sexta-feira, 18 de Abril de 2014

A curiosidade (quase) matou o gato

Acordei e fui tomar o pequeno-almoço na varanda. Como, aliás, faço sempre que o tempo o permite.

É dali que o costumo observar. Por entre os carros, em cima das árvores, esparramado no quente do alcatrão da estrada. Ou perto das taças que estão no canto do estacionamento, que os vizinhos enchem todos os dias com restos de comida ou de ração.

Mas hoje, quando acordei, não foi assim.

A rua estava em silêncio. Ao longe vi a Carla, vizinha do rés-do-chão do prédio do lado, à procura de alguma coisa ou de alguém. A acompanhá-la estava o Kiko, o seu gato, amarelo e gordo, que a seguia com uma fidelidade e dependência mais próprias de um cão.

Passou pelo meio dos carros, espreitou por baixo de cada um, olhou por entre os arbustos e por trás dos muros. Nada.

Não sabíamos do gato coxo. Tinha desaparecido sem deixar rasto.

Nos últimos anos, era por aqui que andava. Tornou-se senhor da rua. Não havia cão que por ali parasse. Ou que o parasse. 

Já há uns dias que ninguém lhe punha a vista em cima. A Carla do rés-do-chão ainda se meteu algumas vezes no carro para o procurar nas redondezas. Mas vinha sempre de lá sem ele.

Do prédio em frente saiu uma senhora loira com um saco de plástico na mão cheio de ração. Enquanto se dirigia à taça de comida, olhava para todos os lados, esperando que o gato coxo fizesse como sempre fazia e viesse ter com ela. Nada. Estranhou. Olhou em volta…mas nada, outra vez. Voltou para casa, literalmente com o saco cheio.

De tarde foi a vez do dono do Mike, o cão que também vive no prédio em frente. Meteu-se no carro, deu umas voltas pelas ruas que ficam ali mais acima, regressou. Parou no meio da estrada, saiu do carro, abriu o porta-bagagens. Tirou de lá um saco de ração e um garrafão de 5 litros de água. Olhou em volta e….nada. Mesmo assim deixou comida e água ao bicho, não fosse ele aparecer e ter fome.

Da varanda fui-me apercebendo disto tudo. Com o coração pequeno. O que raio tinha acontecido ao gato, pensei eu.


Nessa tarde, quando voltei a ver a Carla, perguntei-lhe se já tinha encontrado o gato. Disse-me que não. Que tinha sido levado há 3 dias por duas senhoras da rua de cima para ser esterilizado. É que o raio do gato tinha como hábito ir ter com as gatas das vizinhas e não lhes dava tréguas. Depois da operação, as senhoras, que mal não lhe queriam, libertaram-no perto da autocaravana que está estacionada num dos cantos do nosso parque de estacionamento. Mas, desde esse dia, há 2 dias, mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Explicou-me a Carla que lhe tinham feito uma espécie de armadilha para o apanhar, porque de outra forma ele não iria com elas. À bruta. Tal foi o susto que, quando se viu livre das mãos delas, desapareceu.

Pensei que a história do gato ficaria por aqui, e que não o voltaria a ver, mas não. A Carla não desistiu e voltou a procura-lo. Enfiou-se mais uma vez no pinhal e por lá andou quase uma hora. Do gato, nem vê-lo.

Quando se preparava para voltar a casa, lembrou-se de passar pelo pinheiro onde ele tinha por hábito esconder-se dos cães que tantas vezes o perseguiam quando era mais pequeno. E lá estava ele, bem lá em cima. Num daqueles ramos onde só os gatos conseguem chegar. Encontrámo-lo…

Quem me conhece sabe que prefiro cães. Mas rendo-me a este gato…

E lá está ele agora, à hora que escrevo estas palavras. Naquele cantinho onde nenhuma mão humana lhe pode fazer mal. Dali não sai. Nem se aproxima da lata de paté de atum. Mas daqui a uns dias, espero, o susto passou.

Quanto às vizinhas da rua de cima, podem dormir descansadas. Ou não. É que, no que depender deste “quebra-corações”, as crias das suas gatas já não vão poder ter genes com esta pintarola.

