11 de março de 2019

O que é que me faz feliz?


Há uns dias, durante um painel que assinalava o Dia Internacional da Mulher em que eu participava, perguntaram-me o que é que me fazia feliz.

Respondi “eh pá…tanta coisa…”, porque tinha aprendido a encontrar felicidade nos pequenos momentos que a vida me trazia todos os dias. E aprendi mesmo.

Nasci no último dia do verão, de cesariana, e depois de um parto difícil, que ia acabando mal.

“Vou salvar a mãe, porque a filha já não será possível”. Foi assim que o meu pai recebeu a notícia de que as coisas estavam a complicar-se lá para dentro.

No fim, tudo acabou bem, comigo cá fora, num berreiro digno de quem tinha esperado 9 meses para sair e que tinha estado perto de não conseguir. “Eras linda, filha. Cor-de-rosa, perfeitinha e, como todos diziam, a bebé mais bonita da maternidade”, lembra-me tantas vezes a minha mãe.

Vivi e cresci no bairro de Alvalade, em Lisboa. Uma infância feliz, com direito a liberdade na rua, nos quintais das traseiras, onde nos imaginávamos sempre em Angra dos Reis, inspiradas nas novelas que a noite nos trazia.

Era um prédio antigo, a casa do avô, estrela do futebol e do clube que me acompanha até hoje. Era a vizinha de cima, 2ª avó, onde ficávamos depois das aulas e à espera que os nossos pais chegassem do trabalho. Eramos as irmãs Metralha, sempre prontas para fazer a vida negra a alguém.

Foi assim por 15 anos. Até àquele décimo primeiro dia de março de 1991.

Arrancou frio, ainda com cheiro a inverno. Com ele, uma casa de banho, um esquentador ligado, uma janela e uma porta fechadas, uma adolescente a preparar o banho para depois seguir para mais um dia de escola. Tudo normal.

Depois veio uma campainha que tocou porque eram horas de ir ao café fumar um cigarro às escondidas antes das aulas, mas uma porta que já não se abriu porque, do outro lado, algo tinha acontecido.

Um dia que resumiu àquele banho da manhã 15 anos de uma vida curta mas cheia de aventuras, namoricos, saídas à noite, idas à praia com os amigos, boas notas, más notas, verdades e mentiras. 

Foram 15 anos com tudo o que cabia neles. Nada ficou por fazer.

Naquele dia, um acidente estúpido, quase fatal. Mas também um recomeço. Uma realidade desconhecida que me propus enfrentar com todas as forças do meu corpo. E que fiquei a dominar como poucos.

Hoje comemoro essa 2ª oportunidade que a vida me deu.

Passaram-se 28 anos. Mesmo que custe a acreditar, porque o tempo corre mais rápido do que conseguimos acompanhar.

28 anos vividos sentada numa cadeira que se tornou na minha mais fiel companheira e que me leva para todo o lado. 28 anos de malta boa à minha volta. Alguma todos os dias, outra só de vez em quando - mas com um lugar cativo no meu melhor canto, o coração - e sempre com vontade de deixar entrar novas personagens, desde que elas acrescentem valor e me deem na mesma proporção que lhes dou. 28 anos e com a capacidade de me renovar a cada dia, de viver como nunca.

28 anos depois, estou hoje mais atenta ao que me rodeia porque deixei de olhar só para mim. 28 anos depois, estou hoje mais tolerante com quem não pensa como eu, mas cada vez menos em relação às injustiças que acontecem à minha volta e com cada vez mais necessidade de fazer algo para as mudar.

Nestes 28 anos, aprendi a conviver com as minhas zonas de conforto, mas já ouso sair delas de vez em quando. Aprendi a afastar-me do que não quero e a aventurar-me por caminhos que nunca tinha equacionado, talvez por achar que não seriam para mim. Aprendi que não sou finita, e a querer eternizar em mim experiências que antes não sentia vontade de viver.

