10 de fevereiro de 2013

Desistir, não obrigada!


Quis ser veterinária, quis ser hospedeira. E astronauta. Mas, afinal, quem não quis?

Depois, à medida que fui percebendo o que era isto de ter uma profissão, escolhi a minha. Foi assim que cedo decidi o que “queria ser quando fosse grande”. Jornalista. “Pivot de Telejornal”, como eu explicava.

Só mais tarde percebi que “Telejornal” era apenas o nome do noticiário da noite da RTP.

Na altura, tinha eu uns 12 anos, a minha referência era Manuel Moura Guedes. Gostava da irreverência dela. Depois a senhora descontrolou-se, é certo, mas teve tempos de grande jornalista.

Mais tarde passei a seguir a Alberta Marques Fernandes. Gostava da sua determinação. Hoje a minha preferência vai para a Clara de Sousa. Identifico-me com a firmeza com que me passa as notícias. Mas também gosto de ouvir o Rodrigo Guedes de Carvalho e o João Adelino Faria. Estilos diferentes mas ambos me agradam.

Quando a SIC nasceu, há 20 anos, rendi-me. À ousadia, ao formato, ao colorido e à dinâmica. À inovação. Gostei da vontade de fazer diferente. Era aquele tipo de informação que eu queria e sabia que ia ser boa a fazer. Confesso que só não me rendi ao entretenimento porque, de facto, não me identifiquei, nem identifico, muito com aquilo. Mas também não me identifico com o de nenhum outro canal.

Bom, mas foi com as antenas apontadas para a ir parar à SIC que fui tirar Ciências da Comunicação, vertente Audiovisuais e Media Interactivos, à Nova.

Contudo, no 3º ano da faculdade uma grande amiga pergunta-me o que é que eu achava da ideia de ir a uma entrevista à empresa onde ela trabalhava, de tecnologia, para o lugar de relações com os media. A minha resposta foi “epá, mas isso não é coisa de ministro”? Ela riu-se e respondeu “vamos entrar em bolsa e queremos começar a construir uma relação com os jornalistas que seguem a área de tecnologia, generalista e economia.” O skills necessários eram um curso na área (que ia ter), e algum à vontade para falar com um grupo de profissionais considerado “difícil”. “À vontade é comigo mas difícil porquê?” perguntei. “Bom, a ideia que se passa, se calhar até injusta, é que estão sempre à procura de polémica e nós só queremos mostrar o que andamos a fazer de bom e como o que fazemos pode mudar a vida das pessoas.”

Na altura tinha um objectivo: terminar o curso e seguir o sonho de ser pivot da SIC. Mas lá fui à entrevista e a vida acabou por me trocar as voltas, mostrar-me outros caminhos e comecei a estagiar nesta empresa.

Percebia zero vírgula zero de bit e bites. E disse-o na entrevista. Mas também disse que não era burra e ia aprender rapidamente. No entanto, acho que o que me safou foi quando acrescentei que, se eu percebesse o que escrevia, qualquer jornalista ia perceber. E se qualquer jornalista percebesse, passaria de forma correcta a mensagem ao leitor. E assim a nossa missão ia estar cumprida. Informar e tornarmos visível uma empresa que na altura ninguém conhecia.

Aceitaram-me como estagiária. Tinha 23 anos.




Comecei do zero. Houve alturas em que pensei que jamais iria conseguir fazer o que esperavam de mim. Chegava a casa a chorar e a jurar a mim própria que não ia voltar no dia seguinte. Lembro-me de um dia em que não estava a conseguir fazer o que um dos meus chefes me tinha pedido para fazer num prazo apertado, e que me enfiei na casa de banho a chorar. No fim, respirei fundo, olhei-me ao espelho e limpei as lágrimas. Ganhei coragem, cheguei ao pé dele e disse-lhe “olha, desculpa mas não sei fazer o que me pediste, vais ter que me ajudar.” Ajudou, claro. E cumprimos o prazo. Assunto resolvido, e assim, aprendi que não tinha que saber fazer tudo e que, por vezes, valia a pena assumi-lo e pedir ajuda.

Os primeiros anos não foram fáceis mas, à medida que o tempo foi passando, e que as notícias sobre a nossa actividade iam saindo na imprensa, fui ganhando confiança.

Isto foi há 14 anos. E, apesar de acreditar que estamos sempre a aprender, sinto que já domino bem o que preciso para fazer um bom trabalho nesta área. E gosto verdadeiramente do que faço.

Mas a empresa foi crescendo, o mundo mudando e, 14 anos depois, o palco onde se comunica e a forma como se comunica também. O que os levou a proporem-me manter a função que tinha mas a investir noutras áreas da comunicação. Áreas que nunca dominei. Aceitei. A medo, porque significava sair da minha zona de conforto. Mas aceitei. Mais uma vez pensei: se não souber aprendo, e posso sempre pedir ajuda. E sabem que mais? Há coisas boas e coisas menos boas, mas estou a gostar.

Claro que há ainda momentos em que me apetece largar tudo e ir vender legumes à beira da estrada, cocos no paredão da Caparica, sandes na praia, whatever! E, sim, ainda há momentos em que me irrito e digo: amanhã não volto! Mas são só momentos. Volto sempre. E volto para dar o meu melhor. Porque se der o meu melhor, tenho a certeza que consigo fazer. Até o que achava impossível. Se falho? Claro que falho. Montanhas de vezes! Mas tento outra vez até sair bem. E raios ma partam se não sai!

