Este é um blog normal. Um blog onde vou escrever o que me vai na alma. Bom ou mau. Sobre mim ou não. Todos os dias ou só às vezes. Quando me apetecer. Afinal, este é só um blog de uma miúda comum. Que tem dias de inspiração e outros sem ela. Mas feito com o coração. E isso é uma promessa.
A desconfiar que
foi necessário, para encontrar o caminho certo. Para ser o que sou hoje. Parte
boa e parte má incluída.
Para saber que há
beleza cá fora. Mas saber que a que conta mesmo é a que está lá dentro.
22 anos depois,
estou aqui.
Para perceber que
há o trigo e o joio. E que é nestas alturas que eles se desligam um do outro.
Para que alguns percebam
que é bom viver. Apenas, quem sabe, vendo-me viver. E constatando que se
vive. Muito bem.
22 anos depois,
estou aqui.
Para conseguir chegar
onde os outros chegam. Ou ainda mais longe.
Para saber que mesmo
nas fortalezas se aceitam as fraquezas. Porque todos nós temos limites.
22 anos depois,
estou aqui.
Para ouvir
música. Para viajar a ler livros. Para fumar um charuto. Para saborear um vinho
do Porto. Para contar histórias. Para acompanhar quem eu gosto e gosta de mim.
Para abrir a boca para me rir e a torneira se me apetecer. E marimbar-me no
que os outros possam pensar.
Ilustração por Rita Salgueiro
22 anos depois, estou
aqui. Para aprender que
cada um tem um caminho. Não exactamente um destino. Mas um caminho que tem que
ser trilhado. E tantas vezes desbravado com bravura. Para saber que a
vida pede calma, mas que por vezes é preciso dar um murro na mesa. Ou em
alguém. E dar. 22 anos depois, estou
aqui.
Para viver a vida
assim. Como sei, algumas vezes como posso, quase sempre como gosto.
A sentir o corpo pela
metade mas o coração por inteiro. E tendo a certeza de que tenho uma metade que vale
por muitos por muitos “inteiros” que por aí andam.
Faz hoje, 11 de Março, 22 anos que
fiquei de cadeira de rodas. E estou cá. Para ficar. Para tentar ser feliz.
Como já disse um
dia, posso não andar mas, quando e se for preciso, com a ajuda das pessoas
certas, voo. E alto. Disso, nunca ninguém tenha dúvidas.
É pensar com o coração. Mas saber dar tempo de antena à
cabeça. Aliás, saber juntar as duas na perfeição.
É saber que a vida é gerada dentro dela. Sentir cada dia,
cada semana, cada mês. Ter esse poder. Ser a única a tê-lo. Sim, e vomitar pelo
meio.
É ter um filho a chorar de dor, mas a rir de felicidade.
Tudo ao mesmo tempo. E depois esquecer tudo num instante e voltar a dar vida a
uma nova vida.
É saber que, para chegar mais longe, ou tão longe como um
homem, tem que lutar o dobro. O triplo. E isso não a fazer parar. Antes,
motivá-la.
É saber que um sorriso vale mais que muitas palavras. Mas
saber dizer aquelas palavras para conseguir aquele sorriso.
É falar pelos cotovelos. Mas saber parar e ouvir os
outros.
É passar o dia a trabalhar, chegar a casa e ter uma
máquina de roupa para fazer. Para depois estender. E um jantar para preparar. E
uma cozinha para arrumar. E mais um dia para preparar. E saber viver assim todos os dias.
É ter um dedo que adivinha. Um sexto sentido. Ou fingir
que tem.
É ser justa quando é preciso ser justa. E quando é injusta
ser justa o suficiente para voltar atrás e reconsiderar.
É conseguir atravessar tempestades como quem navega em
mares calmos.
É conseguir fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo. E
tudo feito de uma forma que parece ter sido apenas aquela a tarefa do dia. É sonhar acordada. Porque sonhar de noite é para quem não
consegue imaginação para mais.
É ter um lado forte e fazer dele o pilar da sua vida. Mas
gostar de ser protegida e abraçada. Não abafada. Abraçada.
É gritar, refilar e chorar desalmadamente sempre que lhe
apetece. E depois parar e seguir a vida. Porque a vida pede. Ou nunca chorar.
