18 de fevereiro de 2013

Vida, se me estás a ouvir, regista isto. Porque não quero ter que repetir.


Quero mais tempo de vida. A média que me dás não me chega para fazer tudo o que quero.

Quero mais dias felizes. Aliás, é mais simples que isso: não quero dias infelizes.

Quero mais sorrisos. Melhor, quero gargalhadas.

Quero mais gente preocupada com a própria vida, do que com a vida dos outros.

Quero a vida profissional vs pessoal mais equilibrada.

Quero que me rodeies de gente verdadeira. Já não se aguenta malta invejosa.

Quero gente optimista e que não desiste, apesar da caca de momento que estamos a passar.
Quero mais equilíbrio social. Porque a balança anda baralhada e precisa de arranjo.
Quero estações do ano definidas. As de hoje roubam os dias umas às outras, e assim nunca sabemos com que contar. E isso irrita-me.



Quero menos carros. Mas transportes públicos que sejam alternativas viáveis.
Quero mais bicicletas, mas também ruas com mais condições para as receber.
Quero mais acessos para as pessoas com mobilidade reduzida. Os que existem são inúteis, para não dizer ridículos.
Quero um Governo sério, que lute pelo meu país. O que lá está, só sabe lutar por ele próprio.

Quero uma igreja credível, que nos ajude a ultrapassar os males da alma. Não quero Papas com sapatos Prada e ouro por todo o lado.
Quero um país onde os jornais em papel não tenham um fim. Porque o cheiro das folhas e o ritual das folhear não se pode perder.

Quero um país onde os jovens consigam acabar os seus cursos e encontrar o emprego dos seus sonhos.
Quero um país que explique as vantagens de emigrar. E que não nos obrigue simplesmente a fazê-lo.

Quero um país que trate bem as crianças. E que não as deixe sentir na pele os erros dos adultos.
Quero um país que trate bem os velhotes. E que não os abandone em casa, onde um dia são encontrados mortos, ou os deposite num lar.


E, aproveitando que falo dos velhotes, quero um país que os recompense financeiramente de anos de trabalho e não lhes passe uma rasteira quando já poucos anos lhes restam.

Quero um país que permita a um doente terminal morrer com dignidade. Hoje, para o fazer, ou contamos connosco, ou quem nos ajuda é preso.

Quero um país que permita que dois homens ou duas mulheres que se amam, possam transmitir esse amor a um filho. Ao seu filho.

Quero um país que feche na cela quem mata e burla, mas que esse “quem” seja rico ou pobre. Hoje a justiça não é igual para todos.
Quero um país que não enfie alguém numa prisão três anos por roubar comida num supermercado e os mesmos três anos a quem abusa de uma criança.
Quero um país dê direitos aos animais. E que puna quem os maltrata. E puna a sério. E isto também implica acabar com touradas.
 
Quero um país que se una para passar para fora o que de melhor se faz cá dentro. Porque o que é nacional é mesmo bom.

Quero um país que não seja apenas conhecido pelo fado, futebol e saudade. Gosto dos três, mas quero mais.

Quero um país atraente para jovens empreendedores estrangeiros montarem empresas inovadoras.

Quero um país que aposte fortemente no ensino do Inglês, do Português, Educação Física e Cívica e Artes Visuais. Só assim teremos adultos preparados para enfrentar o mundo, que sabem escrever e falar correctamente a sua língua e outras, saudáveis, criativos e civilizados.
Quero um país que lute e que nunca desista. E que se una a sério quando é preciso falar mais alto para se fazer ouvir.

Enfim, quero isto e muito mais. Porque sou uma jovem que, apesar de tudo, se orgulha do seu país e que ainda acredita que Portugal vale a pena. Por isso quero o melhor.



E pronto Vida, assim de repente é disto que me lembro.
Sei que são ideias soltas e sem grande sequência lógica, mas podes organizá-las como quiseres. Desde que te mexas. Porque alguma coisa tem que acontecer. Parada é que não pode ser.
 

17 de fevereiro de 2013

Chorar lava a alma.

Sou uma chorona, confesso. Mas dizem que chorar é bom.

Quem olha para mim pensa que não, que sou uma fortalhuda. “Ah, já passou por tanto que ganhou calo”. Ganhei, é verdade, mas, lamento desapontar, continuo uma chorona.

Pensando bem, talvez a culpa das pessoas pensarem assim até seja culpa minha. Durante muito tempo, sempre contei os zigue-zagues da minha vida pela positiva, sem grandes dramas. Sei que foram, claro, mas não as sabia, nem sei, contar de outra forma. E isso rotulou-me. Hoje, se me vou abaixo, estranham. Assustam-se. Dizem “não…a Marta…não pode ser…!”

A verdade é que, mesmo contando as minhas histórias desta forma, tal não lhes retira a crueldade com que rasgaram a minha vida. Rasgaram, mas cozi-a com as melhores agulhas do mundo: o amor das mãos de quem sempre acreditou que a vida podia e ia continuar. A minha mãe, a minha irmã, os meus amigos. E, continuou, é um facto. Afinal, estou cá, não estou?