Para terminar, que já me alonguei demais, uma frase que resume o que vos quis passar: os cobardes nunca tentam, os fracassados nunca terminam, os vencedores nunca desistem.
E desistir é uma palavra que devemos apagar dos nossos dicionários. Eu já apaguei do meu.





9 de fevereiro de 2013

"A força não provém da capacidade física, mas da vontade férrea."



Alcoitão 1991. Foi nesta data que fui para lá, depois de 1 mês internada em Santa Maria. Tinha ficado paraplégica e, afinal, na altura aquele centro era o melhor local para iniciar a minha recuperação. Mas eu diria que era antes praticamente o único.

Alcoitão era um edifício enorme, com grandes jardins à volta.

Lá dentro, os corredores eram largos. O chão, se a memória não me falha, era preto e branco. Em xadrês. Bar, minimercado e papelaria. Onde eu comprava quilos de Tio Patinhas.

Tinha 3 pisos. O dos adultos, o das crianças até aos 15 e o dos mais velhotes.

Como eu estava no limite dos 15, e porque se dizia que a equipa médica era a melhor, fiquei no das crianças.

No meu quarto havia 6 camas. E andaimes vermelhos por todo o lado, porque aquilo estava em obras. O que ajudava a tornar o sítio ainda mais desagradável e frio.

Quando fiquei paraplégica, ou melhor, quando me apercebi que não sentia as pernas – porque paraplegia era um termo que nem conhecia bem – não entrei em pânico. Talvez por alguma ignorância, porque nunca tinha ouvido falar do assunto. E, por esse motivo, não conhecia a gravidade de “não sentir as pernas”.

Por isso, a minha atitude foi de alguma tranquilidade e “bom-deixa-lá-ver-se-isto-passa”. E porque a atitude era esta, continuei bem-disposta e a lidar bem com a situação. Fiquei à espera. Até porque achei que era mesmo uma situação passageira. Aliás, durante algum tempo foi assim que encarei a coisa. Eu e todos os que me rodeavam. Hoje, à distância, percebo como isto foi importante para aceitarmos o que tinha acontecido: foi gradual.

Mas voltando a Alcoitão. Entrei, penso que em Abril. A ideia era fazer exercício ao máximo para recuperar a sensibilidade que tinha perdido da cintura para baixo.

Todos os dias tinha a visita dos meus pais e irmã mas, até me habituar à ideia de ter que ficar internada, custava-me muito quando chegava a hora do “bem, querida, temos que ir embora, está na hora de ires jantar…” Vê-los dobrar a esquina do corredor, vê-los a voltar à vida que eu não podia ter, mesmo sabendo que no dia seguinte estariam comigo de novo, o meu coração partia-se ao meio. Fartava-me de chorar.


Uma parte dos dias passava-se na sala de fisioterapia. E, porque estava no piso das crianças, também numa sala de jogos e pinturas. Ora, não sendo eu propriamente uma criança, sempre que podia pisgava-me para o bar do piso 0, onde trabalhavam dois jovens surfistas com muito bom aspecto e com quem eu, obviamente, preferia passar o tempo. Nem se contam as tostas mistas que eu comi na altura só para ter motivo para lá ir…!

Ainda houve quem me tentasse vir buscar e convencer que tinha que participar nas actividades de grupo. Mas não conseguiam. Cantar o “Atirei o pau ao gato” e desenhar casinhas com chaminés e flores não era, de todo, alternativa a estar no bar à conversa com surfistas tão giros.

Não posso dizer que arranjei amigos em Alcoitão porque não arranjei. Até porque eu estava lá para recuperar e à sexta-feira ia a casa de fim de semana.

E aí, sim, estava com os meus amigos. E aí sim, fazia o que gostava. Lembro-me de ir para a praia. Muita praia. De me pegarem ao colo e de me levarem para dentro de água. Algo que, com o tempo e por circunstâncias que darão um dia para mais uma crónica, deixei de fazer.

Quando me “apresentava ao serviço”, na 2ª feira de manhã, e eles viam os escaldões nas pernas, passavam-se comigo. Com razão, porque eu tinha que ter cuidado. Mas também me divertia ver as caras deles.

Lembro-me do cheiro daquilo. Lembro-me do cheiro do perfume que usava na altura. O El Charro. Lembro-me de gostar de sutiãs de renda às cores e das auxiliares se meterem comigo por isso. Lembro-me deles não entenderem que eu preferia tomar banho com o gel de banho que a minha mãe me comprava do que usar o Manipur, marca que eles usavam no Centro. Lembro-me que, por tudo isto, deixei de ser a Marta para passar ser “a Madame”.  

Na altura Alcoitão tinha poucos profissionais (diziam eles, porque o que eu acho é que gostavam de sair cedinho) e, por isso, não me punham na piscina. E tinham uma fantástica. Mas rapidamente arranjámos alternativa. Durante a hora do lanche, que coincidia com a hora das visitas, vestia o meu biquíni amarelo fluorescente com laçarotes de lado e ia nadar para a piscina do Muchaxo, no Guincho. Depois parávamos no Tamariz para lanchar. Também havia coisas boas.

