8 de outubro de 2013

Dar o melhor de nós

“Queremos falar com mulheres determinadas, sob vários pontos de vista. No teu caso, que nos contes como é que se dá a volta por cima. Aceitas, ou já deste o suficiente para este peditório?”.
 
Foi mais ou menos esta a mensagem que a Rita, colega dos tempos de faculdade e agora responsável pela redacção de uma das melhores revistas femininas portuguesas, me deixou no privado do Facebook.
 
Quando vi aquilo respirei fundo e pensei “hum…será mais do mesmo?". Mas a abordagem pareceu-me diferente. Enxuta. Desempoeirada. Vinha, aliás, de alguém que tinha acompanhado de perto os primeiros anos do acidente que me tinha deixado de cadeira de rodas. Sabia, por isso, como tinha sido a minha reacção.
 
Liguei-lhe. Foi bom voltar a ouvir a voz dela. Fez-me lembrar os tempos de faculdade. A vida fez-nos seguir caminhos diferentes mas o Facebook voltou a juntar-nos há uns anos. E, graças a ele, continuávamos, de alguma forma, perto uma da outra.
 
Expliquei que teria muito gosto em dar a entrevista mas que tinha dois pedidos: para não nos deixarmos enrolar pelo discurso trágico-lamechas e para me ajudar a promover o meu blog. O que ia, aliás, ao encontro do tema que queriam falar comigo porque este blog também fala sobre determinação. Minha e de outros, mas determinação
 
Para a Rita, nem passou por aceitar. Porque, também para ela, era claro que a lamechice não tinha espaço no texto e que o blog se encaixava na perfeição na nossa conversa.
 
Destacou uma jornalista que eu conhecia apenas pelo nome. A Sónia. Tenho tido sorte com as Sónias. Sempre que me entrevistam, divirto-me a valer. E acho que elas também. A gaita é que perdemos a noção do tempo e o trabalho atropela-se todo. Mas vale sempre tanto a pena…
 
Esta Sónia começou logo bem: “posso tratar-te por tu?”. Respondi que sim “bolas, temos as duas quase a mesma idade…!”. É sempre bom falar com alguém da nossa geração.
 
Não nos perdemos a falar dos factos. São públicos, ela já os conhecia. Falámos da vida. Do que é viver. De como se ultrapassam os obstáculos. De como ultrapassarmos obstáculos pode ter impacto na vida de tanta gente. E de qual o meu papel no meio deste filme.
 
 
Foi mais de uma hora nisto. Uma hora em que ora interrompia eu, ora interrompia a Sónia com um “claro, tens razão, tem mesmo que ser assim, concordo em pleno, pá!”. Sintonia e cumplicidade. À primeira vista.



Expliquei que sentia que era fundamental, mais do que focar em mim, focar nas minhas experiências e em como elas me tinham mudado. E, mais do que me terem mudado a mim, como poderiam elas mudar/influenciar os outros. Pela positiva.

Falámos dos “bons” e dos “maus” que nos rodeiam. Falámos dos que querem e dos que não querem ser ajudados. Falámos de como eu posso ajudar. De como eu quero ajudar. Mas concordámos que todos valem a pena. Vá, quase todos!

Falámos da importância do efeito “pedrada no charco”. De fazer chegar a palavra longe. De conseguir mudar vidas com gestos simples como um sorriso na cara. Falámos de partilha. De que quando cada um oferece o melhor de si mesmo, o mundo avança um bocadinho. Sempre.

Falámos de viver bem. Que a nossa essência era a mesma essência dos outros. Mesmo daqueles que chamámos de “maus”. Concordámos que, no fundo, tudo o que eles precisavam era de um empurrãozinho para melhorarem e mudarem para a nossa equipa. Dos que querem bem aos outros.

Mas também falámos das dificuldades que esse caminho nos trazia, dos dissabores, do trabalhão! Da nossa – por vezes grande -  falta de vontade de ajudar quem não estava para aí virado. E do esforço que devíamos fazer para a ultrapassar.

