11 de março de 2014

A voar desde 1991

Para tudo, que hoje celebro a vida!                     

A família. Os amigos. O trabalho. Os inimigos. Porque, há 23 anos, a coisa foi tão complicada que, hoje, até os inimigos faço questão de celebrar.

1991. Foi o ponto de viragem. Não o mais doloroso mas, seguramente, o mais importante.

1991 foi a primeira grande prova. A que confirmou que, quando não chegou a nossa hora, simplesmente…não chegou a nossa hora.

Na vida, tudo aquilo pelo qual passamos muda-nos. Molda-nos. "Faz-nos”.

Tornei-me numa pessoa boa. A sério que, modéstia à parte, acho que me tornei numa pessoa boa. Acima de tudo, sou hoje alguém que todos os dias se esforça por ser melhor.

Quando olho para trás, para os momentos que se seguiram ao acidente que me deixou paraplégica, sinto um orgulho grande em mim. Mas uma gratidão ainda maior por todos os que me ajudaram a fazer aquele caminho.

Quando olho para trás, apesar da vida ter dado uma cambalhota com 3 mortais à frente (e encarpados, só para tornar a coisa mais animada!) não me lembro de estar triste. Não me lembro de chorar com pena de não andar. De não voltar a andar. E, apesar de saber que todos à minha volta choraram, foi importante terem-no feito sem eu perceber. Porque tornou o processo mais suportável. Ajudou-me a tornar-me forte o suficiente para poderem encontrar também em mim um pilar.

Há dias em que tento adivinhar o que teria sido da minha vida se aquele 11 de março de 1991 tivesse sido um dia normal. Um dia de acordar, tomar duche e sair para a escola com a Cláudia. Parar no café para fumar um cigarro às escondidas. Encontrar-me com o Brasas, o meu namorado. Voltar para casa ao fim da tarde, passear o Pantufa e o Coca, estar com os meus pais e irmã, dormir e pronto. Mas nunca saberei.

O universo surpreendeu-nos a todos e reservou-me outras cartas para jogar.

A verdade é que fui a jogo. Com algum medo, porque não conhecia as regras, mas fui. Resultado, venci. Goleei o adversário. Eliminei-o do campeonato.

Gosto de pensar que ganhei uma vida nova. Que ganhei o direito de começar de novo. Que ganhei resistência. Coragem. E, ainda, o tempo necessário para parar e perceber que todos os dias podemos melhorar um bocadinho e tentar fazer a diferença na vida de alguém.

Há 23 anos que não ando. Mas há 23 anos que voo. Alto.

É por isto que hoje para t-u-d-o, se faz favor. Afinal, celebro a vida. E vou viver o melhor que conseguir.

Um desejo? Que venham de lá, para início de conversa, os próximos 23!

28 de fevereiro de 2014

O tempo que tira. Mas que depois devolve.

"Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância, já que viver é ser livre. Porque alguém disse e eu concordo, que o tempo cura, que a mágoa passa, que deceção não mata, e que a vida sempre, sempre continua."

*Simone de Beauvoir

É oficial: não tenho andado inspirada.
A vida tem corrido rápido demais e a tranquilidade de que preciso para escrever tem escasseado.
O meu mundo acorda a correr, com horas para tudo. Sai de uma e entra noutra. Só respira quando o deixam. Com o coração tantas vezes aos saltos. E depois, quando este meu mundo pensa que as águas acalmaram, tudo se agita de novo.
Mas nem tudo é mau, seguramente. Pelo meio dos dias que preferíamos riscar do calendário, estão os dias bons, produtivos. Os que nos fazem acreditar que ainda vale a pena. Que ainda vale o esforço.
Por isso, de manhã olho para o espelho, respiro fundo e penso “vamos a isto”. E vamos sempre.
Não posso apagar os últimos meses. Senti-me muitas vezes deixada à minha sorte. Foram poucos aqueles com quem partilhei o que realmente me apertava a alma.
 