 
É certo que a vida me endureceu. Mas não é linear que, porque a vida me fez passar por situações complexas, o que para os outros é um problema, deixou de o ser para mim. Talvez haja apenas uma diferença: perco pouco tempo a chorar e a bater com a cabeça nas paredes. Porque me obrigo a parar, a analisar friamente a situação, a procurar encontrar caminhos e a seguir aquele que acho que me vai tirar mais rapidamente daquela situação. Funciona sempre? Não. Galo…Aí repito o processo, e repito, e repito, até resolver a situação. Pode demorar um bocadinho. Mas não “penduro as chuteiras”. Nunca. 

Depois há um truque que, eu diria, é infalível: quando não se consegue encontrar estes caminhos sozinha, pede-se ajuda a quem achamos que pode ajudar. No meu caso, nem é preciso porque, quem me conhece bem, apanha a coisa no ar e põe-se em campo antes de eu abrir a boca para me queixar.
 
Mas a vida surpreende-nos sempre. E se alguma coisa aprendi com a minha foi que, mesmo das situações mais difíceis, quase sempre podemos retirar alguma coisa de positivo, algum ensinamento.

Às vezes penso: quem seria eu hoje se aos 15 anos não tivesse ficado de cadeira de rodas? Quem seria eu hoje se aos 29 não tivesse estado a patinar 6 meses com uma infecção que decidiu dominar o meu corpo? A mesma Marta que todos conhecem? Duvido. E duvido muito.

Um dia vi um filme curioso, com o James Belushi (Larry) e o Michael Caine (Mike), que me marcou. Chamava-se Mr. Destiny e contava a história de um jogador de basebol que falhava uma bola decisiva na equipa do liceu, e que atribui a esse momento o fracasso em que a sua vida se tinha tornado. A certa altura, ao fugir da polícia, Larry entra num bar onde conhece um barman, que não é mais que o seu anjo da guarda. E que lhe dá a oportunidade de experimentar viver a vida se não tivesse falhado aquela bola, naquele momento. Torna-se, assim, num homem rico, invejado. Mas também cheio de problemas e que perde quem, de facto, amava. No fim, vêem-se luzes fora do bar. E, quando tudo indicava que se seria a polícia, não passavam das luzes de um carro de reboque. Larry percebe que voltou à sua vida normal, aquela vida em que falhou a bola. Luta e volta a arranjar emprego, a endireitar a sua vida. Mas uma vida onde pode contar com quem o ama para o ajudar a reerguer-se.

Eu não tive oportunidade de ver “como seria se” mas, sinceramente, sinto que se não tivesse passado por nada disto, talvez não me orgulhasse tanto de mim como me orgulho. Desta Marta, com coisas boas e coisas más, mas que ultrapassou, está cá para contar a história e, por vezes, até dá alguma esperança a quem precisa dela.

 
Por outro lado, com estas rasteiras da vida, também aprendi a aceitar que não controlamos nada. Que o que tiver que acontecer, acontece. Se for mau, ou nos entregamos à coisa, ou a enfrentamos. Mas sem contemplações, sem medo. Sem nunca entrar na luta a pensar que a vamos perder. Entrar para ganhar.

Para terminar, só uma nota para aqueles que me acham uma fortalhuda que não chora. Estão longe de me conhecer bem. Basta porem-me à frente de uma criança, de um velho ou até de um cão felizes. Dêem-me um dia bom no trabalho, uma palavra de conforto num dia mais complicado. E o mais certo é a torneira pingar.

Não é assim todos os dias, calma, mas é sempre que sinto que preciso. Vergonha? Hoje em dia, nenhuma.

Afinal, “Quando se não chora, parece que as lágrimas nos caem todas cá dentro e queimam; e o padecimento é, então, de morte."
 
E, eu, caso não saibam, só estou a pensar em patinar lá para os...vá, 115!

15 de fevereiro de 2013

Carta de amor para o amor da minha vida.

Hoje estás aqui, deitada ao meu lado. Na minha almofada. E eu a meia-luz, para não te incomodar. 

De vez em quando mexes-te. E o teu cheiro espalha-se no ar. Cheiras a lavadinho, a novo, a fresco, a puro. Cheiras a tudo ao que de bom a vida te vai dar. Cheiras ao que de melhor a vida me podia ter dado.

Estás aqui, ao meu lado, enroscada. Enroscadinha. Com uma das mãos por cima de mim e a outra a agarrar na porca de peluche que a mãe te deu. E na fralda de sempre. Hás de ter 18 anos e dormir com a fralda. Pensando bem, espero que sim. Quer dizer que ainda não deixaste de ser a minha miúda bebé.