Aceito com mais serenidade que há dias em que enfrento o mundo sozinha e cheia de pica, mas outros em que rezo para que se esqueçam do meu nome e me deixem em paz. Aceito que há pessoas que se aproximam de mim para me iluminarem, outras que apenas o fazem para se iluminarem a elas próprias. Aceito que também me engano e que, quando isso acontece, posso voltar atrás. Aceito que a verdade não é sempre a minha e que por vezes é preciso saber ouvir e seguir os outros. Aceito que tudo o que nos acontece, acontece no tempo que o tempo quer, e que os astros se alinham, se for o caso. Se não for o caso, também aceito e deixo seguir.

Tenho hoje o lado tranquilo e o lado louco bem arrumados cá dentro, mas dou-lhes como nunca dei antes a liberdade de se misturarem sempre que eles quiserem. Acelero nas retas e já não travo tanto nas curvas porque, se me despistar, sei que, mais ou menos dorida, com mais ou menos dentes, consigo sempre regressar à pista.

Hoje, 11 de março de 2019, é dia de comemorar a viagem incrível que tenho feito. De agradecer à tripulação brutal que a tem feito comigo. E de me orgulhar do piloto do caraças que tenho mostrado ser.

Mas porque eu não cheguei aqui para desistir, e porque conto viver ainda muitos momentos felizes, dizer-vos apenas que mais 28 parecem-me poucos, por isso que venha de lá, no mínimo, o dobro.

Se puderem, façam um “tchim tchim” ao dia de hoje. E mantenham-se por perto.




27 de janeiro de 2019

1000 razões para ficar, 1 para ir


“Muita gente não só lamenta o que não fez, como o que gostaria de ter feito diferente. Os grandes arrependimentos não dizem respeito a conquistas, mas a experiências. Todos os dias, abrimos mão de experiências que fazem sentido para a nossa vida, por causa do trabalho. Abrimos mão de um café porque só temos cinco minutos e então é melhor deixar para quando pudermos sair para jantar. Mas esse dia não chega nunca… Portanto, se tem cinco minutos, aproveite.”

As palavras são de uma médica brasileira que acaba de editar um livro sobre a sua experiência com doentes que enfrentam diagnósticos incuráveis. Li-as recentemente numa conversa que teve com o DN, e caíram cá dentro que nem uma bomba. “Porra, é isto”, foi mais ou menos assim.

Todos os dias deixamos coisas por fazer. Uma mensagem por enviar. Um telefonema por fazer. Um encontro que “fica para depois”. Um “gosto de ti”. Um “parabéns, és fantástico”. Um “olá, tudo bem contigo?”. Um “até ia, mas não vai dar”.

Refugiamo-nos na “falta de tempo” e no “digo/faço para a próxima”. Eu diria antes que é a nossa inacreditável incapacidade de perceber o que é realmente importante, e até medo de sair da nossa casca de sempre, do nosso quintal. No limite, de viver experiências novas.

Somos uma espécie de máquinas. Acordamos, vamos trabalhar sempre pelo caminho, ouvimos sempre as mesmas músicas, almoçamos sempre com as mesmas pessoas, nos mesmos sítios. No fim do dia, voltamos para casa, jantamos, lemos algumas notícias nos mesmos jornais, deitamo-nos, no dia seguinte, voltamos a ligar o botão “rotina” e entramos em modo “repeat”. E num mundo “repeat”. 

Quando damos por isso, temos mais 10 anos e não dissemos as palavras que devíamos ter dito, não demos os beijos que devíamos ter dado, não chorámos as lágrimas que devíamos ter chorado, não soltámos as gargalhadas que devíamos ter soltado, não tivemos as conversas que devíamos ter tido, não vivemos as experiências que devíamos ter vivido. É a tal “falta de tempo” ou o “digo/faço para a próxima” a marcar golos e a ganhar pontos.

