3 de novembro de 2013

Vão, mas voltam.

O Verão já lá vai. Voltámos à rotina do trabalho.
 
Alguns de nós meteram-se num avião e voltaram ao país que lhes prometeu um futuro melhor. Outros meteram-se no mesmo avião e foram pela primeira vez. Depois, há os que não foram nem vão, mas que o regresso ao trabalho nos retira da vista mais vezes do que as que gostaríamos.
 
Passou Setembro, passou Outubro. Com Novembro a romper, e as saudades a apertar, os que podem regressam, mesmo que por pouco tempo, de fugida. E reúnem-se à volta da mesa. Com o sol, o mar e a areia como pano de fundo. No bar de quem já passou connosco o tempo quente, no bar de quem já se partilhou connosco, e a quem desejamos que tudo corra bem.

Comentam-se as novidades de quem chega de lá. Misturam-se com as de quem vem de cá.
 
Trocam-se presentes atrasados. Os que não foram trocados por culpa da ausência forçada.
 
Notam-se as mudanças de cor de cabelo, a roupa nova. Sem maldade. Sem inveja. “Estás tão gira assim!”. Do coração.


 
 
Reforça-se aquela relação que começou no Verão. Aos olhos de todos “que bom, eles merecem”. No fundo da mesa comenta-se baixinho “vai ser desta”. Quem disse costuma acertar. Fui eu.
 
Chega a sangria. Vem o petisco. São as conversas que se cruzam. Que se atropelam. As risadas de um lado, os sorrisos do outro. Numa curva, esbarram um com o outro e é a gargalhada geral. As mesas do lado olham, mas nós nem queremos saber. É a loucura sã.
 
Os miúdos correm para perto do mar. Para acelerar na areia. Dar saltos. Mas os graúdos vão atrás. Não para controlar. Mas porque aqui todos brincam uns com os outros.
 
O sol muda de lugar e de cor. Deixa de ter força para aquecer o corpo mas ganha-a para aquecer a alma, de tão bonito.
 
O dia chega ao fim. Despede-se. Despedimo-nos todos. “Quando voltas para lá?”, pergunta-se pedindo que o tempo páre. “Vou daqui a uns dias.” “E quando regressas?”. A resposta é pronta ”no Natal e, muito provavelmente em Janeiro, para o aniversário da tua mana.”

O importante é tentar não estar longe muito tempo. Voltar sempre que se pode. O avião dá uma ajuda e torna o "tão longe" em "tão mais perto".
 
Os que ficam e apenas se despedem do momento, não do País, prometem que nem a chuva, nem o frio os vai separar. Nem a chuva, nem o frio nos vai separar.
 
Porque quando o que existe é amizade, da boa, o mundo reduz-se ao tamanho de uma azeitona.
 


1 de novembro de 2013

Porque a vida é rara

Sempre contei esta parte da minha história da mesma maneira.
 
Uma vez, duas vezes, três. Muitas. Acabei por estruturá-la daquela forma na minha cabeça e habituei-me a contá-la assim, com aquela sequência. Com os mesmos pormenores, as mesmas graças. Mas há histórias para além da história, que nunca passei para o papel.
 
Passaram-se 23 anos mas lembro-me daquele dia como se fosse hoje.
 
Estávamos em Março. Um Março frio.
 
Os dias passavam-se sempre com a mesma rotina. Lá em casa, depois de todos saírem, preparava-me para mais um dia de aulas. Andava no 10º ano. Turma da tarde. Era uma miúda feliz. Aluna razoável. Bons amigos. Popular. Com um namorado há 2 meses. O Rui. Um miúdo impecável. Aturou-me 7 anos.
 
Naquele dia, a Cláudia, a minha melhor amiga, tinha ficado de passar lá por casa para irmos juntas para a escola. Mas não íamos directas. Antes passávamos pelo Don Pomodoro, onde bebíamos um café e fumávamos um cigarro. Como os crescidos. Comprávamos um maço a meias que ela escondia religiosamente na mala.
 
A Agostinha trabalhava lá em casa há alguns anos e nunca falhava. Naquele dia ia falhar mas, nesta altura, ainda não sabíamos.
 
