6 de outubro de 2016

Porque não choro pelas pedras da calçada (portuguesa)

Se há coisa que me lixa é a enorme falta de solidariedade entre o ser humano e a total incapacidade de se colocar “nos pés dos outros”.

Nasci e cresci em Lisboa, no Bairro de Alvalade. Aos 15 anos, fiquei de cadeira de rodas. Dos 15 aos 25 vivi numa casa onde não entrava a minha cadeira. Mesmo. Dos 15 aos 25 andei ao colo de familiares e amigos, que nunca me deixaram para trás, só porque a minha cidade não estava preparada para me receber.

Aos 25 mudei-me para fora de Lisboa por várias razões, mas pesou muito na decisão o facto de não haver oferta de casas adaptadas para as minhas necessidades a um preço que eu conseguisse pagar. Optei pela margem sul do nosso Tejo, onde encontrei o que procurava e acabei por juntar o útil ao agradável: uma casa perto do mar que cumpre o que preciso para ser autónoma. No entanto, o meu local de trabalho continua a ser na cidade onde nasci.

Há 25 anos que não sei o que é poder fazer um passeio sozinha por Lisboa. Há 25 anos que planeio cada milímetro do que vou fazer, para não ter surpresas. Há 25 anos que me sinto cidadã de segunda, apesar de descontar e cumprir tanto ou mais que uma de primeira.

Por isso, só vou dizer isto mais uma vez: se ainda não perceberam a importância de mudar os passeios de Lisboa, é porque não querem.

A calçada portuguesa, mesmo mantida, não serve. Porque é por natureza irregular, essa irregularidade causa instabilidade, e escorrega. É perigosa para quem se desloca de cadeira, para um invisual, para uma grávida, para um carrinho de bebé, para um velhote (e sabemos que há cada vez mais…). Até para quem não tem qualquer limitação, que a única coisa que não quer é espalhar-se e partir uma perna ou torcer um pé

Qual é a parte desta realidade que não conseguem entender?

Percebam que o desporto mais radical que posso praticar não é asa delta ou rafting, mas sim sair de casa e aventurar-me a rolar nos passeios lisboetas com a minha cadeira de rodas. Percebam que quando o faço, as minhas pernas saltam do pedal que as suporta e as rodas pequenas encalham ao mais pequeno desnível. E o que é que acontece? Caio e magoo-me. Conseguem sentar-se, mesmo que mentalmente, na minha cadeira e passar por isto? Chama-se empatia e não é mais do que a maravilhosa capacidade de nos colocarmos nos sapatos dos outros, para perceber o que eles sentem. Será que só calçando os meus sapatos, neste caso só experimentando sentarem-se na minha cadeira e “ficarem” paraplégicos, vão entender verdadeiramente o tema?

E o argumento de que é um ataque ao património, à história é, no mínimo, infeliz. Porque eu também faço parte da história da minha cidade e pouco ou nada usufruo daquilo que ela tem para me oferecer. E depois, quando finalmente ganho esperança de que isso vá acontecer, aparecem-me os Velhos do Restelo. Ponho-me no lugar deles e não consigo. Porque não consigo perceber como é que se escolhe história quando está em causa a igualdade entre todos os cidadãos. Aquela pela qual eu desespero todos os dias.

Já agora, não caiam na asneira de defender apenas zonas específicas em piso liso. Não estão a incluir, estão apenas a integrar. Porque incluir significa que o passeio deve existir para todos. E integrar é destinar uma zona para quem tem necessidades diferentes das vossas. Vocês de um lado, nós, do outro. Para além de que sabemos que depois acabam todos por preferir andar no “nosso” lado, porque sentem que é mais “confortável” e menos perigoso. Enfim.

Finalmente, vejo uma cidade que se começa a preocupar com a qualidade de vida de todos (incluindo com a das pessoas com mobilidade reduzida), e há quem se insurja chamando-lhe "ditadura do betão"? Ganhem juízo. E não contem comigo para chorar pelas pedras da calçada. 





26 de agosto de 2016

Carta (de amor) ao meu sobrinho Chico Canário.

Estás aqui ao meu lado. Ressonas como um porco. De vez em quando abres os olhos para te certificares de que não me fui embora. Espreguiças-te enquanto juntas as patas da frente. Pareces um bebé. Apetece-me apertar-te e não resisto. Baixo-me, faço-te uma festa na beiçola e dou-te um beijo no focinho. Nem abres os olhos. Respiras fundo. Confias.

Volto ao dia em que soube que ias fazer parte desta família.

Tínhamos perdido o Gaspar há 3 anos e comentávamos várias vezes que ainda não nos sentíamos com coragem para abrir as portas do nosso coração a outro cão. Mas, naquele dia, isto mudou. E tu foste o responsável.

Véspera de Natal. Entre bolos, loiças e faqueiros que só usamos em dias de festa, tocou-me o telefone. Era o Luís, colega da mana (tua mãe).

“É para te dizer que o Ricardo está neste momento a ir buscar 2 bulldogs franceses. Um é para ele, o outro é para a tua irmã. Decidimos juntar a equipa toda e oferecer-lhe um.”

(Fiquei em silêncio.) “Estou? Estás a ouvir-me?”, disse o Luís.

Quando consegui articular uma palavra, respondi: “Desculpa, mas não. Não faz nenhum sentido tomarem essa decisão sozinhos. Eu sei que a mana adorava ter um cão dessa raça, mas sabem melhor que ninguém que ela trabalha de manhã à noite, e ter um cão neste momento não vai ter apenas impacto na vida da Patrícia!”

Disse isto quase a espumar da boca. Foi a vez do Luís ficar sem saber o que dizer. E acrescentei, tentando manter-me calma e sem grandes alterações ao nível da minha voz: “Falem, sff, com a Patrícia antes de avançarem, não a surpreendam com isto. Ela falará naturalmente connosco antes de tomar uma decisão.” E, friamente, desliguei o telefone. Percebi que tinha deixado o Luís aflito, mas não podia fazer nada.

Voltei aos tachos e às panelas, mas o meu coração tinha ficado preso àquele telefonema e não ia voltar à cozinha tão cedo. Já não conseguia pensar no raio dos bolos nem no bacalhau. A minha mãe (tua avó) assistiu à conversa e ficou igualmente sem saber bem para que lado se virar.

