14 de junho de 2018

“Conhecemo-nos há pouco tempo, mas houve aqui qualquer coisa...”



Agradecemos pouco. Deixamos a vida passar rápido demais e não nos lembramos de o fazer.

Começamos o dia a mando do despertador e com os minutos contados. O meu toca quase sempre um pouco antes das 7h. A partir daí, é sempre a abrir: 10 minutos para o pequeno almoço, 5 para o banho, 30 para me vestir e maquilhar, 10 para deixar a casa em ordem, quase 1 hora para o caminho até à empresa.

1ª reunião, sessão de fotos, almoço com colega, 2ª reunião. Quando dou por mim são quase 7 da tarde e termino o dia de trabalho a mergulhar num projeto de responsabilidade social que me inunda o coração de ternura e que reforça a minha esperança no ser humano.

Táxi atrasado, aproveito e arrumo mais uns emails antes de sair, para me distrair. Mas não consigo evitar: os “fornicoques” para chegar à festa são lixados.

Já a caminho, comento com o motorista, que me conhece os hábitos, que vou festejar os Santos Populares para o Campo Pequeno. “Campo Pequeno?” pergunta ele, sabendo que dali não vinha nenhuma tradição. Respondo que é o 2º ano que a equipa Revenge of the 90’s organiza um arraial naquelas bandas, e que desta vez esperamos umas 20 mil pessoas. E digo “esperamos” sem esconder o orgulho de sentir que faço parte da equipa. “Então e depois como é que vai para casa?”, pergunta-me. Descanso-o dizendo-lhe que combinei ligar para outro senhor que trabalha durante a noite, que no limite tenho que esperar um pouco porque é noite de Santos e não se fazem marcações, mas que se for preciso espero, sem problema. Responde-me “ligue-me que eu venho busca-la. É só o tempo de tomar um duche, vestir-me e venho. Quem começa a trabalhar às 6h, começa às 5h.”. Percebi que nem valia a pena tentar dissuadi-lo, restou-me agradecer, muito, e aceitar.

Estaciona, tira-me do carro e fecha-o, porque me quer deixar mesmo no sítio “onde estão os seus amigos.” Mais uma vez sem hipótese, agradeço. Nesta altura aproximam-se 2 seguranças e dizem “podemos ajudar? Nós levamo-la.” Olho para o motorista, e ele para mim sem tirar as mãos da minha cadeira, aceno positivamente, ele liberta-a e lá me deixa com aqueles dois homens que, do nada, quiseram ajudar. “Ligue-me 30 minutos antes de se querer vir embora, que eu venho.”, relembrou ainda.

Entro na festa, encontro amigos em todo o lado, gente que não via há anos, outros tantos com quem combinei ali estar. Reparo no varandim, estrategicamente colocada pela produção perto da zona VIP, e na rampa que lhe dá acesso. “O palco é mais pequeno, desta vez pode ser mais arriscado ires lá para cima, mas daqui vês tudo e estás perto de um wc adaptado, se precisares”, diz-me alguém da equipa que sabe que são questões fundamentais para mim. Isto deixa-me descansada, eu que arranco sempre sozinha para estas festas, fazendo questão de não estar dependente de ninguém mas que, para que tudo corra bem, preciso de algumas condições. Ali estavam todas asseguradas e por pessoas que me conhecem há pouco mais de 6 meses.

Por opção, decido ir antes para a frente de palco, situado no lado oposto, onde o meu grupo de amigos estacionou, deixando para pensar em como chegar ao wc apenas na altura em que precisar. Quem me conhece, não me reconhece nesta decisão, eu que, por regra, quero tudo planeado ao minuto e com antecedência.

Danço, canto, como nunca cantei ou dancei, e até descubro que sei mais letras de música pimba do que aquilo que esperava. Algumas horas depois, torna-se inevitável: preciso de uma casa de banho. Pergunto a outro membro da equipa qual a melhor forma de lá chegar. 10 minutos depois tenho outros 2 seguranças prontos para afastar 20 mil pessoas até ao espaço preparado para mim. Uma aventura, que acaba bem, comigo pronta para mais algumas horas de pura diversão.