Mas Alcoitão não via isto com bons olhos. Alcoitão não estava preparado para receber uma família que quebrava regras, rotinas. Que não perdia facilmente a esperança. E a minha era assim. Sabíamos que era difícil mas tínhamos que tentar. Em Portugal ou noutra parte do mundo.

Ali “pensava-se o pior, pode ser que aconteça o melhor”. A minha família preferia “pensar o melhor, porque era o melhor que ia acontecer.” Pensar positivo. E isto foi um problema lá dentro.

Desde logo comigo, quando a psicóloga meteu na cabeça que eu tinha que ir ao “fundo do poço” e depois sair de lá. “Fundo do poço”. Era uma expressão deles, não minha. Bem tentei explicar que acreditávamos que aquilo ia passar, que eu ia voltar a andar e que íamos tentar tudo. Mas eles insistiam no raio da conversa do poço. Claro que esta questão acabou por dar barraca, com a minha mãe a proibir a psicóloga de voltar a falar comigo. “Se a Marta precisar, ela vem ter consigo. O contrário eu não quero. Estamos entendidas?”. E Sim, ficaram. Nunca mais me chateou.

Mas as coisas nunca mais foram as mesmas. Nessa altura tomámos a decisão de sair de Alcoitão. 4 meses depois de ter entrado e ter aprendido a…passar para a cama. Claro que havia bons profissionais por lá, mas as memórias que guardo, no geral, são más. Dizem-me que apanhei a instituição num momento mau, que hoje não é assim. Espero que não seja, porque a mim pouco me ensinaram.

Mentira. Uso o cliché “o que não nos mata torna-nos mais fortes”. E se aquela merda não me matou, ensinou.me a resistir mais e a tornar-me numa mulher de aço. A mim e a quem me rodeava. E, vendo bem, isso não foi mau. Preparou-nos para a vida.


Seguiu-se Londres e os melhores Neurologistas. A resposta foi: estamos a testar o tratamento em ratinhos. Tanto pode demorar 10, como 20, 30 ou 40 anos. Ou nunca sair do laboratório. Já passaram 23 e ainda não aconteceu. Mas retive uma coisa que o médico disse. Esta miúda deve continuar a ter este espírito. E continuei. 

Podem dizer-me: mas eles tinham razão, tu não voltaste a andar e eles quiseram preparar-te para isso”. É verdade. Mas, se lhes tivesse dado ouvidos, se tivesse seguido a "estratégia" deles, não eram as pernas que eles me cortavam. Eram as asas. 

E, essas, meus caros, nunca ninguém mas vai conseguir sacar.



7 de fevereiro de 2013

Girls just wanna have fun!

Se calhar nem devia dizer isto mas, quando comecei a sair à noite, devia ter uns 13 ou 14 anos.

Comecei por experimentar as matinés do Crazy Nights e do Loucuras, mas sair à noite - mesmo sair à noite - foi por volta dessa idade. E não me esqueço porque fiquei de cadeira de rodas aos 15 e lembro-me de sair sem ser de cadeira de rodas.


Ia sempre com a minha irmã. A minha mãe dava-nos 1000 escudos para os táxis. E o nosso pai diza-lhe sempre “se alguma coisa lhes acontecer, a responsabilidade é toda tua!”. Mas a minha mãe confiava em nós. Acima de tudo, nos valores que nos tinha passado. E, a verdade, é que nunca lhe falhámos. Nunca. Mas não arredava pé da janela enquanto não chegassemos ou, pelo menos, não pregava olho enquanto não ouvisse o táxi a entrar na rua.


Morávamos em Alvalade e na altura íamos para o Alcântara-Mar. Anos depois, para a 24 de Julho. Mas havia dias em que nem chegavamos a sair da Av. de Roma: preferíamos ir ao Bingo Roma. Eu era "grandalhona" e passava bem por 18 anos. Aliás, a idade - ou falta dela - não era o problema. O problema era nunca que ganhava sequer uma linha. 


Mas quando optávamos por ir sair, a nossa preferência era, de facto, o Alcântara. Era a discoteca da moda. Também frequentámos o BBA no Bairro Alto, mas o Alcântara era "o Alcântara". Não era fácil entrar sem pagar mas conseguíamos sempre. Lá dentro era a loucura. E uma das coisas que mais gozo me dava na altura era subir para cima das colunas e dançar. Visto agora à distância, constato que só podia estar doida.


Os anos foram passando e “mudámo-nos” para a 24 de Julho, onde parávamos no Metalúrgica e no Última Ceia antes de entrarmos na Kapital.




Lembro-me da primeira vez que fomos à Kapital. O Lúcio que estava à porta. Conhecido como um porteiro duro de roer. A sua frase preferida era “desculpe, mas só clientes habituais”. Dito, claro, com um sorriso nos lábios.