Lembro-me de pegar no Coca-cola, a nossa mistura de caniche com bichon, mais parecido com um desperdício do que com um cão, e de o levar comigo para a casa de banho, para evitar que se engalfinhasse com o Pantufa, um velho pequinois albino de nariz cor-de-rosa, que tudo o que queria era o descanso do sofá da sala.
 
Lembro-me de ter sentido frio e de ligar o aquecedor de ambiente. De fechar a porta e a janela.
 
Lembro-me do banho mais demorado. De lavar cuidadosamente o cabelo, que ia sempre molhado para a escola.
 
Lembro-me de me estar a saber bem. E de cantar.
 
É nesta altura que oiço o Coca a ladrar, insistentemente. Queria ir lá para fora, quem sabe presentindo algo que eu ainda não tinha sentido. Irritada saí do banho, abri-lhe a porta, deixei-o ir. Voltei lá para dentro.
 
Naquela época, ter os esquentadores nas casas de banho era um hábito em prédios antigos. Alvalade era um bairro desses. Tinha mais de 50 anos. Prédios baixinhos, sem elevador, em que cada inquilino tinha direito a um espaço nas traseiras. O nosso quintal. O bairro de Alvalade era o bairro dos nossos avós.
 
Já perto do fim daquele banho, senti-me estranha. Sem perceber o que se passava, fechei a água. Sentei-me. Esperei. Apaguei. Entrei em coma.
 
Passam-se duas horas e a Cláudia bate à porta. Já não abri. Minutos depois a minha irmã chega a casa, estranhando não se ter cruzado comigo no caminho. A essa hora, o telefone também tocava em Setúbal, onde a minha mãe escolhia as peças de uma colecção de roupa para a loja que tinha na Baixa.
 
Nunca o percurso Setúbal-Lisboa foi tão curto. Dali até ao Santa Maria, o carro voou.
 
Quando tenta entrar na UCI, alguém a pára para lhe vestir uma bata. Em vão. A pressa de chegar perto era maior.
 
Eu já estava acordada. A cabeça estalava de dor. Pedi bolachas Maria e bebi um chá. Fui vista por dezenas de médicos. A quem disse que estava bem...mas que não sentia as pernas.
 
A história que se segue é sobejamente conhecida. Exames, lesão medular, paraplegia. Médicos, Alcoitão, Londres. Fisioterapia, acupunctura, homeopatia, massagens. Mas, ao mesmo tempo, amigos, praia, namorado, escola. Vida normal de uma miúda de 15 anos.
 
Foi o terminar de um ciclo e o início de outro. Como se alguém tivesse pegado nas cartas da minha vida e as baralhasse para começar um novo jogo. Mais difícil, com outras regras.
 
Desde aquele dia aprendi a viver com o que a vida me deu. Cresci. Passei a querer sentir todos os minutos. A ver com o coração aquilo que tantas vezes só via com os olhos. A chuva. Os pássaros. O mundo.
 
E realizei a sorte que tive. Uma reviravolta indesejada, é certo, mas que me fez perceber que, se fiquei por cá, todos os dias tenho que conseguir fazer um bocadinho melhor. Ser um bocadinho melhor. E que, quando há um dia em que isso não acontece – porque estou mais em baixo, porque o saco está cheio, porque tenho a certeza que o mundo se uniu para me lixar -, devo aproveitar o dia seguinte e fazer a dobrar, recuperando o tempo que perdi.
 
Tudo sem nunca perder o foco: prefiro passar pelo tempo, do que deixar o tempo passar por mim.
 
Porque a vida não pára. E eu quero ir com ela.
 
 

19 de outubro de 2013

Auto-estima-te!

Há uns dias, falava com um colega - daqueles bem posicionados - que me dizia “sim, marca esses almoços porque eles têm que querer conhecer-me”. Bem sei que dito assim, a seco, soa malzote – na altura eu própria ia saltando da cadeira - mas, passado o primeiro impacto e contextualizando na conversa, nem tanto. As tais pessoas que eu queria convidar para almoçar com ele, se fossem boas profissionais, deviam sim, querer conhecê-lo. E eu até sei que querem.
 