 
Fi-lo com os que nunca falham. Aqueles que me dão e se dão na medida certa. Umas vezes para me ouvir falar do que me acossa, outras só para mudar o rumo à conversa e fazer esquecer que aquilo alguma vez incomodou. Estes não falham. Estão lá sempre.
Fui recuperando o meu espaço. A confiança. A cabeça foi arrefecendo e tudo se foi alinhando. Com o tempo. Porque foi com ele que contei - com o tempo. Esse implacável que, dê as voltas que der, acaba por colocar tudo no lugar certo. Tudo.
Sei que a vida é feita de momentos. E, como poucos, também sei que nem todos podem ser positivos. Mas sempre fui boa a fintar tempestades. E a ajustar as velas do meu barco para seguir em frente. E há coisas que nunca esquecemos.
Ainda vou a meio da estrada. Ainda não lhe vejo o fim. Mas não tenho dúvidas que estou, finalmente, no caminho certo.
Agora é ir. Mas sempre e apenas numa direção: em frente.

24 de janeiro de 2014

Mundo, e nós?

Todos nós temos um lado B. É normalmente aquele lado que nem sempre conseguimos “vestir” no nosso dia-a-dia, pelo menos com a frequência que gostaríamos.
 
O meu lado B tem sido dedicado a partilhar algumas das minhas experiências com as outras pessoas. Seja através deste blogue, seja através de palestras que já dei sobre a minha história e como seguir em frente. Tantas vezes a tentar mostrar que o mundo não está preparado para receber pessoas que, como eu, se encontram em situação de mobilidade reduzida. Noutras, simplesmente pondo a boca no trombone.
 
Hoje falo-vos disto mesmo: mobilidade reduzida.
 
Mas, antes de continuar, uma nota, para que fique claro como água: uma pessoa com mobilidade reduzida não é apenas uma pessoa com uma deficiência. Mobilidade reduzida é também, a amiga grávida ou a prima que passeia o carrinho de um bebé. É o tio que se espatifou pelas escadas abaixo, partiu numa perna e teve que ser operado. É o irmão que torceu o raça do tornozelo e que vai ter que andar de muletas 3 semanas. Ou o avô que está velhinho e já não consegue mexer-se tão bem. No limite, a D. Joana, a vizinha do 2º esquerdo, que encravou uma unha e não pode pôr o pé no chão nos próximos dias.
 
Mobilidade reduzida é tudo, desde que haja dificuldade em andar, em mover-se de forma normal. Seja temporária ou permanentemente.
 
Há alguns anos, quando se falava em oportunidades de negócio cujo público-alvo fossem pessoas com mobilidade reduzida, usava-se a expressão “nicho”. Afinal, as estatísticas apontavam – e ainda apontam - para que cerca de 10% da população portuguesa tivesse a sua mobilidade condicionada. Conclusão: ter um negócio que pudesse ter impacto num milhão de pessoas seria, no mínimo, um bom negócio.
 
Tudo muito bem, mas este não é o raciocínio certo. Não estamos a ver o problema de forma inteligente. Porque, pelo menos uma vez na vida, a probabilidade de qualquer pessoa passar por um episódio de mobilidade reduzida, é gigante. Somos 10 milhões de portugueses...
 
É, por isso, fundamental que todos os locais estejam/sejam preparados para receber de forma digna quem se encontra, desde sempre ou não, impedido de se deslocar de forma independente. Porque, como expliquei acima, essa pessoa pode ser, simplesmente…qualquer pessoa.
 
São muito poucos, é certo, mas ainda há bons exemplos de empresas que lidam bem com esta questão. O MyWay da ANA, que presta um serviço personalizado de assistência a passageiros com mobilidade reduzida que se desloquem num estado membro da União Europeia, é um deles. Imaginem-se com uma importante viagem de trabalho marcada. Galo: fazem uma rotura de ligamentos na futebolada semanal com os amigos. Deixam de ir? Com esta ajuda, talvez não. Bom para vocês que não falham a reunião com o cliente, bom para a companhia aérea que não perdeu um cliente.
 
E nem sempre são necessários grandes investimentos. Realisticamente, talvez não dê para adaptar todos os espaços. Mas, se houver abertura, se houver vontade de fazer bem feito, tanto no sector público como do privado, muito poderá melhorar.
 
E o mundo passará a ser um sítio, verdadeiramente, mais justo. Porque será para todos.
 