Até ao dia em que a vida lhe pede que o faça. E fazê-lo sem vergonha. É apaixonar-se perdidamente por um olhar, por uns lábios,
por umas mãos, por um timbre de voz. Mais do que por umas boas pernas, um bom
rabo, uma bela peitaça. Mas não deixar de olhar para isso também.
É perder o pé mas aguentar-se, dar ao braços, até chegar
ajuda. E aceitá-la.
É não pescar nada de futebol mas ser a melhor treinadora de
bancada. E saber o nome dos jogadores mais giros. Mesmo que sejam de outras equipas.
É não saber mudar uma lâmpada ou um pneu de um carro mas
ter sempre um amigo por perto para o fazer por ela. Não saber nem querer saber
como se faz. Até porque a prioridade é manter as unhas sempre impecáveis.
Ser mulher é isto tudo e muito mais. Porque ser mulher é
não ter limites. Nem para o ser.
Hoje o dia é nosso. E porque se é nosso também é meu, este eu dedico-o às
mulheres da minha vida: mana, mãe e sobrinha. As melhores que a vida me podia
ter dado.
Para elas, a melhor canção:
O mundo não seria mundo sem nós. E isto, é um facto. Venham de lá essas mulheres!
“Marta, viste
aquela notícia que deu ontem na televisão sobre uma possível cura para lesões
medulares?”
“Junto envio
imagem do tal aparelho, tipo robot, que encontrei na net e que consegue pôr um
paraplégico em pé e a andar. Vê se te interessa!”
“Já ouviste falar
daquele médico português que tira células do nariz e implanta na medula porque
descobriu que a capacidade de regeneração das células nasais é grande e pode
fazer o mesmo na medula?
“Dissera-me que
em Israel é que é”. “A mim foi em Cuba”.
Foi assim durante
muito tempo e, curiosamente, ainda hoje, 23 anos depois, isto acontece. Com
menos frequência, mas acontece.
É bom sinal, eu
sei. É sinal que os meus amigos, que eu sei que gostam de mim assim,
continuam, no entanto, atentos a tudo o que aparece de novo para me verem a andar. Para alguns, muitos
deles, seria mesmo a primeira vez.
É bom sinal e eu
agradeço sempre, de coração. Que fique claro.
No primeiro ano
de acidente, depois do período inicial de internamentos em hospitais – que penso
que terminou em Agosto – lembro-me que os meus pais me perguntaram se eu
queria parar um ano para me dedicar apenas à fisioterapia. Ou se preferia
partilhar o meu tempo entre isso e continuar na escola. Optei pela segunda
hipótese. A ideia de centrar toda a minha atenção apenas na recuperação,
parar durante um ano e afastar-me de tudo, não me agradava.
Nos 3 ou 4
primeiros anos após acidente, fui a todas. Fisioterapia em Alcoitão, depois
fora dele, em centros especializados. Também em casa. Homeopatia, acupunctura. Voei
até Londres. Onde me disseram que o tratamento para casos como o meu estava “em
ratinhos e pode demorar 10, 20, 30, 40 anos. Ou, simplesmente, nunca acontecer.” E
acrescentaram no relatório, por escrito “que o essencial seria manter o
espírito positivo” que já à época mostrava ter. Isso consegui.
Depois destes primeiros
anos, senti uma necessidade de mudança dentro do meu coração. Que me
levou a tomar uma decisão. Já estava farta da fisioterapia. Já nem a fazia de
jeito. O que era um facto é que pouca ou nenhuma recuperação tinha havido. E eu sentia isso como ninguém. Estava na hora de parar.
Mas, durante
esses primeiros anos, uma coisa tinha acontecido. Num ambiente sempre cheio de
esperança, tinha-me habituado a viver numa cadeira de rodas. E a viver feliz. Percebi
que o tempo que “gastava” em horas de fisioterapia com o objectivo de
recuperar, me estavam a “roubar” tempo com amigos. Tempo de torradas no
Continental, o café ao lado da faculdade. Tempo de passeios pelos jardins da Gulbenkian
com os meus colegas da altura. Tempo "normal" da minha idade. Tempo de vida. Tempo a viver.
Por isso decidi
abrandar o ritmo e retomar a minha vida normal. À vida normal de uma miúda de
18 ou 19 anos, que tudo o que queria era o que qualquer outra miúda dessa
idade poderia querer. Estudar, sair à noite, aproveitar a adolescência. Uma decisão que foi claramente
compreendida e apoiada pela família. Sabiam que só assim eu poderia ser feliz.