Claro que não lho disse desta forma. Limitei-me a sorrir e a responder-lhe “sim, talvez, mas onde enfiaste aquele meu colega humilde, característica que sempre te caracterizou?”.
 
A nossa conversa fluiu a partir daí. Falámos do nosso passado e da forma como os nossos pais nos tinham educado. Acima de tudo, amado. Sentíamo-nos ambos bem em termos de auto-estima. Tínhamos ambos boas bases, tínhamos ambos sido suficientemente elogiados enquanto crianças, adolescentes e, por fim, também em adultos.
 
Lembro-me de ser miúda e de ouvir a minha mãe a dizer-me como estava gira, como era esperta, como se orgulhava de mim. Mas atenção que também me lembro dela a partir-me a cabeça, não fosse dar-se o caso de eu encetar uma longa “viagem na maionese”, na “minha própria maionese”, e esquecer-me de deixar os pezinhos bem assentes no chão.
 
Mas este é um tema tramado. Mais tramado do que aquilo que pensamos. Porque nem sempre controlamos a coisa.
 
E tanto que até eu, rapariga habituada a gostar e a acreditar em mim, tão fortemente educada para isso, já dei por mim a pensar “será que sou mesmo boa no que faço? Será que estou à altura deste desafio?”. E, muitas vezes, a primeira resposta é “se calhar não.”
 
Devo confessar que, quando isso acontece, fico com o estômago tão apertadinho que nem uma azeitona lá cabe dentro. Passo dias a pensar no assunto, com o coração a perder tamanho. A bater mais rápido. E a ralhar com o mundo.
 
 
Depois falo com aquelas pessoas que me puxam para cima – os amigos -, que já tanto passaram comigo/por mim, que tão bem me conhecem. Aqueles a quem não precisamos de rir quando, de facto, preferimos chorar. Aqueles a quem podemos dizer tudo o que nos vem à cabeça, porque sabemos que do outro lado nos ouvem sem julgamentos. Os mesmos que não ousam interromper o nosso discurso “Florbela Espanca”. Que nos deixam falar e falar e falar e falar…e só respondem no fim com um simples mas firme "enlouqueceste? Era o que faltava não conseguires.”
 
Dá-me um clique. Dá-me um clique e volto a lembrar-me do que me fez chegar onde cheguei, ultrapassando o que ultrapassei.
 
Volto a lembrar-me que, mesmo que o prato da balança de quem não acredita em mim, tente desequilibrar o meu mundo, não tem a força do prato oposto, porque este abarrota de gente que me considera.
 
Dá-se o regresso à normalidade. O meu estômago volta a abrir as portas a um bom repasto. O coração volta a preencher o espaço que o meu corpo lhe destinou desde sempre, aconchega-se por ali, e passa a bater como devia. Já deixar de resmungar é sempre mais difícil mas, vá, passo a resmungar menos.
 
Com tudo a voltar ao lugar, volta também a vontade de definir um objectivo e um caminho para lá chegar. Com tudo a voltar lugar, volta também a determinação de mostrar que controlamos a situação como ninguém. E de colocarmos aqueles que fizeram questão de nos pôr em causa no seu lugar. Fazê-los ver que, enquanto agirem assim, esse lugar há-de ser sempre um quarto escuro, abafado. Acima de tudo, um lugar isolado e onde não cabe qualquer bocadinho de felicidade.
 
Mas é preciso respirar fundo e tentar ser melhor que eles. Mesmo a custo, enfiar um bilhete por baixo daquela porta a explicar que, se um dia quiserem mudar, haverá sempre alguém por perto para dar uma ajuda. Quanto mais não seja, uma ajuda a melhorar, eles sim, a sua auto-estima.

Ou como dizia o outro, que por acaso era um génio e se chamava Shakespeare, "é um péssimo cozinheiro aquele que não pode lamber os próprios dedos."

 

11 de outubro de 2013

Uma amizade "especial"

Sempre achámos que o facto da Carlota crescer, e conviver, com uma tia de cadeira de rodas tão de perto, ia acabar por dar frutos. E deu.

