5 de junho de 2014

"É aqui que durmo"

Sr. António, que gosta de ler e que guarda na sua saca velha 3 livros que alguém lhe deu. Está a acabar o último. A jovem de 20 e poucos anos, grávida de 8 meses, que mais uma vez se zangou com o pai do que ainda nem nasceu. O que não vai para lado nenhum sem o seu cão. Aquele a quem passamos o saco do pão, mas que o deixa escapar da mão. A mesma que, antes do provável AVC, conseguia agarrar aquilo que mais falta lhe faz. O que se apaixona com facilidade. O que apanha mentiras porque as conhece como ninguém. O estrangeiro. O jovem envergonhado. O menos jovem, igualmente envergonhado. O roto. O bem vestido.

Várias histórias, vários protagonistas. Todos diferentes, mas todos com o mesmo olhar. O olhar de quem não vive mais do que um dia de cada vez. O olhar de quem não sabe se para a semana tem uma vida. Nem que seja aquela estranha forma de vida.

Nunca tinha estado tão perto do submundo. Sabemos que existe, já todos nós o vimos, quanto mais não seja pela televisão. Mas assim, de perto, mergulhada nele, nunca. E com ele entranhado, muito menos.

Passei o dia a pensar no meu fim de dia. Se ia conseguir articular uma palavra. Se devia articular uma palavra. Se me ria, se fechava o sorriso. Se tratava com mais ou menos carinho. Se ia ser bem ou mal recebida. Se isto seria um capricho ou um dever.

21h30. Gare do Oriente. Mas a parte da Gare que só conhece quem sabe o que ali se passa. No fim do túnel. Perto do último acesso à rua. Primeiro, poucos. Com o passar dos minutos, tantos.

Cobertores, mochilas, sacos, carrinhos de supermercado. Caras estragadas pelo tempo. Pelo sofrimento. Pela falta. De tudo. De sorte.

Fazem fila. Olham para dentro das caixas, e para quem ali está sobretudo para dar o que tem nas mãos. Para os que, mesmo depois de um dia de trabalho, se partilham com eles.


“Pão de azeitonas, pão de hambúrguer ou pão simples?” “Iogurte?”. Os mais exigentes, que o gosto não se vai com a falta de dinheiro, perguntam se ainda há com pedaços. Não há, aceitam do outro.

Atrás de mim um jovem envergonhado. Um de nós pergunta se quer uma refeição. Responde com um encolher de ombros que esconde fome.

Fico nos sumos. Mas não encho os copos porque tenho medo que me tremam as mãos. “Quer um?” Quase todos dizem que sim. “Obrigado e saúde”, respondem.

A minha cadeira suscita curiosidade. São vários o que me perguntam o que me deixou assim. Explico com a simplicidade possível e de quem não está ali para ter atenção. Passo à frente.

O cão de um dos sem-abrigo não me larga. Quer festas mas nota-se que tem as do dono com fartura. “Trate-o sempre bem”, peço-lhe. “Ele é que me trata bem a mim”, responde-me com generosidade. E inteligência.

A fila não parece acabar. Mas há jantar para todos. De vez em quando oiço um “Marta, tudo em cima?”. É o coordenador, que se divide entre a distribuição de um prato quente e o aperto que sabe que sinto no coração.

Depois de comerem, voltam para os muros da Gare, que lhes serve de cama. Estendem as mantas, reúnem o pouco que lhes pertence. Falam pouco. Falar de quê...?

Já passa das 23h. Acomodam-se como podem. Aninham-se. Viveram mais um dia. Sobreviveram mais um dia.

Olho para aquilo tudo e penso “vou mesmo voltar. E vou levar alguns livros, para o Sr. António poder continuar a mergulhar na vida de quem ainda tem como viver.”

23 de maio de 2014

Não desistas de ninguém

A história que vos conto hoje é simples mas, por isso mesmo, de contar.

Deram-nos aquela orquídea há uns meses. Largos meses.