A vontade de voltar a aumentar a família – porque é isso que, vocês, os nossos cães sempre foram – era grande mas também sabíamos que 1) a perda do Gaspar (o teu tio) ainda nos doía e 2) já nos tínhamos habituado à liberdade e despreocupação que quem não tem cães sente.

A meio da tarde a minha irmã e a Carlota (tua irmã) chegam a casa para ajudar na preparação da ceia de Natal. A Carlota foi para a sala, a Patrícia juntou-se a nós na cozinha. Ainda tentei não a olhar nos olhos mas cruzava-me sempre com os da tua avó, quase tão atrapalhada como que eu com o assunto. Somos todas demasiado transparentes, por isso foi impossível esperar que os colegas da tua mãe lhe ligassem. Expliquei o que se tinha acabado de passar, percebi que a minha opinião a deixava de rastos. Tentei ignorar mostrando firmeza. Nesta altura já a Carlota se tinha apercebido de tudo e suplicava para que aceitássemos “o presente”.


Senti que estava a perder força. “Mais firmeza, Marta, mais firmeza!” e enfiei-me (vá, escondi-me!) na casa de banho a secar o cabelo. Percebi que elas tinham ficado as 3 na sala a conversar sobre ti. 10 minutos depois entraram-me na casa de banho e voltaram a pedir-me para me juntar a elas na decisão. Desatei a chorar. Lembrei-me do Gaspar e dos 10 maravilhosos anos que vivi com ele. E, principalmente do sofrimento dos seus últimos momentos.

Mas o meu coração cedeu quando me mostraram uma fotografia tua. Mínimo, acabadinho de nascer. E lá se foi a firmeza com o caraças. Naquele momento a decisão ficou tomada. Tu irias entrar na nossa família. Mais do que isso, irias entrar na nossa família naquele momento: a minha irmã saiu disparada para te ir buscar. O teu primeiro dia nas nossas vidas seria, assim, naquela véspera de Natal. Foste “o nosso menino Jesus”.

9 meses depois fazes parte de tudo. Ganhaste uma família que voltou a reorganizar-se para que nada te faltasse.

És um companheirão. Vens connosco para todo o lado. E, se “os animais são proibidos”, continuamos à procura de um lugar onde não te resumam a um sinal redondo vermelho e branco com uma risca por cima. E, se não encontrarmos, não vamos e fica resolvido. Porque nenhum de nós alguma vez ficou para trás. E tu, Chico, agora és um de nós.

O mundo dedica-te o dia de hoje. Mas prometo-te que nós vamos dedicar-te os outros 364. Para sempre.

Um beijo da tia.


(mas vê lá se cresces e paras de me roer as pantufas, de sacar a roupa do estendal para comeres as molas, de puxar o rolo de papel higiénico para depois o comeres também, e de desatares a ladrar quando não te dão atenção)

10 de julho de 2016

Pedaços de uma vida feliz

Eu tinha 11 anos e nossa a televisão a cores cabia numa pequena prateleira daquele armário da sala, um bloco de madeira que ocupava uma parede inteira da divisão principal do nosso T3, que ficava no lado direito de um 1º andar, numa das transversais da Av. da Igreja. Cheio de livros, bibelots e gavetas, era um armário branco, grande, maior ainda por eu ser pequena.

Numa dessas gavetas, o meu pai guardava duas coisas que sempre me chamaram a atenção. Um frasco com o menisco, que tinha tirado quando deixou de ser jogador de futebol, e outro cheio de moedas de 25 escudos. No primeiro nunca toquei, por me fazer impressão, no outro toquei uma vez e foi para entregar tudo a uma família de ciganos que de vez em quando nos batiam à porta a pedir alguma coisa para comer. Costumava dar-lhes pão com manteiga ou Tulicreme, daquela vez despachei o saco das moedas de 25 escudos do meu pai e acabei o dia de castigo.

Naquela altura, os relatos de futebol ouviam-se num aparelhómetro da Orion que estava enfiado nesse armário, de onde a música também nos chegava através de cartuchos. Fado e música francesa.

Se fechar os olhos, regresso a 86 e à bola vivida e sofrida pela rádio. Ao cheiro do bolo de laranja que a minha mãe fazia para o nosso lanche. À escolha da “toilette” só para ir passear o cão. Às fugidelas para o parque infantil nas traseiras dos prédios, onde me fascinava a carruagem cheia de livros para ler, logo à entrada, e onde dei as maiores baldas dos baloiços, por lhes dar balanço a mais. Aos dias em que, depois do jantar, conseguia convencer a minha mãe a deixar-me ir a correr até à loja dos doces que havia no Centro Comercial, comprar Jubileus, gomas cristalizadas da Elba ou rebuçados Diamantes da Heller.


Se fechar os olhos, regresso aos dias em que, depois das aulas, subia diretamente ao último andar do prédio para lanchar o refresco de café e o pão com geleia feito pela D. Susana, a vizinha de cima, que era também a nossa segunda avó. Vivia com a filha, solteira, a Lurdinhas, costureira de uma casa de alta-costura muito prestigiada na altura. Sempre me fascinaram as sedas, os tules, a lantejoulas, as transparências. As muitas caixas das agulhas, as linhas coloridas. As rendas, os brilhos. A perfeição, o detalhe.

Se fechar os olhos, regresso a Alvalade, à Fernando Caldeira e a 25 anos de histórias que, mais do que contar, espero conseguir sentir para sempre.


E sim, estou de volta ao Blog da Canária! Pelo menos por hoje :)

13 de agosto de 2015

Destinada...a ser feliz

Nunca gastei muito tempo a pensar “porquê eu?”.

Aceitei o que me tinha acontecido com uma pontinha de imaturidade, natural aos 15 anos.

O tempo foi passando, fui-me habituando a viver assim. Quando experimentava olhar para trás e começava a fazer perguntas, movimento que tentei fazer poucas vezes, dava conta que os amigos estavam lá, a família estava lá, o meu mundo continuava a rolar e, com pequenas alterações aqui e ali, era quase normal. Voltava-me para a frente e seguia.

E assim vivi a fase inicial do acidente que me deixou a herança de uma cadeira de rodas para gerir. Há heranças melhores, é um facto. Mas também haverá piores.

Aos 29, quando enfrentei aquele que até hoje considero o maior desafio da minha vida, a septicémia, voltei a não olhar muito para trás. Aqui já não contei com a imaturidade dos 15 anos, mas valeu-me a imbatível sabedoria dos 30. Foi uma fase dura de aguentar, em que senti a minha energia a chegar ao fim, mas foram poucas as vezes que parei para perguntar “porquê eu?”.