Foi uma conversa gira. Em que eu senti que mudei um bocadinho da vida da Sónia, e que a Sónia pode estar segura que mudou um bocadinho da minha. Ganhámos, por isso, as duas.

Quando a nossa conversa chegar a mais pessoas, quando for publicada, vai com certeza mudar um bocadinho de quem a ler. Porque valeu a pena. E, se cada pessoa que a ler a passar a outra, terá valido ainda mais.
 
Vá, e não precisam de morrer de curiosidade para saber o resto! Basta comprarem a próxima Máxima! :-)

7 de outubro de 2013

Crianças filhas...da guerra

Ontem deitei-me na cama com uma constipação do caraças, a sentir-me uma desgraçada.

Peguei no comando da televisão e, no meio de um zapping, páro na 2.

Estava a passar um documentário sobre um centro de skate no Afeganistão. “Um centro de skate no Afeganistão?”, pensei. Sim, tinha visto bem, no Afeganistão. Em Cabul. Zona de combate. Zona que cheira a morte. No meio de tudo aquilo, um oásis. Chama-se Skateistan.

As imagens que passavam eram assustadoras. Como, aliás, são todas as imagens de cenários de guerra.

As cores, essas, sempre as mesmas. Cinza, cru, castanho. Os tons terra que nos traz a guerra. E padrão camuflado, com presença de um soldado em cada esquina.

Pó. Muito pó. Prédios destruídos? Todos. Ali não escapou nenhum. E, com eles, perderam-se milhares de homens, mulheres e crianças.

Por entre os escombros, um centro de skate que tem como missão retirar os miúdos das ruas. E que, pelo meio, lhes ensina várias disciplinas e promove workshops sobre arte. Um centro que os prende pelo desporto e que os ensina a viver. E, acima de tudo, a sobreviver no meio da miséria onde nasceram.

Em 6 anos, o Skateistan já “recrutou” mais de 400 crianças. 400 crianças que talvez se tivessem perdido se ali não estivessem. 400 crianças que são parte do futuro do Afeganistão.

Sobretudo rapazes, mas também raparigas. Num país que não liberta a mulher, muito menos dá direito às crianças. Principalmente a elas, as miúdas. “Quando ando de skate na rua, ficam todos a olhar para mim. Sei que me condenam. Mas eu não quero saber. Não vou deixar de andar de skate e frequentar o centro por causa disso.” Palavras de uma rapariga de 10 anos que, contra a sua própria família, e de skate debaixo do braço, se divertia nas ruas destruídas daquela cidade atirada para um canto pelas armas.

Estes miúdos vivem nas ruas e, pior, das ruas. A vender pastilhas elásticas. Sobrevivem a lavar carros com água da chuva e panos velhos. Imundas, camisolas rotas, descalças e de ranho no nariz. Passam fome.

É assim em Cabul e é assim no Iraque. É assim na Síria e em tantos países de África. É assim em grande parte do mundo, mesmo em pleno século XXI. Porque também não podemos ignorar o que acontece às crianças na Índia e na China, por exemplo.

Ontem deitei-me na cama com uma constipação das antigas e a sentir-me a pessoa mais desgraçada do mundo. Mas depois disto engoli tudo.
 
Porque, melhor ou pior, no dia seguinte ia acordar. Já estas crianças, se tiverem dia seguinte, será uma sorte.
 

29 de setembro de 2013

O ano em que (quase não) votei.

Sair do quentinho da casa num dia cinzento e de chuva para ir votar, já custa. Sair do quentinho da casa num dia cinzento e de chuva para ir votar, chegar lá e não o poder fazer, acreditem, custa muito mais. É a minha história de hoje. Vou tentar resumir.
 
Nunca falho uma eleição. Seja para o que for, sinto-o como um dever mas, acima de tudo, um direito. Direito do qual não abdico. O de me expressar.
 