Esteve linda durante muito tempo, mas foi perdendo o brilho, transformando-se lentamente num pau seco, sem cor. Encarquilhado.

E assim ficou. E ficou. E ficou. Murcha. Morta. Morta? Veremos.

Todos os dias passava por ela e pensava “minha amiga…está na altura de ires para o lixo”.

Mas todos os dias via a minha mãe a pegar no vaso, a pôr-lhe água, a trata-la. Todos os dias via a minha mãe a escolher paciente e cirurgicamente o melhor local da casa para colocar aquele pau que um dia já tinha sido uma flor. Locais estratégicos. Onde houvesse mais luz, lá estava a orquídea. Durante muito tempo num dos quartos, ultimamente no chão da cozinha, perto da varanda.

Habituei-me a vê-la aqui e ali. Confesso que não lhe liguei muito. De vez em quando olhava para ela e pensava “já foste, coitadita”.

Nunca tivemos muita sorte com plantas ou flores aqui em casa. Aquela era só mais uma.

Lembro-me de ter comprado 10 vasos e sementes de todas as espécies, idealizando uma varanda cheia de vida e cor natural…e de ter acabado numa loja de chineses a comprar flores de plástico. A verdade é que ainda hoje estão na varanda da frente. E lindas. Trabalho? Nenhum.

Até que, nas últimas semanas, a natureza me surpreendeu, mais uma vez.

“Olha, já viste? Está a rebentar por todos os lados!” disse-me, entusiasmada, a minha mãe.

Arrastada, fui ver. E estava. Lá estava. Cheia de “altinhos” ao longo do tronco, que já não era seco, era verde, vivo. Alguma coisa estava a querer nascer dali.


Durante as semanas seguintes fiquei mais atenta. Mas não lhe mexi, porque as minhas mãos não são as da minha mãe. Tive medo que as estranhasse e se deixasse morrer de novo. Limitei-me a ficar mais atenta.

Mas passava por ela e já não a adivinhava no lixo. Passei a acreditar. “Já te safaste”.

E safou. Hoje a valente orquídea está linda. Viva da Silva. Cheia de luz. Resultado apenas do carinho e da persistência de alguém que não desistiu dela. Resultado da dedicação, do tempo e do carinho que a minha mãe lhe dedicou.

Ver esta transformação fez-me pensar no ser humano.

Quantas vezes desistimos das pessoas antes de apostarmos tudo o que podemos e temos nelas?

Quantas vezes deixamos ficar para trás alguém que, pode até ter metido os pés pelas mãos mas que, com um bocadinho da nossa atenção, pode voltar a entrar nos carris e a seguir no sentido certo?

Quantas vezes seguimos o nosso caminho sem sequer olhar para quem não consegue seguir o seu?

A resposta é: vezes demais.

Ver aquela transformação e pensar no ser humano, fez-me ter a certeza que temos muito a aprender com a natureza. 

E, vendo bem, começando por mim.


Se às vezes digo que as flores sorriem – Alberto Caeiro

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.

18 de abril de 2014

A curiosidade (quase) matou o gato

Acordei e fui tomar o pequeno-almoço na varanda. Como, aliás, faço sempre que o tempo o permite.

É dali que o costumo observar. Por entre os carros, em cima das árvores, esparramado no quente do alcatrão da estrada. Ou perto das taças que estão no canto do estacionamento, que os vizinhos enchem todos os dias com restos de comida ou de ração.

Mas hoje, quando acordei, não foi assim.

A rua estava em silêncio. Ao longe vi a Carla, vizinha do rés-do-chão do prédio do lado, à procura de alguma coisa ou de alguém. A acompanhá-la estava o Kiko, o seu gato, amarelo e gordo, que a seguia com uma fidelidade e dependência mais próprias de um cão.

Passou pelo meio dos carros, espreitou por baixo de cada um, olhou por entre os arbustos e por trás dos muros. Nada.