“Deus nunca tira vida, Deus dá sempre mais vida. Pode não ser a vida que desejamos, é a vida que precisamos.”. Hoje uma amiga publicou esta frase no seu mural, atribuída a um homem da igreja, que me fez pensar.

Fui criada no seio de uma família maioritariamente católica. Uns mais praticantes que outros, mas católicos. Cedo aprendi a rezar e a conversar com Deus, ensinamentos da minha avó Olinda que guardo até hoje e aos quais recorro sempre que me apetece. Muitas são as vezes em que dou comigo a falar com Ele, esperando sempre que me oiça. A maior parte das vezes apenas para agradecer o dia e para pedir proteção para os que me rodeiam. As que restam para pedir coragem para aguentar situações mais complicadas.

Costumo dizer a brincar que tenho canal direto lá para cima, tantos foram os momentos que me safei do pior, e tantos foram os momentos em que me consegui “organizar por dentro” para enfrentar casos mais bicudos.

Mas, confesso, a frase tem um travo amargo. Confesso a minha dificuldade em aceitar que este Deus, que me ouve e com quem converso, me tenha dado a vida “que eu preciso”. Porque precisar significa “necessidade”. Significa “não poder passar sem”. E eu poderia passar sem estas provas.

Não é que não tenha uma vida preenchida, ou que não seja feliz com ela, porque sou. Mas nunca ficou claro para mim o critério que escolhe confrontar uma miúda de 15 anos com a realidade de deixar andar, porque nunca percebi o critério de confrontar uma jovem que já não anda com uma septicémia que a deixa no limite das forças.

Dir-me-ão que devemos aceitar o que nos acontece e o que para nós está destinado. Mas eu aceitei. Aceitei e juntei todos os bocadinhos de coragem, força e determinação que o meu corpo tinha, para fazer o melhor que sei por mim, tendo em conta a nova realidade. Fiz mais: usei - e uso - isto tudo para poder fazer alguma diferença na vida de quem me rodeia. Mas daí a ter percebido, calma, porque vai uma longa distância. 

Partilhei com esta amiga a minha dúvida. Prometemos voltar ao tema com tempo, mas perceber? Perceber exige de mim um longo caminho que ainda me sinto a percorrer.

Até lá, et pardon my french, às vezes é só isto:


6 de julho de 2015

I (don´t) love you

Quem me conhece sabe que sou das que não se apaixona facilmente.

O filme repete-se com alguma frequência. Começa quase sempre quando surge alguém que consegue captar a minha atenção.

Liga-se uma espécie de luzinha e fico alerta. Primeiro tendo a manter-me à distância. Finjo que não reparo, mas vou reparando. E reparo em tudo mesmo, caso me interesse. Depois, se esse alguém se aproxima, disparam os botões todos. A cabeça começa a carburar e entro automaticamente em modo “ai-meu-Deus-vamos-lá-analisar-isto-a-fundo”. 

Antes de ir em frente, e antes de me deixar bater de frente, peso os prós e os contras. O que, vendo bem, é positivo, porque devemos ser ponderados. Mas eu sou mais do que isso. Volto repetidamente aos prós, e depois também aos contras. E gasto algum tempo aqui. 

Deixo-me inebriar pelos primeiros, que me seduzem. No momento imediatamente a seguir olho para trás...e lá estão os segundos. Que aceleram o passo, ganham espaço. Na maior parte das vezes são estes que acabam por se aninhar inteligentemente no meu colo, e por lá ficar, parecendo apostar todas as fichas na paz que sabem que me trazem. E que sabem que gosto.

Costumo dizer que nestas alturas entro numa espécie de transe que dura pouco tempo, porque o músculo da razão está mais trabalhado que o do coração e acaba por abafá-lo. Mais tarde ou mais cedo – e tem sido sempre mais cedo que mais tarde. Mas ele tenta, coitado. Bate mais rápido, esquiva-se das investidas da razão, esmifra-se para ser ouvido. Só que ela esgota-o, seca-o, mesmo que devagarinho, round a round, e knockout com ele. Há alturas em que o pobre diabo chega a acreditar que daquela vez é que foi, daquela vez é que ganhou. Mas a razão ri-se, de orelha a orelha, porque sabe que saiu, mais uma vez, vencedora. Nada de novo afinal. Siga.

Não há grande volta a dar, é mesmo assim. Sou mesmo assim.

Avanço, mas sem tirar os pés do chão. Vou em frente, mas antes meço e planeio cada milímetro do meu caminho. Não me perco com facilidade. Nem nos amores, nem em nada. Antes encontro-me sendo “caninamente” fiel àqueles que me trazem a tranquilidade que tanto gosto.

E por tudo isto, ou sou a careta de serviço - porque não te soltas, porque não vives a vida em pleno - ou sou a esperta - que com alguma facilidade consegues evitar a maioria dos sobressaltos que a vida nos traz.

Sei que com isto umas vezes ganho, outras perco. Sei disso tudo. Mas aos "quase-40", e sentindo-me bem assim, não se muda facilmente. E se um dia isso acontecer, não é porque a razão perdeu para o coração. No limite, é porque os dois se entenderam.




3 de junho de 2015

Begin with the end in mind

Conhecemo-nos um pouco antes de eu entrar para a Novabase. Ainda estava a estudar. Devia ter uns 20 anos.

Era fim de semana e eu tinha ido com a minha irmã assistir a uma das muitas convenções de fitness que ela frequentava.

Nessa altura, como hoje, gostava daquele movimento. Da música alta. De dançar.

Já estava de cadeira de rodas mas isso não impedia o meu corpo de vibrar com toda aquela adrenalina. Não podia participar, mas deliciava-me a ver. Aliás, como ainda hoje.

Não sabemos quem nos apresentou. Alguém foi. Falámos um bocado. Eu devo ter falado muito, porque falo sempre muito.

A convenção acabou, despedimo-nos e nem pensámos se a vida nos voltaria a colocar no mesmo caminho. “Adeus, até um dia destes, quando houver nova convenção apareço!”

Anos mais tarde, com 23 anos, voltámo-nos a cruzar. Desta vez, no mundo do trabalho. Depois de uma entrevista, fui contratada para fazer a ponte entre a empresa onde ele trabalhava e os media, agora que se avizinhava uma entrada em bolsa e era necessário ganhar alguma visibilidade-extra. 