A certa altura já não aguento o frio (e de levar com os confetis), por isso recolho-me na tenda de apoio ao palco, onde me continuo a divertir à grande. Quando dou conta, sou rodeada por parte da equipa, que me pega na cadeira e me sobe até ao palco, onde outros já puxavam, como fazem sempre, pelo público. De repente, aquele espaço, que antes era pequeno e arriscado, ficou enorme e seguro com olhos deles postos em cima de mim. Não estava previsto e eu percebia porquê, fui apanhada desprevenida, mas a verdade é que a minha noite ganha outro colorido vivida dali. E eles sabem disso.

Um arraial - de quem nunca ligou “pêva” a arraiais - que teve direito ao jantar trazido pela Andreia, às garrafas de água sempre perto, graças ao Tiago, à alegria da Sandra e da Isabel, ao “conhecemo-nos há pouco tempo, mas houve aqui qualquer coisa...” da Mané, à ternura do Miguel, aos high-five do Paulo, à graça da Mória, às piadas dos Brunos, ao sorriso da Tatiana, à loucura boa do Dúdú, à cara “Marta, és doida” do Véstia, e às 234 vezes em que respondi a vários membros da equipa “sim estou ótima, não preciso de nada, obrigada”.

Uma noite em que terminei aquecida pelo blusão do vizinho da frente que não acreditou quando me viu “a correr de um lado para o outro no palco”, com quem partilhei o táxi para a casa, numa conversa boa que fez com que ele deixasse de ser “o vizinho da frente, porreiro, com uma família gira”, para ser o Kiko.

Nunca o meu colo foi tão de tantos como ontem. Mas o que eles não sabem ainda, é que os seus colos também já são um bocadinho meus.

A todos os que me deram isto tudo, retribuo com um OBRIGADA assim, grande, para que se veja e sinta, de jeito.

💗





1 de junho de 2018

A vingança dos anos 90

Devo confessar que resisti um bocadinho a dedicar uma crónica a este tema. Não porque tivesse alguma dúvida que o tema o merecesse, mas porque receei que fosse considerado interesse próprio e ser alvo de interpretações erradas. Contudo, a vida também já me ensinou a marimbar-me para aquilo que os outros pensam e, por isso, cá está: esta crónica é dedicada à “the one and only” Revenge of the 90’s, o maior acontecimento dedicado aos anos 90 que Portugal já alguma vez viu e, quem sabe, o mundo.
Mas antes, o melhor é mesmo começar pela declaração de interesses: faço parte da equipa de relações públicas dos Revenge of the 90’s, missão que desempenho com dedicação e, acima de tudo, um orgulho enorme.
Como diria o Netinho, cantor brasileiro, na sua noventeira música “Oh Mila”, “tudo começou há um tempo atrás” (sendo que o “atrás” está aqui a mais, bem sei, mas também não vou ser eu a acordá-lo para a dura realidade gramatical), numa festa de Natal de empresa.
Ver texto completo no Delas.

12 de maio de 2018

Às minhas enfermeiras


Uma das memórias mais duras - mas também das mais bonitas - que guardo do que passei com as minhas enfermeiras aconteceu no dia de ida ao bloco. 

Horas antes, os médicos tinham-me avisado que de era preciso abrir a minha perna para ver, porque desconfiavam que a bactéria estava a gozar do conforto da cabeça do meu fémur. Mas era preciso abrir para ter a certeza.

Andávamos em luta com a bactéria que me tinha entrado pelo corpo adentro através de uma ferida  e que me tinha atirado para uma septicemia há muitos meses. O meu corpo já tinha perdido grande parte da sua energia e aquele momento de febre ao fim do dia, levava-lhe o resto, devagarinho. Apesar de não querer entregar os pontos, confesso que houve uma altura que achei que isso que ia acabar por acontecer.