Porque como alguém um dia disse, “um gato é um italiano educado em Inglaterra. Sente como um italiano mas porta-se como um lorde”.




quarta-feira, 19 de Março de 2014

Volta sempre onde já foste feliz

Naquele tempo, as férias de verão duravam meses. E um deles era sempre passado na Portelinha, a terra da minha avó materna.
 
A Portelinha era uma aldeia perto de Tomar. Um local onde o tempo parecia parar. Tudo acontecia devagar, sem pressa de chegar a lado nenhum.
 
Não me lembro bem que idade tinha na altura, mas não devia ter mais que 4 ou 5 anos quando comecei a ir para lá.
 
Era o mês da liberdade, das aventuras, das brincadeiras pelas vinhas, pelas casas abandonadas.
 
Era o mês das tijeladas e do leite à porta de casa. E do peixeiro. E do padeiro. E do homem das mercearias. Gostava particularmente deste. Quando ele chegava, voava pelo quintal, só para ver o homem abrir a parte de trás da carrinha e espreitar lá para dentro. Aquilo era um mundo.
 
Chegar à Portelinha implicava sempre passar umas belas horas a limpar a casa que, por estar fechada durante grande parte do ano, acumulava pó e teias de aranha. Cada um fazia a sua parte.
 
A “casa da avó”, era assim que lhe chamávamos, era uma casa antiga e térrea. A porta da frente, que dava para um descampado que só acabava na casa do Tio Maximiano, irmão da avó, pouco ou nada era utilizada. Entrava-se quase sempre pelo pequeno portão de ferro pintado de preto que ficava na parte lateral da casa e que dava acesso ao seu melhor espaço: o alpendre. Onde passávamos a maior parte do dia. Tenho saudades daquele alpendre.
 
Ali se faziam as refeições, se recebiam os vizinhos. Ali se lavava a roupa, no velho tanque que estava encostado a um canto. Ali se sentia o tempo a passar, devagarinho, ao som da passarada que se divertia no cimo da figueira da vizinha, a Fernanda. A passarada e nós, que tantas vezes a subíamos para comer os figos gordos que nasciam dela.
 
Lembro-me muitas vezes da minha avó Olinda sentada à mesa, naquele alpendre, a descascar as batatas para o jantar. Ou a tomar o pequeno-almoço. Tinha o cabelo branco, curto, às ondas, como nuvens. Era gorducha, que as mulheres da altura não se queriam magras. Tinha uns óculos pretos, de massa. As mãos enrugadas e pintalgadas de sinais. Unhas pontiagudas, sempre arranjadas, sem verniz. Na mão esquerda, a aliança do meu avô, que juntou à dela quando ele lhe morreu. O Sr. Guimarães, reformado da polícia. Um homem respeitado por todos. São poucas as memórias que guardo dele. De vez em quando, a avó lá punha “o anel da pedra”, o meu preferido. Nas orelhas, os brincos de sempre, pequeninos, de ouro, em forma de lágrima. Nunca os tirava.
 
Para lá do alpendre ficava um bom pedaço de terreno que fazia as delícias das nossas brincadeiras.  O "quintal". No meio, um poço, que abastecia as necessidades de água da casa. Na ponta, gritávamos para a “casa do Pereira” nos devolver as palavras com o eco. Aquilo fascinava-nos. No fundo da rua, fugíamos de uma casa deixada vazia há anos. Era a “nossa casa assombrada”.
 
Daquele tempo guardo os cheiros. As emoções. As nódoas negras. As pernas arranhadas pelas silvas.
 
Quando a avó morreu, aquela casa deixou de fazer sentido e os filhos venderam-na.
 
Há 2 anos decidimos passar pela Portelinha, para mostrarmos à Carlota onde tínhamos sido felizes.
 
A casa estava lá, o alpendre também. Mas “em ponto pequeno”. Porque, na altura, tudo era muito maior que eu.
 
Já não havia a “casa do Pereira”. Nem a figueira da Fernanda. Nem poço. No lugar dele, um cesto de basquete. Ao lado, bicicletas de adulto, misturadas com outras, de criança. E isso fez-me acreditar que ali, onde um dia os nossos corações bateram rápido, alguém era feliz. Como nós fomos.
 

 

 

 

 

terça-feira, 11 de Março de 2014

A voar desde 1991

Para tudo, que hoje celebro a vida!                     