Quando chegámos aos 40, fizemos muita coisa errada, mas já voltámos a encarrilar. Fomos os rookies da empresa, mas já somos respeitados profissionalmente. Vibrámos com o contrato promessa compra e venda da nossa casa, mas já a temos quase paga. Sonhámos com filhos, mas já os temos praticamente criados. Vivemos mergulhados em montanhas de dúvidas, mas já vivemos o suficiente para sabermos o que queremos. Tivemos vários grupos de amigos, mas mantivemos um e onde dificilmente deixamos entrar mais alguém.

E, depois, a gaita é que, aos 40, com o sucesso ou conforto que conseguimos, já não nos apetece mudar porque dá trabalho. Afinal, tornou-se tudo tão seguro, tão “direitinho” e controlado, que mudar para quê, não é? É, mas não devia ser.

No meu caso em particular - e admito que haja quem pense de outra forma - os 40 trouxeram-me isto tudo, mas também me trouxeram a certeza de que sou finita, que há muito mais para além disto, e que devo aproveitar a 2ª metade da minha vida para a viver em pleno, e divertir-me muito a fazê-lo.

Se depender de mim - e tal implica contrariar a minha também por vezes gigante incapacidade e medo de sair da minha casca, do meu quintal e de viver coisas novas - não vai ficar uma mensagem, um telefonema, um encontro, um “gosto de ti”, um “foste fantástico” ou um “olá, tudo bem contigo?” para mais tarde. 

Se depender de mim, por muito que também eu tenha mil razões para ficar, os 40 ensinaram-me que já só preciso de uma para ir.




28 de dezembro de 2018

Fui feliz em 2018


Há uns dias, antes do Natal, o Nuno ligou, como liga sempre, de há anos para cá.

Trabalhamos juntos mas, para o Nuno, quando queremos mesmo desejar Boas Festas a alguém, pegamos no telefone. E é ele que está certo.

“Tem um Natal feliz e que 2019 seja tudo o que mereces e procuras”. Foi mais ou menos isto. Respondi que lhe desejava o mesmo. E desejo mesmo porque gosto dele.

Tínhamos estado juntos na festa de Natal da empresa e tínhamos ambos saído mais cedo. Ele porque não é de grandes ajuntamentos, eu porque tinha que acordar muito cedo para uma reunião do outro lado da cidade…e porque tinha outra festa à noite que, essa sim, ia acabar tarde. E eu queria estar bem, para a aproveitar até ao fim.

“Não sei como aguentas, na tua pele eu estava morto”, ainda me disse antes de desligar. Eu oiço isto e, a verdade, é que me sinto viva como nunca antes.

2018 foi feito de deixar cair o “eh pá, deve ser giro, mas se calhar é melhor não” e de optar pelo “deve ser giro, por isso vou.”.

Mas também foi um ano especialmente desafiante ao nível profissional, em que tantas vezes me forcei a marcar presença em alguns dos muitos eventos que aconteceram na minha área, porque senti que, indo, me acrescentariam alguma coisa, pessoal ou profissionalmente.

Foi o ano de voltar a estudar, porque o mundo não para e eu gosto de estar por dentro do que se passa à minha volta.

Foi o ano em que me esforcei para andar mais atenta ao que me rodeia, e em que tentei chegar aos que percebi que precisavam da minha ajuda.

Foi o ano em que acompanhei todas as Revenge of the 90s de Lisboa, para onde fiz questão de arrancar sempre sozinha, de táxi, sem hora para voltar, confiando numa equipa que me conhecia há pouco tempo, mas que algo me dizia que me iria receber de forma incrível.

Foi o ano em que fiz a minha primeira viagem de avião com o objetivo de dar uma palestra, e para um sitio onde conheci um grupo de pessoas muito especial e de onde trouxe mais amigos.

Foi o ano em que voltei a nadar no mar quente do nosso sul, e fi-lo com a ajuda de dois miúdos fantásticos que me levaram a andar de gaivota ao fim de mais de 30 anos sem o fazer.