Estávamos em 91 ou 92. O espaço tinha acabado de abrir. Nesse dia levava comigo um grupo de 10 ou 15 pessoas. Não ia ser fácil entrarmos todos. Respirei fundo, cheguei-me à frente e fiz um ar de “vá, tu não ias ter coragem de barrar a entrada a uma pessoa de cadeira de rodas…”. Ele olha para mim, perde o ar de durão e diz “está sozinha?”. Respondi que não, que me tinham dito que havia escadas dentro da discoteca e que por isso tinha trazido alguns amigos para me ajudarem…Sempre com aquele ar de “não ias ter coragem…”. E não teve. Perguntou-me quantas pessoas estavam comigo e eu olhei para o meu grupo de 15 pessoas e disse: “estes todos…”. Engoliu em seco e entrámos todos. Aliás, em boa verdade entrámos nós e mais uns quantos desconhecidos que se aproveitaram da situação para se infiltraram lá pelo meio. Achei graça e calei-me.

Este foi o primeiro dia de Kapital. De muitos.


Eram noites inesquecíveis. Tínhamos um grupo de gente divertida e saudável. Começávamos a noite por jantar na Taska, que ficava na pequena rua ao lado da Kapital. Depois entravamos por uma porta lateral, que nos dava acesso ao interior da discoteca. Chamávamos-lhes as "catacumbas". Por elas também tínhamos acesso ao Kremlin. 


Já lá dentro preferíamos sempre o piso do meio, onde o Miguel punha música. Aliás, a nossa música. Passávamos o tempo a chateá-lo com o que queríamos ouvir. Mas giro, giro era quando o Sporting jogava nessa noite e ganhava (sim, nessa altura o meu querido Sporting ainda ganhava…). Estávamos no espaço dos irmãos Rocha - que mais sportinguistas não podiam ser - e, por isso, tomávamos a pista com o hino da Maria José Valério e o “Só eu sei porque não fico em casa”. Era o delírio!


Eu tinha poiso fixo: na cabine d DJ, ao lado do armário dos cds do Miguel. Por brincadeira ponderou-se inclusive desenhar um dístico de cadeira de rodas no chão, a reservar o meu lugar.


Várias foram as vezes que os porteiros fecharam a porta quando eu chegava sozinha com a minha irmã. Ajudavam-me a subir as escadas até ao 2º piso, bebiam um shot connosco e voltavam ao trabalho.


Também não me esqueço do Paulo, o porteiro que e seguiu ao Lúcio que, como ele dizia “por tanto gostar de ti”, deu o meu nome à primeira filha. 


Passámos anos nisto. Às Sextas e aos Sábados. E alguns, os mais resistentes, também às Quintas. Mas eu e a minha irmã não alinhavamos nesses dias. No dia seguinte era dia de escola e a D.Teresa não ia na cantiga. Apesar de não termos hora para chegar a casa, raramente chegávamos depois das 4h. Sabíamos que, a partir dessa hora, a noite ganhava uma dimensão e um tipo de clientes com quem não nos identificávamos.

A primeira vez que entrei na Kapital devia ter uns 16 anos…E só parei com 25 ou 26. A partir dessa altura comecei a fartar-me de saídas à noite. Só saíamos esporadicamente.


Até porque foi com essa idade que comecei a ter alguns problemas de saúde. Primeiro a vesícula, depois as escaras, mais tarda a septicemia. Por isso, os nossos hábitos foram mudando. Mas não necessariamente para pior.


Passámos a preferir um bom jantar à roda de uma mesa cheia de amigos. Crescemos. Há mesmo um tempo para tudo. 


Hoje, quando saímos, ou melhor, se saímos, preferimos o Urban Beach. Os irmãos Rocha sempre nos souberem receber. Quando aparecemos, é como se o tempo tivesse parado.

Foram anos memoráveis. Deles guardo grandes momentos. E muita, muita amizade. Que, aliás, dura até hoje. O divertimento, a loucura. Mas também o juízo, o bom senso. Acima de tudo, sem precisarmos de perder o controlo. Como infelizmente hoje os jovens perdem. Sem drogas. Bastavam-nos uns bons jantares, um ou dois shots, muita música, dançar. E a noite estava feita.

O mundo mudou, a noite mudou. Hoje nada disto é assim. Tornou-se tudo demasiado perigoso, demasiado gratuito.

Mas os miúdos não podem ficar isolados e fechados em casa. Têm que continuar a divertir-se. Precisam de o fazer.

O segredo é educação.  Sensibilização. Conversar e explicar os perigos. Passar os valores certos. Precisamente porque a noite se tornou perigosa, acompanhar de perto. E, no fim, confiar. Porque, quando crescerem, é isso que vão passar aos filhos.

6 de fevereiro de 2013

"A felicidade está em conhecer os nossos limites e em apreciá-los."

Portugal não é um país preparado para uma pessoa com mobilidade reduzida. E sim, aprendam o termo certo: mobilidade reduzida. Mas Portugal não está isolado neste problema. E porque gosto de contar histórias, conto mais uma que se passou comigo há cerca de 2 ou 3 anos. 

Um dia o telefone tocou. Era a M, uma ex-colega da faculdade, militante de um partido de esquerda. Já não falávamos há anos. Tinha um convite para me fazer. Ir a Bruxelas conhecer o Parlamento Europeu. Tratava-se de uma iniciativa do partido dela, no âmbito de um daqueles dias/anos internacionais que alguém decidiu dedicar-nos mas que, infelizmente, de pouco servem.