Não sabíamos do gato coxo. Tinha desaparecido sem deixar rasto.

Nos últimos anos, era por aqui que andava. Tornou-se senhor da rua. Não havia cão que por ali parasse. Ou que o parasse. 

Já há uns dias que ninguém lhe punha a vista em cima. A Carla do rés-do-chão ainda se meteu algumas vezes no carro para o procurar nas redondezas. Mas vinha sempre de lá sem ele.

Do prédio em frente saiu uma senhora loira com um saco de plástico na mão cheio de ração. Enquanto se dirigia à taça de comida, olhava para todos os lados, esperando que o gato coxo fizesse como sempre fazia e viesse ter com ela. Nada. Estranhou. Olhou em volta…mas nada, outra vez. Voltou para casa, literalmente com o saco cheio.

De tarde foi a vez do dono do Mike, o cão que também vive no prédio em frente. Meteu-se no carro, deu umas voltas pelas ruas que ficam ali mais acima, regressou. Parou no meio da estrada, saiu do carro, abriu o porta-bagagens. Tirou de lá um saco de ração e um garrafão de 5 litros de água. Olhou em volta e….nada. Mesmo assim deixou comida e água ao bicho, não fosse ele aparecer e ter fome.

Da varanda fui-me apercebendo disto tudo. Com o coração pequeno. O que raio tinha acontecido ao gato, pensei eu.


Nessa tarde, quando voltei a ver a Carla, perguntei-lhe se já tinha encontrado o gato. Disse-me que não. Que tinha sido levado há 3 dias por duas senhoras da rua de cima para ser esterilizado. É que o raio do gato tinha como hábito ir ter com as gatas das vizinhas e não lhes dava tréguas. Depois da operação, as senhoras, que mal não lhe queriam, libertaram-no perto da autocaravana que está estacionada num dos cantos do nosso parque de estacionamento. Mas, desde esse dia, há 2 dias, mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Explicou-me a Carla que lhe tinham feito uma espécie de armadilha para o apanhar, porque de outra forma ele não iria com elas. À bruta. Tal foi o susto que, quando se viu livre das mãos delas, desapareceu.

Pensei que a história do gato ficaria por aqui, e que não o voltaria a ver, mas não. A Carla não desistiu e voltou a procura-lo. Enfiou-se mais uma vez no pinhal e por lá andou quase uma hora. Do gato, nem vê-lo.

Quando se preparava para voltar a casa, lembrou-se de passar pelo pinheiro onde ele tinha por hábito esconder-se dos cães que tantas vezes o perseguiam quando era mais pequeno. E lá estava ele, bem lá em cima. Num daqueles ramos onde só os gatos conseguem chegar. Encontrámo-lo…

Quem me conhece sabe que prefiro cães. Mas rendo-me a este gato…

E lá está ele agora, à hora que escrevo estas palavras. Naquele cantinho onde nenhuma mão humana lhe pode fazer mal. Dali não sai. Nem se aproxima da lata de paté de atum. Mas daqui a uns dias, espero, o susto passou.

Quanto às vizinhas da rua de cima, podem dormir descansadas. Ou não. É que, no que depender deste “quebra-corações”, as crias das suas gatas já não vão poder ter genes com esta pintarola.

Porque como alguém um dia disse, “um gato é um italiano educado em Inglaterra. Sente como um italiano mas porta-se como um lorde”.




19 de março de 2014

Volta sempre onde já foste feliz

Naquele tempo, as férias de verão duravam meses. E um deles era sempre passado na Portelinha, a terra da minha avó materna.
 
A Portelinha era uma aldeia perto de Tomar. Um local onde o tempo parecia parar. Tudo acontecia devagar, sem pressa de chegar a lado nenhum.
 
Não me lembro bem que idade tinha na altura, mas não devia ter mais que 4 ou 5 anos quando comecei a ir para lá.
 
Era o mês da liberdade, das aventuras, das brincadeiras pelas vinhas, pelas casas abandonadas.
 
