos os dias com frases dele - com as quais nem discordo, é um facto - e apesar de estar rodeada de tanta gente que já o leu, nunca me tinha sentido particularmente atraída pela escrita deste senhor.

Confesso que tanta espiritualidade, tanta conversa com Deus junta, me mantinha afastada. Para além daquele ar de actor de cinema, que também sempre mexeu com o meu sistema nervoso. E não tem a ver com ser um escritor comercial, porque sempre li de tudo.

Mas, continuando. Em Junho, quando se confirmou a cirurgia da minha mãe, e uma recuperação de 1 a 2 meses, decidi pedir alguns livros a 2 ou 3 amigas para a ajudar a passar o tempo. No fim, acabámos por trocar livros entre nós. Eu emprestei os que tinha cá em casa, elas os que tinham nas delas. Saiu mais barato, o que nesta altura de crise, faz todo o sentido.

Entre os vários títulos que me chegaram estava o “Demónio e a Senhorita Prym”.

Escrito em 2000, este livro conta a história de um homem que passa por uma das maiores provas que o ser humano pode enfrentar: empresário de sucesso, vendedor de armas, vê mulher e filha serem raptadas e mortas por terroristas. Mortas pelas armas que ele próprio vende. Mortas pela indústria que ele lidera.

Consumido pelo ódio, decide tentar entender a essência humana. O que nos leva a tomar a decisão certa ou a decisão errada. O que separa o Bem e o Mal. Qual a fronteira que separa um e outro. E, acima de tudo, tentar perceber se os dois podem viver ,e conviver, numa só pessoa.

Decide, para isso, viajar até Viscos, um vilarejo com poucos habitantes, todos eles honestos e trabalhadores. E, por isso mesmo, pô-los à prova. Um crime, um homicídio em troca de barras de ouro que trariam a eterna estabilidade e prosperidade económica a todos os que vivem naquele pequeno lugar perdido no mundo. O Padre, o Perfeito, a mulher deste, o ferreiro, a dona do hotel. A jovem Chantal, que acalenta o sonho de um dia sair dali, e a Berta, a velhota que passa as horas sentada numa cadeira à porta de casa, curiosamente à espera de ver, um dia, o Mal a entrar na sua vila de sempre. O que acaba por acontecer.

Toda a trama se desenrola num cenário onde a honestidade e a ganância são rainhas. Num cenário onde nos confrontamos com o passado de algumas personagens que nos ajuda a perceber as atitudes que tomam no presente. E como o passado de uns pode dar cabo do futuro de tantos.

 
É ali, naquele lugar esquecido, que se dá a luta do Bem contra o Mal. Mas, calma, não se preocupem que não conto o fim. Não vos quero estragar o prazer de viverem o final da história.
Voltemos ao autor. Como vos disse, nunca tinha lido nada dele. No meio da pilha de livros que me emprestaram, vinha este. Não lhe peguei logo. Antes li outros.

Até que a minha mãe comenta que o tinha tentado ler mas que não tinha conseguido passar da página 30. “Demasiado espiritual, não sei…não me prende, não tenho paciência”.

Aquilo deixou-me curiosa e decidi pegar nele. Li as primeiras páginas e, surpresa, só parei na última. Levei-o para a praia e li-o em poucas horas. Acontece-me sempre que me entusiasmo com as histórias.

Emocionou-me a forma como ali se confrontaram o Bem e o Mal. O Certo e o Errado.

Porque, de certa forma, me revi naquilo. Porque todos os dias, seja na minha vida profissional, seja na minha vida pessoal, nas relações que mantenho com quem me rodeia, tenho que tomar decisões. Porque, no fundo, eu, como acho que todos nós, sinto que tenho estes dois lados dentro de mim. O bom e o mau.
 