 
 

12 de janeiro de 2014

A história da formiga verde de lábios vermelhos

Está frio, chove, ficámos sozinhas em casa. O resto da malta teve que sair.

Por isso, hoje foi dia de arrumações. É, diga-se de passagem, uma boa forma de manter a Carlota ocupada.

O que ela gosta mesmo é abrir os armários da minha roupa. Tirar tudo cá para fora, dobrar peça por peça, e voltar a guardar.

Confesso que, de vez em quando, me dá um jeitão.
Depois de tudo passado a pente fino, chegámos à sua gaveta preferida: a das “roupas dos brilhantes”.

Lá de dentro saíram os tops e os lenços com lantejoulas, que tanto sucesso fizeram nos tempos em que as saídas à noite pediam roupa mais arrojada.

Roupa que usava do alto dos meus poucos quilos, quando a Kapital era o nosso poiso principal.

Estávamos no início dos anos 90 e aquele era O spot.

Sextas e Sábados. Dias sagrados. Estávamos lá sempre batidas. Divertimo-nos ali durante muitos anos. Era quase uma segunda casa, uma segunda família.

No meio das roupas brilhantes, lá num canto, meio enrolada - até esquecida - uma camisola ainda mais especial. Que me fez recuar 9 anos no tempo.
A da formiga verde a pintar os lábios de vermelho. Pestanuda.

Nas costas, dizia “Ao maior exemplo de força e coragem”. Engoli em seco, quando li aquilo.
 

Por momentos deixei o meu quarto virado para o meu pinhal e viajei até ao piso 4 do Hospital Garcia de Orta. Aterrei no quarto 27.
Era um dos quartos onde ficavam os casos mais graves. Foi o meu quarto por alguns meses.

Ali passei os dias mais duros da minha vida. Ali chorei de dores. Ali pendurei fotografias de quem gostava. Ali recebi os que apenas o corpo dali saía todos os dias, porque a alma ficava sempre. E ali recebi as piores notícias.

Mas foi também naquele quarto que recebi as melhores. Onde dei enormes gargalhadas e onde ganhei amigas para o resto da vida. As minhas enfermeiras. Poucas vezes nos vemos, mas sei que as marquei, tanto quanto elas a mim.
No dia em que saí, deixei-lhes um quadro que dizia “Convosco foi muito mais fácil!”. E delas, para além das memórias guardadas no coração, trouxe a camisola da formiga verde a pintar os lábios de vermelho.

Respiro fundo, e estou de volta ao meu quarto. A Carlota entretanto vestiu a camisola. Está-lhe boa. É certo que eu estava magra na altura, mas ela também está crescida. Foi há 9 anos. Tinha 1 ano.
A rir-se pergunta se a pode levar amanhã para a escola. Digo que não, que não a quero estragada.

Despe-a, dobra-a com cuidado, coloca-a na gaveta já arrumada e diz-me “então fica aqui, por cima, para nunca te esqueceres”.
E não esqueço. Porque é um bom exemplo de que, mesmo dos piores momentos, podemos retirar lições e encontrar forças para enfrentar os próximos.

1 de janeiro de 2014

Dois galhetões era pouco

Nada como encerrar um ano a fazer uma coisa que nunca tinha feito: entrar no novo no meio da rua, rodeada das 3 pessoas mais importantes da minha vida.
 
Foi o que aconteceu. E, assim, este ano foi tudo para a rua!
 
Depois de jantarmos num espaço que nos fez viajar até ao mundo das artes de outros tempos – Martinho da Arcada – seguimos para onde a música falava mais alto.
 
O Terreiro do Paço é a praça mais bonita de Lisboa. Agrada-me aquela simetria. A luz. As histórias que ali se viveram. E o rio ali tão perto.
 
Estava animada, cheia de gente. 5 em cada 10 mulheres tinha uma bandolete com um laçarote de luz. Bom negócio para os comerciantes da zona. Na sua maioria, indianos. E um efeito fantástico, visto de longe.
 
Em ambiente de festa, não poderia faltar a barraquinha das farturas e dos churros, sempre à pinha.
 