Cedo percebemos que ela topava que havia gente à sua volta que precisava de mais atenção. Por isso, desde cedo que se sente bem do lado “dos mais fracos”, defendendo-os. Com ela ninguém é deixado para trás.

 
Esta forma de estar na vida tornou-se mais clara quando tinha pouco mais de três anos e um colega do infantário se recusou a fazer uma brincadeira por “ser diferente”. Nessa altura, a Carlota levantou-se e disse “ai fazes sim! Eu tenho lá em casa uma tia de cadeira de rodas que faz tudo! Até se pinta!”. Entre dar banho, fazer o jantar, tratar dela, o importante mesmo era pintar-me…! Que raio de escolha! E que escolha tão amorosa...

A Carlota foi crescendo e assistimos a outros espisódios do mesmo género. Quase sempre dentro de casa, onde sempre me fez sentir a melhor tia do mundo, a mais capaz, feita à sua medida. Sentimento que transformava regularmente em palavras quando me brindava com um “se não estivesses de cadeira eu não ia gostar tanto de ti...” ou “ganda sorte que eu tenho por ter uma tia de cadeira de rodas!”.

Acabou de passar para o 5º ano. Uma mudança radical na vida dela. Escola maior, mais disciplinas, mais professores, mais correria, mais responsabilidade. Cartão para entrar na escola, cartão para almoçar, telemóvel. Novas amizades. Convivência com malta de outros anos. Sentimo-la a crescer todos os dias. É uma fase um bocadinho assustadora mas, ao mesmo tempo, maravilhosa. A nossa miúda está a ficar crescida.
 
Este ano, a turma dela recebeu de novo um menino especial. Contou-nos, entusiasmada, logo no primeiro dia. Chamava-se R e, por coincidência, era filho de uma amiga nossa, o que só viemos a saber mais tarde.


Nos dias que se seguiram, continuou a falar-nos daquele colega. Comentou que alguns miúdos o gozavam e o deixavam para trás, o que a deixava furiosa.

Sentiu que ele precisava de alguma protecção e passou a dar-lhe mais atenção. Escolheu-o para a sua equipa de futebol. Brincou com ele no intervalo. Mostrou ser sempre mais paciente. “Porque ele não percebe as coisas como nós...e precisa de ajuda”, explicava. O resultado acabou por se traduzir numa aproximação do miúdo à Carlota. Porque sentiu que ela o ia sempre amparar.

Ontem voltou a acontecer. Depois da professora pedir aos alunos para se juntarem em grupos, no meio da confusão, o R acaba por ficar de fora. A professora apercebe-se e pergunta “E o R, fica sozinho?”. A Carlota chega-se mais uma vez à frente e com a voz firme diz “não, o R está no meu grupo”. E olha para as colegas que acenam a cabeça, aceitando. Aceitando-o.

O melhor de tudo é que ela conta isto com a naturalidade de quem não está a fazer mais do que aquilo que qualquer colega deveria fazer. Porque jamais lhe passaria pela cabeça deixar sozinho quem está em desvantagem. Como, vendo bem, nunca deixou a tia.

Vem aí uma nova geração. E, com ela, o dia em que todos serão iguais. Mesmo com todas as suas diferenças.
 
Por isso, olhar para esta miúda, é acreditar que, um dia, o mundo pode voltar ao lugar.

8 de outubro de 2013

Dar o melhor de nós

“Queremos falar com mulheres determinadas, sob vários pontos de vista. No teu caso, que nos contes como é que se dá a volta por cima. Aceitas, ou já deste o suficiente para este peditório?”.
 
Foi mais ou menos esta a mensagem que a Rita, colega dos tempos de faculdade e agora responsável pela redacção de uma das melhores revistas femininas portuguesas, me deixou no privado do Facebook.
 
Quando vi aquilo respirei fundo e pensei “hum…será mais do mesmo?". Mas a abordagem pareceu-me diferente. Enxuta. Desempoeirada. Vinha, aliás, de alguém que tinha acompanhado de perto os primeiros anos do acidente que me tinha deixado de cadeira de rodas. Sabia, por isso, como tinha sido a minha reacção.
 