E, assim, segui a
vida e cheguei aos dias de hoje. Com montanhas de obstáculos pelo meio, mas
cheguei. Com montanhas de cicatrizes, uma literais outras não, hoje fechadas, mas cheguei.
Agoro volto às citações
iniciais, para tentar apenas que compreendam algo que para muitos sei que é algo
difícil de compreender. Ou mesmo impossível.
Neste momento da
minha vida, e depois de tudo o que passei, ultrapassei e conquistei, nenhuma hipótese
de tratamento que visesse “do outro lado do mundo” me faria parar e ir, sem saber sequer quando
voltava. Neste momento da minha vida, e depois de tudo o que passei, ultrapassei e conquistei, nada me faria
afastar-me das pessoas que amo, do trabalho que adoro, da vida que escolhi, para ir “experimentar”/tentar voltar a andar. Porque, lamento, mas não acredito que haja uma cura científica para a minha situação. E já há algum tempo que só sigo aquilo em que realmente acredito. No meu coração.
Já agora, quanto
à tal hipótese do robot, que me voltaria a pôr em pé, percebi e agradeci a quem mo
indicou. Mas a ideia de me tornar numa máquina estranha, aos meus olhos e aos
olhos dos outros, está fora dos meus planos. Até porque máquina já eu sou. Quando
acordo de manhã, me arranjo e saio de casa cheia de pica para trabalhar (vá, tem
dias!) ou para me ir divertir. Mesmo num país que pouco pensa em mim em termos
de acessibilidades. Mesmo num país que pouco ou nada me motiva para continuar a
lutar por ele.
Tudo se resume a
uma frase simples. Daquelas de apenas duas palavras: sou feliz. Mesmo assim, sentada.
E o resto são tretas. No fundo é como diz a senhora da música abaixo: eu sou o que sou.
Eram os “loucos anos 80/90”. Mas os meus foram calminhos.
Calminhos mas muito divertidos.
Chegar a casa, depois de um dia de escola, fazer uma
panqueca ou uma tosta mista - com 3 fatias de fiambre e 4 de queijo -, um
refresco de café e ligar a televisão era uma das minhas “loucuras” diárias preferidas.
Na altura só havia um canal, e parte da tarde era preenchida
pela mítica Vera Roquette e o seu Agora Escolha.
Espaço 1999, Acção em Miami, Modelo e Detective, Kung fu, Alf, MacGyver,
A-Team, o Justiceiro, o Homem da Atlântida. Bloco A ou Bloco B. Um número de
telefone para onde ligávamos e a escolha era nossa. E eu ligava sempre. O Agora Escolha não foi um programa qualquer! O Agora
Escolha foi um dos primeiros programas interactivos da televisão.
Depois havia o Adam Curry e o Countdown. Um programa de
videoclipes. Era a nossa MTV. Vá, e o Adam, uma das minhas grande paixões...Europe, Level 42, Bananarama, Pet Shop
Boys, The Smiths, Housemartins, Kim Wilde, Lloyd Cole, Nik Kershaw. Bom, foram
tantos, que ficaríamos aqui um eternindade.
Na mesma altura, eu, a minha irmã e a minha prima Tété,
que já tinha perto de 15 anos, fazíamos parte do Clube Oficial de Fãs dos Duran Duran.
Cada uma de nós tinha o seu eleito. Mas se eu optava por um que elas decidissem
gostar, mesmo que de um dia para o outro, lá tinha que eu mudar de ídolo. Eu,
não elas. Aconteceu umas vezes. Mas enfim, já se sabe que as mais novas são
sempre as mais sacrificadas. Acabei por ficar com o Nick Rhodes…O mais feínho,
diga-se de passagem.
Mas os Duran Duran não eram os únicos que seguíamos com
atenção. Apesar de não fazermos oficialmente parte do clube de fãs, também gostávamos
dos Kajagoogoo. E, sim, sabíamos o single “To
Shy” de cor…Aliás, ainda hoje sei.
Nunca mais me vou esquecer no dia em que eles vieram a
Portugal. E, claro, lá foram as primas para a porta do hotel Penta ver se
tinham a sorte de os ver entrar. Esperámos horas. Horas! E nada. Nós e mais umas centenas de fãs.