Fiz como sempre, dirigi-me à escola cá da zona. Levava comigo o nº de eleitor, para ser chegar, encontrar a mesa, votar e vir-me embora. Mas desta vez não foi bem assim.
 
Quando cheguei, percebi que a mesa de voto que me estava destinada tinha sido colocada no primeiro andar daquela escola antiga. Onde sempre votara e no r/c.
 
Perguntei como poderiam fazer, responderam-me que a urna não podia descer, mas que podiam chamar os bombeiros e eles subiam comigo as escadas.
 
Obviamente que recusei. Por vários motivos, mas essencialmente por dois: 1º porque o acesso a pessoas com mobilidade reduzida deve estar pensado, não pode ser um desenrasque. 2º porque, mesmo com bombeiros, subir uma escadaria é perigoso e, em último caso, se caísse era eu que me magoava. Por muita boa vontade que existisse, seria sempre eu a lixar-me com a brincadeira.
 
Por isso, e perante a hipótese dos bombeiros e outras pessoas que amavelmente se dispuseram a ajudar, agradeci mas recusei.
 
Estava lá o meu presidente da Junta. Em quem sempre votei. Pediu desculpa, tentou resolver, pôs a hipótese de fazer deslocar a urna ao r/c, “mas quem manda é mesmo a presidente da mesa”. E é.
 
A minha mãe, já a entrar em modo “tou-ma-passar”, bufava por todos os lados. A minha irmã desdobrava-se em telefonemas e contactos para perceber se fazer descer a urna era, ou não, uma ilegalidade. Uns diziam que sim, outros que não, que era até uma obrigação, tendo em conta que tinham metido a pata na poça. A Carlota seguia tudo com atenção. Visivelmente irritada, mas já cheia de fome, só perguntava quando é que, afinal, íamos almoçar.
 
Tivemos nisto uma hora. Durante essa hora foram vários os que me tentaram, simpaticamente, convencer. “Levamo-la ao colo”, “pegamo-la às cavalitas”… Mantive sempre a calma. E a palavra. Respondi que não, que tinham que perceber a minha decisão, que não podia ser incoerente com o que defendia e pelo qual lutava há tantos anos, que estava em causa um direito meu, e que, se cedesse, estaria a contribuir para que tudo continuasse na mesma. Tinham-me arranjado ali um problema, teriam que o resolver de uma forma justa, que não acarretasse perigo para mim, e que não me obrigasse a expor-me. Perceberam que se não arranjassem uma solução que encaixasse nos meus parâmetros de dignidade, estava resolvido: não votaria, lamento.
 
Todos compreenderam a minha posição. Tirando uma imbecil que fazia parte da mesa onde eu devia votar, que só sabia dizer entre dentes “mas porque é que ela não sobe com os bombeiros? Até os acamados sobem…”. Minha senhora: isso é que era bom. “Isto não é um circo e, se estivesse na situação dela, faria o mesmo”, respondeu-lhe a minha irmã, sem dar mais conversa.
 
Uma hora depois, a presidente da mesa, uma senhora bastante acessível e sensata, em conjunto com a Assembleia de Voto da minha mesa e de outra que se encontrava no piso térreo, e ainda do delegado da Junta de Freguesia (ufff!), tomou finalmente a decisão de deslocar a urna cá abaixo. Desabafou, entretanto, que já esperava que uma destas acontecesse, quando viu 4 mesas sem acesso. E aconteceu. Foi comigo, mas podia ser um velhote ou com alguém com uma perna partida. Ou, ou, ou, porque mobilidade reduzida é muita coisa. 
 
Parou tudo. Encerrou-se a mesa lá em cima. Explicou-se às pessoas que aguardavam na fila o que se ia passar e que teriam que esperar mais um bocadinho. Eu, cá em baixo, votei. Cumpri o meu dever. Como cidadã que quer ter uma palavra a dizer.
 