Liguei-lhe. Foi bom voltar a ouvir a voz dela. Fez-me lembrar os tempos de faculdade. A vida fez-nos seguir caminhos diferentes mas o Facebook voltou a juntar-nos há uns anos. E, graças a ele, continuávamos, de alguma forma, perto uma da outra.
 
Expliquei que teria muito gosto em dar a entrevista mas que tinha dois pedidos: para não nos deixarmos enrolar pelo discurso trágico-lamechas e para me ajudar a promover o meu blog. O que ia, aliás, ao encontro do tema que queriam falar comigo porque este blog também fala sobre determinação. Minha e de outros, mas determinação
 
Para a Rita, nem passou por aceitar. Porque, também para ela, era claro que a lamechice não tinha espaço no texto e que o blog se encaixava na perfeição na nossa conversa.
 
Destacou uma jornalista que eu conhecia apenas pelo nome. A Sónia. Tenho tido sorte com as Sónias. Sempre que me entrevistam, divirto-me a valer. E acho que elas também. A gaita é que perdemos a noção do tempo e o trabalho atropela-se todo. Mas vale sempre tanto a pena…
 
Esta Sónia começou logo bem: “posso tratar-te por tu?”. Respondi que sim “bolas, temos as duas quase a mesma idade…!”. É sempre bom falar com alguém da nossa geração.
 
Não nos perdemos a falar dos factos. São públicos, ela já os conhecia. Falámos da vida. Do que é viver. De como se ultrapassam os obstáculos. De como ultrapassarmos obstáculos pode ter impacto na vida de tanta gente. E de qual o meu papel no meio deste filme.
 
 
Foi mais de uma hora nisto. Uma hora em que ora interrompia eu, ora interrompia a Sónia com um “claro, tens razão, tem mesmo que ser assim, concordo em pleno, pá!”. Sintonia e cumplicidade. À primeira vista.



Expliquei que sentia que era fundamental, mais do que focar em mim, focar nas minhas experiências e em como elas me tinham mudado. E, mais do que me terem mudado a mim, como poderiam elas mudar/influenciar os outros. Pela positiva.

Falámos dos “bons” e dos “maus” que nos rodeiam. Falámos dos que querem e dos que não querem ser ajudados. Falámos de como eu posso ajudar. De como eu quero ajudar. Mas concordámos que todos valem a pena. Vá, quase todos!

Falámos da importância do efeito “pedrada no charco”. De fazer chegar a palavra longe. De conseguir mudar vidas com gestos simples como um sorriso na cara. Falámos de partilha. De que quando cada um oferece o melhor de si mesmo, o mundo avança um bocadinho. Sempre.

Falámos de viver bem. Que a nossa essência era a mesma essência dos outros. Mesmo daqueles que chamámos de “maus”. Concordámos que, no fundo, tudo o que eles precisavam era de um empurrãozinho para melhorarem e mudarem para a nossa equipa. Dos que querem bem aos outros.

Mas também falámos das dificuldades que esse caminho nos trazia, dos dissabores, do trabalhão! Da nossa – por vezes grande -  falta de vontade de ajudar quem não estava para aí virado. E do esforço que devíamos fazer para a ultrapassar.

Foi uma conversa gira. Em que eu senti que mudei um bocadinho da vida da Sónia, e que a Sónia pode estar segura que mudou um bocadinho da minha. Ganhámos, por isso, as duas.

Quando a nossa conversa chegar a mais pessoas, quando for publicada, vai com certeza mudar um bocadinho de quem a ler. Porque valeu a pena. E, se cada pessoa que a ler a passar a outra, terá valido ainda mais.
 
Vá, e não precisam de morrer de curiosidade para saber o resto! Basta comprarem a próxima Máxima! :-)

7 de outubro de 2013

Crianças filhas...da guerra

Ontem deitei-me na cama com uma constipação do caraças, a sentir-me uma desgraçada.

Peguei no comando da televisão e, no meio de um zapping, páro na 2.

Estava a passar um documentário sobre um centro de skate no Afeganistão. “Um centro de skate no Afeganistão?”, pensei. Sim, tinha visto bem, no Afeganistão. Em Cabul. Zona de combate. Zona que cheira a morte. No meio de tudo aquilo, um oásis. Chama-se Skateistan.

