12 de maio de 2018

Às minhas enfermeiras


Uma das memórias mais duras - mas também das mais bonitas - que guardo do que passei com as minhas enfermeiras aconteceu no dia de ida ao bloco. 

Horas antes, os médicos tinham-me avisado que de era preciso abrir a minha perna para ver, porque desconfiavam que a bactéria estava a gozar do conforto da cabeça do meu fémur. Mas era preciso abrir para ter a certeza.

Andávamos em luta com a bactéria que me tinha entrado pelo corpo adentro através de uma ferida  e que me tinha atirado para uma septicemia há muitos meses. O meu corpo já tinha perdido grande parte da sua energia e aquele momento de febre ao fim do dia, levava-lhe o resto, devagarinho. Apesar de não querer entregar os pontos, confesso que houve uma altura que achei que isso que ia acabar por acontecer.

Não me deram pequeno almoço, deixaram-me passar uma toalha perfumada pelo corpo, lavar os dentes e pentear-me. Tiraram-me a t-shirt colorida que a minha mãe me tinha trazido, vestiram-me uma bata que atava nas costas. Vi-as fazer tudo devagar. No ar quase que se conseguia ouvir uma espécie de música de fundo tranquila, que acompanhava os passos delas em câmara lenta.

Era agora ou nunca. Ou saía do bloco pronta para recomeçar, ou saía sem perna, ou sem solução à vista. Engoli em seco quando percebi que aquele era “o” momento. Mas pedi para irmos. Queria voltar a sentir-me bem, queria retomar a minha vida.

Saí do quarto, percorri o corredor deitada na cama, sem saber como regressaria. O pensamento foi tão básico como: “Marta, mais vale viveres sem uma perna do que morreres.” Nestas alturas, o meu corpo não se perde em grandes considerações e não viaja na maionese, prefere antes focar-se no essencial. Era só isto que me ocupava o espírito.

Encostadas às paredes daquele corredor, lá estavam elas. Vestidas de branco, quietas, de olhos postos em mim, e de mãos em cima dos meus lençóis, enquanto algumas quebravam o silêncio para me sussurrarem baixinho: “vai correr tudo bem”, “força, miúda”, “até já”, “ficamos à tua espera”. Foi neste momento que tive a certeza de que estava rodeada de anjos.

A verdade é que voltei. E voltei com a certeza quase absoluta de que tinham conseguido eliminar aquele bicho que havia decidido que eu era um bom petisco e que insistia em não me deixar em paz há tanto tempo. Até ao dia em que, naquele bloco operatório, conseguiram enfraquecê-lo e expulsá-lo do meu corpo para sempre.

Já em casa, os meses seguintes foram de grande ansiedade, até percebermos que a coisa era mesmo assim, e que ele não ia voltar. Houve alguns avanços e muitos recuos, que mais uma vez só foram possíveis de ultrapassar, porque as minhas enfermeiras estiveram lá. E, à cabeça, uma que viveu cada segundo como se tudo se passasse também no corpo dela.  A Zezinha.

Pela manhã, sempre muito cedo, sem falhar, a Zezinha subia no elevador com um saco de tratamento maior do que ela, cheia de produtos novos que não se cansava de experimentar em mim, fazendo com que o meu corpo acabasse por reagir e voltasse a querer agarrar o mundo com as duas mãos

Foi a ela que me fez acreditar que aquilo não passava de um momento mau. Com a sua genica, com a sua experiência, com a sua sensibilidade, com a sua empatia, com o seu amor. E, mesmo quando ela própria teve dúvidas se a minha história ia acabar bem – algo que mais tarde veio a confessar que teve –, jamais o deixou transparecer.

Gosto de pensar que os médicos me salvaram o corpo, mas os enfermeiros, esses, salvaram-me a alma. Por isso, todos os dias, por muitos que viva e cheia de saúde, jamais esquecerei o que fizeram por mim.

A todos: só foi possível porque vocês nunca desistiram. 

Obrigada.


Ilustração feita por Rita Salgueiro em 2008

26 de abril de 2018

O jogo da (minha) cadeira (de rodas)

As semanas anteriores a ter que voar são quase sempre de algum desconforto. A verdade é que não gosto de sair do chão nem de saber que a minha cadeira vai longe de mim e que algo lhe pode acontecer. Ou de sentir que se precisar de ir à casa de banho a meio da viagem, vai ser um circo. Por isso, durante os dias que antecedem uma viagem de avião, ando ansiosa e a pedir lá “pra” cima que a hora do regresso chegue rápido.
Chego ao aeroporto com a minha mãe duas horas antes do voo.
Balcões de check-in vazios, ótimo, posso escolher. Opto pelo que tem a colaboradora mais velha, acreditando que me vai ajudar o facto de ser experiente. Entrego o bilhete eletrónico e explico que quero ir na minha cadeira até ao avião, que foi isso que combinei quando comprei o bilhete.
A senhora levanta-se, empoleira-se na caixa do check-in, olha atentamente para a minha cadeira, abana as mãos e a cabeça ao mesmo tempo e pergunta “consegue andar ou…” Respiro fundo – percebo que tenha que fazer a pergunta, mas encanita-me da mesma forma – respondo “paraplégica”. E sorrio.
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11 de março de 2018