Apetecia-me conseguir não adormecer para poder ficar a olhar para ti. Aqui, quentinha, ao meu lado, no conforto. Não fosse o cansaço de um dia de nervos e era o que fazia.
Mas estes dias esquecem-se e tornam-se irrelevantes quando chego a casa, tenho a minha malta à espera, a televisão nas notícias, o jantar preparado, a lenha a crepitar. Risos. Os teus risos. E “tia-para-aqui-tia-para-ali”.
Vês-me no computador enquanto jantas e dizes-me “pronto, já estás a escrever para o teu blog!”. Explico-te que não, que "ainda estou a trabalhar”. Respondes-me “mas não devias”. E tens razão. De facto, não devia.
Depois dizes-me que tiveste Muito Bom a tudo. Mas que ainda tens mais uma surpresa para mim. E dás-me um postal do Dia dos Namorados. O postal que tu fizeste para o Dia dos Namorados. “Porque ninguém liga às tias, não têm dias…Estúpidos. Nunca ninguém se lembrou de lhes dar um dia. Pronto, assim, este fica o meu dia para ti.”
Já tínhamos um, o 18 de Abril, lembras-te? Nem me lembro porque foi o 18 de Abril. Mas já o é há 2 anos. Na altura fizeste-me um desenho com esta data e colaste na parede do meu quarto. “Assim não nos esquecemos nunca” disseste. Agora também temos este. “Porque não tens namorado e porque assim é também um dia a que muitas pessoas dão atenção”. Seja isto o que for…!


Há 9 anos a minha vida ganhou cor. Ganhou um arco-íris tão grande, que torna qualquer dia de chuva num momento fantástico e memorável. És tu, a “txuca da tia”, como gostas que te chame. 

Quando cresceres vais ser uma miúda porreira. Tenho a certeza. Uma miúda de quem me vou continuar a orgulhar todos os dias de ser tia.

Vá querida, agora dorme bem, que tens que acordar cedo. A tia está mesmo aqui ao lado. Sempre. 

Um beijo e bons sonhos. Amo-te.

13 de fevereiro de 2013

Aos professores que, não só me ensinaram, mas que também me marcaram.

Há professores que nos marcam para a vida. Acho que eles nem se apercebem. E nós, tantas vezes, só mais tarde.

A mim marcaram três. Uma pela negativa e dois pela positiva. Comecemos pela pior, para podermos acabar com os melhores.
Chamava-se Silvina e foi minha professora da 1ª à 4ª classe. Era velha e "má como as cobras”. Tinha uma régua enorme e grossa – pelo menos na altura parecia-me enorme e grossa – com que nos batia nas mãos quando nos portávamos mal.

Lembro-me do António. Para nós, o Tony. Era um rapaz gorducho, de bochechas coradas, que se portava mal com alguma frequência e quase nunca fazia os trabalhos de casa. A vida familiar dele não era fácil. Nós sabiamos que não tinha um ambiente equilibrado em casa.

Quando chegava a altura do Tony mostrar os TPC's, e a professora percebia ele que não os tinha feito, a sala ficava mais pequenina. O tecto mais perto de nós. Porque sabíamos o que aí vinha.


A professora levava-o para a casa de banho, que ficava num dos cantos da sala, baixava-lhe as calças e dava-lhe reguadas atrás de reguadas. Até a mim me doía. Aliás, doía à turma inteira. Mas nem piávamos, com medo. E ele nem uma lágrima deitava. Mas percebiamos pelo seu olhar a dor que ele sentia por dentro. A dor de ter sido, mais uma vez, humilhado por aquela mulher. Lembro-me bem da cara dele.

Um dia foi comigo. Devo ter feito alguma coisa que ela não gostou e imediatamente me mandou estender as mãos. Estendi, claro. Deu-me três reguadas em cada uma. Nunca mais me esqueci. A força foi tal que as mãos incharam. Chegou a hora de almoço e, como fazia sempre, fui almoçar à cantina. Mas com as mãos doridas não conseguia pegar bem no prato. A D. Noémia, cozinheira, reparou. E passou-se. Obrigou-me a ir ao gabinete da Drª. Sara, directora do externato, e contar o que se tinha passado. Contei não só as minhas reguadas, mas também as reguadas do Tony, e as de todos os outros meninos. Nesse dia fui a heroína da turma! Mas bem me tramei nos dias seguintes!
A professora Silvina também foi chamada ao gabinete. Não sei o que se passou lá dentro. Só sei que nunca mais nos bateu. Só que, de vez em quando, vingava-se de mim. Não me batia mas obrigava-me a ir para o “cochicho”, uma mesa, separada de todos os outros colegas por uma parede fininha de madeira. Só tinha vista para…a professora. Isto antes de eu ir para lá. Porque enquanto lá estive, e com o bico de uma caneta velha, fui fazendo um buraco na parede, devagarinho, devagarinho, e também fiquei com vista para a mesa da Cláudia. Ora a Cláudia era "só" a melhor aluna da turma. E, quando se apercebeu do buraco, punha os trabalhos a jeito para que eu conseguisse copiar se precisasse. Nem precisava, mas se fosse necessário, dava para ver. Ao fim de 2 semanas, voltei ao meu lugar, perto do resto da turma. Mas o buraco lá ficou. Para o próximo.
Mas este foi o mau exemplo, vamos aos bons.
 