Foi o ano em que festejei os 43 anos de vida rodeada dos meus amigos, ao mesmo tempo que me emocionei ao vê-los a chegar à festa “todos pi-pis”, e carregados de sacos de supermercado com alimentos que deixámos no CASA.

Foi o ano em que assisti a vários concertos - que a música tem um papel fundamental na minha vida - mas em que um deles foi de uma das minhas bandas preferidas, e ainda hoje não sei como não saltei da cadeira de tanto “pular” e como não perdi a voz de tanto cantar.

Foi o ano em que me apaixonei, desapaixonei e voltei a apaixonar, que o meu coração é teimoso o suficiente para conseguir desencantar algumas passagens secretas que a cabeça descuidou.

Foi o ano em que alarguei o meu leque de amizades com um grupo de pessoas com quem antes apenas me cruzaria profissionalmente, e onde encontrei mais do que conversas de circunstância.

2018 desafiou-me a crescer a todos os níveis, pondo-me tantas vezes à prova. Mas foi feito da massa que eu precisava para olhar para 2019 com vontade de voltar a deixar o coração agarrar um bocadinho as rédeas desta viagem, que isto tem sido divertido, e a dar tudo.

Venha ele.



9 de dezembro de 2018

Abre a boca e fecha os olhos



Entrei neste grupo pela mão da Ana P, que conheci em ambiente de trabalho, mas com quem senti uma química tão especial, que rapidamente percebi que ali se desenhava uma amizade para a vida.

Já conhecia alguns dos outros elementos - como a Suzanne, a Ana R, a Michelle, o Luís M, a Vanda, a Isabel, as Sofia T e a Luísa - tudo gente com quem tive a sorte de me ir cruzando neste percurso nas TI que já leva 20 anos. Pouco mais tarde, juntou-se o Manuel, outra amizade longa com que o mundo das Tecnologias me brindou e que tenho mantido por perto.

Jantamos com a regularidade que as vidas permitem, nunca podemos todos, mas lá vamos conseguindo juntar a maioria. E assim conheci o Luís D, a Maria, o Bruno, o Ricardo, o Diogo, as Joanas, o Alexandre. Desafiamo-nos pelo whatsapp, até conseguirmos uma data que encaixe na maioria das agendas - tramadas - que todos temos.

Descobrimos novos restaurantes, divertimo-nos nos rooftops mais badalados, mas o “onde” importa pouco, porque o que conta é relaxar depois de um dia afogado em responsabilidades próprias de malta atarefada, e acabá-lo com uma conversa descontraída e descomprometida, já sem gravatas e sem o filtro que o tempo no escritório tantas vezes impõe.

É sempre bom quando estamos juntos. Mas o último encontro vai ficar marcado no coração de cada um de nós de forma muito especial.

O desafio foi lançado pela Ana R com um “depois de falar com a Marta e com a Ana P, propus um programa diferente para o nosso jantar de Natal: uma experiência única, inesquecível e muito especial. Esta época natalícia pede um encontro que nos permita contar uma história e mostrar como se vê o que não se observa. Estejam atentos ao email.”

A experiência só foi revelada no dia anterior e ia ser brutal: o jantar seria vegetariano, típico sírio, cozinhado pelo Haitham Khatib, refugiado que vive em Portugal há pouco mais de 2 anos, onde trabalha em teatro. Seriamos guiados pela D. Ana, que, depois de uma meningite aos 5 anos, foi perdendo gradualmente a vista, até cegar por completo aos 37. Tudo isto no espaço da Paula Gamito, uma empreendedora de coração gigante que toda a vida promoveu/apoiou causas variadas, e que abraçou os Jantares às Escuras, projeto que criou e que conta com o apoio da Associação Promotora de Emprego de Deficientes Visuais.

À hora marcada tinha o Alexandre à minha espera na garagem da minha empresa para irmos juntos. Pelo caminho aproveitámos para saber mais um do outro, rimo-nos - e o que eu gosto de me rir.

Chegámos cedo à porta do prédio onde ia decorrer o jantar. Esperámos uns pelos outros no hall. Tínhamos mesmo que entrar todos ao mesmo tempo.