Quando somos confrontados com alguma situação e precisamos, naturalmente, de lidar com ela, por muito que tentemos, nem sempre conseguimos tomar o rumo mais certo. Todos os dias, eu diria até várias vezes por dia, somos levados a optar por um de dois caminhos. A tomar decisões. Infelizmente, nem sempre optamos pela melhor. Seja porque razão for, nem sempre optamos pela mais justa. Foi nisto que me revi.

E uma das frases que vou guardar do livro de Paulo Coelho é que “o Bem e o Mal têm a mesma face; tudo depende apenas da época em que cruzam o caminho de cada ser humano.” E esperar que consiga sempre distinguir um do outro.

Quanto ao autor, depois deste livro, talvez lhe dê outra oportunidade!
 
 

31 de julho de 2013

Can't Stop Me Now!

Hoje a minha vida deu um passo de gigante. Daqueles que estava longe que alguma vez desse.

Mas, para que percebam melhor, vamos andar cerca de dois anos para trás.

Estávamos em Junho de 2011. Alguém me tira uma foto e publica no facebook. O Ricardo, um amigo que também anda em cadeira de rodas, vê essa foto e comenta “mas que raio de cadeira é essa?”. Respondi a rir-me que era aquela que a minha bolsa podia comprar.

Foi nesta altura que ele me chamou a atenção para o Programa “Ajudas Técnicas”, do Estado. Trocado por miúdos, trata-se de um valor que o Estado disponibiliza anualmente aos IEFPs para financiarem pessoas com algum tipo de deficiência que precisem de material técnico, mas sempre no âmbito da promoção do seu trabalho e/ou formação.

Confesso que primeiro desconfiei, porque nunca pensei que do Estado, neste estado, viesse alguma coisa boa. Mas decidi meter mãos à obra e comecei a fazer contactos. Na altura rebenta a crise e deparo-me com “não temos dinheiro”, “não temos médico”, “não temos”, “não temos”, “não temos”.

Tudo bem, pensei, nunca tinha usufruído desta regalia, não ia morrer se as coisas continuassem a ser assim.

Cerca de um ano e meio depois, em Novembro, o Ricardo volta a contactar-me alertando-me para o facto do programa estar de novo a funcionar. Ou seja, tinha voltado a haver dinheiro para as Ajudas Técnicas. Here I go again.

De imediato ponho-me em contacto com o IEFP de Almada e começamos a trocar emails, documentos, assinaturas. Faço o levantamento do material que mais precisava. Entre esse material, uma cadeira topo de gama e uma plataforma elevatória para poder sair sozinha do meu prédio.

Depois de alguns meses e muita papelada junta, recebo um email do IEFP a informar-me que estava tudo aprovado. TUDO APROVADO. “Sim, Marta, leste bem. Tudo aprovado”. Nem queria acreditar. Mas era verdade.

A partir dessa altura, começo a sonhar todos os dias com o novo material, com tudo o que nunca tinha feito e que poderia começar a fazer. Sempre que alguma coisa me corria menos bem, voltava a olhar para aquele email de aprovação e pensava “não tarda muito e isto vai ser uma realidade”. Melhorava.

Hoje, 8 ou 9 meses depois de iniciar o processo, entregaram-me a última encomenda. Eu diria, a mais importante: a plataforma elevatória.

Acompanhei quase cada minuto da montagem. Não por achar que iria aprender alguma coisa, mas porque aquilo que ali estava, aquela montanha de metal cheio de tecnologia lá dentro, ia ser o meu passaporte para momentos que nunca tinha vivido.

Foi assim que hoje, quase 10 anos depois da Carlota ter nascido, pude sair de casa sozinha e ir busca-la à porta do ATL. Foi assim que hoje, quase 10 anos depois ter tido a sorte de ter sido tia de uma miúda como a Carlota, pudemos sair só as duas depois do jantar, ir comprar um gelado ao café do senhor Ezequiel e comê-lo no jardim das traseiras. Só as duas.
 