Cruzámo-nos montanhas de vezes no corredor ao longo dos anos e era engraçado ter por ali alguém que me conhecia fora daquele ambiente. Que conhecia a minha irmã e alguns dos meus amigos. Alguém mais “familiar” que os outros. Trabalhámos juntos umas vezes mas a empresa foi crescendo e fomo-nos perdendo de vista.

No fim do ano passado a minha equipa passou para o andar dele e voltámo-nos a ver com mais frequência. Sempre que nos cruzamos dizemos umas graçolas um ao outro, e seguimos.

Ontem reencontrámo-nos, com mais tempo, na copa. Ele encostou-se ao balcão a comer uma gelatina, eu tirei um café.

Conversámos sobre o dia a dia e revivemos aquele em que, há mais de 15 anos, nos conhecemos. E o Carlos - é o nome dele - relembrou-me a nossa conversa. Do conteúdo da nossa conversa. Que já me tinha esquecido.

Eu andava no último ano da faculdade e estava cheia de planos, que partilhei com ele. “Notava-se que querias conquistar o mundo.” 

(E percebeu bem, porque queria.)

Apesar de não me ter demonstrado, o Carlos tinha ficado com medo que eu não conseguisse. “Vi-te cheia de vontade e com a certeza absoluta de que ias chegar longe. Mas confesso-te que achei que, tendo em conta a sociedade em que vivemos, cheia de preconceitos, ia ser difícil.”

Engraçado, pensei, essa hipótese nem me passava pela cabeça. Se eu queria, eu ia conseguir. Ponto final. Não havia outro desfecho possível.

Olhei para o Carlos que me disse “vendo onde chegaste, não sabes como eu fico feliz por me ter enganado…”

E ele nem sabe que isto é só o começo. Ou se calhar sabe. Agora já sabe.


23 de abril de 2015

Never forget. To live.

Já me fazia falta trabalhar cá fora, ao sol.

A rua está cheia de passarada colorida, que não se cala. Gosto de os ouvir enquanto trabalho. Trazem-me um misto de tranquilidade e inspiração que me ajuda a ter um dia produtivo. Tenho sempre a sensação que se esforçam ao máximo para cantar o melhor que sabem.

Aqui, onde moro, quando o tempo aquece, os coelhos arriscam-se pelos caminhos onde andam os humanos. E eu vejo-os ainda mais de perto. 

O meu pinhal está cheio de vida. Daquela que se vê, que se sente e que se cheira.


No meio disto tudo, toca-me o telefone. “Estás na empresa, posso ir ter contigo à tua sala para trocarmos umas ideias?” Respondo “podes vir ter comigo sim, mas à minha varanda.” "Epá, que bom, quem me dera! Mas não posso, falamos pelo telefone, sem problema". E falámos, resolvemos e pusemos tudo a andar.

Quando desligámos fiquei a pensar no que o meu colega me tinha dito, da sorte. Eu sei que tenho. Mas também sei como é que isto tudo começou.

Fez há poucos dias 10 anos que tive alta do 1º internamento da septicémia. Causado por uma escara lixada que infetou e que tentou dar um empurrão no meu mundo, com vontade de o fazer cair. Abanão que me forçou a ajustar o tempo que passo sentada na cadeira, decisão que tantas vezes me priva de estar mais tempo com algumas pessoas que me fazem bem. Que me obrigou a abdicar de coisas que gosto.

Voltar ao modelo antigo seria arriscar a saúde que, nem sei bem ainda como - e se calhar nunca saberei - , não me fugiu na altura. Ou que não deixámos escapar, porque nunca estive sozinha.

Por isso, se tenho sorte? Tenho sim. A sorte de ter a vida inteirinha pela frente para olhar para este pinhal, para estes pássaros. Para sentir estes cheiros e aproveitar cada segundo que posso passar nesta varanda.

Porque não se desperdiça uma segunda oportunidade. E eu não me esqueço disto. Nunca.

17 de janeiro de 2015

Não desiste. Insiste.

Já não escrevo há mais de 2 meses. Os dias têm sido preenchidos e com pouco espaço para a inspiração. Mas o calendário da minha vida tem datas que não posso deixar que passem em branco. Para que nunca as esqueça.

Foi há 10 anos. Estava com 40 quilos. Quem me rodeava só não desviava o olhar por respeito. Magra e de pele esverdeada. Tinha aguentado quase um ano de enjoos e a vomitar. Um ano com uma ferida aberta que acabou por infetar. Um ano de muito trabalho que me fazia agarrar aos dias melhores e aguentar os piores para o conseguir cumprir.

Seguiram-se meses de cama de hospital. De exames. De visitas constantes de homens e mulheres vestidos com batas brancas, especialistas em tudo. Do som das campainhas que tocavam perto do balcão das enfermeiras sempre que alguém de outro quarto precisava de uma delas. Do cheiro dos almoços que chegavam sempre tarde demais e dos jantares antes da hora. Da rotina das manhãs. Do medo das palavras por não serem as que eu queria ouvir. “Isto está a correr bem, não tarda estás em casa.” Em vez disso “ainda não sabemos, estamos a fazer exames, por enquanto tens que ficar cá connosco”. E era sempre um “connosco” carinhoso, preocupado, de “faremos tudo o que pudermos”. 
Mas não era convosco que eu queria estar. Era com elas, lá em casa, e com os outros, no trabalho, na praia. Onde fosse. Mas não ali.

Foram meses sem a minha casa, o meu ambiente, os meus cheiros, as minhas rotinas. A minha história foi transportada para outro cenário, e durante tempo demais se desenrolou ali. Senti-me num palco que não era o meu e num tempo que não acabava.­

A passagem para o quarto isolado foi ao mesmo tempo um alívio e um problema. Sabia que ia ter o sossego que tanto pedia mas também sabia que quem ia para ali não ia por estar a melhorar. Preferi ignorar e focar-me na tranquilidade que passaria a ter.

Lembro-me de numa das idas a casa ter piorado ao fim de apenas dois dias e de me ter apetecido desistir. Era a 3ª ou 4ª vez que voltava tudo ao início e senti-me sem força. “Se é para morrer, que seja rápido, estou farta”. Senti cá dentro e cheguei mesmo a verbalizar. A minha mãe olhou para mim com um ar sério e disse “calma, um dia de cada vez, isto vai passar, vamos lá regressar ao hospital.” Sabia que eu estava no meu limite, valeu-me não ter mostrado o seu.


