24 de março de 2020

Quarentena de uma quarentona


Estou há 14 dias em casa.

"Ver-ver", vejo a minha mãe, que vive comigo, e de vez em quando a minha irmã e a minha sobrinha, que vivem do outro lado da rua e que vão passando por cá.

Depois há os que vejo apenas online, via skype ou whatsapp.

O que me custa mais "ver apenas assim", à distância, é o meu namorado, porque as saudades apertam, e muito.

Mas também me entristece "ver apenas assim" os colegas com quem estou habituada a partilhar o meu espaço, mesmo que 1 ou 2 vezes por semana, quando vou ao escritório.

Sou muito disciplinada, passo os dias a trabalhar, até porque já é um hábito com quase 16 anos. Esse não é um problema.

O que me faz falta é a sensação simples de saber que a meio da semana vai chegar o dia de ir a Lisboa, de passear na minha mota sozinha à beira rio, de acabar o dia na Gare do Oriente com os meus colegas voluntários do CASA, e eu não vou lá estar.

Hoje ligou-me o Henrique, um dos amigos que tenho naquela rua. Queria saber se eu estava bem. Eu, em casa, confortável, segura. Ele na rua, desconfortável, inseguro. E queria saber se eu estava bem. “Temos sentido a tua falta, mas queremos-te em casa.”, diz-me. “Nós estamos bem…”, descansa-me. Mas eu sinto que está assustado e isso deixa-me inquieta.

Quando paro para pensar “então, mas isto vai ser assim durante mais quanto tempo?” fico com um pequeno nó no estômago. Porque tenho consciência de que vai demorar.

Sou uma privilegiada. Já passei por inúmeras situações de merda, safei-me de todas. Muito por causa delas, aprendi a trabalhar de casa, onde hoje tenho as condições e o sossego necessários para dar resposta ao que a empresa me pede. Mas sou uma privilegiada. Há quem não se oriente neste novo modelo.

Estou protegida, num ambiente livre de bichos, até agora, e acompanhada.

Se tiver que ir à rua não vou usar máscara nem luvas. Prefiro lavar as mãos e manter a distância social aconselhada pelas autoridades de saúde.

Sinto-me bem informada sobre o tema, dados que consumo apenas em meios e junto de pessoas que considero credíveis.

E, sim, já me deu para as limpezas. Sábado fui invadida por uma vontade quase incontrolável de dar uma volta ao meu quarto. Resultado? Enchi 3 ou 4 sacos do lixo dos de 50 litros. Assumo: saí à minha avó, no que diz respeito a guardar tralha.

Nos próximos dias, cheira-me que vou atacar o quarto do meio. Tenho para lá uns leitores de DVDs que, quando avariaram, há anos, decidi guardar. E não perguntem para quê porque não vos sei responder.

Também já pisquei o olho à arrecadação da varanda das traseiras, onde ainda guardo os aparelhos que usava para pôr nas pernas na sala de fisioterapia do Centro de Reabilitação de Alcoitão. Em 1991. Como veem, a coisa promete.

Tenho poucas certezas sobre como estará o mundo quando isto tudo passar. Mas, por este andar, a minha casa estará muito mais arrumada.

Mas até passar, devemos dar passos curtos. Viver um dia de cada vez. Não nos desleixarmos nos cuidados de higiene. Protegermo-nos e protegermos os outros. Fazer a nossa parte para travar este filho da mãe deste vírus, que nos tem a todos posto à prova.

Estou em casa há 14 dias. Farta desta treta até aos olhos. Cheia de saudades do que tenho lá fora. Mas com a certeza de que o que lá está, vai lá estar quando der para voltar a rolar por aí que nem uma maluca.



21 de setembro de 2019

44: é para dar tudo


Adeus 43, olá 44.

É nesta altura que gosto de fazer o balanço do ano. Quando pego no número e lhe acrescento mais 
um.

Olhando para trás, para os 12 meses dos 43, vejo vários momentos que me marcaram. Na sua grande maioria, bons. Os outros, que também tive, usei-os para crescer e para me tornar ainda mais resistente (agora imaginem…).

Desenganem-se aqueles que pensam que estou sempre bem disposta, sempre on fire, sempre pronta para tudo. Não, não estou. A verdade é que não estou “sempre” nada. Ninguém está sempre “nada” nem sempre “tudo”. Como todos, tenho dias. Dias “assim” e dias “assado”. E nos “assado”, acordo sem energia, insuportável, só faço merda e, cereja no topo do bolinho, em muitos deles tenho que ser um poço de simpatia com algumas dores, o que piora o cenário.