A expectativa do que estava para lá daquele rés do chão perdido numa das ruas de Lisboa era grande. 

A porta da casa abriu-se, finalmente. A Paula juntou-se a nós e explicou o que ia acontecer. Com ela vinha a D. Ana. Entrámos quase um a um, sem uma ponta de luz para nos guiar, apenas orientados por uma espécie de brilho que vinha da voz da D. Ana e que nos levou, direitinhos, aos nossos lugares.

Prato a prato, fomos sentindo o sabor de cada ingrediente. Enchemos os copos de vinho e água. E, já agora, a nós também, porque nos faltava a destreza de o fazer sem referências visuais, e o fazíamos recorrendo apenas ao toque.

Sabia que o Alexandre e a Maria estavam ao meu lado, e que ao lado deles estava o Ricardo e a Ana P. Ouvia o Luís D por perto, mas talvez mais perto do Manuel, da Ana R e da Michelle. Não conseguia situar o Diogo, a Joana e a Sofia N e sentia a Suzanne e a Sofia G próximas de nós. Mas, certezas? Quase nenhumas.

Dei por mim muitas vezes em silêncio a tentar perceber, recorrendo aos sons que me chegavam, como era a sala, como estava posicionada a mesa, quem estava onde. Dei por mim muitas vezes apenas focada na entrada e saída silenciosa da D. Ana, que circulava habilmente entre cada um de nós, quase sem nos tocar, sempre com um doce e, ao mesmo tempo, seguro “com licença, Marta, aqui tem o seu prato”, colocando-o delicadamente à minha frente.

Foram mais de 2h de conversas (e tantas gargalhadas) mergulhadas daquela escuridão total, que começaram nervosas, pelo desconhecido e pelo incerto, mas que devagar se foram transformando em tranquilidade e confiança, por sentirmos que estávamos a conseguir ver o que não observávamos.

No final do jantar, a luz de apenas uma vela iluminou a sala. Lá estava a Maria e o Alexandre, ao meu lado, depois o Ricardo e a Ana P, o Luís D logo a seguir. Na mesa seguinte, o Manel, a Ana R, o Diogo, a Joana, a Sofia N, a Michelle. Noutra, atrás da nossa, a Suzanne e a Sofia G.

E foi neste ambiente - quase íntimo - que soubemos um pouco mais sobre a vida da D. Ana e do projeto da Paula, que partilhou, orgulhosa, ter sido ela a empratar cada refeição, sem qualquer luz para a ajudar.

Foi também neste momento que percebi que a minha presença tinha sido mais um desafio lançado à Paula, que se empenhou para que eu me sentisse verdadeiramente integrada na experiência, esforçando-se por eliminar qualquer obstáculo físico que pudesse contaminar a minha experiência.

Antes de sairmos, a última surpresa: conhecermos finalmente o Haithamm, que nos mostrou cada prato que havia preparado para nós e explicou cada ingrediente.

Já na rua, ligámos os telemóveis, que falta nenhuma nos fizeram durante o jantar.

Devo confessar que depois disto tudo, talvez pela intensidade da experiência, e de sentir na pele de forma tão crua uma realidade que não é a minha, me senti mais próxima de cada um dos elementos daquele grupo.

Na despedida, que já era tarde, abraçámo-nos de forma carinhosa e com tempo, e cada um seguiu a sua vida. Mas algo me diz que, daqui em diante, a vamos ver com outros olhos. Literalmente.




3 de dezembro de 2018

Não sou (in) diferente


Deficiente. Nunca gostei desta palavra, talvez por isso cedo a tenha eliminado do meu discurso, mesmo que inconscientemente.

Mas hoje, sendo o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, tenho que a engolir. A ela e à data, que, num mundo justo, não devia existir.

Ter mobilidade condicionada - prefiro estas - em Portugal é ter que escolher onde almoço ou janto com os meus amigos pelos acessos e pela casa de banho.