Esclareci que o meu partido não era o dela e que não fazia parte de nenhuma associação. E que, por esse motivo, podia fazer mais sentido passar o convite a outra pessoa. Mas a M disse que não, que queria que fosse eu.

A viagem ia ser de autocarro, com várias paragens. Aí agradeci o convite mas expliquei que, por razões físicas, não ia conseguir aguentar a viagem que, se não me falha a memória, iria demorar 3 ou 4 dias. Sugeri fazer antes a viagem de avião, em low cost que fosse. E assim foi.
 


Convite aceite e depois de ter explicado tim-tim por tim-tim o que ia precisar em termos de acessibilidades, a minha cabeça começa a processar a informação. “Marta, enlouqueceste! Acabaste de aceitar um convite para estares 3 dias fora da tua casa, com pessoas que não conheces, num país que não é o teu. E vais sozinha. Pela primeira vez, sozinha.” E de avião, que odeio.  Fiquei um bocadinho em pânico mas, se por um lado a ideia me assustava, por outro desafiava-me a ultrapassar o meu medo.

Claro que a primeira reacção da minha mãe foi “Isso é que era bom! Sozinha? Só podes estar doida!”. Mas depois ponderou, percebeu que isto era um passo de gigante na minha independência e apoiou-me.

Nos dias que antecederam a viagem, e já sabendo em que hotel ia ficar, certifiquei-me que este tinha todas as condições que eu ia precisar. E não era nada do outro mundo: um quarto com a cama alta (ao nível da minha cadeira), uma casa de banho em que a sanita tivesse barras laterais e uma banheira com uma cadeira de banho rotativa. Tudo o que de mais básico um quarto adaptado deve ter. Deram-me todas as certezas de que tudo estaria preparado para me receber, para eu não me preocupar. Cá e lá.

Mesmo assim fui com o coração nas mãos. Parecia bruxa.

Viajei na TAP. E ao serviço que a companhia aérea disponibiliza para acompanhar pessoas com mobilidade reduzida, o My Way, nada tenho a apontar. Foram impecáveis.



Aterro em Bruxelas e espera-me um mini-bus adaptado para nos levar ao hotel. Íamos ficar no Hilton, 5 estrelas. Íamos porque comigo viajaram mais dois convidados. 

Quando me levam ao quarto, no 26º andar, já tarde, o meu queixo caiu. E não foi por ter um quarto de sonho, onde chegava a todo o lado. Deparei-me, sim, com uma suite com uns 50 metros quadrados, sem barras laterais na sanita e banheira sem cadeira de banho. Ah, e importantíssimo, uma zona de sofás e digna de uma casa de luxo. A única coisa que se safava era a cama, relativamente alta mas onde cabiam 5 Martas. 

Conclusão: não pescaram nada do que lhes foi dito. E mais do que uma vez. Para aquela gente, o equivalente a quarto adaptado era espaço. Muito espaço. Sim, de facto, ali cabiam umas 20 cadeiras de rodas.



Desci à recepção, expliquei o que se passava, e pedi um novo quarto. Pediram desculpa mas disseram que não tinham no momento. Quase a passar-me pedi um pc com acesso à net para lhes explicar o que era uma cadeira rotativa. Era o mínimo para poder passar ali duas noites. Na manhã seguinte disse-lhes: “Vou agora ao Parlamento Europeu. Quando voltar, agradeço que já tenham comprado uma coisa destas para eu tomar banho.” 

E lá fui, visitar o Parlamento, com o resto do grupo. Aqui conhecemos o espaço, as rotinas, os objectivos, todo o funcionamento. 



Seguiu-se uma conversa com a deputada do partido. Rapidamente percebi que a ideia era falar do que estava mal, do que tinha que ser mudado, da luta. E da luta. E da luta. E, ainda, da luta. E falou-se. Sempre com um ambiente tenso e pesado. Que me sufocava. Mantive-me quase sempre calada.

Depois, cada pessoa podia contar a sua história. Não ouvi uma contada pela positiva. Umazinha. Só queixas. No fim ganhei coragem e decidi correr o risco. Expliquei que era feliz de cadeira de rodas, que tinha um bom emprego, conseguido à minha custa, onde me tratavam bem, aliás, como qualquer outra colaboradora. Que, sim, havia muito para mudar em termos de acessibilidades e discriminação, mas que tínhamos que tentar fazer as coisas pela positiva. 

Atrevi-me ainda a defender que muitas vezes a discriminação partia de nós próprios. Que era verdade que tínhamos que lutar o triplo que os outros para conseguirmos chegar onde queríamos, mas que era possível. Que eu tinha conseguido, e não era melhor do que ninguém naquela sala. Nunca entregar os pontos, nunca desistir. Não nos sentirmos vítimas mas sim vencedores. Que era necessário cada um fazer a sua parte. E, acima de tudo, que havia várias formas de contribuir para melhorar a nossa situação. E todas elas mereciam respeito. 

Expliquei que jamais criticaria uma associação, porque são muito necessárias – algumas das quais já me tinham convidado para fazer parte do grupo -, mas que preferia não optar por nenhuma e contribuir antes tentando ser um exemplo no meu dia-a-dia. Para quem me rodeava, para quem partilhava comigo os dias de trabalho, no meu círculo de amigos. No meu mundo. Claro que isto soou bem a uns e mal a outros. Mas a vida é mesmo assim. Ninguém agrada a todos. Muito menos eu.