É como na loja do chinês, há de tudo. E, durante os 43, houve mesmo de tudo. Mas, venha de lá essa balança, porque ela vai comprovar que este foi mais um ano incrível. Se não, vejamos:

Arranquei-o em cima de um palco, aos pulos, com confettis até às cuecas, rodeada por uma equipa de malta feita da mesma massa que eu: que gosta de ser feliz e de fazer os outros felizes. 

Magoei e fui magoada. Umas vezes por querer, outras, quase todas, sem querer. Sem querermos.

Retomei amizades antigas. Fiz novas. E daquelas que sentimos que vão ficar.

Tive dias em que acreditei em Deus, outros em que achei que só podiam “andar a brincar comigo”.

Senti-me poderosa e frágil, ao mesmo tempo. Sexy e trambolho, também ao mesmo tempo.

Perspicaz e esperta que nem um alho, naqueles dias em que absorvia tudo à primeira, “um calhau com olhos” noutros, em que achei que só tinha capacidade suficiente para ler os livros que compramos aos nossos filhos quando eles estão a aprender as cores ou os nomes dos animais.

Apeteceu-me ajudar a mudar o mundo às 2ªs, 4ªs, e 6ªs, e às 3ªs e 5ªs só pedi para que o mundo me esquecesse, e me deixasse estar esparramada na minha cama, de phones nos ouvidos, sem me chatear.
(antes que perguntem, ao fim de semana preferi fazer sestas longas no meu quarto - o meu hobby preferido - ou paralisar ao sol, e focar-me em ganhar finalmente um tom mais saudável, que isto de ser amarela no inverno não é bonito de se ver e há que investir algum tempo para minimizar a coisa.)

Dei colo a todos de manhã, precisei do colo dos outros à noite. E tive. Se tive.

Num mês quis voltar ao cabelo castanho e libertar-me da ditadura de quem o pinta, no outro voltei a encantar-me pelas ondas loiras com que saía do cabeleireiro.

Tive dias em que abri o frigorifico e devorei metade do chouriço à trinca, outros em que decidi voltar às saladas e aos grelhados.

Ouvi baladas que me fizeram chorar ao deitar, no dia seguinte levantei-me ao som de uma rockalhada, um heavy metal ou uns “martelos” dignos de uma rave pastilhada.

Houve alturas em que fotografei uma refeição ou a minha cara para partilhar com o mundo, outras em que achei o mundo social tão ridículo e estupidificante, que quis apagar-me de lá.

Tive momentos em fiz tudo “daquela forma”, achando “vá, Canária, assim é que é, claro que está certo, miúda” e outros em que, quando a Canária deu por ela, apeteceu-lhe pôr tudo em causa.

Nuns dias vivi e quis esticar as horas, noutros limitei-me a sobreviver e a querer que elas passassem rápido para chegar o dia seguinte.

Os 43 tiraram-me algumas coisas que preferia que tivessem ficado. Mas também me deram isto tudo, e em doses generosas. Foram 365 dias a abarrotar de milhares de momentos inesquecíveis e vivi-os o melhor que soube.

Agora são vocês, 44. E tragam sorte, meus queridos, porque superar a loucura boa dos vossos antecessores não vai ser tarefa fácil.

De resto, já sabem: sou muito exigente e as minhas expetativas são altas, como sempre. Agora não me falhem. Porque eu não falharei quando fizer a minha parte.

Palavra de uma Canária cada vez mais louca, mas cada vez mais com um coração maior.



19 de setembro de 2019

Sou uma nuvem

Pronto ok, é verdade aquilo que se diz por aí: não consigo estar sossegada num cantinho, e acho sempre que tenho espaço para mais uma novidade na minha vida.

Na realidade, os últimos 2 anos têm sido muito isto. Arriscar. Sair do "meu normal". Ir. Sem medo. Quero, vou atrás. Nunca o fiz? Sem problema, faço agora.

As coisas (que podem ser projetos ou pessoas) aparecem-me à frente, fico curiosa, conquistam-me e acabo por querer encaixá-las nos meus dias.

Quando isto acontece, pergunto-me: consigo? E, se gosto mesmo, se quero mesmo, respondo: hey, claro que consigo!