Depois disso, vieram ter comigo e comentaram que era urgente passar para um tratamento menos conservador, tínhamos que dar o tudo-por-tudo. Para não me perderem. Aceitei sem saber muito bem o que estava a aceitar, mas sem alternativa. Entreguei-me nas mãos deles, mais uma vez.

De novo o frio da sala de operações, a música de fundo. O aproximar das batas brancas de olhar carinhoso, sempre preocupadas em aquecer o meu corpo e em me dar algum conforto. O possível. E de adormecer devagarinho.

Dessa vez não acordei tranquilamente. A cirurgia tinha sido maior, as drogas mais fortes, o que me deixou mais em baixo. Mas foi a última. E a que me safou. Foi o “fecha o capítulo, passa para o próximo”.

A recuperação foi essencialmente feita em casa, já rodeada do meu mundo, ainda limitado, adaptado à situação, mas do meu mundo.

Os jantares de família aconteciam no quarto, tal como os serões. Uns na cama, outros no chão, mas ali, à minha volta. E nunca ninguém se queixou da falta de conforto.

Os dias passaram, as semanas passaram, fui sobrevivendo devagar, um dia de cada vez. Vieram os meses, com eles as forças. E cada vez menos dores no corpo. E na alma. Na minha e na de todos.

Um dia enchi-me de coragem e, mesmo sem estar a 100%, voltei à empresa. Precisava de voltar rapidamente às rotinas. Em cima da mesa as fotos, os copos cheios de canetas, os blocos de notas, os jornais daquele que foi o último dia de trabalho antes de tudo acontecer. O tempo parecia não ter passado. Estava tudo no mesmo lugar em que deixei, e isso fez-me sentir que pertencia ali. Que me queriam ali.

Daquele tempo, para além destas memórias, restam as cicatrizes. Hoje, 10 anos depois, sempre que me sinto menos confiante ou com mais dificuldade em tomar uma decisão, olho para elas. E lembro-me que, depois de superado tanto desafio, há pouca coisa impossível. 

E sigo em frente. Mais uma vez.

9 de novembro de 2014

Back to Basics

Nos últimos tempos tem acontecido tanta coisa que, quando dei por mim, estava a começar uma espécie de viagem às minhas entranhas. À minha natureza. E, conclusão, a questionar um montão de coisas.

Não tem sido sempre uma jornada fácil, mas os resultados têm aparecido. Isto de nos pormos em causa traz alguma dor associada mas, lambidas as feridas, espremido o conteúdo, retiradas as “gorduras” ajuda-nos a perceber o que fazemos bem, nos orgulha e queremos manter, o que fazemos mal e queremos mudar.

Acima de tudo, ajuda-nos a perceber o impacto concreto que as nossas ações têm do outro lado. Do lado de quem as recebe. E a tirar a prova que quase nunca medimos esse impacto.

Faz-nos perceber que muitas das decisões e reações que tomamos e temos no nosso dia-a-dia, têm nos outros um eco muito maior do que poderíamos prever.

Faz-nos perceber que o que para nós é tantas vezes claro, cristalino, que não nos traz dúvidas (e, na nossa opinião, não deveria trazer a ninguém), pode ser escuro e turvo para quem está à nossa volta.

Que a nossa verdade não é a verdade absoluta. Que devemos estar mais abertos a ouvir. E que não devemos fechar os olhos aos sinais. Porque, no limite, eles estão lá. Estarmos vigilantes pode dar uma boa ajuda.

A realidade é que, por muito que nos esforcemos para fazer o que achamos estar certo, por vezes não passa disso mesmo: a nossa noção de certeza.

A vida, e tudo o que ela traz consigo, sejam os momentos bons ou momentos menos bons, molda-nos.

No meu caso, aprendi a controlar emoções e situações. A gerir o meu mundo sozinha e à minha maneira. Demasiadas vezes sem pensar que as pessoas que também lá vivem, se eu quiser que elas continuem a fazer parte desse mundo, podem e devem ter uma palavra a dizer.

Aprendi a proteger-me dos sentimentos que, pensava eu, cá fora me colocariam num qualquer lugar mais frágil.

Aprendi a viver medindo os prós e os contras à exaustão. Tantas vezes deixando os contras roubar o espaço que era dos prós por direito.

Este mergulho tem sido, no mínimo, desafiante. Levou-me para águas profundas. Eu diria até desconhecidas. Mas é importante, de tempos a tempos, questionar o caminho que estamos a fazer. Parar e olhar para dentro. Nem sempre para mudar o que vemos, é certo, mas para nos certificarmos que é o que queremos para nós. Para percebermos se é indo por ali que vamos conseguir continuar a crescer. E a seremos melhores pessoas. E, se não for, mudarmos de rumo.

Alguém disse um dia que nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado. Mas acrescentou que nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado.

Já iniciei esta viagem. Muito provavelmente estarei ainda no início. Não a espero curta nem fácil. Mas o primeiro passo está dado.






27 de outubro de 2014

Até que a morte nos separe?

É sobre um casal de velhotes que vive na minha rua.

A mulher quase nunca sai de casa.

Habituei-me a ver o marido dar grandes passeios com os dois cães, todos os dias, várias vezes por dia. Até que deixei de o ver.

Pensei que lhe tinha acontecido alguma coisa, até dar com o senhor, de novo, a passear os cães. Mas desta vez mais devagar, tinha um dos lados do corpo paralisado.

Mesmo assim, ela continuava sem sair à rua. Era, por isso, ele que, mesmo com meio corpo adormecido, passeava os seus dois amigos, devagarinho.

Os anos foram passando e os cães foram envelhecendo, como, de resto, ele. Os cães morreram, ele recuperou a mobilidade e foi buscar outro, com quem o vejo agora.

Há uns dias ouvi uma mulher, ao fundo, a gritar. À distância, deu-me ideia que refilava com alguém.

Espreitei. E lá estavam os dois, na varanda. Ela a barafustar com o marido. Mais para ser ouvida por todos que por ele. Que parecia nem a ouvir. Pelo meio, o cão ladrava. Os vizinhos passavam mas já nem ligavam.