À medida que 2013 se aproximava do fim, a praça ia enchendo. Principalmente de jovens. Isso é bom? Seria, se esses jovens tivessem as cabecinhas no lugar. Não precisariam de ter todo o juízo do mundo, porque a idade ainda não lhes permite. Só algum.
 
Por todo o lado, aos milhares. Por todo o lado, quase todos com garrafas de plástico de litro, que dentro transportavam um líquido escuro, que não consegui distinguir se era vinho ou outro tipo de álcool. Garrafas que, muitas vezes, eram garrafões de 5 litros.
 
Dei por mim parada, a olhar à minha volta, incrédula.
 
Poucos estavam apenas “alegres”. A maioria estava completamente bêbeda. Muitos só se aguentavam em pé graças à ajuda dos amigos, outros já no chão, à espera que os bombeiros os levassem ao hospital.
 
A poucos minutos de receber o ano, gritos histéricos por todo o lado. Movimentos loucos, sem nenhum respeito por quem estava à sua volta. Pessoas como eu, de cadeira de rodas, vi algumas, muitas crianças. Ou apenas pequenos grupos que a única coisa que queriam era ver o fogo-de-artifício numa boa, com a família mais próxima.
 
Estes miúdos conseguiram tornar aquele num momento, no mínimo, perigoso. Num momento que, devido a algum descontrolo, conseguiu pôr em causa a segurança de todos. Deles e dos outros.
 
Vimos o fogo-de-artifício, bebemos espumante e depois percebemos que era altura de sair dali.
 
Com o trânsito fechado desde o Cais do Sodré, restava-nos ir a pé até lá.
 
Chegar às arcadas não foi fácil. Fazer o caminho até à estação também não. E agora não por causa da multidão descontrolada, que entretanto foi dispersando, mas porque por todo o lado se viam adolescentes encostados às paredes, a vomitar as entranhas. Um cenário verdadeiramente miserável.
 
Os olhos que vos contam isto não são os olhos de uma careta. Durante anos saí à noite. Fiquei “alegre” dezenas de vezes. Mas nunca assim. Jamais assim, degradante. Situação, no limite, perigosa até para eles.
 
 
A Carlota assistiu a tudo. À medida que fazíamos o percurso até ao Cais do Sodré, via-se nos olhos dela a rejeição pelo que se passava à sua volta. Perguntava “mas porque é que estes miúdos se deixam ficar assim?”. Respondi-lhe que aquilo era tudo o que ela não deveria fazer quando fosse mais crescida. Que devia divertir-se ao máximo - como eu e a mãe fizemos – mas que não precisava de ser assim.
 
Quando chegámos à estação, liguei para o nosso táxi. “Miguel, tire-nos daqui que, a partir de agora, isto é uma selva”.
 
Ao nosso lado, enquanto esperávamos por ele, uns vomitavam, outros sentavam-se no chão, indiferentes ao molhado da chuva torrencial. Entre um barril de cerveja onde regularmente enchiam os copos de plástico e conversas em que 3 em cada 2 palavras eram “c@£§€{##&%”, “f”#$%%&”, e “f”#$%&/ da p”#$%&”. Uma tristeza para a alma de qualquer ser-humano normal.
 
Ora a minha pergunta é: são estes os jovens de amanhã? São estes os jovens que saem das nossas universidades e que se preparam para liderar as nossas empresas? É a esta geração a que está entregue o futuro do nosso país…?
 
Onde é que estão os pais destes miúdos? A minha mãe saberia se eu andasse neste tipo de vida. Porque estaria atenta.
 
No meio disto tudo, dois miúdos, apenas com um copo a mais, divertidos mas contidos, dirigem-se a mim e desejam-me bom ano. Dou-lhes as minhas mãos, faço o mesmo, olhando-os nos olhos. Peço para não beberem mais. Para se divertirem, mas para não beberem mais. Respondem em uníssono “nãããã…! Vamos parar por aqui”. Pisquei-lhes o olho. Espetaram-me dois beijos e um deles, antes de me deixar entrar para o táxi, disse-me “Epá, és linda comó c”#$%&/”. Sem resistir, soltei uma gargalhada e disse-lhe “vá, sem o palavrão ficava mais bonito…!” Recebi um “ya!” como resposta. Enfim.
 