Bom, quando voltei ao hotel tinham-me mudado de quarto, agora para um adaptado, no 6º andar. E, sim, compraram uma cadeira de banho. Mas, ignorantes, sem ser rotativa. Ou seja, própria para alguém que precisa de tomar banho sentado, mas que se pode levantar para entrar e sair da banheira. Expliquei que não servia, prontificaram-se a mudar – espero que o tenham feito -, mas para mim já iam tarde e desenrasquei-me com aquilo.

Para se desculparem, deram-me acesso gratuito ao último andar do hotel, zona VIP, para tomar um pequeno-almoço executivo. Eu que acordo sempre sem fome. O jeitão que me deu…

Tudo isto se passou em Bruxelas, um dos países onde residem e por onde passam pessoas do mundo inteiro. E onde situa o Parlamento Europeu, o centro da democracia de 500 milhões de cidadãos, dizem. Mas também já se passou comigo noutros sítios.

Não é só Portugal que está a anos-luz do que é isto de acessibilidades. A iniciativa do partido teve o seu mérito e valeu muito a pena. Os outros nem nunca tinham pensado em fazer isto. 
Mas, enquanto não houver vontade política de todos os partidos, nada vai acontecer. 

Quero deixar aqui bem clara que a minha admiração por quem se dedica a fundo a esta luta é gigantesca. Mas também pedir que respeitem a minha forma de luta. Viver feliz assim. E passar essa mensagem todos os dias.

Mas não fazer disto o centro do meu mundo. Porque jamais será.

5 de fevereiro de 2013

"Tira-me o pão, se quiseres, tira-me o ar, mas não me tires o teu riso."

Devo confessar que ser mãe nunca teve nos meus planos. Nem casar. Sempre me achei uma pessoa demasiado independente para o fazer. Queria ter um emprego sólido, ganhar dinheiro para dar uma boa vida a quem me rodeava, viajar. Não ter satisfações a dar a ninguém. E esta opinião não mudou depois de ter ficado paraplégica.

Note-se que estar paraplégica em nada interfere com o facto de ser mãe. Em situações normais, ou seja, se não houver outra causa, não é a paraplegia que impede uma mulher de ser mãe. Aliás, vendo a coisa pela positiva, até temos uma epidural natural!
Não faço, portanto, parte daquele grupo de mulheres cujo grande sonho é casar e ter filhos, e blá, blá, blá.
Achava graça a crianças…mas no colinho das mães delas. O que era curioso porque sempre que havia dessas pequenas criaturas por perto, era comigo que elas vinham ter. E, confesso, até tinha jeito para as ditas.
No entanto, fascinava-me quando via uma mãe com o mesmo problema que eu a cuidar de um filho sozinha. Tal como me emocionava quando via um casal apaixonado de verdade. Ainda hoje.
Mas a vida havia de me ensinar mais uma lição.
Em 2003 a minha irmã diz-me feliz: “estou grávida”. E eu pensei: “bolas, vou ser tia! Pela primeira vez, tia”. Sabia lá eu o que era isso e, acima de tudo, como a minha vida iria mudar.
Lembro-me de ter chegado à empresa no dia seguinte e ter contado a novidade às minhas colegas. Uma delas disse: “ui, coitadinha da miúda! Vai levar cada berlaita quando se portar mal!” E eu, claro, com a mania que era dura, acenei com a cabeça como quem dizia: “sim, é bom que se porte bem, caso contrário, palmadinha.” Nunca lhe toquei com um dedo.
Um dia vi uma das ecografias e, chamem-me maluquinha, mas eu vi a minha irmã de perfil. Vi mesmo.
9 meses depois nasce uma bebé com pouco mais de 3 quilos e uns 50 cm. Um pedacinho da minha irmã. Perfeita. E com cara de Carlota. Abanei por dentro.
Quis o destino que aos 9 meses a Carlota e a mana viessem viver para a minha casa e da minha mãe, onde viveram sensivelmente durante um ano e meio.
Foi durante esse período que me deixei conquistar por aquele bocadinho de gente. Foi durante esse período que me tornei numa tia-mãe, como gosto de chamar.
Nada me dava mais prazer que ajudar no banho, dar a papa, a sopa. Mais tarde, quando começou a comer “comida de crescidos”, cozinhar para a Carlota era um bálsamo. Não, estar com a Carlota era um bálsamo. Mesmo quando tinha que cantar e fazer as macacadas mais impensáveis para a distrair. Sim, também eu fingi que as colheres eram aviões e a boca dela a pista de aterragem. 
Sentava-a no carrinho da papa, que tinha rodinhas, e levava-a para onde eu ia. Lembro-me de precisar de secar o cabelo e de a levar até à minha casa de banho, onde ela se divertia com tudo o que apanhava: escovas, tampas, toalhas. O que estava à mão. Depois eu deitava o banco para trás e ela adormecia como um anjo até a mãe chegar do trabalho.