 
O Filipe. Era o nosso novo professor de Educação Física. Por questões familiares, tive que faltar à apresentação. Por isso, assim que entrei na 2ª aula, oiço um “ah, então esta é que é a espertinha que se baldou à 1ª aula”. Disse-o para toda a turma ouvir. A relação tinha começado mal. Mas cedo percebi que o Filipe era um professor diferente. E a grande diferença estava na forma como se relacionava com os alunos e a paixão com que se dedicava ao seu trabalho. Não ensinava apenas as cambalhotas, os pinos, o futebol e as coisas normais de um professor de Educação Física. Esforçava-se por ensinar outras modalidades, promover o espírito de equipa, ser amigo dos alunos. Até Basebol, Jogo do Pau e Folclore aprendi. E, como eramos apenas três miúdas na turma de Desporto, a luta para fazer os pares no Folclore era sempre caótica. O Filipe também foi o primeiro professor de Educação Física que nos pôs a fazer testes escritos da disciplina. E não dentro da sala. Sentados nas bancadas do Estádio 1º de Maio.
Fiquei de cadeira de rodas precisamente na altura em que era aluna dele. Talvez um ou dois meses antes. Lembro-me de termos ido passar um fim de semana à Serra da Estrela pno fim de Fevereiro. O acidente aconteceu a 11 de Março. Já não puderam contar comigo em Peniche (acho que era Peniche…), para o jogo de vólei contra uma escola da zona.

O Filipe entrou assim na minha vida. E nunca mais saiu. 23 anos depois, é um dos meus melhores amigos.

E, para terminar em grande, mais um bom exemplo: a professora Fátima. Ensinou-me a disciplina de Jornalismo, penso que no 11º ano. Nem ela sabe, mas foi a responsável por eu ter seguido o caminho da Comunicação e, claro, por me ter lembrado de escrever esta história.

Tantos e tantos anos depois, recebi ontem um email dela que me tocou profundamente.

Dizia mais ou menos isto:

"Minha querida Marta, um dos meus filhos soube do seu blog e deu-me conhecimento. Fiquei tão contente por ter notícias suas!
Não sei se ainda se lembra de mim, fui sua professora de jornalismo no "Rainha". Nunca vou esquecer aquela miúda "refilona", cheia de alegria e muito querida. Já li tudo o que escreveu e acho que escreve muito bem. Não sei se este email vai chegar, pois não sei se o endereço está correcto.
Um beijinho grande."

Foi esta senhora que me ensinou a escrever notícias e a interessar-me por jornais. As aulas dela eram, a par das do Filipe, das únicas que eu gostava. Lembro-me que já estava de cadeira de rodas e do trabalho de fim de ano ser fazer uma reportagem. Tinha saído de Alcoitão há um ano e, como tinha odiado lá estar, queria aproveitar para denunciar o que eu achava que se passava de errado naquela instituição. Não me deram autorização, claro.

A vida avançou, entrei para a faculdade, tirei Comunicação e hoje cá estou, a trabalhar na área.
Foram 20 e tal anos a estudar e, de todos os professores que me marcaram, estes foram os tais. Um agradecimento do tamanho do mundo ao Filipe e à Fátima por terem influenciado, de alguma forma e em algum momento, a minha vida, o meu percurso.

A professora Silvina já morreu, o Filipe continua por perto, muito perto. E a Fátima apareceu de novo na minha vida. Se este blog não servir para mais nada, já serviu para isto. Fico feliz por isso.

11 de fevereiro de 2013

Às "senhoras da limpeza”. Porque não se deve esquecer ninguém.


Maria, menina Sofia, Lena, D. Piedade, Gina, Maria José, Paula, Gorette, Lucy e, mais recentemente, Emília e Alcione. Houve outras mas destas lembro-me bem.
E a pergunta é? O que terão em comum estes nomes? Pois eu respondo. São os nomes de algumas senhoras que, ao longo dos meus 37 anos, trabalharam em nossa casa. Algumas mais tempo, outras menos. Mas todas, de alguma forma, me marcaram e, por isso, merecem uma história só para elas. Aqui está.