 
 
No fim, pedi o documento para fazer a reclamação formal. Que preenchi religiosamente. Mas nos “motivos de reclamação”, em nenhum a minha encaixava. Sem problema, adaptei uma das hipóteses que falava em “deslocação de urnas”, que complementei com um texto breve mas esclarecedor nas “observações”. A frase chave foi “sem acesso para pessoas de mobilidade reduzida”.
 
O que vai acontecer agora não sei porque isto é burocracia atrás de burocracia. Mas do meu lado está feito. Aquilo há-de chegar à Comissão Nacional de Eleições e espero que algo mude. Acima de tudo porque o mudar aqui é simples demais para que não aconteça. Bastava que não tivessem arriscado e que tivessem colocado todas as mesas de voto acessíveis. E, acreditem, espaço ali não faltava. Até porque havia pavilhões fechados. Os mesmos onde votei nas últimas eleições. “Ah e tal, são do ATL, este ano a escola não nos deu autorização…”. Pois, mas devia ter dado. E, se o tivesse feito, nada disto tinha acontecido. Era uma questão de respeito, de igualdade. E de consideração por quem já entra no jogo em desvantagem.
 
Mas, afinal, também não sou eu que tenho que encontrar solução. São eles. Aqueles que passaram os últimos dias a apelar ao voto e a relembrar que é o dever de todos os cidadãos responsáveis. De quem depois exige ter voz.

 
Enfim…eu só queria ter chegado lá, como qualquer outra pessoa, exercer o meu direito/dever, o que for, e sair com o sentimento de dever cumprido. Mas este ano foi difícil. Este ano foi o ano em que (quase não) votei.
 
 

26 de setembro de 2013

Aos (meus) amigos.

3, 2, 1. Começou a corrida. As reuniões. As horas para tudo. Os emails atrás de emails. O ppt para apresentar-aquela-ideia-que-vivia-tão-bem-sem-ppt-caraças! O sempre online. Os risos sinceros. E os menos sinceros (vá, sem eles a vida tinha menos graça…)

Acabaram-se as férias. Regressámos ao trabalho. E ao ritmo frenético que compete com o pequenos prazeres e nos rouba o tempo que lhes queríamos dedicar.

Mas o mês de Setembro é também o mês dos meus anos. Fiz 38 há 5 dias. Fiz não, comemorei. Desde miúda que adoro fazer anos. Afinal é sempre mais um que tenho para contar. Mais um bocadinho da minha história. E onde junto amigos que fazem parte de grande parte da minha história.

Tento sempre vivê-lo da melhor forma possível. Mas este foi diferente. Foi o ponto alto de um ano cheio de curvas que reforçou algumas certezas. E a maior de todas foi que a vida tem sido generosa comigo e se tem encarregado de me rodear das pessoas certas. Que os valores e princípios que sempre me orientaram na vida, e que tantas vezes me fazem torcer o nariz, são um excelente filtro para perceber quem deve e pode estar por perto. O que quero. Mas, e acima de tudo, o que não quero.

Nestes últimos meses, nestes últimos dias, tive mais uma prova de que tudo o que conta é estar perto de quem nos quer bem. Nestes últimos meses, nestes últimos dias, percebi melhor do que nunca que só quem está connosco e por nós, nos deve ter consigo e por si. No trabalho ou na vida pessoal.

2013 trouxe-me um Verão inesquecível. Viajei, conheci outras pessoas, experimentei coisas novas. Cresci mais. Vivi mais. Tudo isto com quem mais gosto.
 
Depois desta injecção de energia, no regresso de Setembro, veio o regresso ao trabalho. Encarado com outro ânimo. Com mais motivação. Com mais pica. Com saudades dos sorrisos sinceros. E pronta para enfrentar…os outros.

O bom tempo continuou e, com ele, continuaram os dias de praia. A “vida de Verão” passou de todos os dias para os dois do fim-de-semana. Mas os amigos, esses, eram os mesmos. Que é outra parte boa.