É não conhecer as ruas do bairro onde vivo há anos. É não poder circular livremente na minha cidade e no meu país. É nunca, mas nunca sair de casa sem antes estudar cada centímetro de chão que vai ser percorrido pelas rodas da minha cadeira quando o fizer. É não conseguir uma casa de férias onde não precise de depender de alguém.

São os restaurantes onde não consigo entrar, os quartos de hotel onde ninguém pensa em mim, os aeroportos que não me sabem receber, os museus que não visito, os cafés onde não entro, as bibliotecas que não conheço, os jardins que não percorro, os cinemas que não me incluem, as praias que não me facilitam acessos, as salas de espetáculos que se esquecem de pensar num lugar para mim, as seções de voto colocadas eleição após eleição em espaços que ficam para lá de escadas.

Ter mobilidade condicionada em Portugal é viver num país que assobia para o lado quando sabe que um cidadão tetraplégico esteve 3 dias deitado numa cama, ao frio, enjaulado, à porta da Assembleia da República, em total exposição pública, e que se manifestava contra o facto de não poder recorrer ao programa Modelo de Apoio à Vida Independente por viver num lar. Já agora, lar esse para onde foi desde que começou a trabalhar e o Estado lhe “cortou” a assistente pessoal que todos os dias o ajudava, privando-o da sua autodeterminação e condenando-o a uma vida indigna.

Há uns dias, em conversa com uma amiga, ela perguntava-me se alguma vez me tinha sentido discriminada.

Podia ter-lhe respondido com tudo isto, mas a pergunta fez-me viajar até àquele dia em que a professora de alemão do secundário se referiu ao esforço que os meus colegas tinham que fazer para chegarmos até à sala de aula com um “eles é que têm que carregar consigo”. Dali saltei para a tarde de praia em que a irmã de um rapaz do meu grupo de amigos de férias me respondeu com um “tu nem da cadeira te levantas”, quando lhe levantei a voz numa discussão parva de adolescentes. Passei ainda pelo dia em que precisei de dizer à seguradora do meu banco que não precisava de agravar o meu seguro em 200% porque eu não ia morrer por estar de cadeira de rodas.

São 27 anos de cadeira de rodas e quase todos os dias passo por uma destas situações. Eu e quase 1 milhão de portugueses que (sobre) vive com algum tipo de limitação, e que não vemos nas ruas porque nem sempre se consegue ultrapassar estas barreiras, sejam elas físicas ou culturais..

Mas ter mobilidade condicionada em Portugal também é sentir na pele esta desigualdade e escolher combatê-la com um sorriso no rosto, como se tivéssemos uma espécie de superpoder que faz com que nunca desistamos. Mesmo perante um país que tantas vezes se esquece de nós e que assiste sem se insurgir à mais desumana das realidades: a indiferença.





26 de agosto de 2018

Com o sal do sul no corpo


Devo confessar que vou sempre de coração nas mãos para férias. E não é só porque sonho com elas o ano inteiro e quero que corram bem. É porque têm tanto por onde correr mal, que eu, virginiana pura, mergulho com demasiada facilidade em preocupações profundas e por antecipação, mesmo sabendo que não posso controlar o mundo.

É uma espécie de “filme de ação” que arranca em março, quando inicio a procura da casa ideal para férias. E a casa ideal para férias fica no sul do país, mínimo T2, acesso para mim (wc, quarto com cama alta, piscina com degraus para entrar), e permitir animais, porque o Chico faz parte desta família, como todos os nossos cães fizeram, e vem sempre connosco, como os outros vieram. Cereja no topo do bolo: que esteja dentro do orçamento familiar. Depois de uma procura exaustiva, a decisão final é sempre tomada por todas.

Nos meses que se seguem, e já com a casa reservada, gostamos de passar algum tempo a olhar para as fotos da eleita, e a imaginar como serão os pequenos almoços lá fora, os mergulhos na piscina, os grelhados ao fim do dia, qual o melhor caminho para a praia, encontrar restaurantes perto onde valha a pena ir e onde, claro, aceitem que levemos o Chico connosco.