Falemos da Maria. A Maria devia ter uns 40 anos. Tinha um ar meio alucinado e três características maravilhosas. 1º, todos os dias de manhã trazia de sua casa duas carcaças com manteiga “para as meninas”. A 2ª característica não era assim tão simpática: enquanto arrumava a casa bebia o vinho todo que havia na dispensa. E a 3ª, penso eu que ligada à segunda, fazia chichi na pia da cozinha (sim, a nossa casa em Alvalade era antiga e, antes das obras que entretanto fizemos, ainda existiam pias ao lado dos lava-loiças). Claro que, quando a 2ª e a 3ª foram descobertas, tivemos que dispensar a Maria.
Depois vem a menina Sofia. Não era propriamente uma menina, mas como já vinha com esse nome de casa dos meus tios, onde já trabalhava há alguns anos, manteve-o. Ora, a menina Sofia era tipo madame Rottenmeier, da Heidi. Ríspida, dura, intransigente. Comigo e com a mana. Porque com o Pantufa, o nosso cão da altura, era um doce. Gostava mais dele do que de nós. Ah, e obrigava-me a beber sumo de maracujá, que ainda hoje odeio. Claro que quando ela virava as costas por minutos, eu despejava o copo de sumo numa das plantas lá de casa. Note-se que ditas murcharam em pouco tempo.



Agora a Lena. Era uma jovem. Vaidosa. Sempre que podia, enfiava-se no quarto dos meus pais onde passava o tempo a vestir as roupas da minha mãe, pintar-se com a sua maquilhagem e a borrifar-se com os seus perfumes. Eu e a mana víamos aquilo e não achávamos graça nenhuma. Um dia apanhámo-la distraída e, para a castigarmos, decidimos trancar a Lena no quarto. E assim foi. Devíamos ter uns 4 ou 5 anos. Unimos as nossas mãos, ainda pequenas, agarrámos na maçaneta da porta e, com todas as nossas forças…pumba, batemos com aquilo. Falta dizer que aquela porta estava com um problema e, quando fechada desta forma, dificilmente se abria. Foi preciso chamar a D. Susana, a vizinha do andar de cima, quase nossa 2ª avó, para vir salvar a rapariga. E lá veio a velhota, com um afiador de facas, tentar tirar a Lena ali de dentro. E eu e a mana a rirmo-nos num dos cantos da sala. A operação de resgate demorou. A mãe entretanto chegou a casa e deparou-se com aquele belo cenário. Claro que, quando a porta finalmente se abriu, a Lena foi…simpaticamente dispensada. Mas atenção: ia cheirosa. Viemos mais tarde a saber que até o leiteiro pensava que ela era irmã da minha mãe porque, quando lhe abria a porta, estava sempre vestida com as roupas iguais às da sua suposta “mana”.
Entramos na era Piedade. A Piedade era pequenina e usava um coque grisalho no alto da cabeça. Tinha uns 60 anos e cara de bruxa. Mas, coitada, não era má pessoa. Só se transformava quando via na televisão o Torres Couto, na altura secretário-geral da UGT. Quase que o comia. Um dia, antes de sair, estava a Piedade na casa de banho a ajeitar o cabelo e retirou o coque. Nunca a tínhamos visto sem aquilo na cabeça. Tinha o cabelo comprido. Até aos joelhos… Quando me viu a mim e à minha irmã à espreita, olhou para nós com os olhos de bruxa que tinha. A partir daí, ganhámos-lhe um medo de morte. Passado poucos dias, também foi “à vida”.

Veio a Maria José. Uma velhota com 70 anos que se mexia melhor que uma rapariga de 30. A casa arrumada por ela ficava um brinco. Na altura eu já estava de cadeira de rodas mas, como a minha cadeira não entrava na casa de Alvalade, e ela não podia comigo ao colo, a Maria José esticava um cobertor no chão, sentava-me lá, e puxava-me pela casa, até ao sítio onde eu queria ir! Não parava nunca. Só quando caiu em casa dela, partiu uma perna e teve que deixar de trabalhar.

Passemos à Gina. Uma cabo-verdiana com 1m80, gira, gira. Mas estragada pela vida dura que levava. Gostava muito dela. Dava-me uma ajuda enorme. De tal maneira ficámos amigas, que era a única que, a par da minha mãe e irmã, eu deixava que me fizesse o penso a uma escara terrível que tinha feito na zona do coxis. Mas, apanhada em algumas mentiras, tivemos que a dispensar também.

Depois veio a Paula. Baixinha e gordinha, devia ter a minha idade. Era a tal que arrumava a casa a abrir para irmos as duas para a Sul América beber cafés e fumar cigarros. Pegava em mim às cavalitas, descíamos 3 lances de escadas, sentava-me na cadeira que ficava no hall do prédio, e lá íamos nós. Uma companheira. Mas um dia apaixonou-se por um rapaz e decidiu seguir a sua vida.
Da Gorette só me lembro porque era a senhora que trabalhava lá em casa no dia em que eu fiquei de cadeira de rodas. Nesse dia era para vir de manhã mas não conseguiu e ligou a dizer que vinha à tarde. Se tivesse vindo de manhã, talvez eu não tivesse ficado de cadeira de rodas.
Foi durante esta fase que eu e a mana eramos conhecidas como as irmãs metralha. Vá-se lá saber porquê…
Depois largámos Alvalade e fomos viver para a outra margem. Aqui tivemos a Linda, uma cabo-verdiana loira de olhos verdes e cabelo aos caracóis, mas que passados uns anos preferiu regressar à terra. Seguiu-se a Lucy, uma prima dela, boa rapariga, caladona, brutamontes e metódica. Tão metódica que, quando era preciso começar a arrumar a casa por uma divisão diferente, se baralhava toda. Ah, e era exímia em dar-nos cabo de aspiradores. Na era Lucy, que durou quase 7 anos, devemos ter tido uns 4.