O Outono acaba de nos bater à porta. São os dias mais curtos, mais frios. O cenário muda. Os programas adaptam-se. Mas as caras são as mesmas. E, claro, temos sempre espaço para aquelas que entram agora no filme!

Há 38 anos a vida preparava-se para me pregar a primeira partida e me tentar fugir. Anos depois, e por mais que uma vez, mais um tropeção. Mas também mais um “ó faxavor, sai da frente que eu quero passar”.

Hoje, com 38 bem contadinhos, já não sou uma miúda. Sou sim uma mulher, madura e cheia de sorte. Que acredita mesmo que depois de uma ou outra tempestade, vem sempre a bonança. E com consciência diária que é fundamental, nesses momentos de bonança, recarregar energias para enfrentar os dias agitados. Porque fazem parte.

Mas que venham que cá estarei. De preferência sempre bem rodeada. De amigos. De todos vocês.

Obrigada por fazerem parte da minha vida. Eu adoro fazer parte da vossa. E sentir que, por isso, posso fazer a diferença na vida de cada um.
 

11 de setembro de 2013

Venha cá c'agente ajuda!

Se há coisas que me encanitam é que alguém resolva a falta de acessos para pessoas com mobilidade reduzida com um “mas não se preocupe que nós ajudamos, sem problema…”. Lamento mas, aqui, a boa vontade, serve-me de pouco.

Hoje foi no super fashion & so trendy Cais da Pedra, do também super fashion & so trendy Henrique Sá Pessoa. Gosto do rapaz. Acho-o talentoso. Mas contratou os arquitectos errados, sorry.

Os dias de trabalho têm sido bravos. A necessidade de sair à hora de almoço e relaxar num restaurante agradável é enorme. E quando conseguimos fazer uma reunião de trabalho num ambiente destes, melhor ainda. A coisa tem tudo para correr bem. Certo? Errado.

Lá fomos nós, eu e a Cristina. Precisávamos de falar de trabalho mas de uma forma descontraída, longe das interrupções que normalmente acontecem no bar da empresa ou nos restaurantes mais próximos.

Convenceu-me com um “vou levar-te a um sítio giro, bom ambiente, onde se comem uns bons petiscos, com o rio como pano de fundo. Aproveitamos e falamos dos temas que temos pendentes.” Nem pensei duas vezes.

Assim que me aproximo da porta de entrada, um degrau enorme com uma porta pesadíssima. Subimo-lo, abrimo-la. De seguida ainda tive que me desviar porque, depois dessa porta, me deparo com um pequeno hall que me leva…a uma nova porta. Novo peso pesado, portanto. “Isto de papo vazio também não ajuda”, pensámos. Bola prá frente.
 
 

Segue-se o mais curioso no meio deste cenário: uma rampa bastante aceitável. Ufa, estou no interior do restaurante.
 
O dia está fantástico e decidimos ficar na esplanada. A Cristina já havia comentado comigo que me esperavam dois degraus. Volta a comentar, desta vez perto dos empregados. E um deles, cheio de boa vontade, diz “mas não se preocupe que nós ajudamos, sem problema”. As minhas tripas remexem-se. Não consigo evitar e encanito-me toda. De cara fechada respondo “vai desculpar-me, agradeço, claro, mas não devia ser suposto eu precisar de ajuda.” O gerente – penso que era o gerente – desculpa-se com um “tem razão...No outro dia até tivemos cá um senhor que tinha a perna partida que também acabou por precisar de ajuda…Devíamos ter uma rampa…”. Pois, mas não têm.

E por não terem, tenho que aceitar a tal ajuda. Um deles faz um “cavalo”, o outro ampara na descida agarrando nos pedais. A esplanada em peso a olhar, ou não estivéssemos em Portugal. Vem aí o ET. Once again…

O almoço estava bom. A gaita voltou a ser na saída.