Não me deram pequeno almoço, deixaram-me passar uma toalha perfumada pelo corpo, lavar os dentes e pentear-me. Tiraram-me a t-shirt colorida que a minha mãe me tinha trazido, vestiram-me uma bata que atava nas costas. Vi-as fazer tudo devagar. No ar quase que se conseguia ouvir uma espécie de música de fundo tranquila, que acompanhava os passos delas em câmara lenta.

Era agora ou nunca. Ou saía do bloco pronta para recomeçar, ou saía sem perna, ou sem solução à vista. Engoli em seco quando percebi que aquele era “o” momento. Mas pedi para irmos. Queria voltar a sentir-me bem, queria retomar a minha vida.

Saí do quarto, percorri o corredor deitada na cama, sem saber como regressaria. O pensamento foi tão básico como: “Marta, mais vale viveres sem uma perna do que morreres.” Nestas alturas, o meu corpo não se perde em grandes considerações e não viaja na maionese, prefere antes focar-se no essencial. Era só isto que me ocupava o espírito.

Encostadas às paredes daquele corredor, lá estavam elas. Vestidas de branco, quietas, de olhos postos em mim, e de mãos em cima dos meus lençóis, enquanto algumas quebravam o silêncio para me sussurrarem baixinho: “vai correr tudo bem”, “força, miúda”, “até já”, “ficamos à tua espera”. Foi neste momento que tive a certeza de que estava rodeada de anjos.

A verdade é que voltei. E voltei com a certeza quase absoluta de que tinham conseguido eliminar aquele bicho que havia decidido que eu era um bom petisco e que insistia em não me deixar em paz há tanto tempo. Até ao dia em que, naquele bloco operatório, conseguiram enfraquecê-lo e expulsá-lo do meu corpo para sempre.

Já em casa, os meses seguintes foram de grande ansiedade, até percebermos que a coisa era mesmo assim, e que ele não ia voltar. Houve alguns avanços e muitos recuos, que mais uma vez só foram possíveis de ultrapassar, porque as minhas enfermeiras estiveram lá. E, à cabeça, uma que viveu cada segundo como se tudo se passasse também no corpo dela.  A Zezinha.

Pela manhã, sempre muito cedo, sem falhar, a Zezinha subia no elevador com um saco de tratamento maior do que ela, cheia de produtos novos que não se cansava de experimentar em mim, fazendo com que o meu corpo acabasse por reagir e voltasse a querer agarrar o mundo com as duas mãos

Foi a ela que me fez acreditar que aquilo não passava de um momento mau. Com a sua genica, com a sua experiência, com a sua sensibilidade, com a sua empatia, com o seu amor. E, mesmo quando ela própria teve dúvidas se a minha história ia acabar bem – algo que mais tarde veio a confessar que teve –, jamais o deixou transparecer.

Gosto de pensar que os médicos me salvaram o corpo, mas os enfermeiros, esses, salvaram-me a alma. Por isso, todos os dias, por muitos que viva e cheia de saúde, jamais esquecerei o que fizeram por mim.

A todos: só foi possível porque vocês nunca desistiram. 

Obrigada.


Ilustração feita por Rita Salgueiro em 2008

26 de abril de 2018

O jogo da (minha) cadeira (de rodas)