A família. Os amigos. O trabalho. Os inimigos. Porque, há 23 anos, a coisa foi tão complicada que, hoje, até os inimigos faço questão de celebrar.

1991. Foi o ponto de viragem. Não o mais doloroso mas, seguramente, o mais importante.

1991 foi a primeira grande prova. A que confirmou que, quando não chegou a nossa hora, simplesmente…não chegou a nossa hora.

Na vida, tudo aquilo pelo qual passamos muda-nos. Molda-nos. "Faz-nos”.

Tornei-me numa pessoa boa. A sério que, modéstia à parte, acho que me tornei numa pessoa boa. Acima de tudo, sou hoje alguém que todos os dias se esforça por ser melhor.

Quando olho para trás, para os momentos que se seguiram ao acidente que me deixou paraplégica, sinto um orgulho grande em mim. Mas uma gratidão ainda maior por todos os que me ajudaram a fazer aquele caminho.

Quando olho para trás, apesar da vida ter dado uma cambalhota com 3 mortais à frente (e encarpados, só para tornar a coisa mais animada!) não me lembro de estar triste. Não me lembro de chorar com pena de não andar. De não voltar a andar. E, apesar de saber que todos à minha volta choraram, foi importante terem-no feito sem eu perceber. Porque tornou o processo mais suportável. Ajudou-me a tornar-me forte o suficiente para poderem encontrar também em mim um pilar.

Há dias em que tento adivinhar o que teria sido da minha vida se aquele 11 de março de 1991 tivesse sido um dia normal. Um dia de acordar, tomar duche e sair para a escola com a Cláudia. Parar no café para fumar um cigarro às escondidas. Encontrar-me com o Brasas, o meu namorado. Voltar para casa ao fim da tarde, passear o Pantufa e o Coca, estar com os meus pais e irmã, dormir e pronto. Mas nunca saberei.

O universo surpreendeu-nos a todos e reservou-me outras cartas para jogar.

A verdade é que fui a jogo. Com algum medo, porque não conhecia as regras, mas fui. Resultado, venci. Goleei o adversário. Eliminei-o do campeonato.

Gosto de pensar que ganhei uma vida nova. Que ganhei o direito de começar de novo. Que ganhei resistência. Coragem. E, ainda, o tempo necessário para parar e perceber que todos os dias podemos melhorar um bocadinho e tentar fazer a diferença na vida de alguém.

Há 23 anos que não ando. Mas há 23 anos que voo. Alto.

É por isto que hoje para t-u-d-o, se faz favor. Afinal, celebro a vida. E vou viver o melhor que conseguir.

Um desejo? Que venham de lá, para início de conversa, os próximos 23!

sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2014

O tempo que tira. Mas que depois devolve.

"Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância, já que viver é ser livre. Porque alguém disse e eu concordo, que o tempo cura, que a mágoa passa, que deceção não mata, e que a vida sempre, sempre continua."

*Simone de Beauvoir

É oficial: não tenho andado inspirada.
A vida tem corrido rápido demais e a tranquilidade de que preciso para escrever tem escasseado.
O meu mundo acorda a correr, com horas para tudo. Sai de uma e entra noutra. Só respira quando o deixam. Com o coração tantas vezes aos saltos. E depois, quando este meu mundo pensa que as águas acalmaram, tudo se agita de novo.
Mas nem tudo é mau, seguramente. Pelo meio dos dias que preferíamos riscar do calendário, estão os dias bons, produtivos. Os que nos fazem acreditar que ainda vale a pena. Que ainda vale o esforço.
Por isso, de manhã olho para o espelho, respiro fundo e penso “vamos a isto”. E vamos sempre.
Não posso apagar os últimos meses. Senti-me muitas vezes deixada à minha sorte. Foram poucos aqueles com quem partilhei o que realmente me apertava a alma.
 
