1 de janeiro de 2014

Dois galhetões era pouco

Nada como encerrar um ano a fazer uma coisa que nunca tinha feito: entrar no novo no meio da rua, rodeada das 3 pessoas mais importantes da minha vida.
 
Foi o que aconteceu. E, assim, este ano foi tudo para a rua!
 
Depois de jantarmos num espaço que nos fez viajar até ao mundo das artes de outros tempos – Martinho da Arcada – seguimos para onde a música falava mais alto.
 
O Terreiro do Paço é a praça mais bonita de Lisboa. Agrada-me aquela simetria. A luz. As histórias que ali se viveram. E o rio ali tão perto.
 
Estava animada, cheia de gente. 5 em cada 10 mulheres tinha uma bandolete com um laçarote de luz. Bom negócio para os comerciantes da zona. Na sua maioria, indianos. E um efeito fantástico, visto de longe.
 
Em ambiente de festa, não poderia faltar a barraquinha das farturas e dos churros, sempre à pinha.
 
À medida que 2013 se aproximava do fim, a praça ia enchendo. Principalmente de jovens. Isso é bom? Seria, se esses jovens tivessem as cabecinhas no lugar. Não precisariam de ter todo o juízo do mundo, porque a idade ainda não lhes permite. Só algum.
 
Por todo o lado, aos milhares. Por todo o lado, quase todos com garrafas de plástico de litro, que dentro transportavam um líquido escuro, que não consegui distinguir se era vinho ou outro tipo de álcool. Garrafas que, muitas vezes, eram garrafões de 5 litros.
 
Dei por mim parada, a olhar à minha volta, incrédula.
 
Poucos estavam apenas “alegres”. A maioria estava completamente bêbeda. Muitos só se aguentavam em pé graças à ajuda dos amigos, outros já no chão, à espera que os bombeiros os levassem ao hospital.
 
A poucos minutos de receber o ano, gritos histéricos por todo o lado. Movimentos loucos, sem nenhum respeito por quem estava à sua volta. Pessoas como eu, de cadeira de rodas, vi algumas, muitas crianças. Ou apenas pequenos grupos que a única coisa que queriam era ver o fogo-de-artifício numa boa, com a família mais próxima.
 
Estes miúdos conseguiram tornar aquele num momento, no mínimo, perigoso. Num momento que, devido a algum descontrolo, conseguiu pôr em causa a segurança de todos. Deles e dos outros.
 
Vimos o fogo-de-artifício, bebemos espumante e depois percebemos que era altura de sair dali.
 
Com o trânsito fechado desde o Cais do Sodré, restava-nos ir a pé até lá.
 
Chegar às arcadas não foi fácil. Fazer o caminho até à estação também não. E agora não por causa da multidão descontrolada, que entretanto foi dispersando, mas porque por todo o lado se viam adolescentes encostados às paredes, a vomitar as entranhas. Um cenário verdadeiramente miserável.
 
Os olhos que vos contam isto não são os olhos de uma careta. Durante anos saí à noite. Fiquei “alegre” dezenas de vezes. Mas nunca assim. Jamais assim, degradante. Situação, no limite, perigosa até para eles.
 
 
A Carlota assistiu a tudo. À medida que fazíamos o percurso até ao Cais do Sodré, via-se nos olhos dela a rejeição pelo que se passava à sua volta. Perguntava “mas porque é que estes miúdos se deixam ficar assim?”. Respondi-lhe que aquilo era tudo o que ela não deveria fazer quando fosse mais crescida. Que devia divertir-se ao máximo - como eu e a mãe fizemos – mas que não precisava de ser assim.
 
Quando chegámos à estação, liguei para o nosso táxi. “Miguel, tire-nos daqui que, a partir de agora, isto é uma selva”.
 
Ao nosso lado, enquanto esperávamos por ele, uns vomitavam, outros sentavam-se no chão, indiferentes ao molhado da chuva torrencial. Entre um barril de cerveja onde regularmente enchiam os copos de plástico e conversas em que 3 em cada 2 palavras eram “c@£§€{##&%”, “f”#$%%&”, e “f”#$%&/ da p”#$%&”. Uma tristeza para a alma de qualquer ser-humano normal.
 
Ora a minha pergunta é: são estes os jovens de amanhã? São estes os jovens que saem das nossas universidades e que se preparam para liderar as nossas empresas? É a esta geração a que está entregue o futuro do nosso país…?
 