As semanas anteriores a ter que voar são quase sempre de algum desconforto. A verdade é que não gosto de sair do chão nem de saber que a minha cadeira vai longe de mim e que algo lhe pode acontecer. Ou de sentir que se precisar de ir à casa de banho a meio da viagem, vai ser um circo. Por isso, durante os dias que antecedem uma viagem de avião, ando ansiosa e a pedir lá “pra” cima que a hora do regresso chegue rápido.
Chego ao aeroporto com a minha mãe duas horas antes do voo.
Balcões de check-in vazios, ótimo, posso escolher. Opto pelo que tem a colaboradora mais velha, acreditando que me vai ajudar o facto de ser experiente. Entrego o bilhete eletrónico e explico que quero ir na minha cadeira até ao avião, que foi isso que combinei quando comprei o bilhete.
A senhora levanta-se, empoleira-se na caixa do check-in, olha atentamente para a minha cadeira, abana as mãos e a cabeça ao mesmo tempo e pergunta “consegue andar ou…” Respiro fundo – percebo que tenha que fazer a pergunta, mas encanita-me da mesma forma – respondo “paraplégica”. E sorrio.
Ver texto completo no Delas.


11 de março de 2018

#BestFriendsForever

E num telefonema, numa mensagem, junta-se tudo. Com muitos deles, quase um ano depois da última vez.
São os amigos. Os que sabem tudo sobre nós. Os que vivem de perto os momentos bons, e ainda mais de perto os outros, os menos bons. Os que perguntam sempre como estamos, apesar de saberem de cor se estamos bem ou mal só de olharem para nós. Os que acabam as nossas frases. Os que deliram com as nossas piadas parvas e respondem com outras, ainda mais parvas. Os que nos defendem até ao fim. Os que nos colocam no trilho de novo, a bem ou a mal, se sentirem que nos desviámos daquilo que sabem que temos cá dentro.
Ver texto completo no Delas.

20 de fevereiro de 2018

O teu umbigo não é o mundo

O Jorge era uma das pessoas que eu acompanhava no meu trabalho enquanto voluntária do CASA – Centro de Apoio ao Sem-Abrigo. Com a nossa ajuda, em junho encontrou um emprego que lhe permitiu endireitar a vida, esperamos nós, definitivamente. E é hoje um dos melhores colaboradores do local onde trabalha. Esforça-se sempre – e muito – para não desiludir quem acreditou nele.
Todas as semanas recebo uma mensagem do Jorge a agradecer-me. Alguém que passou de não ter quase nada, para ter mais qualquer coisa, e que luta diariamente para vir a ter mais, não pede. Só agradece.
Passamos a vida descontentes com o que temos. Passamos a vida a sentir que “a galinha da vizinha é melhor do que a minha”. Passamos a vida a achar que merecemos mais. E a pedir mais.
Esquecemo-nos de pensar na sorte que temos. Mesmo quando passámos o ano com saúde, a dar ao pedal, com as contas pagas, e um pingo de sorte, pedimos mais. Chamamos-lhes desejos de ano novo. Vale tudo. Ao ponto de usarmos cuecas com a cor a condizer com o pedido, ou subirmos para cima de um banco com uma nota na mão, entre tantas outras superstições sem fundamento (para não as chamar idiotas).
Ver texto completo no Delas.


5 de janeiro de 2018

E que tal perder o medo da diferença?

Aquele era mais um dos nossos dias de praia. A Ana também lá estava e, a certa altura, disparou: “O que me dizes de ires a uma entrevista lá na empresa para a função de assessora de imprensa?”. Fiquei a olhar para ela, respondi “Eu?”, e ri-me. Nunca tinha pensado em começar a trabalhar antes de acabar a faculdade, mas a Ana insistiu no assunto e decidi aceitar. Não tinha nada a perder.
Por isso lá fui e, às tantas, vi-me numa conversa cheia de perguntas, às quais respondi de uma forma sincera, sem a pressão de agradar. O meu objetivo era trabalhar em televisão (estava a estudar para isso), pelo que tinha para mim que aquele momento seria apenas uma experiência nova, e que voltaria rapidamente à minha vida de estudante, em que a única preocupação era focar-me em terminar o curso, para depois seguir o meu sonho de miúda.
O caminho estava, de facto, traçado na minha cabeça há muito tempo. Estava, mas não foi por ele que segui. A verdade é que acabei por ficar com o lugar e foi assim que me tornei assessora de imprensa.
Ver texto completo no Delas.