Foi assim que a Nuvem Vitória entrou na minha vida.

Conheci o projeto através da minha amiga Fernanda Freitas. Fiquei curiosa, procurei saber mais, deixei-me conquistar pelas informações que recolhi, quis encaixá-lo na minha vida. Na altura não foi possível. Passou quase um ano.

Mantive-me atenta ao terreno que ele ia conquistando. Deixei-o adormecer mas não o deixei morrer. E, finalmente, o projeto chegou-me quase à porta e a um dos locais mais especiais para mim: o Hospital Garcia de Orta, onde passei alguns dos piores momentos da minha vida, mas também dos melhores, com as pessoas que trouxe de lá comigo.

Naquele dia a Nuvem tinha acordado e nem precisei de pensar: peguei no telefone, liguei à Fernanda e, depois de 5 minutos de conversa, inscrevi-me.

Na altura ainda não sabia muito bem como é que ia conseguir encaixar tamanha responsabilidade na minha agenda semanal, já tão desafiante. Mas não quis saber, tinha que conseguir. E “tinha” porquê? Porque eu queria muito.

A formação foi este fim de semana. 100 pessoas. 100 homens e mulheres de exceção. “100 Nuvens”, como dizemos, cheias de vontade de fazer a diferença na vida de crianças que estão internadas em algumas das pediatrias de alguns dos nossos hospitais. Como? Levando com elas histórias para as ajudar a adormecer em paz.

Do outro lado, estariam pernas partidas, apendicites, mas também situações muito graves e tantas vezes até difíceis de aceitar que aconteçam a seres humanos tão pequenos, frágeis e inocentes. Miúdos marcados pela dor, pela frustração de não poderem ter uma vida normal, “como os colegas lá da escola”. Famílias que se viram e reviram para lidar e aceitar uma realidade injusta. Gente, como nós, que tentamos que mergulhem naqueles 5 ou 10 minutos que duram a história e consigam “esquecer” um bocadinho aquela dor. 5 ou 10 minutos de uma espécie de esperança que lhes sussurra ao ouvido aquele “calma, vai correr tudo bem” que tanta diferença pode fazer no meio daquela agonia.

E porque quis muito - e porque soube esperar - a partir de hoje, vou terminar algumas das minhas noites com um “Vitória, vitória, acabou-se a história.”

Minha gente, a partir de hoje sou, orgulhosamente, uma Nuvem Vitória.










26 de julho de 2019

Li-ber-da-de


Não sei se vos consigo passar o que senti hoje. Mas vou tentar.

Há meses que esperava que o batec chegasse. Batec é o nome técnico do aparelho que, acoplado à cadeira, a torna elétrica.

Quando chegou, logo de manhã, nem consegui sentir-me nervosa, tal era a vontade que tinha de o experimentar mais do que já tinha experimentado há uns meses na garagem da minha empresa e nas ruas ali à volta, por alguns minutos.

Assim que o prendi à minha cadeira, que estava mais poderosa do que nunca por ter recebido a tela com o símbolo final da Wonder Woman - enorme, bordado nas costas - apeteceu-me acelerar.

Não me deixaram, naturalmente, mas fi-lo, naturalmente também, quando me apanhei sozinha, numa reta que fica numa rua mais acima, onde os olhos deles (e os da minha mãe, que estava colada na varanda, com o coração na boca) não chegavam.




Senti exatamente o que achei que ia sentir quando me apanhasse com aquilo nas minhas mãos.

E tudo coisas simples mas tão importantes para mim. 

O vento na cara. Até a velocidade, mas ali controlada por mim. A felicidade e a possibilidade de a atingir sozinha, sem precisar das mãos de ninguém, mesmo que elas me cheguem sempre tão cheias de boa vontade.

Senti que os caminhos de terra batida que sempre viveram ali dentro do pinhal que me servia de quintal estavam à minha espera. Senti que o gel de banho e a pasta de dentes que me faltam na casa de banho estavam apenas a uns metros, no supermercado ali da rua. Senti que, da próxima vez que fosse ao cabeleireiro, ia poder fazê-lo sem ter que me coordenar com alguém lá de casa para me ir pôr e ir buscar. Senti que podia ser eu a ir buscar o almoço ao Fernando. E que, se fosse preciso, também podia passar pela papelaria e trazer o tabaco à minha mãe. Senti que podia seguir em frente e chegar onde nunca tinha chegado antes, fazer o que nunca tinha feito sozinha. Sozinha.