As imagens que passavam eram assustadoras. Como, aliás, são todas as imagens de cenários de guerra.

As cores, essas, sempre as mesmas. Cinza, cru, castanho. Os tons terra que nos traz a guerra. E padrão camuflado, com presença de um soldado em cada esquina.

Pó. Muito pó. Prédios destruídos? Todos. Ali não escapou nenhum. E, com eles, perderam-se milhares de homens, mulheres e crianças.

Por entre os escombros, um centro de skate que tem como missão retirar os miúdos das ruas. E que, pelo meio, lhes ensina várias disciplinas e promove workshops sobre arte. Um centro que os prende pelo desporto e que os ensina a viver. E, acima de tudo, a sobreviver no meio da miséria onde nasceram.

Em 6 anos, o Skateistan já “recrutou” mais de 400 crianças. 400 crianças que talvez se tivessem perdido se ali não estivessem. 400 crianças que são parte do futuro do Afeganistão.

Sobretudo rapazes, mas também raparigas. Num país que não liberta a mulher, muito menos dá direito às crianças. Principalmente a elas, as miúdas. “Quando ando de skate na rua, ficam todos a olhar para mim. Sei que me condenam. Mas eu não quero saber. Não vou deixar de andar de skate e frequentar o centro por causa disso.” Palavras de uma rapariga de 10 anos que, contra a sua própria família, e de skate debaixo do braço, se divertia nas ruas destruídas daquela cidade atirada para um canto pelas armas.

Estes miúdos vivem nas ruas e, pior, das ruas. A vender pastilhas elásticas. Sobrevivem a lavar carros com água da chuva e panos velhos. Imundas, camisolas rotas, descalças e de ranho no nariz. Passam fome.

É assim em Cabul e é assim no Iraque. É assim na Síria e em tantos países de África. É assim em grande parte do mundo, mesmo em pleno século XXI. Porque também não podemos ignorar o que acontece às crianças na Índia e na China, por exemplo.

Ontem deitei-me na cama com uma constipação das antigas e a sentir-me a pessoa mais desgraçada do mundo. Mas depois disto engoli tudo.
 
Porque, melhor ou pior, no dia seguinte ia acordar. Já estas crianças, se tiverem dia seguinte, será uma sorte.
 

29 de setembro de 2013

O ano em que (quase não) votei.

Sair do quentinho da casa num dia cinzento e de chuva para ir votar, já custa. Sair do quentinho da casa num dia cinzento e de chuva para ir votar, chegar lá e não o poder fazer, acreditem, custa muito mais. É a minha história de hoje. Vou tentar resumir.
 
Nunca falho uma eleição. Seja para o que for, sinto-o como um dever mas, acima de tudo, um direito. Direito do qual não abdico. O de me expressar.
 
Fiz como sempre, dirigi-me à escola cá da zona. Levava comigo o nº de eleitor, para ser chegar, encontrar a mesa, votar e vir-me embora. Mas desta vez não foi bem assim.
 
Quando cheguei, percebi que a mesa de voto que me estava destinada tinha sido colocada no primeiro andar daquela escola antiga. Onde sempre votara e no r/c.
 
Perguntei como poderiam fazer, responderam-me que a urna não podia descer, mas que podiam chamar os bombeiros e eles subiam comigo as escadas.
 
Obviamente que recusei. Por vários motivos, mas essencialmente por dois: 1º porque o acesso a pessoas com mobilidade reduzida deve estar pensado, não pode ser um desenrasque. 2º porque, mesmo com bombeiros, subir uma escadaria é perigoso e, em último caso, se caísse era eu que me magoava. Por muita boa vontade que existisse, seria sempre eu a lixar-me com a brincadeira.
 
Por isso, e perante a hipótese dos bombeiros e outras pessoas que amavelmente se dispuseram a ajudar, agradeci mas recusei.
 
Estava lá o meu presidente da Junta. Em quem sempre votei. Pediu desculpa, tentou resolver, pôs a hipótese de fazer deslocar a urna ao r/c, “mas quem manda é mesmo a presidente da mesa”. E é.
 