Depois de fechado o local da estadia, chega a altura de me preocupar com aquilo que mais gosto de fazer no Algarve: ir a banhos. Será que a praia está em condições? Será que o tiralô (carrinho anfíbio que me leva até ao mar) está operacional? Será que o wc está a funcionar e limpo? Será que os Nadadores Salvadores deste ano são simpáticos? Estarão eles preparados para me ajudarem, sem eu sentir que sou uma espécie de mono e que estão a fazer-me um favor?

A verdade é que, no ano passado, a coisa não correu da melhor forma. O wc estava lá, mas também estava sempre imundo ou ocupado por quem dele não precisava, o tiralô existia, mas sem qualquer manutenção, havia Nadadores Salvadores impecáveis, mas com horários fixos para nos levar ao banho, entre outros problemas.

ver artigo sobre o ano passado

Durante todo o ano tentei contactar a entidades competentes (INR, neste caso), alertando para o que menos bem tinha corrido e a disponibilizar-me para ajudar a repensar estes acessos. Em vão, porque nunca me responderam.

Também por isso fui a medo lá para baixo. Se estivesse tudo igual ao ano passado, avizinhavam-se dias de stress e ia acabar por me chatear para conseguir usufruir do mar em pleno. Mas arrisquei e não mudei de praia.

Antes de descer até ao areal, decidi espreitar a casa de banho do bar. Abri a porta, pelo sim, pelo não, já sem respirar pelo nariz, e qual não foi o meu espanto quando percebi que estava tudo impecavelmente limpo, sem grão de areia no chão ou no lavatório, e a cheirar a lavado. Dirigi-me ao bar e disse ao que me pareceu o dono do bar “não sei se foi sorte, mas devo dizer-lhe que nunca vi a casa de banho tão limpa. Obrigada por isso.”. O homem agradeceu, um bocadinho envergonhado, mas visivelmente orgulhoso. É o novo concessionário daquela praia, e fica naturalmente contente quando o elogiam.

O dia estava de escalda, o mar chão e a uma temperatura que pedia que entrássemos nele. Da ponta do passadiço, vejo uma praia ordenada, organizada, como nos outros anos. Os colmos destinados para clientes com mobilidade reduzida continuam no mesmo sítio: logo à entrada da praia, quando o que diz o requisito de “praia acessível” é que estes estejam “o mais próximo possível do mar”. Mas não estão. Respiro fundo e desço a rampa que me leva até ao meu colmo.

Ao longe, vejo o tiralô, estrategicamente estacionado perto da bandeira. Um pouco abaixo, os Nadadores Salvadores da praia. Olho com mais atenção e reconheço dois deles do ano passado, o João e o Rúben, que rapidamente se aproximam, me cumprimentam com um “Olá!” familiar, me apresentam aos outros elementos da equipa, e me perguntam “é para ir já lá para dentro?”. Respondo que sim, e gosto que eles se lembrem exatamente do que me leva até àquela praia todos os anos: ir ao mar.

Minutos depois, estou lá dentro com eles, entre gargalhadas e conversas parvas. No meio da palhaçada, olho para as a famosas “gaivotas” e comento que “há anos que não ando numa coisa daquelas…”. Quando dou por mim estou à beira mar, no tiralô, e ao meu lado a equipa de Nadadores Salvadores e de apoio às “gaivotas” a posicionarem uma para me colocarem lá dentro.

30 anos depois, com 42 anos, volto a fazer algo que só fazia em miúda, em Sesimbra. E mais, com a Carlota a comandar os destinos “do bicho” e, com dois elementos a acompanhar-nos com a prancha.

Comecei por vos dizer que fui a medo lá para baixo. E a verdade é que vou sempre, porque, na minha condição, ir – seja onde for - implica perder o controlo da situação e “entregar-me” um bocadinho à sorte. Neste caso, faço-o ao mesmo tempo em que me refugio no facto de não ir sozinha. Aconteça o que acontecer, resolve-se.

