29 de setembro de 2013

O ano em que (quase não) votei.

Sair do quentinho da casa num dia cinzento e de chuva para ir votar, já custa. Sair do quentinho da casa num dia cinzento e de chuva para ir votar, chegar lá e não o poder fazer, acreditem, custa muito mais. É a minha história de hoje. Vou tentar resumir.
 
Nunca falho uma eleição. Seja para o que for, sinto-o como um dever mas, acima de tudo, um direito. Direito do qual não abdico. O de me expressar.
 
Fiz como sempre, dirigi-me à escola cá da zona. Levava comigo o nº de eleitor, para ser chegar, encontrar a mesa, votar e vir-me embora. Mas desta vez não foi bem assim.
 
Quando cheguei, percebi que a mesa de voto que me estava destinada tinha sido colocada no primeiro andar daquela escola antiga. Onde sempre votara e no r/c.
 
Perguntei como poderiam fazer, responderam-me que a urna não podia descer, mas que podiam chamar os bombeiros e eles subiam comigo as escadas.
 
Obviamente que recusei. Por vários motivos, mas essencialmente por dois: 1º porque o acesso a pessoas com mobilidade reduzida deve estar pensado, não pode ser um desenrasque. 2º porque, mesmo com bombeiros, subir uma escadaria é perigoso e, em último caso, se caísse era eu que me magoava. Por muita boa vontade que existisse, seria sempre eu a lixar-me com a brincadeira.
 
Por isso, e perante a hipótese dos bombeiros e outras pessoas que amavelmente se dispuseram a ajudar, agradeci mas recusei.
 
Estava lá o meu presidente da Junta. Em quem sempre votei. Pediu desculpa, tentou resolver, pôs a hipótese de fazer deslocar a urna ao r/c, “mas quem manda é mesmo a presidente da mesa”. E é.
 
A minha mãe, já a entrar em modo “tou-ma-passar”, bufava por todos os lados. A minha irmã desdobrava-se em telefonemas e contactos para perceber se fazer descer a urna era, ou não, uma ilegalidade. Uns diziam que sim, outros que não, que era até uma obrigação, tendo em conta que tinham metido a pata na poça. A Carlota seguia tudo com atenção. Visivelmente irritada, mas já cheia de fome, só perguntava quando é que, afinal, íamos almoçar.
 
Tivemos nisto uma hora. Durante essa hora foram vários os que me tentaram, simpaticamente, convencer. “Levamo-la ao colo”, “pegamo-la às cavalitas”… Mantive sempre a calma. E a palavra. Respondi que não, que tinham que perceber a minha decisão, que não podia ser incoerente com o que defendia e pelo qual lutava há tantos anos, que estava em causa um direito meu, e que, se cedesse, estaria a contribuir para que tudo continuasse na mesma. Tinham-me arranjado ali um problema, teriam que o resolver de uma forma justa, que não acarretasse perigo para mim, e que não me obrigasse a expor-me. Perceberam que se não arranjassem uma solução que encaixasse nos meus parâmetros de dignidade, estava resolvido: não votaria, lamento.
 
Todos compreenderam a minha posição. Tirando uma imbecil que fazia parte da mesa onde eu devia votar, que só sabia dizer entre dentes “mas porque é que ela não sobe com os bombeiros? Até os acamados sobem…”. Minha senhora: isso é que era bom. “Isto não é um circo e, se estivesse na situação dela, faria o mesmo”, respondeu-lhe a minha irmã, sem dar mais conversa.
 
Uma hora depois, a presidente da mesa, uma senhora bastante acessível e sensata, em conjunto com a Assembleia de Voto da minha mesa e de outra que se encontrava no piso térreo, e ainda do delegado da Junta de Freguesia (ufff!), tomou finalmente a decisão de deslocar a urna cá abaixo. Desabafou, entretanto, que já esperava que uma destas acontecesse, quando viu 4 mesas sem acesso. E aconteceu. Foi comigo, mas podia ser um velhote ou com alguém com uma perna partida. Ou, ou, ou, porque mobilidade reduzida é muita coisa. 
 
Parou tudo. Encerrou-se a mesa lá em cima. Explicou-se às pessoas que aguardavam na fila o que se ia passar e que teriam que esperar mais um bocadinho. Eu, cá em baixo, votei. Cumpri o meu dever. Como cidadã que quer ter uma palavra a dizer.
 