A minha mãe, já a entrar em modo “tou-ma-passar”, bufava por todos os lados. A minha irmã desdobrava-se em telefonemas e contactos para perceber se fazer descer a urna era, ou não, uma ilegalidade. Uns diziam que sim, outros que não, que era até uma obrigação, tendo em conta que tinham metido a pata na poça. A Carlota seguia tudo com atenção. Visivelmente irritada, mas já cheia de fome, só perguntava quando é que, afinal, íamos almoçar.
 
Tivemos nisto uma hora. Durante essa hora foram vários os que me tentaram, simpaticamente, convencer. “Levamo-la ao colo”, “pegamo-la às cavalitas”… Mantive sempre a calma. E a palavra. Respondi que não, que tinham que perceber a minha decisão, que não podia ser incoerente com o que defendia e pelo qual lutava há tantos anos, que estava em causa um direito meu, e que, se cedesse, estaria a contribuir para que tudo continuasse na mesma. Tinham-me arranjado ali um problema, teriam que o resolver de uma forma justa, que não acarretasse perigo para mim, e que não me obrigasse a expor-me. Perceberam que se não arranjassem uma solução que encaixasse nos meus parâmetros de dignidade, estava resolvido: não votaria, lamento.
 
Todos compreenderam a minha posição. Tirando uma imbecil que fazia parte da mesa onde eu devia votar, que só sabia dizer entre dentes “mas porque é que ela não sobe com os bombeiros? Até os acamados sobem…”. Minha senhora: isso é que era bom. “Isto não é um circo e, se estivesse na situação dela, faria o mesmo”, respondeu-lhe a minha irmã, sem dar mais conversa.
 
Uma hora depois, a presidente da mesa, uma senhora bastante acessível e sensata, em conjunto com a Assembleia de Voto da minha mesa e de outra que se encontrava no piso térreo, e ainda do delegado da Junta de Freguesia (ufff!), tomou finalmente a decisão de deslocar a urna cá abaixo. Desabafou, entretanto, que já esperava que uma destas acontecesse, quando viu 4 mesas sem acesso. E aconteceu. Foi comigo, mas podia ser um velhote ou com alguém com uma perna partida. Ou, ou, ou, porque mobilidade reduzida é muita coisa. 
 
Parou tudo. Encerrou-se a mesa lá em cima. Explicou-se às pessoas que aguardavam na fila o que se ia passar e que teriam que esperar mais um bocadinho. Eu, cá em baixo, votei. Cumpri o meu dever. Como cidadã que quer ter uma palavra a dizer.
 
 
 
No fim, pedi o documento para fazer a reclamação formal. Que preenchi religiosamente. Mas nos “motivos de reclamação”, em nenhum a minha encaixava. Sem problema, adaptei uma das hipóteses que falava em “deslocação de urnas”, que complementei com um texto breve mas esclarecedor nas “observações”. A frase chave foi “sem acesso para pessoas de mobilidade reduzida”.
 
O que vai acontecer agora não sei porque isto é burocracia atrás de burocracia. Mas do meu lado está feito. Aquilo há-de chegar à Comissão Nacional de Eleições e espero que algo mude. Acima de tudo porque o mudar aqui é simples demais para que não aconteça. Bastava que não tivessem arriscado e que tivessem colocado todas as mesas de voto acessíveis. E, acreditem, espaço ali não faltava. Até porque havia pavilhões fechados. Os mesmos onde votei nas últimas eleições. “Ah e tal, são do ATL, este ano a escola não nos deu autorização…”. Pois, mas devia ter dado. E, se o tivesse feito, nada disto tinha acontecido. Era uma questão de respeito, de igualdade. E de consideração por quem já entra no jogo em desvantagem.
 
Mas, afinal, também não sou eu que tenho que encontrar solução. São eles. Aqueles que passaram os últimos dias a apelar ao voto e a relembrar que é o dever de todos os cidadãos responsáveis. De quem depois exige ter voz.

 
Enfim…eu só queria ter chegado lá, como qualquer outra pessoa, exercer o meu direito/dever, o que for, e sair com o sentimento de dever cumprido. Mas este ano foi difícil. Este ano foi o ano em que (quase não) votei.