Nisto chegou o Miguel e tirou-nos dali. A Carlota sentou-se e adormeceu de imediato. E nós respirámos fundo por deixarmos, finalmente, aquele cenário para trás.
 
Acredito que tudo vale pela experiência mas, no meu caso, prefiro ambientes mais controlados. Vá, e jovens mais inteligentes. Porque a estes, dois galhetões era pouco.
 

22 de dezembro de 2013

A força das pequenas coisas

O dia rompeu gelado. Mas com um sol enorme e quente. Que apetece.
 
Pego num dos livros que insisto em manter em cima da mesa-de-cabeceira durante meses, e vou para a varanda. Lá dentro deixo a música a tocar, para que a consiga ouvir cá fora.
 
Já vai longe a decisão de fugir da cidade. Quase 12 anos, se a memória não me falha. Queríamos uma vida mais saudável. Longe da confusão. Mais perto do cheiro do mar e do pinhal. E uma casa onde eu pudesse ser 100% autónoma, sem armadilhas.
 
Foi assim que encontrei a minha varanda. Estar cá em cima é como estar sentada numa plateia a assistir à vida a passar. Vidas a passar.
 
A minha rua está tranquila. Como sempre, temos a companhia dos pardais e dos corvos. Ao longe, mas como se fosse perto, o barulho do mar, em fúria, que por estes dias tantas histórias trágicas tem trazido com ele.
 
Pelo meio, ouvem-se os talheres da hora de almoço nas cozinhas. As televisões. Os putos que jogam futebol no campo que fica nas traseiras. Os donos dos cães que os deixam soltos pelo pinhal. O Mike é um deles. Um rafeiro castanho, com barbas brancas e olhos cor de amêndoa. Nunca acata a ordem do dono à primeira. É preciso chamar, chamar, chamar, até ele ouvir. Quer dizer, ouvir ele ouve, porque quando vem, parece vir a rir.
 
Entretanto o gato gordo e coxo, de quem já vos falei em tempos, foi adoptado. Mas por alguém que o conhece como ninguém. A enfermeira do prédio ao lado sabe que é um gato vadio, livre e, por isso, limitou-se a pôr-lhe uma coleira, a dar-lhe dormida, mas deixa-o solto durante o dia. Para além dela, todos lhe dão de comer. Daí estar gordo.
 
Mas, nos últimos dias, foi outro o bicho que decidiu vir viver para a minha rua. Em particular, para a minha varanda. Uma aranha, pequena mas gorda, que todos os dias se dedica a construir um pouco mais da sua teia. No início, quando ainda não me tinha apercebido desta presença, limitava-me a arrancar aquilo. Mas, quando ontem me preparava para o voltar a fazer, ela saiu de um buraquinho da parede - desculpem, da sua casa - e ficou parada na teia. Sem medo. Como se olhasse para mim e dissesse “bolas, pá, outra vez não...não faças isso… deu-me tanto trabalho!”. E não fiz. Agora já conto com ela. Deixo-a estar. Porque não haveria de deixar?
 
De vez em quando, muito de vez em quando, pára um carro. Lá de dentro sai o avô e a avó, que chegam para passar a semana com os filhos e com os netos. Afinal, é Natal. Com eles, vêm as couves, as cenouras e as batatas “lá da terra”, tudo em sacos do Pingo Doce.
 
Na paragem, uma senhora de cor espera pelo autocarro que a levará a casa depois de terminar o turno da noite no lar de idosos. Julgando-se sozinha na rua, canta uma música da sua terra. Naquele momento não está cá, está lá. Vê-se nos gestos que faz com o corpo, nos passos que se cruzam nos seus pés.
 
A ela junta-se uma adolescente de auscultadores gigantes nos ouvidos, gorro na cabeça. Ao mesmo tempo que troca sms com as amigas, abana-se ao som da música que está no top e arranca um sorriso à senhora. Começam a conversar. Nisto aproxima-se uma velhota de bengala, que todos os dias apanha o transporte para ir beber um chá depois do almoço, com as amigas de sempre.
 
Chega o autocarro, à hora, todas seguem os seus caminhos. A rua fica de novo vazia. Mas apenas por breves minutos.
 