Chegamos, por fim, a 2012. E com a saída da Lucy e a morte do Gaspar – que largava pêlo por todo o lado, o que nos obrigava a aspirar a casa diariamente – optámos por contratar uma empresa para, uma vez por semana e em 2 horas, nos dar uma volta à casa. Apareceram-nos 2 irmãs brasileiras – a Emília e a Alcione. Enxutas, bem-dispostas, espertas que nem alhos, rápidas e que não estão ali para brincar. Acabamos por falar sempre um bocadinho, é certo, porque gosto delas, mas em duas horas a casa fica pronta. E num brinco.

E pronto, aqui deixo a minha homenagem a estas senhoras, de quem nunca ninguém fala mas que tanto nos ajudam diariamente. As nossas eram umas mais maradas que as outras, é certo, mas todas com algo em comum que sempre as distinguiu: partilharam e partilham o meu espaço. Fazem parte de importantes pedaços da minha vida. Estiveram lá e ajudaram no que puderam. Sem pensarem duas vezes. É por isso que também merecem estar aqui. É por isso que o meu agradecimento é público e de coração.


10 de fevereiro de 2013

Desistir, não obrigada!


Quis ser veterinária, quis ser hospedeira. E astronauta. Mas, afinal, quem não quis?

Depois, à medida que fui percebendo o que era isto de ter uma profissão, escolhi a minha. Foi assim que cedo decidi o que “queria ser quando fosse grande”. Jornalista. “Pivot de Telejornal”, como eu explicava.

Só mais tarde percebi que “Telejornal” era apenas o nome do noticiário da noite da RTP.

Na altura, tinha eu uns 12 anos, a minha referência era Manuel Moura Guedes. Gostava da irreverência dela. Depois a senhora descontrolou-se, é certo, mas teve tempos de grande jornalista.

Mais tarde passei a seguir a Alberta Marques Fernandes. Gostava da sua determinação. Hoje a minha preferência vai para a Clara de Sousa. Identifico-me com a firmeza com que me passa as notícias. Mas também gosto de ouvir o Rodrigo Guedes de Carvalho e o João Adelino Faria. Estilos diferentes mas ambos me agradam.

Quando a SIC nasceu, há 20 anos, rendi-me. À ousadia, ao formato, ao colorido e à dinâmica. À inovação. Gostei da vontade de fazer diferente. Era aquele tipo de informação que eu queria e sabia que ia ser boa a fazer. Confesso que só não me rendi ao entretenimento porque, de facto, não me identifiquei, nem identifico, muito com aquilo. Mas também não me identifico com o de nenhum outro canal.

Bom, mas foi com as antenas apontadas para a ir parar à SIC que fui tirar Ciências da Comunicação, vertente Audiovisuais e Media Interactivos, à Nova.

Contudo, no 3º ano da faculdade uma grande amiga pergunta-me o que é que eu achava da ideia de ir a uma entrevista à empresa onde ela trabalhava, de tecnologia, para o lugar de relações com os media. A minha resposta foi “epá, mas isso não é coisa de ministro”? Ela riu-se e respondeu “vamos entrar em bolsa e queremos começar a construir uma relação com os jornalistas que seguem a área de tecnologia, generalista e economia.” O skills necessários eram um curso na área (que ia ter), e algum à vontade para falar com um grupo de profissionais considerado “difícil”. “À vontade é comigo mas difícil porquê?” perguntei. “Bom, a ideia que se passa, se calhar até injusta, é que estão sempre à procura de polémica e nós só queremos mostrar o que andamos a fazer de bom e como o que fazemos pode mudar a vida das pessoas.”

Na altura tinha um objectivo: terminar o curso e seguir o sonho de ser pivot da SIC. Mas lá fui à entrevista e a vida acabou por me trocar as voltas, mostrar-me outros caminhos e comecei a estagiar nesta empresa.

Percebia zero vírgula zero de bit e bites. E disse-o na entrevista. Mas também disse que não era burra e ia aprender rapidamente. No entanto, acho que o que me safou foi quando acrescentei que, se eu percebesse o que escrevia, qualquer jornalista ia perceber. E se qualquer jornalista percebesse, passaria de forma correcta a mensagem ao leitor. E assim a nossa missão ia estar cumprida. Informar e tornarmos visível uma empresa que na altura ninguém conhecia.

Aceitaram-me como estagiária. Tinha 23 anos.