Onde é que estão os pais destes miúdos? A minha mãe saberia se eu andasse neste tipo de vida. Porque estaria atenta.
 
No meio disto tudo, dois miúdos, apenas com um copo a mais, divertidos mas contidos, dirigem-se a mim e desejam-me bom ano. Dou-lhes as minhas mãos, faço o mesmo, olhando-os nos olhos. Peço para não beberem mais. Para se divertirem, mas para não beberem mais. Respondem em uníssono “nãããã…! Vamos parar por aqui”. Pisquei-lhes o olho. Espetaram-me dois beijos e um deles, antes de me deixar entrar para o táxi, disse-me “Epá, és linda comó c”#$%&/”. Sem resistir, soltei uma gargalhada e disse-lhe “vá, sem o palavrão ficava mais bonito…!” Recebi um “ya!” como resposta. Enfim.
 
Nisto chegou o Miguel e tirou-nos dali. A Carlota sentou-se e adormeceu de imediato. E nós respirámos fundo por deixarmos, finalmente, aquele cenário para trás.
 
Acredito que tudo vale pela experiência mas, no meu caso, prefiro ambientes mais controlados. Vá, e jovens mais inteligentes. Porque a estes, dois galhetões era pouco.
 

22 de dezembro de 2013

A força das pequenas coisas

O dia rompeu gelado. Mas com um sol enorme e quente. Que apetece.
 
Pego num dos livros que insisto em manter em cima da mesa-de-cabeceira durante meses, e vou para a varanda. Lá dentro deixo a música a tocar, para que a consiga ouvir cá fora.
 
Já vai longe a decisão de fugir da cidade. Quase 12 anos, se a memória não me falha. Queríamos uma vida mais saudável. Longe da confusão. Mais perto do cheiro do mar e do pinhal. E uma casa onde eu pudesse ser 100% autónoma, sem armadilhas.
 
Foi assim que encontrei a minha varanda. Estar cá em cima é como estar sentada numa plateia a assistir à vida a passar. Vidas a passar.
 
A minha rua está tranquila. Como sempre, temos a companhia dos pardais e dos corvos. Ao longe, mas como se fosse perto, o barulho do mar, em fúria, que por estes dias tantas histórias trágicas tem trazido com ele.
 
Pelo meio, ouvem-se os talheres da hora de almoço nas cozinhas. As televisões. Os putos que jogam futebol no campo que fica nas traseiras. Os donos dos cães que os deixam soltos pelo pinhal. O Mike é um deles. Um rafeiro castanho, com barbas brancas e olhos cor de amêndoa. Nunca acata a ordem do dono à primeira. É preciso chamar, chamar, chamar, até ele ouvir. Quer dizer, ouvir ele ouve, porque quando vem, parece vir a rir.
 
Entretanto o gato gordo e coxo, de quem já vos falei em tempos, foi adoptado. Mas por alguém que o conhece como ninguém. A enfermeira do prédio ao lado sabe que é um gato vadio, livre e, por isso, limitou-se a pôr-lhe uma coleira, a dar-lhe dormida, mas deixa-o solto durante o dia. Para além dela, todos lhe dão de comer. Daí estar gordo.
 
Mas, nos últimos dias, foi outro o bicho que decidiu vir viver para a minha rua. Em particular, para a minha varanda. Uma aranha, pequena mas gorda, que todos os dias se dedica a construir um pouco mais da sua teia. No início, quando ainda não me tinha apercebido desta presença, limitava-me a arrancar aquilo. Mas, quando ontem me preparava para o voltar a fazer, ela saiu de um buraquinho da parede - desculpem, da sua casa - e ficou parada na teia. Sem medo. Como se olhasse para mim e dissesse “bolas, pá, outra vez não...não faças isso… deu-me tanto trabalho!”. E não fiz. Agora já conto com ela. Deixo-a estar. Porque não haveria de deixar?
 
De vez em quando, muito de vez em quando, pára um carro. Lá de dentro sai o avô e a avó, que chegam para passar a semana com os filhos e com os netos. Afinal, é Natal. Com eles, vêm as couves, as cenouras e as batatas “lá da terra”, tudo em sacos do Pingo Doce.
 