A certa altura, e porque já era tarde, a mana e a Tété
foram ao café mais próximo ligar para as nossas mães. Era preciso avisá-las de
que ainda íamos demorar “porque eles ainda não saíram mas devem
estar mesmo, mesmo a sair…!”. E lá foram as duas.
Mandaram-me ficar à porta da garagem do Penta, que
estava longe da confusão da porta por onde se esperava que eles saíssem. A
principal. “Não saias daí que nós não demoramos”. Aquilo para mim era mesmo uma
ordem. Nem me mexi.
E ainda bem porque a sorte, meus amigos, estava do meu lado. Lá fiquei
eu, encostada à parede da garagem do Penta, absolutamente sozinha, à espera que
elas chegassem. Muito bem-mandada, portanto.
Eis senão quando acontece uma cena digna de filme: do
nada abre-se a porta da garagem. Lá de dentro sai uma limusine branca. "Valha-me Deus que são eleeees"! E eu ali sozinha! Com as pernas a
tremer e sem ninguém a quem me agarrar…a quem contar, com quem partilhar, pá!
Paraliso por completo. Só me
lembro do ver o Limahl e o Nick Beggs a abrirem as janelas, olharem-me
nos olhos, a mandarem-me um beijo e dizerem-me adeus. Tudo aquilo só para mim!
Tinha 8 anos, caraças! Por muitos anos que viva, nunca mais me vou esquecer
daquele momento. Quando voltei ao meu estado normal lembro-me de ter
pensado “e aquelas totós que foram ligar às nossas mães precisamente agora. E
as outras especadas à porta do hotel e eles a saírem pela garagem…!” Lucky me! Nesta altura jogava Pac-Man, comprava a Bravo em alemão e
forrava as paredes dos quartos com os posters que ali eram publicados.
Ouvia a Nena e os "99 red balloons".
Ensaiávamos coreografias durante a tarde, ligávamos aos nossos
pais para eles chegarem mais cedo. Temos “uma surpresa preparada para vocês”. Pais
que, depois de um dia extenuante de trabalho, ainda se sentavam no sofá a
assistir ao nosso espectáculo.
Entre vários, cantavamos o We are the world. Com a minha irmã. Cada uma de nós imitava um cantor. Ainda hoje fazemos isso na perfeição! É só porem-nos à prova.
Eram os anos 80/90. Eu vivi-os, calmamente, entre os 5 e
os 14. E, quem como eu viveu estes anos e estes momentos, mesmo que assim, calmamente,
sem grandes loucuras, teve uma sorte gigante. Porque estava tudo a começar.
Novas bandas, novos estilos, novos canais. Mais informação,
mais tudo. Inovação, atrás de inovação. Muita coisa a acontecer pela primeira
vez. Portugal estava a abrir-se ao mundo a uma velocidade enorme. E eu a viver aquilo tudo. Ao vivo e preto e branco. Mais tarde, a cores.
E sim, passaram-me as paixões platónicas. Começaram as
mais…eu diria, realistas. Mas dessas, quem sabe se falarei noutro dia? :)
E cá estamos nós as quatro, como sempre, ao Sábado.
Depois de deitar abaixo mais um repasto da mãe e uma garrafa de espumante.
Antes eramos só as três. Durante anos foi assim. Sempre.
Três amigas mas uma delas, acima de tudo, mãe. Para não confundir
as coisas. E outras tantas vezes o árbitro!
Eu, a mana e a mãe. Sempre.
Quando uma tinha um problema, tínhamos as três. Quando
uma não tinha problemas, as outras também não tinham.
Com a mana – sim, eu chamo-a assim mas ela nunca me chamou
(coisas de irmã mais nova) – passei todos os dias da minha infância. Tínhamos os
mesmos amigos. Frequentávamos os mesmos locais. Só não tínhamos os mesmos
namorados mas, de preferência, ajudava que fossem os melhores amigos. E quase
sempre foram.
A roupa, a mesma. A voz, a mesma. De tal maneira que um
dia fui eu que terminei um namoro dela, pelo telefone, porque, claro, a mim não
me ia custar nada.
Hoje a roupa dela já não me cabe, mas a voz continua
igual. E as expressões. E as gargalhadas. E o que temos de diferente,
complementa-nos.
Fomos crescendo e cada uma seguiu o seu caminho em termos
de estudos. Ela totalmente virada para o desporto. Eu totalmente virada de
costas para o mesmo.