Era o mês das tijeladas e do leite à porta de casa. E do peixeiro. E do padeiro. E do homem das mercearias. Gostava particularmente deste. Quando ele chegava, voava pelo quintal, só para ver o homem abrir a parte de trás da carrinha e espreitar lá para dentro. Aquilo era um mundo.
 
Chegar à Portelinha implicava sempre passar umas belas horas a limpar a casa que, por estar fechada durante grande parte do ano, acumulava pó e teias de aranha. Cada um fazia a sua parte.
 
A “casa da avó”, era assim que lhe chamávamos, era uma casa antiga e térrea. A porta da frente, que dava para um descampado que só acabava na casa do Tio Maximiano, irmão da avó, pouco ou nada era utilizada. Entrava-se quase sempre pelo pequeno portão de ferro pintado de preto que ficava na parte lateral da casa e que dava acesso ao seu melhor espaço: o alpendre. Onde passávamos a maior parte do dia. Tenho saudades daquele alpendre.
 
Ali se faziam as refeições, se recebiam os vizinhos. Ali se lavava a roupa, no velho tanque que estava encostado a um canto. Ali se sentia o tempo a passar, devagarinho, ao som da passarada que se divertia no cimo da figueira da vizinha, a Fernanda. A passarada e nós, que tantas vezes a subíamos para comer os figos gordos que nasciam dela.
 
Lembro-me muitas vezes da minha avó Olinda sentada à mesa, naquele alpendre, a descascar as batatas para o jantar. Ou a tomar o pequeno-almoço. Tinha o cabelo branco, curto, às ondas, como nuvens. Era gorducha, que as mulheres da altura não se queriam magras. Tinha uns óculos pretos, de massa. As mãos enrugadas e pintalgadas de sinais. Unhas pontiagudas, sempre arranjadas, sem verniz. Na mão esquerda, a aliança do meu avô, que juntou à dela quando ele lhe morreu. O Sr. Guimarães, reformado da polícia. Um homem respeitado por todos. São poucas as memórias que guardo dele. De vez em quando, a avó lá punha “o anel da pedra”, o meu preferido. Nas orelhas, os brincos de sempre, pequeninos, de ouro, em forma de lágrima. Nunca os tirava.
 
Para lá do alpendre ficava um bom pedaço de terreno que fazia as delícias das nossas brincadeiras.  O "quintal". No meio, um poço, que abastecia as necessidades de água da casa. Na ponta, gritávamos para a “casa do Pereira” nos devolver as palavras com o eco. Aquilo fascinava-nos. No fundo da rua, fugíamos de uma casa deixada vazia há anos. Era a “nossa casa assombrada”.
 
Daquele tempo guardo os cheiros. As emoções. As nódoas negras. As pernas arranhadas pelas silvas.
 
Quando a avó morreu, aquela casa deixou de fazer sentido e os filhos venderam-na.
 
Há 2 anos decidimos passar pela Portelinha, para mostrarmos à Carlota onde tínhamos sido felizes.
 
A casa estava lá, o alpendre também. Mas “em ponto pequeno”. Porque, na altura, tudo era muito maior que eu.
 
Já não havia a “casa do Pereira”. Nem a figueira da Fernanda. Nem poço. No lugar dele, um cesto de basquete. Ao lado, bicicletas de adulto, misturadas com outras, de criança. E isso fez-me acreditar que ali, onde um dia os nossos corações bateram rápido, alguém era feliz. Como nós fomos.
 

 

 

 

 

11 de março de 2014

A voar desde 1991

Para tudo, que hoje celebro a vida!                     

A família. Os amigos. O trabalho. Os inimigos. Porque, há 23 anos, a coisa foi tão complicada que, hoje, até os inimigos faço questão de celebrar.

1991. Foi o ponto de viragem. Não o mais doloroso mas, seguramente, o mais importante.

1991 foi a primeira grande prova. A que confirmou que, quando não chegou a nossa hora, simplesmente…não chegou a nossa hora.