Na paragem, uma senhora de cor espera pelo autocarro que a levará a casa depois de terminar o turno da noite no lar de idosos. Julgando-se sozinha na rua, canta uma música da sua terra. Naquele momento não está cá, está lá. Vê-se nos gestos que faz com o corpo, nos passos que se cruzam nos seus pés.
 
A ela junta-se uma adolescente de auscultadores gigantes nos ouvidos, gorro na cabeça. Ao mesmo tempo que troca sms com as amigas, abana-se ao som da música que está no top e arranca um sorriso à senhora. Começam a conversar. Nisto aproxima-se uma velhota de bengala, que todos os dias apanha o transporte para ir beber um chá depois do almoço, com as amigas de sempre.
 
Chega o autocarro, à hora, todas seguem os seus caminhos. A rua fica de novo vazia. Mas apenas por breves minutos.
 
Mesmo por baixo do meu prédio passa o amolador. Dizem que traz a chuva, o mau tempo, mas o céu continua azul e nem sinal de nuvens. Veremos. Os putos, os mesmos que antes jogavam à bola, passam agora por ele e imitam o som da gaita, no meio de gargalhadas. O homem, já velho, continua mas ri-se. Não se importa. Já teve a idade deles.
 
Cada pessoa que passa lá em baixo tem uma história. Uma vida. Aqui de cima, da minha varanda, vê-se parte dela. Atrevo-me a dizer, a parte que interessa.
 
Porque, como em tudo, são os detalhes que fazem a diferença.
 
 

19 de dezembro de 2013

Take a smile :-)

Ser alguém para quem se olha com admiração, e que alguns até seguem como exemplo, não é propriamente fácil. Mais: isto de inspirar pessoas é uma responsabilidade, no mínimo, do caraças.
 
"Sempre bem-disposta". Há muitos anos era essa a minha única “imagem de marca”.
 
Recebia inúmeros convites para contar a minha história, nomeadamente em televisão. Convites que quase sempre aceitei. Não me assustava nem a ribalta, nem a exposição. Sentia-me tão à vontade em estúdio como no sofá lá de casa. Divertia-me até. A verdade é que gostava de ser o centro das atenções.
 
Mas a vida avançou, os anos foram-se encostando carinhosamente uns aos outros e, felizmente, o bom senso aninhou-se lá pelo meio.
 
Com o tempo, com a (matur) idade, aprendi a sentir-me mais confortável por detrás das câmaras. Porventura, até um defeito de profissão. Afinal, como assessora de imprensa, o meu papel não é brilhar. É, sim, fazer os outros brilharem. Garantir que não são surpreendidos com questões que não esperam. Assegurar que passam a mensagem certa. Alinhada e sem espinhas. Clara e sem curvas. Para que quem nos ouve, nos entenda.
 
As luzes do palco deixaram de ser importantes. Palavras como resguardo e low profile ganharam peso. A vontade de ser só mais uma. Na vida pessoal, mesmo naquela que temos no mundo profissional. Acima de tudo nessa.
 
A boa disposição mantém-se, claro, mas agora sem ter que estar sempre em primeiro lugar. Não pensem com isto que fui uma fingidora. Entendam que a vida me ensinou a ser mais autêntica. A esforçar-me sempre por estar bem, mas a aceitar que também posso estar menos bem. E que, com isso, não vem nenhum mal ao mundo.
 
 

 
Com o passar do tempo, passaram a existir os dias em que se pudesse desaparecia – mas levava comigo as minhas – porque sinto que mais nada me prende aqui. Aqueles em que olho para o lado e não me identifico com nada nem com ninguém. Aqueles em que não há quem me veja um dente. A não ser quando levanto o lábio superior e rosno. Aqueles em que me torno insuportavelmente irritante. Ou apenas aqueles em que não me sinto feliz. Porque não temos que estar sempre felizes, certo?
 
São estes os dias que causam estranheza nos que se habituaram a ver-me always on. Porque prefiro estar off.
 
Depois há os outros. Em que acordo com uma vontade, uma força e uma energia capazes de dominar o Universo. Dias em que bem pode cair uma carga de água que me molha até aos ossos, dias em que até os passarinhos me elegem para fazer cocó em cima. Mas que me marimbo e sigo.
 