 
Fi-lo com os que nunca falham. Aqueles que me dão e se dão na medida certa. Umas vezes para me ouvir falar do que me acossa, outras só para mudar o rumo à conversa e fazer esquecer que aquilo alguma vez incomodou. Estes não falham. Estão lá sempre.
Fui recuperando o meu espaço. A confiança. A cabeça foi arrefecendo e tudo se foi alinhando. Com o tempo. Porque foi com ele que contei - com o tempo. Esse implacável que, dê as voltas que der, acaba por colocar tudo no lugar certo. Tudo.
Sei que a vida é feita de momentos. E, como poucos, também sei que nem todos podem ser positivos. Mas sempre fui boa a fintar tempestades. E a ajustar as velas do meu barco para seguir em frente. E há coisas que nunca esquecemos.
Ainda vou a meio da estrada. Ainda não lhe vejo o fim. Mas não tenho dúvidas que estou, finalmente, no caminho certo.
Agora é ir. Mas sempre e apenas numa direção: em frente.

sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014

Mundo, e nós?

Todos nós temos um lado B. É normalmente aquele lado que nem sempre conseguimos “vestir” no nosso dia-a-dia, pelo menos com a frequência que gostaríamos.
 
O meu lado B tem sido dedicado a partilhar algumas das minhas experiências com as outras pessoas. Seja através deste blogue, seja através de palestras que já dei sobre a minha história e como seguir em frente. Tantas vezes a tentar mostrar que o mundo não está preparado para receber pessoas que, como eu, se encontram em situação de mobilidade reduzida. Noutras, simplesmente pondo a boca no trombone.
 
Hoje falo-vos disto mesmo: mobilidade reduzida.
 
Mas, antes de continuar, uma nota, para que fique claro como água: uma pessoa com mobilidade reduzida não é apenas uma pessoa com uma deficiência. Mobilidade reduzida é também, a amiga grávida ou a prima que passeia o carrinho de um bebé. É o tio que se espatifou pelas escadas abaixo, partiu numa perna e teve que ser operado. É o irmão que torceu o raça do tornozelo e que vai ter que andar de muletas 3 semanas. Ou o avô que está velhinho e já não consegue mexer-se tão bem. No limite, a D. Joana, a vizinha do 2º esquerdo, que encravou uma unha e não pode pôr o pé no chão nos próximos dias.
 
Mobilidade reduzida é tudo, desde que haja dificuldade em andar, em mover-se de forma normal. Seja temporária ou permanentemente.
 
Há alguns anos, quando se falava em oportunidades de negócio cujo público-alvo fossem pessoas com mobilidade reduzida, usava-se a expressão “nicho”. Afinal, as estatísticas apontavam – e ainda apontam - para que cerca de 10% da população portuguesa tivesse a sua mobilidade condicionada. Conclusão: ter um negócio que pudesse ter impacto num milhão de pessoas seria, no mínimo, um bom negócio.
 
Tudo muito bem, mas este não é o raciocínio certo. Não estamos a ver o problema de forma inteligente. Porque, pelo menos uma vez na vida, a probabilidade de qualquer pessoa passar por um episódio de mobilidade reduzida, é gigante. Somos 10 milhões de portugueses...
 
É, por isso, fundamental que todos os locais estejam/sejam preparados para receber de forma digna quem se encontra, desde sempre ou não, impedido de se deslocar de forma independente. Porque, como expliquei acima, essa pessoa pode ser, simplesmente…qualquer pessoa.
 
São muito poucos, é certo, mas ainda há bons exemplos de empresas que lidam bem com esta questão. O MyWay da ANA, que presta um serviço personalizado de assistência a passageiros com mobilidade reduzida que se desloquem num estado membro da União Europeia, é um deles. Imaginem-se com uma importante viagem de trabalho marcada. Galo: fazem uma rotura de ligamentos na futebolada semanal com os amigos. Deixam de ir? Com esta ajuda, talvez não. Bom para vocês que não falham a reunião com o cliente, bom para a companhia aérea que não perdeu um cliente.
 
E nem sempre são necessários grandes investimentos. Realisticamente, talvez não dê para adaptar todos os espaços. Mas, se houver abertura, se houver vontade de fazer bem feito, tanto no sector público como do privado, muito poderá melhorar.
 
E o mundo passará a ser um sítio, verdadeiramente, mais justo. Porque será para todos.
 
 
 

domingo, 12 de Janeiro de 2014

A história da formiga verde de lábios vermelhos

Está frio, chove, ficámos sozinhas em casa. O resto da malta teve que sair.

Por isso, hoje foi dia de arrumações. É, diga-se de passagem, uma boa forma de manter a Carlota ocupada.