Comecei do zero. Houve alturas em que pensei que jamais iria conseguir fazer o que esperavam de mim. Chegava a casa a chorar e a jurar a mim própria que não ia voltar no dia seguinte. Lembro-me de um dia em que não estava a conseguir fazer o que um dos meus chefes me tinha pedido para fazer num prazo apertado, e que me enfiei na casa de banho a chorar. No fim, respirei fundo, olhei-me ao espelho e limpei as lágrimas. Ganhei coragem, cheguei ao pé dele e disse-lhe “olha, desculpa mas não sei fazer o que me pediste, vais ter que me ajudar.” Ajudou, claro. E cumprimos o prazo. Assunto resolvido, e assim, aprendi que não tinha que saber fazer tudo e que, por vezes, valia a pena assumi-lo e pedir ajuda.

Os primeiros anos não foram fáceis mas, à medida que o tempo foi passando, e que as notícias sobre a nossa actividade iam saindo na imprensa, fui ganhando confiança.

Isto foi há 14 anos. E, apesar de acreditar que estamos sempre a aprender, sinto que já domino bem o que preciso para fazer um bom trabalho nesta área. E gosto verdadeiramente do que faço.

Mas a empresa foi crescendo, o mundo mudando e, 14 anos depois, o palco onde se comunica e a forma como se comunica também. O que os levou a proporem-me manter a função que tinha mas a investir noutras áreas da comunicação. Áreas que nunca dominei. Aceitei. A medo, porque significava sair da minha zona de conforto. Mas aceitei. Mais uma vez pensei: se não souber aprendo, e posso sempre pedir ajuda. E sabem que mais? Há coisas boas e coisas menos boas, mas estou a gostar.

Claro que há ainda momentos em que me apetece largar tudo e ir vender legumes à beira da estrada, cocos no paredão da Caparica, sandes na praia, whatever! E, sim, ainda há momentos em que me irrito e digo: amanhã não volto! Mas são só momentos. Volto sempre. E volto para dar o meu melhor. Porque se der o meu melhor, tenho a certeza que consigo fazer. Até o que achava impossível. Se falho? Claro que falho. Montanhas de vezes! Mas tento outra vez até sair bem. E raios ma partam se não sai!

Para terminar, que já me alonguei demais, uma frase que resume o que vos quis passar: os cobardes nunca tentam, os fracassados nunca terminam, os vencedores nunca desistem.
E desistir é uma palavra que devemos apagar dos nossos dicionários. Eu já apaguei do meu.





9 de fevereiro de 2013

"A força não provém da capacidade física, mas da vontade férrea."



Alcoitão 1991. Foi nesta data que fui para lá, depois de 1 mês internada em Santa Maria. Tinha ficado paraplégica e, afinal, na altura aquele centro era o melhor local para iniciar a minha recuperação. Mas eu diria que era antes praticamente o único.

Alcoitão era um edifício enorme, com grandes jardins à volta.

Lá dentro, os corredores eram largos. O chão, se a memória não me falha, era preto e branco. Em xadrês. Bar, minimercado e papelaria. Onde eu comprava quilos de Tio Patinhas.

Tinha 3 pisos. O dos adultos, o das crianças até aos 15 e o dos mais velhotes.

Como eu estava no limite dos 15, e porque se dizia que a equipa médica era a melhor, fiquei no das crianças.

No meu quarto havia 6 camas. E andaimes vermelhos por todo o lado, porque aquilo estava em obras. O que ajudava a tornar o sítio ainda mais desagradável e frio.

Quando fiquei paraplégica, ou melhor, quando me apercebi que não sentia as pernas – porque paraplegia era um termo que nem conhecia bem – não entrei em pânico. Talvez por alguma ignorância, porque nunca tinha ouvido falar do assunto. E, por esse motivo, não conhecia a gravidade de “não sentir as pernas”.

Por isso, a minha atitude foi de alguma tranquilidade e “bom-deixa-lá-ver-se-isto-passa”. E porque a atitude era esta, continuei bem-disposta e a lidar bem com a situação. Fiquei à espera. Até porque achei que era mesmo uma situação passageira. Aliás, durante algum tempo foi assim que encarei a coisa. Eu e todos os que me rodeavam. Hoje, à distância, percebo como isto foi importante para aceitarmos o que tinha acontecido: foi gradual.

Mas voltando a Alcoitão. Entrei, penso que em Abril. A ideia era fazer exercício ao máximo para recuperar a sensibilidade que tinha perdido da cintura para baixo.

Todos os dias tinha a visita dos meus pais e irmã mas, até me habituar à ideia de ter que ficar internada, custava-me muito quando chegava a hora do “bem, querida, temos que ir embora, está na hora de ires jantar…” Vê-los dobrar a esquina do corredor, vê-los a voltar à vida que eu não podia ter, mesmo sabendo que no dia seguinte estariam comigo de novo, o meu coração partia-se ao meio. Fartava-me de chorar.