A vida deve ser assim. Contrabalançada. E, tal como a vida, também nós. Equilibrados. Termos as duas partes cá dentro. Darmos palco às duas, sempre que for necessário. Não tapar uma com a outra. Porque, se formos de outra forma, somos uma farsa que engana tudo e todos.
 
No meio disto, apenas um truque: reagir aos dias maus. Ficar triste por ver a porta a fechar, mas não descansar enquanto não encontrar o raio da janela que dizem abrir-se nestas alturas. Forçar os músculos a mexer e mostrar os dentes, sem ser para rosnar. Rir. Porque o riso é contagioso. Quando rimos, influenciamos quem está à nossa volta com o que de melhor a vida tem para nos dar: alegria.
 
(…) Alegria brutal e primitiva de estar viva, feliz ou infeliz, mas bem presa à raiz (…), como disse um dia alguém.

8 de dezembro de 2013

Fazes-me falta...

Enrolei-me numa manta quente e fui à varanda.
 
No meio de gente a entrar e a sair de casa, de crianças a andarem de bicicleta, e de velhotas a fazerem caminhadas enquanto cascam naquela que falhou a caminhada, vi um miúdo a passear um cachorro. O bicho não tinha mais de 2, 3 meses. Não corria, saltava. Porque correr, para ele, ainda é pouco. Quer ir mais rápido e mais alto, por isso vai aos saltos. Afinal, a vida começou-lhe agora. Se calhar, a vida começou-lhes agora. Um com o outro. Um para o outro, espero.
 
É por isso que hoje quero navegar pelas águas da palavra “falta”. Águas que, por muito que eu lute contra, às vezes se agitam no meu coração. Porque a falta que me fazes é grande. Porque não me esqueço.
 
Quando acordo e não sinto o teu cheiro. Quando ando pela casa e não te vejo. Quando o dia foi mau, preciso do teu carinho, e não o encontro.
 
Lembro-me de quando te fomos buscar como se fosse hoje. Uma casa senhorial, numa vila de fadas. Um dia de sol.
 
Desceste a rampa do jardim aos trambolhões. Eras uma bola de algodão branco a rebolar. Trapalhão. Tu e os teus irmãos e irmãs. Trazias a mãe e a tia atrás, imponentes. O teu pai estava a brilhar em mais um qualquer concurso internacional.
 
Escolhemos-te a ti. Baptizámos-te Gaspar. E a uma das tuas irmãs, Matilde. Mais branca, olhos negros, e nariz escuro, que foi ficando claro com o passar dos anos. Dona do mundo. E do teu em particular...
 
Perdemo-la cedo. Fez-te falta, bem sentimos que te fez. Fez a todos.
 
Durante tanto tempo procuraste por ela. Durante tanto tempo tivemos que te ensinar a viver sem ela. Mas aprendeste. Tu e nós.
 
O que aconteceu ligou-nos. Ainda mais. E eu a ti, que passava tanto tempo contigo. E eu a ti…
 
Aos teus olhos. De chinês. Meigos, carinhosos, cheios de amor para dar. E gratos. Pela forma como sempre te tratámos.
 
Perder-te foi das provas mais duras que a vida já me fez passar. Morreres-me foi das realidades mais tristes que a vida me obrigou a encarar.
 
Eras parte da família, sempre serás. Sabes disso, não sabes?
 
Passaram-se 2 anos. Pessoalmente, nunca mais me recompus. Segui com a vida em frente, mas nunca mais preenchi o vazio que deixaste.
 
Perco-me no trabalho, nos compromissos, estou bem. Claro que estou, porque não sou apanhadinha.
 
Os dias passam, já não penso em ti todos os dias. Mas, quando páro – e, Deus, se páro com frequência! -, fazes-me falta. A falta que me fazes.
 
Ainda não me reconciliei com a ideia de abrir a porta a um amigo novo. Nem sei se isso alguma vez acontecerá.
 
Tenho dias em que acredito que é o caminho, mas outros em que só pôr a hipótese, me deita por terra.
 
Quando penso em ti, esforço-me profundamente por me concentrar apenas nos melhores momentos. Porque foste muito feliz. E nós muito felizes contigo. No fim, é isso que conta.
 
As saudades ficam. É certo vão doendo cada vez menos fundo. Mas eternizam-se porque, como dizem os poetas – e quem melhor que os poetas para transmitir o que nos vai naquele cantinho da alma -, as saudades são a memória do coração.
 