Mais uma vez, o mesmo filme, venham de lá os empregados para acartar comigo. Vira de costas para os degraus. Faz cavalinho. 1, 2, 3, sobe o primeiro, 1, 2, 3 sobe o segundo. Baixa a cadeira, vira, segue caminho. Esplanada em peso a olhar. Que caraças! Percorremos o restaurante, abrimos o “portão”, passo, abrimos o segundo, descemos o degrau para a rua, com alguma dificuldade. Estou no passeio. Acho que já não tenho mais obstáculos até ao carro. Estou a salvo. E inteira. Vá lá.

Não percebo. A sério que não percebo. Não consigo compreender qual é a dificuldade em, havendo espaço, fazerem uma porcaria de uma rampa. Principalmente no caso deste restaurante, que teve o cuidado de – segundo me dizem porque eu não fui ver, mas acredito – fazer uma casa de banho adaptada. Se pensaram “em nós”, porque é que se ficaram pela metade?

O Cais da Pedra não é, de longe, o único a ter este problema. Hoje há espaços muito modernaços – uaaaau até têm casas de banho adaptadas - mas depois valem-se “da ajuda e do desenrascanço” tão portugueses. Eu agradeço o jeito, claro. Sei que a boa vontade existe e facilita. Mas preferia não precisar. Ser como “os outros” e não precisar.

Desta vez não pedi o livro de reclamações. Infelizmente de pouco serve porque, no que toca a acessibilidades, é muito fácil fugir ao Decreto-Leinº163/2006, de 8 de Agosto. Basta passar directamente ao Artigo 10.º e alegar que “ah e tal, as Excepções…”. Já para não falar das entidades responsáveis por fiscalizar, que pouco ou nada fazem.

Por isso, também vou ser modernaça e usar as novas formas de comunicar. Neste caso, as redes sociais. Que, sendo certo que servem para disseminar muita treta, servem também para denunciar muita coisa mal feita. Chegam longe.

No entanto, deixo uma promessa: no dia em que o exemplo for bom, farei o mesmo caminho. Para chegar igualmente longe.

E pronto, já sabem: se tiverem um pé ou uma perna partida, um joelho todo lixado, bolhas nos pés, se estiverem grávidas, conduzirem um carrinho de bebé, ou se se depararem com um problema num tornozelo, e quiserem ir ao Cais da Pedra…vão!
 
Mas peçam ajuda...porque vão precisar!

2 de setembro de 2013

Um brinde às coisas que nos fazem felizes! Um brinde ao Verão de 2013!

Banhos. Criançada. Raquetes. Pranchas. Gelados. Fruta fresca que se partilha. “Prova! Está fresquinho este melão, prova lá!” Conversas de fim de tarde. Com montes de gargalhadas à mistura. O dia ainda quente. As toalhas cheias de sal. As caras em tons de laranja porque o sol se despede. Uma caipirinha. Uma morangoska. Várias. As bolas de Berlim do senhor Rocha. Os gelados do senhor Rogério. A nossa praia. Onde todos os anos nos encontramos. Olha a fotoooo…!

Estamos todos, e somos tantos…As amigas que lá fora contam os dias que faltam para passarem o Verão cá dentro. Aquelas que se preparam para embarcar no mesmo desafio, também à procura de uma vida melhor. Os que continuam por cá, por opção ou por falta dela, e que acabam também por fazer as mesmas contas para voltar a ver os que seguem viagem. Os nós na garganta na despedida. “Temos o facebook, fazemos uns skypes, pá! Vamos matando saudades assim…E vamos lá ter contigo...”.As lágrimas escondem-se por detrás dos óculos espelhados. Disfarçaaaaa…!

Misturam-se os amigos com os conhecidos. Misturam-se os de sempre com os de agora. Os de antes com os de hoje. E todos se cumprimentam como se se conhecessem há que tempos. Um jogo de futebol, um restaurante, um filme, uma notícia de jornal. Há sempre qualquer coisa em comum. E se não houver, inventa-se. Somos assim.