Uma parte dos dias passava-se na sala de fisioterapia. E, porque estava no piso das crianças, também numa sala de jogos e pinturas. Ora, não sendo eu propriamente uma criança, sempre que podia pisgava-me para o bar do piso 0, onde trabalhavam dois jovens surfistas com muito bom aspecto e com quem eu, obviamente, preferia passar o tempo. Nem se contam as tostas mistas que eu comi na altura só para ter motivo para lá ir…!

Ainda houve quem me tentasse vir buscar e convencer que tinha que participar nas actividades de grupo. Mas não conseguiam. Cantar o “Atirei o pau ao gato” e desenhar casinhas com chaminés e flores não era, de todo, alternativa a estar no bar à conversa com surfistas tão giros.

Não posso dizer que arranjei amigos em Alcoitão porque não arranjei. Até porque eu estava lá para recuperar e à sexta-feira ia a casa de fim de semana.

E aí, sim, estava com os meus amigos. E aí sim, fazia o que gostava. Lembro-me de ir para a praia. Muita praia. De me pegarem ao colo e de me levarem para dentro de água. Algo que, com o tempo e por circunstâncias que darão um dia para mais uma crónica, deixei de fazer.

Quando me “apresentava ao serviço”, na 2ª feira de manhã, e eles viam os escaldões nas pernas, passavam-se comigo. Com razão, porque eu tinha que ter cuidado. Mas também me divertia ver as caras deles.

Lembro-me do cheiro daquilo. Lembro-me do cheiro do perfume que usava na altura. O El Charro. Lembro-me de gostar de sutiãs de renda às cores e das auxiliares se meterem comigo por isso. Lembro-me deles não entenderem que eu preferia tomar banho com o gel de banho que a minha mãe me comprava do que usar o Manipur, marca que eles usavam no Centro. Lembro-me que, por tudo isto, deixei de ser a Marta para passar ser “a Madame”.  

Na altura Alcoitão tinha poucos profissionais (diziam eles, porque o que eu acho é que gostavam de sair cedinho) e, por isso, não me punham na piscina. E tinham uma fantástica. Mas rapidamente arranjámos alternativa. Durante a hora do lanche, que coincidia com a hora das visitas, vestia o meu biquíni amarelo fluorescente com laçarotes de lado e ia nadar para a piscina do Muchaxo, no Guincho. Depois parávamos no Tamariz para lanchar. Também havia coisas boas.

Mas Alcoitão não via isto com bons olhos. Alcoitão não estava preparado para receber uma família que quebrava regras, rotinas. Que não perdia facilmente a esperança. E a minha era assim. Sabíamos que era difícil mas tínhamos que tentar. Em Portugal ou noutra parte do mundo.

Ali “pensava-se o pior, pode ser que aconteça o melhor”. A minha família preferia “pensar o melhor, porque era o melhor que ia acontecer.” Pensar positivo. E isto foi um problema lá dentro.

Desde logo comigo, quando a psicóloga meteu na cabeça que eu tinha que ir ao “fundo do poço” e depois sair de lá. “Fundo do poço”. Era uma expressão deles, não minha. Bem tentei explicar que acreditávamos que aquilo ia passar, que eu ia voltar a andar e que íamos tentar tudo. Mas eles insistiam no raio da conversa do poço. Claro que esta questão acabou por dar barraca, com a minha mãe a proibir a psicóloga de voltar a falar comigo. “Se a Marta precisar, ela vem ter consigo. O contrário eu não quero. Estamos entendidas?”. E Sim, ficaram. Nunca mais me chateou.

Mas as coisas nunca mais foram as mesmas. Nessa altura tomámos a decisão de sair de Alcoitão. 4 meses depois de ter entrado e ter aprendido a…passar para a cama. Claro que havia bons profissionais por lá, mas as memórias que guardo, no geral, são más. Dizem-me que apanhei a instituição num momento mau, que hoje não é assim. Espero que não seja, porque a mim pouco me ensinaram.

Mentira. Uso o cliché “o que não nos mata torna-nos mais fortes”. E se aquela merda não me matou, ensinou.me a resistir mais e a tornar-me numa mulher de aço. A mim e a quem me rodeava. E, vendo bem, isso não foi mau. Preparou-nos para a vida.


Seguiu-se Londres e os melhores Neurologistas. A resposta foi: estamos a testar o tratamento em ratinhos. Tanto pode demorar 10, como 20, 30 ou 40 anos. Ou nunca sair do laboratório. Já passaram 23 e ainda não aconteceu. Mas retive uma coisa que o médico disse. Esta miúda deve continuar a ter este espírito. E continuei. 

Podem dizer-me: mas eles tinham razão, tu não voltaste a andar e eles quiseram preparar-te para isso”. É verdade. Mas, se lhes tivesse dado ouvidos, se tivesse seguido a "estratégia" deles, não eram as pernas que eles me cortavam. Eram as asas. 

E, essas, meus caros, nunca ninguém mas vai conseguir sacar.