O que ela gosta mesmo é abrir os armários da minha roupa. Tirar tudo cá para fora, dobrar peça por peça, e voltar a guardar.

Confesso que, de vez em quando, me dá um jeitão.
Depois de tudo passado a pente fino, chegámos à sua gaveta preferida: a das “roupas dos brilhantes”.

Lá de dentro saíram os tops e os lenços com lantejoulas, que tanto sucesso fizeram nos tempos em que as saídas à noite pediam roupa mais arrojada.

Roupa que usava do alto dos meus poucos quilos, quando a Kapital era o nosso poiso principal.

Estávamos no início dos anos 90 e aquele era O spot.

Sextas e Sábados. Dias sagrados. Estávamos lá sempre batidas. Divertimo-nos ali durante muitos anos. Era quase uma segunda casa, uma segunda família.

No meio das roupas brilhantes, lá num canto, meio enrolada - até esquecida - uma camisola ainda mais especial. Que me fez recuar 9 anos no tempo.
A da formiga verde a pintar os lábios de vermelho. Pestanuda.

Nas costas, dizia “Ao maior exemplo de força e coragem”. Engoli em seco, quando li aquilo.
 

Por momentos deixei o meu quarto virado para o meu pinhal e viajei até ao piso 4 do Hospital Garcia de Orta. Aterrei no quarto 27.
Era um dos quartos onde ficavam os casos mais graves. Foi o meu quarto por alguns meses.

Ali passei os dias mais duros da minha vida. Ali chorei de dores. Ali pendurei fotografias de quem gostava. Ali recebi os que apenas o corpo dali saía todos os dias, porque a alma ficava sempre. E ali recebi as piores notícias.

Mas foi também naquele quarto que recebi as melhores. Onde dei enormes gargalhadas e onde ganhei amigas para o resto da vida. As minhas enfermeiras. Poucas vezes nos vemos, mas sei que as marquei, tanto quanto elas a mim.
No dia em que saí, deixei-lhes um quadro que dizia “Convosco foi muito mais fácil!”. E delas, para além das memórias guardadas no coração, trouxe a camisola da formiga verde a pintar os lábios de vermelho.

Respiro fundo, e estou de volta ao meu quarto. A Carlota entretanto vestiu a camisola. Está-lhe boa. É certo que eu estava magra na altura, mas ela também está crescida. Foi há 9 anos. Tinha 1 ano.
A rir-se pergunta se a pode levar amanhã para a escola. Digo que não, que não a quero estragada.

Despe-a, dobra-a com cuidado, coloca-a na gaveta já arrumada e diz-me “então fica aqui, por cima, para nunca te esqueceres”.
E não esqueço. Porque é um bom exemplo de que, mesmo dos piores momentos, podemos retirar lições e encontrar forças para enfrentar os próximos.

quarta-feira, 1 de Janeiro de 2014

Dois galhetões era pouco

Nada como encerrar um ano a fazer uma coisa que nunca tinha feito: entrar no novo no meio da rua, rodeada das 3 pessoas mais importantes da minha vida.
 
Foi o que aconteceu. E, assim, este ano foi tudo para a rua!
 
Depois de jantarmos num espaço que nos fez viajar até ao mundo das artes de outros tempos – Martinho da Arcada – seguimos para onde a música falava mais alto.
 
O Terreiro do Paço é a praça mais bonita de Lisboa. Agrada-me aquela simetria. A luz. As histórias que ali se viveram. E o rio ali tão perto.
 
Estava animada, cheia de gente. 5 em cada 10 mulheres tinha uma bandolete com um laçarote de luz. Bom negócio para os comerciantes da zona. Na sua maioria, indianos. E um efeito fantástico, visto de longe.
 
Em ambiente de festa, não poderia faltar a barraquinha das farturas e dos churros, sempre à pinha.
 
À medida que 2013 se aproximava do fim, a praça ia enchendo. Principalmente de jovens. Isso é bom? Seria, se esses jovens tivessem as cabecinhas no lugar. Não precisariam de ter todo o juízo do mundo, porque a idade ainda não lhes permite. Só algum.
 