Na vida, tudo aquilo pelo qual passamos muda-nos. Molda-nos. "Faz-nos”.

Tornei-me numa pessoa boa. A sério que, modéstia à parte, acho que me tornei numa pessoa boa. Acima de tudo, sou hoje alguém que todos os dias se esforça por ser melhor.

Quando olho para trás, para os momentos que se seguiram ao acidente que me deixou paraplégica, sinto um orgulho grande em mim. Mas uma gratidão ainda maior por todos os que me ajudaram a fazer aquele caminho.

Quando olho para trás, apesar da vida ter dado uma cambalhota com 3 mortais à frente (e encarpados, só para tornar a coisa mais animada!) não me lembro de estar triste. Não me lembro de chorar com pena de não andar. De não voltar a andar. E, apesar de saber que todos à minha volta choraram, foi importante terem-no feito sem eu perceber. Porque tornou o processo mais suportável. Ajudou-me a tornar-me forte o suficiente para poderem encontrar também em mim um pilar.

Há dias em que tento adivinhar o que teria sido da minha vida se aquele 11 de março de 1991 tivesse sido um dia normal. Um dia de acordar, tomar duche e sair para a escola com a Cláudia. Parar no café para fumar um cigarro às escondidas. Encontrar-me com o Brasas, o meu namorado. Voltar para casa ao fim da tarde, passear o Pantufa e o Coca, estar com os meus pais e irmã, dormir e pronto. Mas nunca saberei.

O universo surpreendeu-nos a todos e reservou-me outras cartas para jogar.

A verdade é que fui a jogo. Com algum medo, porque não conhecia as regras, mas fui. Resultado, venci. Goleei o adversário. Eliminei-o do campeonato.

Gosto de pensar que ganhei uma vida nova. Que ganhei o direito de começar de novo. Que ganhei resistência. Coragem. E, ainda, o tempo necessário para parar e perceber que todos os dias podemos melhorar um bocadinho e tentar fazer a diferença na vida de alguém.

Há 23 anos que não ando. Mas há 23 anos que voo. Alto.

É por isto que hoje para t-u-d-o, se faz favor. Afinal, celebro a vida. E vou viver o melhor que conseguir.

Um desejo? Que venham de lá, para início de conversa, os próximos 23!

28 de fevereiro de 2014

O tempo que tira. Mas que depois devolve.

"Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância, já que viver é ser livre. Porque alguém disse e eu concordo, que o tempo cura, que a mágoa passa, que deceção não mata, e que a vida sempre, sempre continua."

*Simone de Beauvoir

É oficial: não tenho andado inspirada.
A vida tem corrido rápido demais e a tranquilidade de que preciso para escrever tem escasseado.
O meu mundo acorda a correr, com horas para tudo. Sai de uma e entra noutra. Só respira quando o deixam. Com o coração tantas vezes aos saltos. E depois, quando este meu mundo pensa que as águas acalmaram, tudo se agita de novo.
Mas nem tudo é mau, seguramente. Pelo meio dos dias que preferíamos riscar do calendário, estão os dias bons, produtivos. Os que nos fazem acreditar que ainda vale a pena. Que ainda vale o esforço.
Por isso, de manhã olho para o espelho, respiro fundo e penso “vamos a isto”. E vamos sempre.
Não posso apagar os últimos meses. Senti-me muitas vezes deixada à minha sorte. Foram poucos aqueles com quem partilhei o que realmente me apertava a alma.
 