 
Outra coisa com que ela delirava era andar sentada ao meu colo, virada para a frente. Atava-a a mim com um cinto de roupão e corríamos a casa toda. O que ela se ria! E com apenas aqueles dois dentes de cima….E eu, a babar.
Quando começou a falar também foi uma fase inesquecível. Queria explicar-se mas ninguém percebia nada do que queria dizer.
Quando ela tinha um ano, fui hospitalizada. Quando voltei a casa e só podia estar na cama, a Carlota já estava a viver noutra casa com a mãe, no prédio em frente ao meu. Mas continuava a passar grande parte do seu tempo na minha e, em particular, à volta da minha cama. Nessa altura aprendi todas as músicas infantis do mercado. Ela pegava nos cds apontava para a aparelhagem que eu tinha na minha mesa-de-cabeceira e dizia: “muca, muca!” Tradução: queria ouvir música. Lá vinha a Bola do Manel, o Balão do João, a Rosa arredonda a saia e tooooodas as outras. Todas mesmo. E cantava. Mas à deliciosa maneira dela: “Oia a boia Maneli, oia a boia Maneli, foiximboia, fugiu!”…
Quando saía do banho e sentia frio dizia: tenho pio! E quando via a sopa cantava: “xopa, xopa, eu goto de xopa!” Eu, mais uma vez, a babar.
Entretanto a Carlota foi crescendo. E sempre comigo por perto. E por isso cresceu a perceber que a diferença existe mas que deve ser respeitada. Isso sempre lhe foi explicado de uma forma simples, clara. Um dia um colega do infantário que estava numa cadeirinha de rodas recusava-se a fazer algo que todos os outros meninos faziam. Achava que, pela sua condição, tinha o direito de não fazer. Conta-nos a educadora que a Carlota, do alto dos seus 3 anos, se levantou, pôs a mão na anca e disse: “oia, eu tenho uma tia de cadeira de rodas que faz tudo lá em casa. Até se pinta!” Meus Deus, no meio de tudo o que eu fazia por e com ela, do que a miúda se foi lembrar! Mas a mensagem estava lá. A tia era como as outras pessoas.
Hoje tem 9 anos e continua a viver do outro lado da rua. Todos os dias sai para a escola com a mãe às 7h30. E nós, eu e a minha mãe, vamos à varanda só para lhe dizer adeus. Isto desde que nasceu. Tornou-se num hábito que aqui ninguém abdica. E quando não nos vê na varanda assobia o nosso assobio. Só nosso.
É uma miúda equilibrada, feliz. Chanfrada, gozona, teimosa e respondona (hum, sairá a quem…?). Mas responsável, amiga, carinhosa. Adora dar-nos a mão. O que nos derrete. Esteja onde estiver. É das melhores alunas da aula, dança hip-hop e joga futebol como um rapaz. Mas também gosta de pet shops, barriguitas, legos e bonecas. De preferência as Monster High que, para quem não sabe, são umas personagens tipo Barbie mas filhas do Lobisomen, do Frankenstein, do Conde Drácula, entre outros monstros simpáticos. Enfim.
Com esta miúda descobri como é bom ser tia. Muito mais do que isso. Descobri que o amor pode mesmo ser incondicional, não ter limite. E que não há certezas absolutas. Quem sabe se um dia também decido ser mãe. Se tivesse a certeza que me saía uma cópia destas, era 
hoje!
 
Mas uma coisa é certa, se isso nunca acontecer, serei para sempre a tia-mãe mais orgulhosa do mundo.

3 de fevereiro de 2013

Falar de sexo é tabu? Ok, então falemos de sexo.

Sexo. É sempre um tema que prende a atenção...Pois bem, é precisamente sobre isso que vos vou falar hoje.

Escrever-vos sobre isto é expor-me, bem sei. Mas também é ajudar pessoas na mesma condição que eu a desbloquearem este tema, e vocês a entenderem um bocadinho como é estar deste lado. Posto isto, acho que vale o risco.

A idade é, de facto, um posto. À medida que avança, a cabecinha evolui e, o que antes nos constrangia, vai-se relativizando.

Desde que fiquei de cadeira de rodas, sinto que este é um tema tabu. Para muita gente e, durante muito tempo, para mim também. Não me sentia de todo confortável a partilhar o tema "sexualidade na pessoa com deficiência." (é assim que os especialistas lhe chamam)

Por isso não o fazia e deixava que pensassem o que quisessem.

Confesso que já não me lembro quantas vezes me fizeram perguntas sobre o que tinha realmente mudado na minha vida depois do acidente. Mas, tirando uma ou duas pessoas, nunca me perguntaram sobre a sexualidade de uma pessoa nas minhas condições.

Pois falemos de sexo, então.

E primeiro lugar, que fique claro que defendo sexo com amor. Não concebo a ideia de os separar. Chamem-me pudica, careta, o que quiserem mas, para mim, são uma coisa só. Ter e dar prazer, se não for com a pessoa que amamos, de pouco serve. E isto é válido para todos. Não só para pessoas com limitações físicas

Os jovens de hoje não percebem isto. Para eles, sexo é sexo. Não é fazer amor. O que é pena, porque não há nada mais bonito do que FAZER AMOR. E amor, meus caros, faz-se com a pessoa que se ama. 

Não pode ser algo descartável, como quem mastiga uma pastilha elástica e, quando perde o sabor, a deita fora.