Por todo o lado, aos milhares. Por todo o lado, quase todos com garrafas de plástico de litro, que dentro transportavam um líquido escuro, que não consegui distinguir se era vinho ou outro tipo de álcool. Garrafas que, muitas vezes, eram garrafões de 5 litros.
 
Dei por mim parada, a olhar à minha volta, incrédula.
 
Poucos estavam apenas “alegres”. A maioria estava completamente bêbeda. Muitos só se aguentavam em pé graças à ajuda dos amigos, outros já no chão, à espera que os bombeiros os levassem ao hospital.
 
A poucos minutos de receber o ano, gritos histéricos por todo o lado. Movimentos loucos, sem nenhum respeito por quem estava à sua volta. Pessoas como eu, de cadeira de rodas, vi algumas, muitas crianças. Ou apenas pequenos grupos que a única coisa que queriam era ver o fogo-de-artifício numa boa, com a família mais próxima.
 
Estes miúdos conseguiram tornar aquele num momento, no mínimo, perigoso. Num momento que, devido a algum descontrolo, conseguiu pôr em causa a segurança de todos. Deles e dos outros.
 
Vimos o fogo-de-artifício, bebemos espumante e depois percebemos que era altura de sair dali.
 
Com o trânsito fechado desde o Cais do Sodré, restava-nos ir a pé até lá.
 
Chegar às arcadas não foi fácil. Fazer o caminho até à estação também não. E agora não por causa da multidão descontrolada, que entretanto foi dispersando, mas porque por todo o lado se viam adolescentes encostados às paredes, a vomitar as entranhas. Um cenário verdadeiramente miserável.
 
Os olhos que vos contam isto não são os olhos de uma careta. Durante anos saí à noite. Fiquei “alegre” dezenas de vezes. Mas nunca assim. Jamais assim, degradante. Situação, no limite, perigosa até para eles.
 
 
A Carlota assistiu a tudo. À medida que fazíamos o percurso até ao Cais do Sodré, via-se nos olhos dela a rejeição pelo que se passava à sua volta. Perguntava “mas porque é que estes miúdos se deixam ficar assim?”. Respondi-lhe que aquilo era tudo o que ela não deveria fazer quando fosse mais crescida. Que devia divertir-se ao máximo - como eu e a mãe fizemos – mas que não precisava de ser assim.
 
Quando chegámos à estação, liguei para o nosso táxi. “Miguel, tire-nos daqui que, a partir de agora, isto é uma selva”.
 
Ao nosso lado, enquanto esperávamos por ele, uns vomitavam, outros sentavam-se no chão, indiferentes ao molhado da chuva torrencial. Entre um barril de cerveja onde regularmente enchiam os copos de plástico e conversas em que 3 em cada 2 palavras eram “c@£§€{##&%”, “f”#$%%&”, e “f”#$%&/ da p”#$%&”. Uma tristeza para a alma de qualquer ser-humano normal.
 
Ora a minha pergunta é: são estes os jovens de amanhã? São estes os jovens que saem das nossas universidades e que se preparam para liderar as nossas empresas? É a esta geração a que está entregue o futuro do nosso país…?
 
Onde é que estão os pais destes miúdos? A minha mãe saberia se eu andasse neste tipo de vida. Porque estaria atenta.
 
No meio disto tudo, dois miúdos, apenas com um copo a mais, divertidos mas contidos, dirigem-se a mim e desejam-me bom ano. Dou-lhes as minhas mãos, faço o mesmo, olhando-os nos olhos. Peço para não beberem mais. Para se divertirem, mas para não beberem mais. Respondem em uníssono “nãããã…! Vamos parar por aqui”. Pisquei-lhes o olho. Espetaram-me dois beijos e um deles, antes de me deixar entrar para o táxi, disse-me “Epá, és linda comó c”#$%&/”. Sem resistir, soltei uma gargalhada e disse-lhe “vá, sem o palavrão ficava mais bonito…!” Recebi um “ya!” como resposta. Enfim.
 
Nisto chegou o Miguel e tirou-nos dali. A Carlota sentou-se e adormeceu de imediato. E nós respirámos fundo por deixarmos, finalmente, aquele cenário para trás.
 
Acredito que tudo vale pela experiência mas, no meu caso, prefiro ambientes mais controlados. Vá, e jovens mais inteligentes. Porque a estes, dois galhetões era pouco.