E porque agora passam o dia nisto, hoje atirou-lhe um “sempre foste um malandro!”, e ele nada. Seguiu-se um “roubaste-me o dinheiro todo que eu tinha no banco para comprares a porcaria dos carros!”, e ele nada. “Se não tivesse sido eu, tu eras um vigarista!”. E ele continuou empoleirado no parapeito, a olhar lá para baixo, sem responder. Como se não fosse com ele. Como se não estivesse ali e a viver aquele momento. Até que ela disse “isso, atira-te, era o que fazias de melhor”. Ele endireitou-se, olhou para ela, sério, e respondeu apenas um “atira-te tu, velha.” E foi para dentro.

A mulher manteve-se na varanda, indiferente ao facto de já estar sozinha. Ligou para a GNR e gritou “venham rápido que eu estou pelos cabelos! Quero que o levem daqui!”.

Quem a ouve e conhece diz que está doente. Que os anos lhe baralharam a cabeça. “Ela não era assim, foi de um momento para o outro”, lembram.

“Eu recebo-te por meu esposo/a a ti, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.”

Ambos o prometeram. Um deles está quase a desistir. Só me falta perceber qual.



1 de setembro de 2014

O amor e outras cenas esquisitas

Há uns dias perguntaram-me se eu acreditava nesta coisa do amor para sempre.

Foi uma conversa pouco provável, tida com uma pessoa ainda mais improvável. Porque a pergunta foi feita por um miúdo de 20 e poucos anos, giro que dói, na flor da idade e no auge da sua sexualidade.

Tenho que confessar que fui surpreendida pela profundidade da questão. Querer perceber isto do amor para sempre seria, à partida, um tema pouco interessante para um jovem desta idade. 

Achava eu. Mas há exceções. E ainda bem.

Explicava-me que gostava de namorar mas que não pensava prender-se facilmente por nenhuma miúda.

Confessou-me ainda que perdia rapidamente o interesse por elas porque, ou eram demasiado atrevidas ou demasiado acriançadas. Não lhe prendiam a atenção. Nem o coração.

Falou-me apenas daquela que ficou longe, na terra onde cresceu, e que encontrava sempre que lá ia. E que de alguma forma ainda mexia com ele. Mas já com alguma distância no discurso, senti eu.

Tenho quase 39 anos e, por isso, alguma experiência de vida. Respondi-lhe com o que ela me ensinou: que todos nós tinhamos um botão de alarme com dois níveis.

Que o primeiro era inflamação, vontade, corpo, “beijo à filme” e pressa em viver tudo num segundo. Era sofreguidão, vontade de estar, "nunca-mais-chega-a-hora-nunca-mais-chega-a-hora”. Algumas vezes, dor e lágrimas. O segundo era calma, tranquilidade, saborear, companheirismo, partilha de interesses e de opiniões, conhecimento, união, um “eu-estou-aqui-contigo-e-para-ti”. Complementaridade.

Que o primeiro durava pouco, tirava-nos o sono e o apetite, mas que era maravilhoso porque nos fazia sair da cama num salto. E que o segundo nos devolvia a paz, a tranquilidade, a vontade de existir devagar, um dia de cada vez. E que nos fazia sonhar com um “eu quero mesmo viver para sempre assim”.

Mais. Que também havia casos, raros mas havia, em que o 1º e o 2º nível do botão tinham uma relação muito equilibrada e durante muitos anos.

Ia-me acenando com a cabeça, como quem vai percebendo devagarinho que ainda tanto tem para viver. E aprender. E descobrir. 

Apesar de alguma desconfiança, ouviu a minha opinião. Pareceu dar-me o benefício da dúvida e acreditar que o destino ainda ia acabar por lhe trocar as voltas e passa-lo para o 2º nível. Na minha opinião, fazê-lo subir de nível. 

No fim da conversa pareceu-me um bocadinho assustado. Só que igualmente curioso para ver o que podia vir dali.

Não sou a pessoa mais crente nos jovens desta geração. Mas, se existem cabeças destas, acho que vou ter que mudar de opinião...


20 de agosto de 2014

Porque não eu?

Não foram muitas. Mas houve vezes em que me perguntei “porquê eu?”.

Sempre fui aquilo que se pode considerar uma "gaja porreira".

Boa miúda, equilibrada, cedo comecei a fazer amigos com muita facilidade. Já na escola, tornei-me numa pessoa popular, tanto junto dos colegas, como junto de alguns professores. 

Depois de ter ficado de cadeira de rodas, o mundo de grande parte das pessoas que me rodeavam passou a girar em torno do meu. A minha família, naturalmente, mas também alguns dos meus amigos, que não planeavam uma saída sem perceberem como me levar. As escadas das discotecas e dos restaurantes ou a areia da praia nunca foram obstáculos. Não havia nada que, juntos, não ultrapassássemos.

Os anos foram passando e também é verdade que foram aparecendo alguns inimigos. Mas nunca grave o suficiente para o mundo deles girar em torno do meu. Picardias. Irritações. Gente que me encanitava. Só isso. Até porque, com o tempo, fui aprendendo a mantê-los à distância.

Por isso digo que sempre fui uma "gaja porreira". E, precisamente por ser assim, houve vezes em que me perguntei, “porra, porquê eu, se há tanta gente ruim no mundo que merecia passar por uma m"#$%& destas…e nada lhes acontece?”

Os anos foram passando e com eles vieram alguma sabedoria e algum bom senso. Assim passei a formular a pergunta ao contrário. “Porque não eu?”. “Em que é que eu serei diferente, que impede que algo de mau me aconteça?”. 


Mas os anos trouxeram-me mais do que isso. Trouxeram-me outras formas de ver a vida e ensinaram-me a interpretar melhor o que me ia acontecendo. A questão passou a “tem que haver uma explicação para que isto me tivesse acontecido a mim.”

Quero acreditar que fui uma das escolhidas. Quero acreditar que tenho uma espécie de missão na vida, que espero que seja muito longa. Quero crer que, quem comigo se cruza, vê mais do que uma desgraçada que deixou de andar aos 15 anos e que esteve a patinar aos 29 com uma septicémia.

Quero, com a minha história de vida, poder servir de exemplo e ajudar quem precisa a perceber que nada é impossível. E que, por detrás de uma acontecimento trágico, não tem forçosamente que haver uma história de vida infeliz.