São horas e horas de praia que passam a correr. Que passaram a correr.

Arrisco-me a dizer que estas foram as melhores férias dos últimos anos. Conhecemos lugares novos. Reunimos amigos e com amigos. Fizemos outros que, quem sabe, ficarão para a vida.


No que me diz respeito, foi um Verão que me vai marcar para sempre. Descobri uma nova Marta. Quase, mesmo quase a fazer 38 anos, 23 deles sentada na minha cadeira de rodas, decidi deixar-me de tretas e aproveitar mais aquilo que a vida tem de bom para me dar. Podia tê-lo feito há mais tempo. Mas acredito que há uma altura certa para tudo. E essa altura chegou.

Vinha de um ano sem férias e de muitos meses de trabalho duro. De projectos que me tinham tirado grande parte da energia que, ao contrário do que tantos pensam, tem um limite. Vinha de um ano em que tantas vezes me tinha apetecido desistir. Precisava – precisávamos – urgentemente de férias. De parar. De recarregar baterias. Estávamos todas a zeros.
 
Aquele dia na praia no Alvor foi o ponto de viragem. Quando lá cheguei e vi que estava preparada para mim, decidi deixar-me levar pelo coração e enfiei-me de novo dentro do mar. Custou-me. Foram anos a viver de outra forma, mas a verdade é que tomei a decisão mais inteligente dos últimos anos. Uma espécie de regresso à liberdade.

Foi um impulso, mas hoje percebo a dimensão da coisa: abri uma porta que tem tudo para me fazer ainda mais feliz.

Foi também especialmente gratificante sentir que todos à minha volta - mesmo os que nunca tocaram no assunto e que há anos que convivem comigo sem fazerem grandes perguntas – estão tão ou mais entusiasmados do que eu com esta nova fase.

Pois, meus amigos, uma coisa vos posso garantir: como só tenho 37 anos (quase, quase 38), não vou voltar atrás na decisão e conto viver até aos 100, haverá tempo para mergulhos e nadadelas com todos!

Agora venham de lá os meses de trabalho. Os horários. As reuniões. As rotinas. Os projectos novos. Mesmo aqueles que me sugam a energia. Vá, venham! Porque, depois de um Verão como este, tenho tanta de reserva que estou preparada para ir à Lua e voltar. E estou a ser modesta!

21 de agosto de 2013

A Marta sabe nadar yoooooo!

Quando acordei pensei “vá, Marta, prá frente com isto, pá! Levas o fato de banho por baixo e só te descascas se te sentires à vontade.”

Pelo sim pelo não, pintei as unhas dos pés. Depilei-me (a palavra é feia mas não há outra). As pernas estavam cor de leite. O tronco, cor de café. Tentei não pensar muito nisso.

Praia do Alvor. Estava cheia. E era enorme. O local era novo para mim, mas isso, de alguma forma, tranquilizava-me.
 
O sol estava a escaldar. Quando estacionamos o carro reparo em rampas por todo o lado. Estava definitivamente numa praia acessível. Passo o bar, vejo que tem wc, faço o passadiço e chego ao areal.

À esquerda chapéus de palha, à direita chapéus de palha. Em frente, uma tenda grande. Alguém nos informou de que era ali que nos devíamos dirigir. Foi o que fizemos. Eu, a mana, a mãe e a Carlota.
 
Dentro da tenda, algumas pessoas de cadeira de rodas, com os respectivos acompanhantes. Em linguagem de surfista, eram os locals. Rapidamente me explicaram como tudo se processava.
 
Vejo o monitor, rio-me para ele, ainda meio envergonhada. Nilson. Um italiano que foi viver para o Brasil com 3 anos e que já tinha andado a trabalhar pela Europa e por África. Bem-disposto, pergunta-me o nome, respondo “Marta”. Depois, se quero ir ao banho. Foi quando tremi por dentro, o estômago encolheu. Não o fazia há mais de 20 anos. Por um lado, porque as praias que sempre frequentei não tinham tiralô e, muitas vezes, mar suficientemente calmo. Mas, essencialmente, porque com o tempo me tinha desabituado de estar “despida”. Sentia-me demasiado exposta.