 
 
Parece pouco, mas não é. Não foi para mim e também não foi para ela. Que no caminho me ia abraçando pelo pescoço e dando beijos sem dizer uma palavra. Com aquele histerismo que se sente quando a felicidade se mistura com nervos.

Hoje a minha vida deu um passo de gigante. E prometo que nunca mais começo um texto por dizer “daqueles que estava longe que alguma vez desse”. Porque a parte gira da coisa é que a vida, por muito complicada que seja, tem sempre boas surpresas reservadas para nós.

Agora vou começar a pensar no próximo passo. Mas, para já, vou saborear cada milímetro deste!

26 de julho de 2013

Se for preciso, manda um grito e volta para dentro.

Há dias em que acordamos porque sim. Tomamos o pequeno-almoço porque sim. Depois um duche porque sim.

Saímos para o trabalho porque sim. Vá, e porque no fim do mês chegam as contas e têm que ser pagas.

Dias em que chegamos a casa à noite e só nos lembramos daquilo que correu mal. Que queremos mudar de vida, blá, blá, blá, queremos menos stresse. Menos caos à nossa volta.

E este filme devia ser visto ao contrário.

Devíamos levantar o cu da cama, ir à janela e respirar o ar daquele dia. De mais um dia. E agradecer por isso.

Acordar quinze minutos mais cedo que o habitual para pôr a mesa do pequeno-almoço e comer com calma, saboreando e lendo mais umas páginas daquele livro que nos tem feito sonhar. E agradecer por isso.

Tomar um duche sim, sentindo a água a escorrer pelo corpo, milímetro por milímetro. Cara, pescoço, ombros, peito, barriga, pernas e pés. Tocar com as mãos na água. Sentir a água nas mãos. E agradecer por isso.

Escolher a roupa que melhor nos fica. Dar uma pintadela no rosto. Ou pôr um bocadinho de rímel e um brilho nos lábios. E agradecer por isso.


Chegar ao emprego e espalhar “bons dias”, com um sorriso no rosto. Por muito que venha de lá um dia complicado e cheio de trombas de elefante, cobras venenosas, sapos para engolir, caras de osga, olhos de carneiro mal morto e macacos de imitação. E, claro, agradecer por isso.
 
Depois, chegar a casa, desligar o botão “trabalho”, ligar o “chegaste a casa, agora relaxa, sff”. E agradecer por isso.

Há dias filhos da mãe. Há pessoas, nesses dias, que nem filhos da mãe devem ser.
 
Há momentos em que focar no essencial é luta de bravos.

Mas eu já estive perto de não acordar. Já estive mais de um ano sem fome e a emagrecer. Já estive quase dois sem poder tomar um duche. Já estive quase um ano sem conseguir trabalhar. E hoje só posso agradecer por ter voltado a conseguir fazer tudo isto.

Nem todos os dias o faço. Mas há outros, como este, dias filhos da mãe, em que me obrigo a parar. Respirar fundo. E seguir em frente. Mesmo que só o faça depois de olhar para trás. E, em particular, para este “atrás”.
 
Aconteça o que acontecer, sintas-te como te sentires, nunca te esqueças disto: acorda, veste-te, aparece e, cum caraças, nunca desistas!

15 de julho de 2013

I Love Me. Do You Love You?

A vida corre tão depressa que nem nos lembramos de como somos maravilhosos. E hoje apetece-me.

Passamos o dia preocupados com os prazos para cumprir, a olhar para o relógio, em reuniões, agarrados ao telefone. A tratar dos filhos, da casa. A contar os trocos para chegar ao fim do mês. Ficamos cansados. Por vezes engolimos tantos sapos que chegamos a duvidar das nossas capacidades.

Depois há alguém que nos abre os olhos com uma palavra, um gesto, nos puxa o lustre e que nos mostra todo o brilho que temos, o que valemos.

Sou uma gaja porreira. Feitio lixado, teimosa também, mas porreira.