Não quero que me vejam como uma heroína, porque estou longe de o ser. Tenho dias em que nem para uma mosca sou exemplo. Mas quero que vejam alguém a quem a vida já passou algumas rasteiras e se levantou sempre. Alguém que tem sido posta à prova algumas vezes, mas que conseguiu encontrar o lado bom. Alguém que decidiu - repito "decidiu" - passar por cima dos buracos que o caminho da vida foi tendo e seguiu em frente. Uns dias com mais agilidade, outros com menos, mas sempre em frente e o melhor que pode.

Hoje consigo ver as coisas de uma forma muito mais clara. E cada vez acredito mais que, continuando a esforçar-me para superar os meus medos (algo em que tenho vindo a trabalhar nos últimos anos, com resultados) vai ser mais fácil a vida mostrar-me tudo o que de bom ainda me reserva. 

Que é muito, tenho a certeza. Até porque quem me conhece bem, sabe que não me contento com pouco.

15 de agosto de 2014

À procura da praia certa? Boa sorte.

Escrevo estas linhas enquanto vejo as pessoas a passarem para a praia. Um dia quente, que devem estar mais de 30 graus. Mas eu estou ao fresco, na nossa varanda. E vocês sabem como eu gosto de varandas.

Este ano alugámos uma casa no Alvor, num pequeno condomínio que fica a 10 minutos a pé daquele mar tão azul que, desde que o descobri, no ano passado, passou a fazer as minhas delícias.

Cá estamos as 4. As de sempre, claro.
Têm sido dias calmos. Acorda-se cedo (sem despertador mas o hábito de quase 11 meses fala mais alto), prepararam-se as sanduíches para a praia, mergulha-se na piscina da parte da tarde e janta-se na vila ou na varanda lá de casa. Pelo meio, passeia-se a pé ou de carro, já que Alvor fica a meio caminho de quase tudo.
Amigos novos. Vizinhos com quem se partilha a relva à beira da piscina. Vizinhos com filhos de idades próximas, que acabam por partilhar os mergulhos, as bombas, os gelados e as gargalhadas. Vizinhos que se tornam amigos e que acabam por fazer parte das nossas férias. Vizinhos com que se trocam nºs de telemóvel e páginas de Facebook no último dia.
Durante estes dias procurámos Praias Acessíveis. Entenda-se por “acessível” uma praia com estacionamento para pessoas com mobilidade reduzida, passadiço até ao bar, que deve ter um wc adaptado, e depois até ao areal. Já aí, meia dúzia de chapéus de sol reservados para quem não pode escolher o espacinho mais simpático da praia. De preferência com um deck de madeira em volta e na 1ª linha. Por perto, deve haver 1 a 2 tiralôs – carrinho azul e amarelo anfíbio que transporta pessoas com mobilidade reduzida até ao mar – e, no mínimo, 2 monitores formados para saberem ajudar as pessoas que precisam, tanto na transferência como a levá-las ao banho.
Há poucas praias com estas condições. E as que existem, ou pelo menos as que conheci, são quase todas ridículas. O Alvor preenche praticamente todos estes requisitos, sendo que este ano apenas falhou no número de monitores. E não é por serem caros porque, segundo percebi, recebem até 160€ para lá estarem das 10 às 18h, com 2 horas de almoço. Vergonhosamente mal pagos, portanto, pela Junta de Freguesia. O que comprova que esta não é, de todo, uma prioridade desta malta.
Bom, experimentámos a Meia Praia.
Tudo começa pelo miserável parque, em piso de terra batida e, com tanto buraco, que torna o estacionamento na superfície da lua brincadeira de meninos.
Depois, os passadiços, que já não seriam de jeito quando colocados pela primeira vez, calcule-se agora, com anos de gente a passar por cima deles e sem qualquer manutenção.
Casa de banho do bar, como tantas vezes, a servir de arrecadação. Aquele “espacinho porreiro” para arrumar o que não cabe em mais lugar nenhum como, no caso, janelas velhas encostadas a uma das paredes. O cheiro, nauseabundo. Um misto de tudo-aquilo-que-se-faz-numa-casa-de-banho, com cheiro a refogado, borrifado com detergente foleiro.
Chichi feito de nariz tapado, acompanhado da 1ª náusea, desço até à praia e paro num dos 2 chapéus com a tabuleta a dizer “reservado para deficientes”. Tenho a 2ª náusea quando leio aquilo mas respiro fundo. Outra náusea quando constato que estes 2 chapéus estão a 300 metros do mar e a 15 dos outros. Ainda procuro nestes últimos a tabuleta a dizer “reservado para eficientes” mas, vá se lá perceber esta coisa das igualdades, não encontro.


10h e os monitores que nos ajudam nas andanças do tiralô, nem vê-los. Aparece finalmente um, magrelas, quase às 11h, com pinta de quem curtiu a noite toda. Pede desculpa e, ainda meio a dormir e com falta de duche, lá vem ajudar. Perto das 11h30/12h chega o colega, igualmente com poucas horas de sono.
Mas espanto foi quando percebemos que nem sequer conheciam a técnica de transferência para me pôr no raio do carrinho. Fica a explicação, para o caso de um dia precisarem: são necessárias 2 pessoas com alguma força de braços. Uma fica atrás e põe os braços por baixo dos meus. Outra à frente, que agarra por baixo dos joelhos. 1, 2, 3, coordenados, levantam e, sem largar, sentam-me no braço do tiralô (uma boia amarela onde se faz a primeira pausa). 1, 2, 3, coordenados novamente, levantam e sentam-me no tiralô. Depois, banho connosco. Alguns de nós saem do carrinho e nadam, outros ficam mais confortáveis no tiralô. Difícil? Não. Apenas alguma técnica, jeito e vontade de fazer bem.
Tomei um banho e vim-me embora da praia. Porque ninguém gosta de estar em locais que não são pensados para nos fazerem sentir bem. Tal como aqueles pais que se recusam a ir para hotéis estúpidos onde não se aceitam crianças, ou aquelas casas que não aceitam os nossos animais de estimação.
Obviamente que esta falta de organização tem consequências: nem um “tusto” gasto naquele espaço. Nem meu, nem dos milhares e milhares de turistas com mobilidade reduzida que todos os anos se deslocam ao Algarve. 

