“Queremos falar com mulheres determinadas, sob vários
pontos de vista. No teu caso, que nos contes como é que se dá a volta por cima.
Aceitas, ou já deste o suficiente para este peditório?”.
Foi mais ou menos esta
a mensagem que a Rita, colega dos tempos de faculdade e agora responsável pela
redacção de uma das melhores revistas femininas portuguesas, me deixou no
privado do Facebook.
Quando vi aquilo respirei fundo e pensei “hum…será mais
do mesmo?". Mas a abordagem pareceu-me diferente. Enxuta. Desempoeirada. Vinha,
aliás, de alguém que tinha acompanhado de perto os primeiros anos do acidente
que me tinha deixado de cadeira de rodas. Sabia, por isso, como tinha sido a
minha reacção.
Liguei-lhe. Foi bom voltar a ouvir a voz dela. Fez-me
lembrar os tempos de faculdade. A vida fez-nos seguir caminhos diferentes mas o
Facebook voltou a juntar-nos há uns anos. E, graças a ele, continuávamos, de
alguma forma, perto uma da outra.
Expliquei que teria muito gosto em dar a entrevista mas
que tinha dois pedidos: para não nos deixarmos enrolar pelo discurso trágico-lamechas
e para me ajudar a promover o meu blog. O que ia, aliás, ao encontro do tema
que queriam falar comigo porque este blog também fala sobre determinação. Minha e de
outros, mas determinação
Para a Rita, nem passou por aceitar. Porque, também para
ela, era claro que a lamechice não tinha espaço no texto e que o blog se
encaixava na perfeição na nossa conversa.
Destacou uma jornalista que eu conhecia apenas pelo nome.
A Sónia. Tenho tido sorte com as Sónias. Sempre que me entrevistam, divirto-me
a valer. E acho que elas também. A gaita é que perdemos a noção do tempo e o
trabalho atropela-se todo. Mas vale sempre tanto a pena…
Esta Sónia começou logo bem: “posso tratar-te por tu?”.
Respondi que sim “bolas, temos as duas quase a mesma idade…!”. É sempre bom falar com alguém da nossa geração.
Não nos perdemos a falar dos factos. São públicos,
ela já os conhecia. Falámos da vida. Do que é viver. De como se ultrapassam os
obstáculos. De como ultrapassarmos obstáculos pode ter impacto na vida de tanta
gente. E de qual o meu papel no meio deste filme.
Foi mais de uma hora nisto. Uma hora em que ora interrompia
eu, ora interrompia a Sónia com um “claro, tens razão, tem mesmo que ser assim,
concordo em pleno, pá!”. Sintonia e cumplicidade. À primeira vista.
Expliquei que sentia que era fundamental, mais do que focar em mim, focar
nas minhas experiências e em como elas me tinham mudado. E, mais do que me terem mudado a
mim, como poderiam elas mudar/influenciar os outros. Pela positiva.
Falámos dos “bons” e dos “maus” que nos rodeiam. Falámos
dos que querem e dos que não querem ser ajudados. Falámos de como eu posso
ajudar. De como eu quero ajudar. Mas concordámos que todos valem a pena. Vá, quase todos!
Falámos da importância do efeito “pedrada no charco”. De
fazer chegar a palavra longe. De conseguir mudar vidas com gestos simples como
um sorriso na cara. Falámos de partilha. De que quando cada um oferece o melhor
de si mesmo, o mundo avança um bocadinho. Sempre.
Falámos de viver bem. Que a nossa essência era a mesma essência
dos outros. Mesmo daqueles que chamámos de “maus”. Concordámos que, no fundo,
tudo o que eles precisavam era de um empurrãozinho para melhorarem e mudarem
para a nossa equipa. Dos que querem bem aos outros.
Mas também falámos das dificuldades que esse caminho nos
trazia, dos dissabores, do trabalhão! Da nossa – por vezes grande - falta de vontade de ajudar quem não estava
para aí virado. E do esforço que devíamos fazer para a ultrapassar.
Foi uma conversa gira. Em que eu senti que mudei um
bocadinho da vida da Sónia, e que a Sónia pode estar segura que mudou um
bocadinho da minha. Ganhámos, por isso, as duas.
Quando a nossa conversa chegar a mais pessoas, quando
for publicada, vai com certeza mudar um bocadinho de quem a ler. Porque valeu a pena. E,
se cada pessoa que a ler a passar a outra, terá valido ainda mais.
Vá, e não precisam de morrer de curiosidade para saber o resto! Basta comprarem a próxima Máxima! :-)