 
Fi-lo com os que nunca falham. Aqueles que me dão e se dão na medida certa. Umas vezes para me ouvir falar do que me acossa, outras só para mudar o rumo à conversa e fazer esquecer que aquilo alguma vez incomodou. Estes não falham. Estão lá sempre.
Fui recuperando o meu espaço. A confiança. A cabeça foi arrefecendo e tudo se foi alinhando. Com o tempo. Porque foi com ele que contei - com o tempo. Esse implacável que, dê as voltas que der, acaba por colocar tudo no lugar certo. Tudo.
Sei que a vida é feita de momentos. E, como poucos, também sei que nem todos podem ser positivos. Mas sempre fui boa a fintar tempestades. E a ajustar as velas do meu barco para seguir em frente. E há coisas que nunca esquecemos.
Ainda vou a meio da estrada. Ainda não lhe vejo o fim. Mas não tenho dúvidas que estou, finalmente, no caminho certo.
Agora é ir. Mas sempre e apenas numa direção: em frente.

24 de janeiro de 2014

Mundo, e nós?

Todos nós temos um lado B. É normalmente aquele lado que nem sempre conseguimos “vestir” no nosso dia-a-dia, pelo menos com a frequência que gostaríamos.
 
O meu lado B tem sido dedicado a partilhar algumas das minhas experiências com as outras pessoas. Seja através deste blogue, seja através de palestras que já dei sobre a minha história e como seguir em frente. Tantas vezes a tentar mostrar que o mundo não está preparado para receber pessoas que, como eu, se encontram em situação de mobilidade reduzida. Noutras, simplesmente pondo a boca no trombone.
 
Hoje falo-vos disto mesmo: mobilidade reduzida.
 
Mas, antes de continuar, uma nota, para que fique claro como água: uma pessoa com mobilidade reduzida não é apenas uma pessoa com uma deficiência. Mobilidade reduzida é também, a amiga grávida ou a prima que passeia o carrinho de um bebé. É o tio que se espatifou pelas escadas abaixo, partiu numa perna e teve que ser operado. É o irmão que torceu o raça do tornozelo e que vai ter que andar de muletas 3 semanas. Ou o avô que está velhinho e já não consegue mexer-se tão bem. No limite, a D. Joana, a vizinha do 2º esquerdo, que encravou uma unha e não pode pôr o pé no chão nos próximos dias.
 
Mobilidade reduzida é tudo, desde que haja dificuldade em andar, em mover-se de forma normal. Seja temporária ou permanentemente.
 
Há alguns anos, quando se falava em oportunidades de negócio cujo público-alvo fossem pessoas com mobilidade reduzida, usava-se a expressão “nicho”. Afinal, as estatísticas apontavam – e ainda apontam - para que cerca de 10% da população portuguesa tivesse a sua mobilidade condicionada. Conclusão: ter um negócio que pudesse ter impacto num milhão de pessoas seria, no mínimo, um bom negócio.
 
Tudo muito bem, mas este não é o raciocínio certo. Não estamos a ver o problema de forma inteligente. Porque, pelo menos uma vez na vida, a probabilidade de qualquer pessoa passar por um episódio de mobilidade reduzida, é gigante. Somos 10 milhões de portugueses...
 
É, por isso, fundamental que todos os locais estejam/sejam preparados para receber de forma digna quem se encontra, desde sempre ou não, impedido de se deslocar de forma independente. Porque, como expliquei acima, essa pessoa pode ser, simplesmente…qualquer pessoa.
 
São muito poucos, é certo, mas ainda há bons exemplos de empresas que lidam bem com esta questão. O MyWay da ANA, que presta um serviço personalizado de assistência a passageiros com mobilidade reduzida que se desloquem num estado membro da União Europeia, é um deles. Imaginem-se com uma importante viagem de trabalho marcada. Galo: fazem uma rotura de ligamentos na futebolada semanal com os amigos. Deixam de ir? Com esta ajuda, talvez não. Bom para vocês que não falham a reunião com o cliente, bom para a companhia aérea que não perdeu um cliente.
 
E nem sempre são necessários grandes investimentos. Realisticamente, talvez não dê para adaptar todos os espaços. Mas, se houver abertura, se houver vontade de fazer bem feito, tanto no sector público como do privado, muito poderá melhorar.
 
E o mundo passará a ser um sítio, verdadeiramente, mais justo. Porque será para todos.