Mesmo por baixo do meu prédio passa o amolador. Dizem que traz a chuva, o mau tempo, mas o céu continua azul e nem sinal de nuvens. Veremos. Os putos, os mesmos que antes jogavam à bola, passam agora por ele e imitam o som da gaita, no meio de gargalhadas. O homem, já velho, continua mas ri-se. Não se importa. Já teve a idade deles.
 
Cada pessoa que passa lá em baixo tem uma história. Uma vida. Aqui de cima, da minha varanda, vê-se parte dela. Atrevo-me a dizer, a parte que interessa.
 
Porque, como em tudo, são os detalhes que fazem a diferença.
 
 

19 de dezembro de 2013

Take a smile :-)

Ser alguém para quem se olha com admiração, e que alguns até seguem como exemplo, não é propriamente fácil. Mais: isto de inspirar pessoas é uma responsabilidade, no mínimo, do caraças.
 
"Sempre bem-disposta". Há muitos anos era essa a minha única “imagem de marca”.
 
Recebia inúmeros convites para contar a minha história, nomeadamente em televisão. Convites que quase sempre aceitei. Não me assustava nem a ribalta, nem a exposição. Sentia-me tão à vontade em estúdio como no sofá lá de casa. Divertia-me até. A verdade é que gostava de ser o centro das atenções.
 
Mas a vida avançou, os anos foram-se encostando carinhosamente uns aos outros e, felizmente, o bom senso aninhou-se lá pelo meio.
 
Com o tempo, com a (matur) idade, aprendi a sentir-me mais confortável por detrás das câmaras. Porventura, até um defeito de profissão. Afinal, como assessora de imprensa, o meu papel não é brilhar. É, sim, fazer os outros brilharem. Garantir que não são surpreendidos com questões que não esperam. Assegurar que passam a mensagem certa. Alinhada e sem espinhas. Clara e sem curvas. Para que quem nos ouve, nos entenda.
 
As luzes do palco deixaram de ser importantes. Palavras como resguardo e low profile ganharam peso. A vontade de ser só mais uma. Na vida pessoal, mesmo naquela que temos no mundo profissional. Acima de tudo nessa.
 
A boa disposição mantém-se, claro, mas agora sem ter que estar sempre em primeiro lugar. Não pensem com isto que fui uma fingidora. Entendam que a vida me ensinou a ser mais autêntica. A esforçar-me sempre por estar bem, mas a aceitar que também posso estar menos bem. E que, com isso, não vem nenhum mal ao mundo.
 
 

 
Com o passar do tempo, passaram a existir os dias em que se pudesse desaparecia – mas levava comigo as minhas – porque sinto que mais nada me prende aqui. Aqueles em que olho para o lado e não me identifico com nada nem com ninguém. Aqueles em que não há quem me veja um dente. A não ser quando levanto o lábio superior e rosno. Aqueles em que me torno insuportavelmente irritante. Ou apenas aqueles em que não me sinto feliz. Porque não temos que estar sempre felizes, certo?
 
São estes os dias que causam estranheza nos que se habituaram a ver-me always on. Porque prefiro estar off.
 
Depois há os outros. Em que acordo com uma vontade, uma força e uma energia capazes de dominar o Universo. Dias em que bem pode cair uma carga de água que me molha até aos ossos, dias em que até os passarinhos me elegem para fazer cocó em cima. Mas que me marimbo e sigo.
 
A vida deve ser assim. Contrabalançada. E, tal como a vida, também nós. Equilibrados. Termos as duas partes cá dentro. Darmos palco às duas, sempre que for necessário. Não tapar uma com a outra. Porque, se formos de outra forma, somos uma farsa que engana tudo e todos.
 
No meio disto, apenas um truque: reagir aos dias maus. Ficar triste por ver a porta a fechar, mas não descansar enquanto não encontrar o raio da janela que dizem abrir-se nestas alturas. Forçar os músculos a mexer e mostrar os dentes, sem ser para rosnar. Rir. Porque o riso é contagioso. Quando rimos, influenciamos quem está à nossa volta com o que de melhor a vida tem para nos dar: alegria.
 
(…) Alegria brutal e primitiva de estar viva, feliz ou infeliz, mas bem presa à raiz (…), como disse um dia alguém.