Acho que das únicas vezes que decidi mexer-me um
bocadinho mais foi quando resolvi dedicar-me à dança jazz, onde ia depois das
aulas terminarem. Mas antes passava pela Sul América, na Avenida de Roma, e
pedia ao meu querido Aristides uma brisa. A maior, de preferência. Depois
passava por casa, levava o cão à rua, arranjava uma carcaça com geleia (ou de
geleia com pão) e, dança jazz com ela. Eu até achava que tinha jeito. Mas
duvido que o professor tivesse a mesma opinião porque me punha sempre na fila
de trás. Palhaço.
Passadas duas ou três aulas, deixei de aparecer, mas mantive-me
fiel às brisas e às carcaças com geleia. Ah, e segui Humanidades/Jornalismo.
Percebi que no Desporto não me safava. Suar incomodava-me.
Mas fora isto, fora o percurso profissional, sempre
juntas.
Aos 15 anos tenho o acidente em casa que me deixa de
cadeira de rodas. Quem chega na hora H e me tira de dentro da casa de banho? A
mana. Sim, salvou-me a vida. Ainda hoje brincamos com isto. Mas é a mais pura
das verdades. Se não fosse aquela miúda de 16 anos e o seu sangue frio, eu hoje
não estava aqui a partilhar alguns dos meus momentos convosco.
Se ainda havia dúvidas que eramos uma, depois deste dia, elas
acabaram. Onde estava uma estava outra. Para onde ia uma, ia a outra. E sempre
juntas. Muitas das vezes, de táxi. Com os 1000 escudos que a mãe nos dava para
sair.
Foi sempre assim. Quando eramos pequenas, na adolescência.
E hoje, como adultas.
Agora a mãe. Sempre amiga mas, acima de tudo, mãe. Vá, um
bocadinho de tudo mas sem misturar as coisas. O chamado “respeitinho é bonito e
eu gosto”. Mas uma mãe que confiava a 100% e que metia as mãos no fogo pelas
filhas. E tantas vezes contra tudo e contra todos. Mas nunca se queimou.
Em 29 anos, e por duas vezes, foge-lhes o chão debaixo dos
pés. Primeiro, com o episódio da paraplegia, depois o da septicemia. As duas a
aguentarem as pontas. Sem saber se iam ter força para as agarrar até ao fim, ou
se acabariam por ter que as largar. Mas aguentaram.
Perto daquilo que viria a ser a segunda tempestade, surge
o quarto elemento. A Carlota.
Um bocadinho de pessoa que veio mudar as nossas vidas. Para
melhor. Um anjo que hoje tenho a certeza que também veio para ajudar a ultrapassar
aqueles momentos que tanto nos assustaram mas que também ainda mais nos uniram.
E para nos compensar com outros maravilhosos.
Lembro-me de pensar que, se houvesse uma máquina onde se
programasse de um lado o género de bebé que queríamos que saísse do outro lado,
era exactamente uma daquelas que eu queria que me calhasse.
Lembro-me da minha mãe dizer que tinha sonhado com uma
miúda linda, de cabelos compridos aos caracóis e loira. Foi o que nos saiu. Se
bem que tivemos que penar uns anos até ter cabelo de jeito para por um gancho! Hoje é a melhor sobrinha, a melhor neta, a melhor filha. Como ela diz “chanfrada”. Mas, quem bem a conhece, “com
todos os valores no sítio”. Uma obra de arte e a sobrinha mais gira do mundo.
Diz a tia babada. Hoje somos quatro. Quatro sortudas porque, saia quem saia,
entre quem entre, estas quatro nunca saem de cena. Refilam, refilam. Mas, de
cena, não saem. Sim, e coitadinho de quem entra...! E no palco da vida, cada vez mais vazio de gente que
sente de verdade, que se quer bem de verdade, com o coração, ter tido sempre
por perto as pessoas mais importantes da minha vida, é razão para agradecer
todos os dias. E quem não o faz, eu própria falho às vezes, um dia
arrepende-se. Farei tudo para que isso não me aconteça. Um conselho? Façam o mesmo. Porque um dia, quando olharem para trás, podem já ter
perdido a oportunidade de o fazer. Ou, pelo menos, de terem lá as pessoas que queriam que vos ouvissem.