Já agora, deixem-me relembra-los que um dia podem ser vocês, caso partam uma perna no dia anterior a irem de férias, ou tenham sido operados aos joanetes, ou estejam grávidas, ou circulem com carrinhos de bebés. Ou decidam levar a vossa avó à praia. Ou. Ou. Ou. 
Enquanto o mundo não souber a diferença entre integração e inclusão, isto não vai longe. E enquanto for só um grito de meia dúzia de gatos-pingados, pouco ou nada mudará.

8 de julho de 2014

Home sweet office

Vinha de um problema na vesícula que me tinha emagrecido até aos 40 quilos. Não era bonito de se ver. Toda aquela magreza trazia para a vista um esqueleto de metro e setenta e dois coberto de pele. E pouco mais que isso.

Precisamente por causa dessa magreza, tinha feito uma ferida de pressão na bochecha do rabo, lado direito. Estávamos no final de 2005.

Pernas em forma de palito, maminhas nem vê-las, braços fininhos, dedos de pele e osso. A cara era encovada, os dentes e os olhos pareciam maiores. Mas mantinha um sorriso.

Até a roupa era tamanho S e com recurso a alfinete de dama para prender atrás das costas o tecido que sobrava das camisolas.

Mas, mesmo assim, era neste estado que todos os dias me arranjava e me punha a caminho de mais 9 horas de trabalho em Lisboa. 9 horas que, juntando às outras que começam a contar desde que acordava até que me deitava, chegavam a 16 ou 17 em cima da cadeira. O mesmo será dizer, em cima da ferida. Non stop.

Um dia ela queixou-se e infetou. Sempre acompanhada por uma médica, tratei-a como podia. Mas sem pânicos. Afinal não era a primeira nem seria a última escara da minha vida. Alguém na minha condição já sabe que, de tempos a tempos, aparece uma.

Houve alturas em que melhorou, mas outras em que piorou. E assim andou durante uns meses. Eu, sempre magra, fazia febre de vez em quando. Tomava antibiótico, melhorava, parava de tomar, voltava a febre. Recomeçava tudo.

Lembro-me que passei bem o Natal. Não havia sinais de infeção há algum tempo e andava a comer bem há umas semanas. Mas a febre voltou em meados de janeiro.

Cansadas daquele sobe e desce infernal, fomos ao hospital perceber se havia mais alguma coisa a fazer. Havia. Havia mas demorou 9 meses até ficar resolvido. Só regressei ao trabalho em setembro, depois de uma septicémia em último grau. Depois de me desviar de mais um encontrão da vida.

Já chegava. A aquela experiência tinha sido avassaladora para toda a família. Foi tempo de fazer uma análise fria do que me poderia acontecer caso continuasse com o mesmo tipo de vida que tinha tido até ali.

Sabia que o pior tinha passado, mas também sabia que ainda havia um longo caminho a percorrer até recuperar a 100%. E sabia que a minha saúde, no futuro, só dependeria de mim. Se quisesse continuar por cá, teria que ter, finalmente, juízo.

Uma das primeiras decisões que tomei foi partilhar esta preocupação com a empresa. Expliquei que gostaria de continuar a trabalhar com eles mas que teria que intervalar as minhas idas ao escritório com alguns dias de trabalho de casa.

Todos aceitaram esta condição e assim começou uma nova era no meu trabalho. 2 vezes por semana na empresa para entrevistas, reuniões, idas a eventos, o que fosse preciso, 3 de casa. Horário de trabalho: o normal. Que, para quem me conhece, é quase sempre on.


Há quem não consiga habituar-se a este tipo de trabalho. Atacam o frigorífico, trabalham fora de horas, não resistem a uma sesta depois de almoço... Eu habituei-me. Aliás, queria muito mostrar que era merecedora da confiança que tinham depositado em mim e que ia conseguir cumprir todos os meus objetivos. Queria provar que estar em casa ou no escritório, era igual para a empresa. E melhor para mim.

Comprovou-se depois que era melhor para todos. Estar em casa, mais sossegada, era sinónimo de estar também mais concentrada. Mais focada. Raramente cheguei ao fim do dia com tarefas a meio. Mas o que interessava mesmo era que estar em casa libertava-me o corpo.

E depois havia sempre o outro lado. Trabalhar remotamente, deu-me a oportunidade de ver crescer a Carlota e de poder fazer parte dos fins de tarde em que lhe dava banho, lhe preparava o jantar e brincava com ela. De repente havia tempo para tudo.

Nos dias em que ia à empresa, sempre que tinha um break nos compromissos, divertia-me a circular pelos corredores, a meter-me com as pessoas, a angariar informações necessárias para o meu trabalho ou dia a dia através de conversas informais. Porque quem está fisicamente na empresa, faz isto de forma tão natural que nem dá conta de como estes momentos são tão importantes.

Já passaram quase 9 anos. Continuo no mesmo sistema. Graças a esta forma de trabalhar consegui recuperar a parte física e equilibrar a parte psicológica, que na altura da septicémia levou um grande abanão.

Hoje acordo cedo, tomo o pequeno-almoço, arranjo-me, visto uma roupa confortável e ligo o computador. Onde fico sempre, religiosamente, até à hora de almoço. Não aceito convites para almoçar quando trabalho de casa. Não me quero dispersar. Prefiro comer qualquer coisa rápida e voltar ao trabalho, direto, até às 18h30/19h. Durante o dia, não são raras as vezes que uso o skype para falar com a minha agência em Moçambique. Ou que faço uma reunião com direito a videoconferência com a minha equipa que está no escritório em Lisboa.

Tudo com uma concentração quase irritante. Mas, no fim da tarde, paro tudo para receber a Carlota, já crescida mas ainda a requerer atenção – vá, mesmo que não precise eu gosto de parar para a receber -, e sempre que é necessário adianto o jantar. O que adoro fazer.

Pelas 21h volto ao computador e despacho trabalho que tenha ficado pelo caminho. Ou já nem volto. Faço como me apetecer. Mas, regra geral, apetece. Porque o trabalho assim não é um fardo. E não é um fardo porque não me rouba tempo que eu quero ter para outras coisas. Cabe tudo da minha vida. Pessoal e profissional.

Sinto verdadeiramente que ganhei muito com este sistema. E a verdade é que, se nunca tivesse tido um problema de saúde como tive, ainda hoje lutava contra o relógio como tantas colegas fazem para conseguir arranjar espaço para tudo. E talvez nunca conseguisse chegar lá. Como, infelizmente, elas não chegam.

Dizem que Aquele lá em cima escreve direito por linhas tortas. Eu sempre acreditei nisso.