Fazes-me lembrar a história daquelas duas pulguinhas que passaram a vida inteira a juntar dinheiro para conseguirem comprar um cão só pra elas...Pois é, tenho a certeza de que esse cão eras tu.
 
Enfim…fazes-me falta. Não quero que te esqueças.
 
Era isto.


 


24 de novembro de 2013

O meu galo de Barcelos

Os dias duros, daqueles que magoam na alma, roubaram-ma. Não encontro a minha inspiração.
 
Os últimos meses têm sido passados na companhia de um coração que salta demasiado dentro do peito.
 
O peso na alma tem-se acumulado. Alguma incerteza, uma espécie de aperto.
 
Esperámos todos os dias pela decisão. Esperámos todos os dias que, quem tinha que decidir, a esquecesse. Trabalhámos todos os dias para que, quem tinha que decidir, se interrogasse se seria mesmo essa a melhor decisão. Esperando que resolvesse que não.
 
O dia chegou. A decisão não foi a que queríamos.
 
Os dias que se seguiram têm sido para juntar cacos. E, com eles, tentar reconstruir uma peça igual àquela que tínhamos antes de quebrar em demasiados pedaços.
 

Como aquele galo de Barcelos que tenho em cima do armário verde-alface do meu quarto, que já tantas vezes caiu ao chão, e que já tantas vezes colei. Caco a caco.
 
A verdade é que o galo não ficou igual, nunca mais ficará. Mas continua a tornar aquele meu espaço mais colorido. Ao lado das matrioskas e das kokeshis, que também por lá se mantêm para me proteger e trazer-me sorte. A mim e a quem me rodeia.
 
Pois bem, tal como o galo, acontece-nos cairmos ao chão de quando em vez e as nossas vidas esborracham-se como castelos de cartas. Partimo-nos todinhos.
 
Mas a cola da vida, a cola de querer viver, tem o poder mágico de unir os cacos. De nos colar as entranhas que antes achámos impossível colar e de voltarmos a brilhar. Com algumas cicatrizes, mas cheios de luz. Quem sabe mais ainda. E estamos prontos para continuar a ocupar aquele lugar nas vidas de quem nos rodeia. E nos corações.
 
O meu galo, mesmo todo coladinho e cheio de "cicatrizes", não vai sair dali de cima. Porque ainda tem muitos anos de armário verde-alface pela frente.

17 de novembro de 2013

Com quem se conta

Temos malta do marketing e da comunicação. Temos artistas e engenheiros civis. Temos executivos de topo, gente ligada ao desporto e ao fitness.

Por estas bandas há um pouco de tudo. E, com isso, abundância de conversas. Mas, principalmente, palhaçada.

Crianças, animais. Boa comida, boa bebida. O modelo “todos-contribuem-e-assim-dá-para-todos". E uma casa onde cada canto é uma memória.

20 anos de amizades. Do tempo das saídas à noite. Dos dias longos de praia. Das loucuras da idade. Das grandes histórias de amor. Dos dias com banda sonora. Músicas que ainda cantamos quando relembramos as viagens e os momentos. Quase todos hilariantes…

Histórias que ficam para sempre. Episódios que repetimos quando estamos juntos, mas que nos fazem rir como se os estivéssemos a ouvir pela primeira vez.

Foram anos que nos marcaram, que nos formaram. Estávamos no início de carreira. Mas também no auge da juventude.

Hoje somos todos quarentões. Os que não são, estão perto. Ou passaram por esse número há pouco tempo.

O mundo mudou. Todos nós mudámos com ele. E até a amizade que sentimos uns pelos outros. Porque cresceu. Fortaleceu. Passou a ocupar ainda mais espaço nos nossos corações.

Caramba, enquanto escrevo estas linhas, percebo como gosto destas pessoas...Conhecemo-nos tão bem, mas tão bem, que estarmos juntos é quase como estarmos em família. Como da ronha no sofá, de pantufas, da manta e do carrapito na cabeça se tratasse. Sem capas. Ao natural.
 



Enche-me o coração ouvir a Rodrigues recordar com prazer que me levava a sair à noite mesmo quando a minha irmã preferia ficar por casa. “Não te preocupes, pá, ela vem connosco!”. E ia. Com elas como se fosse com a mana.

