A família. Os amigos. O trabalho. Os inimigos. Porque, há 23 anos, a
coisa foi tão complicada que, hoje, até os inimigos faço questão de celebrar.
1991. Foi o ponto de viragem. Não o mais doloroso mas, seguramente, o mais
importante.
1991 foi a primeira grande prova. A que confirmou que, quando não chegou
a nossa hora, simplesmente…não chegou a nossa hora.
Na vida, tudo aquilo pelo qual passamos muda-nos. Molda-nos. "Faz-nos”.
Tornei-me numa pessoa boa. A sério que, modéstia à parte, acho que me tornei numa pessoa boa. Acima de tudo, sou
hoje alguém que todos os dias se esforça por ser melhor.
Quando olho para trás, para os momentos que se seguiram ao acidente que me
deixou paraplégica, sinto um orgulho grande em mim. Mas uma gratidão ainda maior
por todos os que me ajudaram a fazer aquele caminho.
Quando olho para trás, apesar da vida ter dado uma cambalhota com 3 mortais
à frente (e encarpados, só para tornar a coisa mais animada!) não me lembro de
estar triste. Não me lembro de chorar com pena de não andar. De não voltar a andar. E, apesar de saber
que todos à minha volta choraram, foi importante terem-no feito sem eu
perceber. Porque tornou o processo mais suportável. Ajudou-me a tornar-me forte o suficiente para poderem encontrar também em mim um pilar.
Há dias em que tento adivinhar o que teria sido da minha vida se aquele 11
de março de 1991 tivesse sido um dia normal. Um dia de acordar, tomar duche e sair
para a escola com a Cláudia. Parar no café para fumar um cigarro às escondidas.
Encontrar-me com o Brasas, o meu namorado. Voltar para casa ao fim da tarde, passear o Pantufa e o Coca, estar com
os meus pais e irmã, dormir e pronto. Mas nunca saberei.
O universo surpreendeu-nos a todos e reservou-me outras cartas para jogar.
A verdade é que fui a jogo. Com algum medo, porque não conhecia as regras, mas fui. Resultado, venci. Goleei o
adversário. Eliminei-o do campeonato.
Gosto de pensar que ganhei uma vida nova. Que ganhei o direito de começar de novo. Que ganhei resistência. Coragem. E, ainda, o tempo necessário para parar e perceber que todos os dias podemos melhorar um bocadinho e tentar fazer a diferença na vida de alguém.
Há 23 anos que não ando. Mas há 23 anos que voo. Alto.
Gosto de pensar que ganhei uma vida nova. Que ganhei o direito de começar de novo. Que ganhei resistência. Coragem. E, ainda, o tempo necessário para parar e perceber que todos os dias podemos melhorar um bocadinho e tentar fazer a diferença na vida de alguém.
Há 23 anos que não ando. Mas há 23 anos que voo. Alto.
É por isto que hoje para t-u-d-o, se faz favor. Afinal, celebro a vida. E vou viver o melhor que
conseguir.
Um desejo? Que venham de lá, para início de conversa, os próximos 23!