 
 
No fim, pedi o documento para fazer a reclamação formal. Que preenchi religiosamente. Mas nos “motivos de reclamação”, em nenhum a minha encaixava. Sem problema, adaptei uma das hipóteses que falava em “deslocação de urnas”, que complementei com um texto breve mas esclarecedor nas “observações”. A frase chave foi “sem acesso para pessoas de mobilidade reduzida”.
 
O que vai acontecer agora não sei porque isto é burocracia atrás de burocracia. Mas do meu lado está feito. Aquilo há-de chegar à Comissão Nacional de Eleições e espero que algo mude. Acima de tudo porque o mudar aqui é simples demais para que não aconteça. Bastava que não tivessem arriscado e que tivessem colocado todas as mesas de voto acessíveis. E, acreditem, espaço ali não faltava. Até porque havia pavilhões fechados. Os mesmos onde votei nas últimas eleições. “Ah e tal, são do ATL, este ano a escola não nos deu autorização…”. Pois, mas devia ter dado. E, se o tivesse feito, nada disto tinha acontecido. Era uma questão de respeito, de igualdade. E de consideração por quem já entra no jogo em desvantagem.
 
Mas, afinal, também não sou eu que tenho que encontrar solução. São eles. Aqueles que passaram os últimos dias a apelar ao voto e a relembrar que é o dever de todos os cidadãos responsáveis. De quem depois exige ter voz.

 
Enfim…eu só queria ter chegado lá, como qualquer outra pessoa, exercer o meu direito/dever, o que for, e sair com o sentimento de dever cumprido. Mas este ano foi difícil. Este ano foi o ano em que (quase não) votei.
 
 

47 comentários:

  1. Mais uma vez...grande lição! BEiJOS minha linda!

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  2. Marta, só tenho uma palavra: É bom saber que existem pessoas como tu (enfim, mais do que uma palavra mas a tua atitude foi ENORME)

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  3. Grande Marta! Tenho tanto orgulho em conhecer-te!

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  4. Marta, fez a coisa certa. Admiro-a imenso e tenho pena de não a conhecer :)

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    1. Obrigada Margarida! Um grande beijinho e um dia ainda nos conhecemos!

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  5. Há 8 (acho!) anos atrás, aconteceu-me o mesmo. Estava de muletas. Também recusei ser carregada ao colo! Subi (e desci), com a ajuda do meu pai, 2 lances de escadas. Uma eternidade!!! Quando, finalmente, cheguei as mãos tremiam tanto do esforço feito que quase não conseguia acertar no sítio certo.
    Pensei que as coisas já tinham mudado... :-(

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    1. Pelos vistos pouco ou nada mudou. mas tb acho que isso acontece porque as pessoas não se recusam a subir com ajuda. Aceitam as ajudas e isso resolve-lhes os problemas. Nunca vou ceder. :)

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  6. Descobri o teu texto através de uma partilha no facebook e fiquei abismada. Os responsáveis pelo acto eleitoral, em cada freguesia, deviam ser os primeiros a salvaguardar estas situações. Votar é um direito de todos, mas de todos mesmo. Força na luta pela mobilidade para todos. Foi uma verdadeira lição de cidadania.

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  7. Obrigada Stiletto! Vou continuar a não ceder. Contra tudo e contra todos! Um beijinho!

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  8. Força nisso!
    PS A Direcção da Escola, ATL ou que quer que seja, não tem que autorizar nada, nem sequer obstar. Os locais de votação são objecto de requisição e, a menos que estejam impróprios (o que até era no final o caso), o seu uso como local de voto é determinado por edital do Presidente da Câmara nos termos da Lei. E isto inclui instalações privadas se necessário for.

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  9. Um bem-haja. O país precisa de mais pessoas assim para fazerem a diferença. :)

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  10. Olá Marta, muito bom testemunho e um valente exercício de cidadania.

    Bem hajas!
    Bruno

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  11. Boa ! se todos fossemos assim !!!!! Não nos estavam a tirar os direitos todos que tanto custaram a conquistar, como o direito de votar ... e outros.....

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  16. Harika bir yazı hazırlamışsınız, emeğinize sağlık.

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