Pensei “cum caraças, se não for agora, não é nunca. Não conheces ninguém, todos aqui estão/são como tu, és apenas mais uma.” Respirei fundo e disse “mana, passa-me os calções de banho…”. Ela nem queria acreditar. Eu sei que estava igualmente nervosa só que não queria demonstrar. Mas feliz por mim. Ela e a mãe, que estava ainda meio incrédula.

A Carlota correu a besuntar-me com protector total. À pressa, porque queria ver-me no mar. "Quero ir lá para dentro contigo."

1, 2, 3, e, quando dei por mim, já estava sentada no tiralô. Um carrinho anfíbio, amarelo e azul - que de discreto nada tem. E lá fui eu, pelo trilho que me levava até ao mar. Alguns olhares curiosos, deitados nas toalhas. Aliás, muitos. Fingi não reparar. Concentrei-me apenas no mar, que estava cada vez mais perto. Uma piscina. Um postal perfeito. Parámos muito perto. O monitor olha para mim e faz-me sinal com a cabeça, como quem me pergunta “estás preparada?”. Também acenei com um “sim, estou, vamos a isto.”
 

Fomos entrando no mar. Já a flutuar no tiralô, pergunta-me se sei nadar. Respondo que sim, e que queria experimentar ali, no mar. Riu-se, afundou o carrinho e fez-me sinal para ir. E eu saí mesmo. Fui. Mesmo.

No areal, senti uma multidão a seguir-me com os olhos. Como a Carlota dizia “parece um programa da TVI, pá!” Virei-me de costas, olhei para o mar e pensei: já está. 20 anos depois, estava no mar outra vez. Com as ondas a enrolarem-se no meu corpo. Com o sal a ficar-me na pele. Com o sabor da água salgada nos lábios. A entranhar-se como quando tinha 17 ou 18 anos. Com a mesma intensidade. Se calhar com mais ainda, porque o meu corpo pedia-me aquilo há algum tempo.

Quando “desço à terra” percebo que as minhas miúdas estavam a aproveitar cada minuto. A Carlota sempre em cima de mim a dar-me beijos e abraços. A mana a tirar fotos. Depois guardou a máquina e enfiou-se comigo dentro de água. A mãe começou por ficar à beira da água, a tentar disfarçar o salgado das lágrimas com o salgado do mar. Depois juntou-se a nós.

Nadei, nadei, nadei. Tanto…No primeiro dia com os olhos dos monitores (no banho seguinte conheci também o Cristiano, um miúdo novo, giro, bonacheirão, com sentido de humor apurado) sempre em cima de mim. No segundo dia já me deixavam sozinha na água, sem tiralô, apenas com a minha família. Tinham percebido que eu me aguentava bem sozinha e que gostava de estar independente. Mas, mesmo dando-me a independência, nunca deixaram de ter um olho em cima de mim.

Gostava de o conseguir fazer mas a sensação de voltar a nadar não se descreve. Porque tudo o que possa dizer para caracterizar este momento seria reduzi-lo apenas a isso mesmo, um momento. E este regresso foi muito mais do que isso.

Desde miúda que praia, nadar, mergulhar, sempre foi um prazer. Sinónimo de liberdade. Com o tempo, e devido a algumas circunstâncias da vida, deixei de o fazer. Esta semana, mais de 20 anos depois, retomei. E prometo que não vou voltar a deixar escapar momentos destes.

As últimas palavras são de agradecimento profundo e vão directamente para o Nilson e para o Cristiano. Dois miúdos fantásticos que me fizeram esquecer a pele branca, a timidez, e que me ajudaram a voltar a sentir a sensação de liberdade que só o mar proporciona. Obrigada aos dois, ganharam um espaço no meu coração.