Mas depois destes dias, vou voltar. Espero que cada vez menos de coração nas mãos e cada vez mais com o sal do sul no corpo.



30 de julho de 2018

Parabéns, faço 20 anos.


Desta vez deixei passar a data. Mas apenas por dois dias.

28 de julho de 1998. Eu, uma pita de 23 anos, que só pensava em praia e saídas com amigos.

Já tinha 7 anos de cadeira de rodas no lombo, mas o meu mundo rolava numa boa, sem stresses e sem traumas do acidente.

Um dia, depois de torrar ao sol durante horas, fui a uma entrevista. “A minha empresa está à procura de alguém para começar a fazer a ligação com os media”, disse-me a Ana, uma amiga que trabalhava na Novabase.

“Novabase?”, perguntei. Nunca tinha ouvido falar. Na minha cabeça só havia espaço para um nome: SIC. Era o sonho de miúda. Ser jornalista e de televisão. Quando apareceu a SIC, ser jornalista de televisão e na SIC. Mais concretamente, apresentar o Jornal da Noite.

Mas fui. Vesti uma camisa da minha mãe, para não ir com pinta de quem tinha acabado de sair da praia, e lá fui.

Guess what? Falei pelos cotovelos, expliquei que não percebia da poda, mas que era uma miúda esperta e que aprendia. E que se o objetivo era ter conversa e conseguir fazer pontes, eu era a aposta certa.

Quiseram-me. Fiquei. A minha cadeira não foi tema de conversa.

Estávamos em julho de 1998 e, a partir daquele dia, passei a fazer parte de uma empresa que já tinha algum nome no mercado das Tecnologias da Informação, que contava com 200 colaboradores e que operava em alguns países fora de Portugal.

De lá para cá tudo mudou: o mundo, para começar, e a Novabase, porque sempre o acompanhou. Hoje somos mais de 2000 - ou, como diz o meu CEO, 2044, porque cada pessoa conta - e estamos espalhados por quase todos os continentes. Lá dentro sou a Marta do Marketing, mesmo sendo mais da Comunicação.  

Mas também sou a Marta que passou por tudo com a empresa. Que esteve lá quando os resultados foram bons, que se manteve quando eles não foram assim tão bons. Que conhece quem esteve antes, depois e quem está agora.

Há uns dias entrou um colega, que já tinha passado pela Novabase no início da carreira, mas que saiu atrás de outras oportunidades. Contaram-me que quando lhe disseram que ele ia ter uma reunião com o Marketing perguntou “a Marta ainda lá está?” Sim, estou.

Nestes 20 anos, encontrei pessoas que se entranharam na minha vida, que faço questão de que dela não saiam mais. Outras que saíram, porque também eu fiz questão disso.

Às vezes perguntam-me “como é que eu estás há tanto tempo na mesma empresa?”. E eu respondo “porque me sinto bem, porque me fazem sentir bem, porque sou feliz e gosto daquilo que faço.”

E acrescento que “mas mudarei, sim, se isto deixar de ser bom para todos e, principalmente, se isto deixar de ser bom para mim”. Até lá, vivemos esta espécie de romance, com altos e baixos (como todos os romances), mas em que os altos conseguem sempre superar os baixos. 

Há 4 datas que comemoro na minha vida: 21 setembro de 75, dia em que nasci, 11 de março de 91, dia em que sobrevivi a uma intoxicação por monóxido de carbono, 18 de janeiro de 2005, dia em que decidi entregar-me nas mãos dos médicos com uma septicémia grave, e este 28 de julho de 1998, dia em que entrei na Novabase.

Não sei se virão de lá mais 20 - porque a vida já me ensinou a viver mais devagar para a aproveitar o momento – mas estes já ninguém mos tira.

Parabéns a mim e, já agora, parabéns à Novabase. 😉