Pegar-me o colo, subir-me pelas escadas, levar-me à casa de banho, tudo fazia parte. Não havia obstáculos. Nada nos parava. Aliás, nada nos parou.

Como daquela vez em que nos enfiámos no carro e só paramos em Badajoz para irmos ao El Corte Inglés. E à praça principal, para comer calamares. E à casa de banho daquela garagem onde fiquei entalada na sanita quando me sentaram. Entre gargalhadas, foi o cabo dos trabalhos tirar-me dali!

Como daquela vez em que bebemos um copo a mais, subimos as escadas do meu prédio às cavalitas mas correu mal e nos esborrachamos no meio do chão a rir. Com a minha mãe lá em cima, de porta aberta, à nossa espera. Ops.

A verdade é que nos divertimos à grande. Aproveitámos como merecíamos. E hoje, tantos anos depois e com vidas tão diferentes, continuamos por cá.

Não somos de beijos e de abraços porque sim. Por isso, quando somos, sabe-nos melhor. Mas somos de palavras de conforto. E de abanões, se for preciso. De wake up calls.

Quando alguém me pergunta como foi possível ultrapassar tudo e manter a auto-estima, respondo com estas histórias. É a esta gente que devo grande parte daquilo que hoje sou como ser humano.

Olhando para trás, e analisando cada momento, mesmo os piores, percebo como a vida tem sido generosa comigo e como tem atravessado no meu caminho as pessoas certas. Pessoas que entraram na minha vida por acaso, mas que não é por acaso que por lá se mantêm.

Já passaram 20 anos. Pois que passem muitos mais.

3 de novembro de 2013

Vão, mas voltam.

O Verão já lá vai. Voltámos à rotina do trabalho.
 
Alguns de nós meteram-se num avião e voltaram ao país que lhes prometeu um futuro melhor. Outros meteram-se no mesmo avião e foram pela primeira vez. Depois, há os que não foram nem vão, mas que o regresso ao trabalho nos retira da vista mais vezes do que as que gostaríamos.
 
Passou Setembro, passou Outubro. Com Novembro a romper, e as saudades a apertar, os que podem regressam, mesmo que por pouco tempo, de fugida. E reúnem-se à volta da mesa. Com o sol, o mar e a areia como pano de fundo. No bar de quem já passou connosco o tempo quente, no bar de quem já se partilhou connosco, e a quem desejamos que tudo corra bem.

Comentam-se as novidades de quem chega de lá. Misturam-se com as de quem vem de cá.
 
Trocam-se presentes atrasados. Os que não foram trocados por culpa da ausência forçada.
 
Notam-se as mudanças de cor de cabelo, a roupa nova. Sem maldade. Sem inveja. “Estás tão gira assim!”. Do coração.


 
 
Reforça-se aquela relação que começou no Verão. Aos olhos de todos “que bom, eles merecem”. No fundo da mesa comenta-se baixinho “vai ser desta”. Quem disse costuma acertar. Fui eu.
 
Chega a sangria. Vem o petisco. São as conversas que se cruzam. Que se atropelam. As risadas de um lado, os sorrisos do outro. Numa curva, esbarram um com o outro e é a gargalhada geral. As mesas do lado olham, mas nós nem queremos saber. É a loucura sã.
 
Os miúdos correm para perto do mar. Para acelerar na areia. Dar saltos. Mas os graúdos vão atrás. Não para controlar. Mas porque aqui todos brincam uns com os outros.
 
O sol muda de lugar e de cor. Deixa de ter força para aquecer o corpo mas ganha-a para aquecer a alma, de tão bonito.
 
O dia chega ao fim. Despede-se. Despedimo-nos todos. “Quando voltas para lá?”, pergunta-se pedindo que o tempo páre. “Vou daqui a uns dias.” “E quando regressas?”. A resposta é pronta ”no Natal e, muito provavelmente em Janeiro, para o aniversário da tua mana.”

O importante é tentar não estar longe muito tempo. Voltar sempre que se pode. O avião dá uma ajuda e torna o "tão longe" em "tão mais perto".
 
Os que ficam e apenas se despedem do momento, não do País, prometem que nem a chuva, nem o frio os vai separar. Nem a chuva, nem o frio nos vai separar.
 
Porque quando o que existe é amizade, da boa, o mundo reduz-se ao tamanho de uma azeitona.