A famosa Calamity Jane. Uma mulher que nasceu em 1852 e
viveu nos Estados Unidos. Dizem que terá sido mulher de Wild Bill Hickok,
personagem que, depois de ter lutado durante a Guerra Civil Americana, ganhou
fama como jogador profissional. Mas foi também um homem da lei e chegou mesmo a
xerife do Kansas e do Nebraska. E grande amigo do famoso Buffalo Bill.
Mas voltemos à Calamity Jane. Começou por fazer trabalho de
guia e para isso usava sempre um uniforme masculino que lhe dava um ar durão. Entrava
nos saloons sem medo, mascava tabaco como um homem. Era audaz e independente. Ah, e praguejava
com frequência.
Mais tarde dedica-se à prostituição, depois passa a cozinheira,
mineira, lavadeira, entre muitas outras profissões. Sempre se fez à vida,
portanto. Desde cedo. Por
necessidade, claro. Mas também por temperamento.
Lutou em tempos contra os índios. Mas dela também se
dizia que era uma mulher bondosa, e especialmente preocupada com os doentes e
com os mais necessitados.
Wild Bill morre em 1876. Calamity Jane perde aquele que
foi o amor da sua vida. Mas como mulher lutadora que era, resolve dar-se uma segunda
oportunidade e, em 1885, casa-se com Clinton Burke. 10 anos depois separam-se e
Calamity junta-se ao show Buffalo Bill, velho amigo do seu grande amor, e ao Buffalo
Bill's Wild West Show. Era a contadora de histórias. E, a viajar, vive até ao
final da sua vida em 1903, altura em que morre com uma pneumonia. Tinha 51
anos.
Muito bem, tudo muito é interessante mas, por esta altura,
estão vocês a perguntar: porque raio a Marta nos está a dar esta chazada de
Calamity Jane? Em primeiro lugar, podia responder-vos com um “aprender não
ocupa lugar”. Mas é mais que isso. Já lá vamos.
Sempre tive colado a mim o rótulo de “mau feitio”. Aprendi
a viver com ele e, confesso, já pouco me incomoda. Felizmente que os que melhor
me conhecem, encaram-no mais como personalidade forte. Aliada a pavio curto, é
certo, mas personalidade forte. E frontal. Ou isso ou aprenderam a lidar com ele.
Seja o que for, tudo bem.
Assumo que me irrita acima de tudo a incompetência, a
falta de garra, de querer aprender. A vontade de ser a desgraçada cá da praça. A
inércia. O cinismo. Este último também na vida pessoal porque, na vida profissional, o
caso muda naturalmente de figura. Mas não lhe chamaria cinismo. Prefiro
chamar-lhe “aprender a sobreviver”. Aprender a trabalhar com todo o tipo de pessoas.
Das que gostamos e das que não gostamos. A vida é mesmo assim e as empresas
estão cheias de gente de quem gostamos mais que outras. É um facto. E também é
um facto que temos que aprender a lidar – leia-se trabalhar - com ambas. Confesso
que nesse campo tenho tido alguma sorte.
Mas assumo tudo isto e ainda que, quando me deparo com
situações que me desagradam, a tampa tende a saltar-me. Mas também tenho noção
que a vida tem-me ensinado a ser mais tolerante. Menos dona da verdade. Mais flexível.
E calma, estou nos 37 anos, por isso tenho ainda muito caminho pela frente para aprender.
Ou seja, vou tentando sempre melhorar.
“Mas isto não explica a conversa sobre a pistoleira do
velho oeste”. Pois não. Mas se vos contar o fim da história, talvez este meu “mau
feitio”, “personalidade forte”, ou que quiserem chamar-lhe, tenha, finalmente,
uma explicação.
A Calamity Jane não nasceu com este nome. A Calamity Jane
nasceu como Martha Jane Cannary. Sim, Martha Cannary. Como eu, Marta Canário.
Quem sabe, não estamos de alguma forma ligadas? O mesmo
nome, a mesma garra, a mesma “personalidade forte”. E também contadora de histórias...
Coincidência? Talvez, mas que é curioso é! E eu, confesso,
adoro a ideia de um dia, noutra vida, poder ter sido uma pistoleira do velho
oeste…
PS – ah, e para aqueles que ainda tinham a esperança que
eu me tornasse mesmo, mesmo “boazinha”, esqueçam. Pelos vistos está-me nos
genes…
O amor. A paixão.