#BestFriendsForever

E num telefonema, numa mensagem, junta-se tudo. Com muitos deles, quase um ano depois da última vez.
São os amigos. Os que sabem tudo sobre nós. Os que vivem de perto os momentos bons, e ainda mais de perto os outros, os menos bons. Os que perguntam sempre como estamos, apesar de saberem de cor se estamos bem ou mal só de olharem para nós. Os que acabam as nossas frases. Os que deliram com as nossas piadas parvas e respondem com outras, ainda mais parvas. Os que nos defendem até ao fim. Os que nos colocam no trilho de novo, a bem ou a mal, se sentirem que nos desviámos daquilo que sabem que temos cá dentro.
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20 de fevereiro de 2018

O teu umbigo não é o mundo

O Jorge era uma das pessoas que eu acompanhava no meu trabalho enquanto voluntária do CASA – Centro de Apoio ao Sem-Abrigo. Com a nossa ajuda, em junho encontrou um emprego que lhe permitiu endireitar a vida, esperamos nós, definitivamente. E é hoje um dos melhores colaboradores do local onde trabalha. Esforça-se sempre – e muito – para não desiludir quem acreditou nele.
Todas as semanas recebo uma mensagem do Jorge a agradecer-me. Alguém que passou de não ter quase nada, para ter mais qualquer coisa, e que luta diariamente para vir a ter mais, não pede. Só agradece.
Passamos a vida descontentes com o que temos. Passamos a vida a sentir que “a galinha da vizinha é melhor do que a minha”. Passamos a vida a achar que merecemos mais. E a pedir mais.
Esquecemo-nos de pensar na sorte que temos. Mesmo quando passámos o ano com saúde, a dar ao pedal, com as contas pagas, e um pingo de sorte, pedimos mais. Chamamos-lhes desejos de ano novo. Vale tudo. Ao ponto de usarmos cuecas com a cor a condizer com o pedido, ou subirmos para cima de um banco com uma nota na mão, entre tantas outras superstições sem fundamento (para não as chamar idiotas).
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5 de janeiro de 2018

E que tal perder o medo da diferença?

Aquele era mais um dos nossos dias de praia. A Ana também lá estava e, a certa altura, disparou: “O que me dizes de ires a uma entrevista lá na empresa para a função de assessora de imprensa?”. Fiquei a olhar para ela, respondi “Eu?”, e ri-me. Nunca tinha pensado em começar a trabalhar antes de acabar a faculdade, mas a Ana insistiu no assunto e decidi aceitar. Não tinha nada a perder.
Por isso lá fui e, às tantas, vi-me numa conversa cheia de perguntas, às quais respondi de uma forma sincera, sem a pressão de agradar. O meu objetivo era trabalhar em televisão (estava a estudar para isso), pelo que tinha para mim que aquele momento seria apenas uma experiência nova, e que voltaria rapidamente à minha vida de estudante, em que a única preocupação era focar-me em terminar o curso, para depois seguir o meu sonho de miúda.
O caminho estava, de facto, traçado na minha cabeça há muito tempo. Estava, mas não foi por ele que segui. A verdade é que acabei por ficar com o lugar e foi assim que me tornei assessora de imprensa.
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1 de dezembro de 2017

Colocar ao serviço dos outros o conhecimento adquirido

Depois de passar por tudo o que passei, percebi que devia colocar o conhecimento que fui adquirindo em alguns momentos da minha vida ao serviço de quem realmente precisava. Aprendi tanto com eles que não seria justo guardá-lo só para mim.
A primeira vez que o senti foi por volta de 1991, depois de ficar paraplégica, na sequência de um acidente em casa. Reforcei-o em 2004, quando estive por um fio, com uma septicémia grave, resultado de uma escara deixada à solta, que acabou por infetar.
Dois momentos-chave, o primeiro aos 15 anos e o segundo aos 29, que enfrentei com tudo o que tinha, e superei. Resultado? Sem sequer ter tido tempo para dar conta, passaram a ver-me como “exemplo a seguir”, “lutadora”, “guerreira”, “força da natureza”. E a responsabilidade aumentou. Mal sabia eu que este era só o início de uma viagem e que essa viagem não teria fim.
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1 de novembro de 2017

O pior destino?

Trago-vos um daqueles temas que nos entra todos os dias pela casa a dentro e que poucos dão por ele.
Mas antes, uma espécie de disclaimer: cá em casa segue-se a novela de um dos canais nacionais. Por vezes saltam-se episódios mas, na maior parte dos dias, o hábito faz-nos olhar para a televisão depois das notícias da noite. Sempre foi assim, sempre será.
Posto isto, não é a primeira vez que, no decorrer da história, quando algo de muito trágico tem de acontecer a alguma das personagens, se opta pelo mesmo. Já vi acontecer à jovem adorável que vivia um amor sincero com o galã e que, por isso mesmo, era invejada pela vilã, que tudo fazia para os separar. Mas, por regra, acontece aos vilões. Aos maus da fita.
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