Este ano alugámos uma casa no Alvor, num pequeno condomínio que fica a 10 minutos a pé daquele mar tão azul que, desde que o descobri, no ano passado, passou a fazer as minhas delícias.
Cá estamos as 4. As de sempre, claro.
Têm sido dias calmos. Acorda-se cedo (sem despertador mas o hábito de quase
11 meses fala mais alto), prepararam-se as sanduíches para a praia, mergulha-se
na piscina da parte da tarde e janta-se na vila ou na varanda lá de casa. Pelo
meio, passeia-se a pé ou de carro, já que Alvor fica a meio caminho de quase
tudo.
Amigos novos. Vizinhos com quem se partilha a relva à beira da piscina.
Vizinhos com filhos de idades próximas, que acabam por partilhar os mergulhos, as
bombas, os gelados e as gargalhadas. Vizinhos que se tornam amigos e que acabam
por fazer parte das nossas férias. Vizinhos com que se trocam nºs de telemóvel
e páginas de Facebook no último dia.
Durante estes dias procurámos Praias Acessíveis. Entenda-se por “acessível”
uma praia com estacionamento para pessoas com mobilidade reduzida, passadiço
até ao bar, que deve ter um wc adaptado, e depois até ao areal. Já aí, meia dúzia
de chapéus de sol reservados para quem não pode escolher o espacinho mais
simpático da praia. De preferência com um deck de madeira em volta e na 1ª
linha. Por perto, deve haver 1 a 2 tiralôs – carrinho azul e amarelo anfíbio que
transporta pessoas com mobilidade reduzida até ao mar – e, no mínimo, 2
monitores formados para saberem ajudar as pessoas que precisam, tanto na transferência
como a levá-las ao banho.
Há poucas praias com estas condições. E as que existem, ou pelo menos as
que conheci, são quase todas ridículas. O Alvor preenche praticamente todos
estes requisitos, sendo que este ano apenas falhou no número de monitores. E
não é por serem caros porque, segundo percebi, recebem até 160€ para lá estarem
das 10 às 18h, com 2 horas de almoço. Vergonhosamente mal pagos, portanto, pela
Junta de Freguesia. O que comprova que esta não é, de todo, uma prioridade desta malta.
Bom, experimentámos a Meia Praia.
Tudo começa pelo miserável parque, em piso de terra batida e, com tanto
buraco, que torna o estacionamento na superfície da lua brincadeira de meninos.
Depois, os passadiços, que já não seriam de jeito quando colocados pela
primeira vez, calcule-se agora, com anos de gente a passar por cima deles e sem
qualquer manutenção.
Casa de banho do bar, como tantas vezes, a servir de arrecadação. Aquele “espacinho
porreiro” para arrumar o que não cabe em mais lugar nenhum como, no caso,
janelas velhas encostadas a uma das paredes. O cheiro, nauseabundo. Um misto de
tudo-aquilo-que-se-faz-numa-casa-de-banho, com cheiro a refogado, borrifado com
detergente foleiro.
Chichi feito de nariz tapado, acompanhado da 1ª náusea, desço até à praia e
paro num dos 2 chapéus com a tabuleta a dizer “reservado para deficientes”.
Tenho a 2ª náusea quando leio aquilo mas respiro fundo. Outra náusea quando
constato que estes 2 chapéus estão a 300 metros do mar e a 15 dos outros. Ainda
procuro nestes últimos a tabuleta a dizer “reservado para eficientes” mas, vá
se lá perceber esta coisa das igualdades, não encontro.
10h e os monitores que nos ajudam nas andanças do tiralô, nem vê-los. Aparece finalmente um, magrelas, quase às 11h, com pinta de quem curtiu a noite toda. Pede desculpa e, ainda meio a dormir e com falta de duche, lá vem ajudar. Perto das 11h30/12h chega o colega, igualmente com poucas horas de sono.
Mas espanto foi quando percebemos que nem sequer conheciam a técnica de
transferência para me pôr no raio do carrinho. Fica a explicação, para o caso
de um dia precisarem: são necessárias 2 pessoas com alguma força de braços. Uma
fica atrás e põe os braços por baixo dos meus. Outra à frente, que agarra por
baixo dos joelhos. 1, 2, 3, coordenados, levantam e, sem largar, sentam-me no
braço do tiralô (uma boia amarela onde se faz a primeira pausa). 1, 2, 3,
coordenados novamente, levantam e sentam-me no tiralô. Depois, banho connosco. Alguns
de nós saem do carrinho e nadam, outros ficam mais confortáveis no tiralô. Difícil?
Não. Apenas alguma técnica, jeito e vontade de fazer bem.
Tomei um banho e vim-me embora da praia. Porque ninguém gosta de estar em
locais que não são pensados para nos fazerem sentir bem. Tal como aqueles pais
que se recusam a ir para hotéis estúpidos onde não se aceitam crianças, ou
aquelas casas que não aceitam os nossos animais de estimação.
Obviamente que esta falta de organização tem consequências: nem um “tusto”
gasto naquele espaço. Nem meu, nem dos milhares e milhares de turistas com
mobilidade reduzida que todos os anos se deslocam ao Algarve.
Já agora, deixem-me relembra-los que um dia podem ser vocês, caso partam uma perna no dia anterior a irem de férias, ou tenham sido operados aos joanetes, ou estejam grávidas, ou circulem com carrinhos de bebés. Ou decidam levar a vossa avó à praia. Ou. Ou. Ou.
Já agora, deixem-me relembra-los que um dia podem ser vocês, caso partam uma perna no dia anterior a irem de férias, ou tenham sido operados aos joanetes, ou estejam grávidas, ou circulem com carrinhos de bebés. Ou decidam levar a vossa avó à praia. Ou. Ou. Ou.
Enquanto o mundo não souber a diferença entre integração e inclusão, isto
não vai longe. E enquanto for só um grito de meia dúzia de gatos-pingados,
pouco ou nada mudará.






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