Hoje apeteceu-me falar-vos disto. Não sou especialista na matéria mas, como
qualquer mulher que se preze, tenho opinião sobre o tema...! Acho que tudo começa com
paixão. Até aqui parece-me consensual. Depois, das duas, uma. Ou acaba em amor. Ou
acaba…e pronto. E se acaba e pronto
é porque não chegou ao amor. Ficou-se pela paixão. A paixão é louca.
E torna-nos meios loucos. Mas loucos de, por vezes, perder a cabeça.
Ao ponto de
sentirmos as tais borboletas na barriga. E o coração a 100 batidas por minuto
só de sentir que o outro está por perto.
É ficar exagerado. Rir demais, falar demais. Tudo demais.
É ser "a princesa".
Ou "o príncipe".
Estar apaixonado deixa-nos patetas. Leva-nos a fazer coisas
que jamais pensaríamos um dia vir a fazer. Ir por caminhos que antes até criticámos. "Eu, fazer isso? Nunca!!" Mas só porque não estávamos
apaixonados. Agora que estamos, é precisamente esse o caminho que fazemos. E
conscientes. O nunca deixa de fazer sentido.
A paixão queima.
E o que queima dói. É intranquila. É frágil. A mim até me faz perder o apetite. O que, vendo bem, não deixava de dar jeito...
No início leva-nos às nuvens. Faz-nos contar as horas, os
minutos e os segundos para voltar a estar com o outro. Tudo passa para segundo plano. A prioridade é aquilo. Aquele.
Faz-nos feliz, também é certo.
Mas a paixão tem
um tempo. E vai perdendo a força ao longo dele.
E agora, vamos ao
amor. Ai o amor...Haveria tanta coisa para dizer sobre o amor, mas serei concisa.
O amor começa
quase sempre com a paixão. Com o tal arrepio que se sente quando os olhares se
cruzam. Mas depois da fase pateta, louca, depois do subir às nuvens…há uma espécie de
mudança. E é aí que, mais uma vez, das duas, uma: ou se transformou em amor…ou
não se transformou em amor.
E o amor é ficar
feliz por ter aquela pessoa ao nosso lado. Para sempre.
É aceitá-la como
ela é. Com defeitos incluídos. Todinhos.
É ser um mas dar espaço ao outro.
É partilhar com
ela como correu o nosso dia. E ela ouvir com interesse. Mesmo que o dia tenha
sido uma belíssima seca.
É ter na outra
pessoa, a sua melhor amiga. A quem nada se esconde. Com quem tudo se partilha.
Sem pudores ou constrangimentos.
É não querer
nunca magoar. E quando isso acontece, sem querer, pedir desculpa, conseguir ser
desculpado, e não repetir.
É sentir o mesmo
que a outra pessoa sente. Feliz quando ela está feliz. Triste quando ela está
triste.
É achá-la bonita
sem maquilhagem, de carrapito e pijama vestido. E ele…vá, com graça de camisola de
alças, boxers e meias até ao joelho. Sim, esta custa, mas amor também é isto.
É ser "a rainha". Ou "o
rei".
É nunca nos
deitarmos chateados. Ou deitar, mas dormir agarradinhos na mesma. Porque assim
amanhã já passou.
Amor é encontrar
a tal tampa para a nossa panela. A outra metade da laranja.
É comer as omeletes
com cogumelos que ela fez como quem come um prato de sinfonia de porco preto com gnocchis e
batata com limão e molho de carbonara. Tudo regado pelo melhor vinho do mundo.
É saber na ponta da língua a cor
preferida, o filme preferido e a música preferida. Ou, pelo menos, acertar numa
delas.
O amor nunca
acaba. Mesmo que as pessoas se separem. Porque o amor, quando isso acontece,
transforma-se. Em amizade. E a amizade, se for de verdade, essa sim, é eterna.
Eu amei uma vez e
apaixonei-me outra. E, pelo menos comigo, foi assim. Mas cada um sente à sua maneira.
Termino com um vídeo que me tocou. Sobre o amor e o que fica quando ele
passa. Se é que passa.
Mas antes, uma
explicação sobre o que vão ver:
"Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa
história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo
tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois,
decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um
lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e
nunca mais se ver.
23 anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de
Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um
minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem
que ela soubesse e...foi assim."
PS – para os que
ainda acreditavam que eu era uma pedra e que não ligava a estes temas...estavam enganados!