Amiga dos meus amigos. Mas sem lamechices pelo meio.

Fui mimada em criança, mas não sou de grandes abracinhos ou agarranços. Sou de estar lá quando é preciso. Seja para dar um beijo, um abraço. Ou uma bronca.

Não sou a pessoa mais ternurenta do mundo, talvez a vida me tenha endurecido um bocadinho, mas sei ser ternurenta quando é preciso. E depois, claro, há meia dúzia de pessoas que me inspiram mais ternura e em que gosto mais de tocar. Vá, se calhar meia dúzia é muito.

Mas isto não significa que não goste que me abracem. Só não curto exageros e “gente cola-tudo”.

Sou justa. Regra geral consigo sair da situação, olhá-la de fora, e analisar a coisa de uma forma minimamente racional. E decido “contra mim”, se for necessário.

Sou bem-disposta. Gosto de uma boa gargalhada. Mas não me rio por “dá cá aquela palha”.

Gente exagerada põe-me doente. Gente que chora demais. Gente de grita demais. Gente que bebe demais. Gente que dorme demais. Gente lenta demais. Gente eléctrica demais. Gente que come demais. Gente que ri demais. Gente trombuda demais. Gente inteligente demais. Gente burra demais. Gente que não sabe onde está o seu limite. Limite máximo ou limite mínimo. Gosto de gente equilibrada, é só isso. E, atenção que eu nem sempre sou. Tenho dias em que passo por todos os estádios acima. Por isso não são poucas as vezes que sou alvo da minha própria irritação.

Sempre soube mais ou menos o caminho que queria seguir. Da mesma forma que sempre soube o que não queria.

Por isso nunca me droguei, nunca fiz figuras tristes com a bebida - apesar de ter apanhado boas/divertidas e inesquecíveis bebedeiras - nunca arranjei problemas de maior a quem me rodeia.

Sempre me considerei uma pessoa segura. Mas sem vergonha nenhuma de assumir que tenho momentos de insegurança. Nessas alturas olho para dentro de mim e percebo que gosto do que vejo. Gosto, aliás, muito do que vejo. Acredito nas minhas capacidades e avanço. Algumas vezes com o cu apertado, mas avanço. Quando não consigo isto sozinha, vou ter com alguém que me ajude a olhar cá para dentro. Está tudo cá dentro.

Porque me lembro de tudo o que passei, e ainda passo, para conseguir sobreviver num país que não está preparado para pessoas como eu, com mobilidade reduzida.

Porque me lembro que, mesmo sentada numa cadeira de rodas, e com todas as mazelas que me marcam o corpo por causa disso, continuo a sentir-me mulher e feliz.

Porque olho para o meu percurso profissional e percebo que só alguém com garra o poderia ter feito. Ainda para mais sentada numa cadeira.

Porque olho para o meu núcleo de amigos e sinto que só as boas pessoas têm a sorte de estar rodeadas de gente assim.

Porque olho para os pinduricalhos que não gostam de mim e sinto que só as boas pessoas têm inimigos destes.

Porque olho para o espelho e continua a apetecer-me pintar o cabelo, por batom, rímel, blush, pintar as unhas com cores fluorescentes. Arranjar-me. Estar bem. Para mim e para quem que me vê.

Não sou nem vou lutar para ser perfeita, porque isso não existe. Mas não tenho dúvidas que sou uma gaja 5*. Daquelas que vale a pena ter como amiga. Como colega. Como filha. Como irmã. Como tia.

Mesmo com todos os meus defeitos, tenho um orgulho do caraças em mim e em ser como sou.

E quanto aos poucos que ainda tentam passar-me aquela rasteirinha marota, tantas vezes movidos por invejas estranhas que nunca entenderei, jamais se esqueçam: estou sentada, meus caros; não tropeço. Quanto muito passo-vos com as rodas por cima dos pezinhos.

Aos outros: acreditem em vocês. Adorem-se. Todos os dias.