Mas voltemos ao tema tabu: sexo em pessoas com limitações físicas. E notem que eu disse físicas, não psicológicas.

 

Sempre achei que o nosso corpo era o que de mais precioso tínhamos e que não fazia sentido partilhá-lo com quem pouca ligação emocional se tivesse. Só porque sim. Porque sabia bem. Porque que é bom ninguém discute.

Conto-vos uma história engraçada. Um dia convidaram-me para dar uma palestra numa escola situada numa zona complicada, com alunos igualmente complicados. Para partilhar com eles a minha história.

Quando entrei naquele ginásio deparei-me com uma plateia de uns 300 alunos, entre os 15 e os 20 anos. No auge da sua sexualidade, portanto. Ah, e de referir que a sua permanência ali era obrigatória. Não podiam baldar-se. O que ajudava imenso.

O barulho era ensurdecedor. Nem deram pela minha presença. E os que deram, olhavam-me com curiosidade. Mantive-me calada até perceberem que só começaria a falar quando se calassem. O que aconteceu passados alguns minutos.

E lá comecei a contar a história da Marta, que aos 15 anos tinha ficado paraplégica devido a uma intoxicação por monóxido de carbono, etc, etc, etc, como tinha ultrapassado a situação e optado por viver em vez de sobreviver. Expliquei que pouco tinha perdido depois do acidente. Que a minha vida tinha-se mantido encarrilada e quase “normal”.

No fim, fiquei à disposição para responder a todas as perguntas e para esclarecer todas as dúvidas que eles tivessem. Mal eu sabia onde me estava a meter!

É importante referir que na altura passava na tv uma novela brasileira onde a protagonista ficava paraplégica na sequência de um acidente. A história desenrolava-se à volta da vida dela. Até que conhece um rapaz por quem se apaixona. E ele por ela, sem que o facto de estar de cadeira de rodas fosse um problema. Nem a perspectiva de vir a ter uma vida sexual diferente.

Aquilo estava bem contado e até eu, durona, me emocionava com algumas cenas de grande ternura e realismo.

E porque os temas das novelas acabam sempre por estar na ordem do dia, uma das alunas, de forma atrevida mas envergonhada, pergunta-me: então mas se está paraplégica não sente, como é que consegue ter uma relação sexual?

A professora dela ia tendo uma síncope. Olha para mim com cor de pimento vermelho, pede desculpa pela pergunta e diz à plateia para alguém fazer outra pergunta.


Eu não tive uma síncope mas gelei. Pior: calou-se tudo para me ouvir. Tudo. E pensei: olha que caraças, como é que eu me safo desta? Como é que eu explico a miúdos de 15 a 20 anos esta conversa de fazer sexo vs fazer amor…?

É um tema bicudo mas pensei: se estas são as dúvidas destes miúdos, porquê fugir delas? Se o fizer, afinal vim aqui fazer exactamente o quê? Respirei fundo, decidi ser sincera, simples e responder com honestidade.

Foi o que fiz. Comecei por defender que, quando nos entregamos a alguém, esse alguém tem que ser mesmo especial. E que quando o fazemos, para além de levarmos o corpo, devemos levar a alma e o coração.

Expliquei que sexo é bom, mas que fazer amor é muuuuito melhor...

Achei que o caso estava encerrado mas enganei-me. A miúda responde: ok, mas se não há sensibilidade, ou pelo menos se não é igual às outras pessoas, como é que sente prazer?

Percebi que estava lixada e que não me ia safar facilmente. Mas lá continuei. Expliquei-lhe que havia várias formas de sentir prazer. E em várias zonas do corpo. E arrisquei perguntar: gostas quando o teu namorado te dá um beijo apaixonado no pescoço? Ou quando te acaricia a orelha? Ela respondeu de imediato: “A-d-o-r-o!” Gargalhada geral.

Disse-lhe que aí estava a resposta e que ela estava a chegar onde eu queria. O nosso corpo é uma caixinha cheia de surpresas e, se investirmos tempo a explorá-lo e a conhecê-lo, ele nos vai surpreender. Muito. E que quando fazemos amor com quem amamos, dar prazer é também mais uma forma de o sentir. Estava tudo ligado.

Quando me calei, o silêncio na sala foi total. Olhei em volta, já não via risinhos escondidos, expressões de gozo, ou de provocação. Via, sim, um grupo de miúdos atentos, com um sorriso sincero nos lábios como quem diz: “Bolas, se calhar tens razão…”

E vi outra coisa que nunca mais me vou esquecer: um rapaz a piscar o olho à namorada, a dar-lhe a mão, e a abraçá-la, apertando-a contra ele.

No fim da sessão, que em vez de durar 1h durou 2h, levantaram-se e bateram palmas. Que bom, tinham gostado, pensei. E tinham gostado porque queriam mesmo perceber isto e nunca ninguém lhes tinha explicado de uma forma simples e directa.

Foi nessa altura que percebi que a mensagem tinha passado: que a fórmula é juntar amor ao sexo e, claro, alguma imaginação! E que, se assim for, o corpo corresponde.

E que o amor, quando é sincero, não é descartável. Porque, ao contrário da pastilha elástica, o amor quando é verdadeiro, nunca perde o sabor.