Foi uma sensação incrível de poder e autonomia. De liberdade. Li-ber-da-de. Escrita assim, para ser lida devagar. Sa-bo-re-a-da.

Os últimos anos têm sido isto. Ouvir mais o que me vem cá de dentro. Sentir as borboletas na barriga mas não as deixar morrer por ali e dar-lhes mundo para voarem mais longe e a meu favor.

Depois de viver assim, já não quero viver de outra forma. Não quero mais limites do que aqueles que não consigo controlar. Se me apetece, se me faz feliz, se não prejudica ninguém, quero avançar.

Por isso, esta sou eu. Com menos filtro. Mais solta, mais descontraída, mais tranquila, mais segura. Mais aventureira e, acima de tudo, mais corajosa. Mais “se queres muito, segue”, “se é mesmo isto, luta por isso e não deixes escapar”. Mesmo que alguns não entendam. Custa? Por vezes custa. Mete medo? Sim, às vezes sim. Se isso me vai impedir? Dificilmente. Aos 43? Ui, muito dificilmente.



16 de maio de 2019

"A cadeira não tem nada a ver"


Ontem cheguei mais cedo à Gare, já ajudada pelo Henrique, amigo de rua que faz questão de me ir buscar perto da esquadra do Oriente, por saber que aquele túnel foi feito a subir e que me custa fazê-lo até ao fim. Principalmente depois de um dia de trabalho, carregada com 2 mochilas e a minha tábua enfiada nas costas da cadeira. Sim, e 1 ou 2 saquinhos de compras, que uma mulher tem sempre qualquer trapinho em falta. 😎

Assim que chegamos ao ponto de encontro, juntam-se de imediato as cerca de 80 pessoas que nos procuram para comer a única refeição quente do dia. Em segundos, sou literalmente rodeada por elas, para dois dedos de conversa. “Olá Marta”, “Como estás hoje”, beijo para aqui, beijo para ali.

Quem passa, passa, mas antes olha com um misto de medo e desconfiança, como se esperasse que aquela malta me pudesse fazer mal. Não faz, meus caros, e a verdade é que ali me sinto protegida como não sinto noutros locais. Faço isto há mais de 4 anos, eles já se habituaram a mim, já me habituei a eles. E já não sei o que é uma quarta feira completa sem a acabar assim.

Ali há de tudo. A Dona. C., de 84 anos, que apanha 4 transportes 1 vez por semana para ir visitar a filha em Sintra, “que, coitadinha, sabe menina Marta, tem muita dificuldade em andar, por causa de uma hérnia na coluna”, o J., que se apaixonou na rua pelo P., e pede sempre uma refeição para ele “quando chegar a casa do trabalho ter uma coisinha para comer”, o romeno que me pede “pão branco, pão branco” e já o diz a cantar, o brasuca “que não come carne há 20 anos” e que opta sempre pela refeição vegetariana, o Z., que não dispensa a camisola do Benfica e que, assim que me vê, me diz “para a semana vou para o Marquês, Marta”, sabendo que o tema me irrita, ou o H., que dizem ter estudado para ser médico mas que se entregou ao álcool e que “já viu Marta, agora anda com um saco de plástico à volta do pé porque ficou com ele preso debaixo de uma camioneta ali no terminal e teve que ser operado.”

A rua está cheia de histórias que podiam ser nossas e, sempre que lá estou, sinto que aquela é uma condição na qual é mais fácil de cair do que alguma vez pensei.

Ontem apareceu um puto que eu nunca tinha visto por ali - e que se visse noutro lugar qualquer, não desconfiaria que precisava daquele tipo de ajuda. Aproximou-se, pôs-se na fila, pegou numa refeição, veio ter comigo, pediu-me um pão escuro, passou para a fruta e também levou um bolo. Tudo em silêncio.

No fim de arrumarmos tudo no carro, disse ao Henrique, “Aquela rapariga, mesmo de cadeira de rodas, vem ajudar-nos?”. E Henrique respondeu “Oh, claro, ela trabalha aqui ao lado, numa empresa grande, o dia todo! E aqui faz tudo como os outros! A cadeira não tem nada a ver, amigo. Até tem um livro sobre a vida dela… Mas olha que não é para brincadeiras! Se te metes com ela, tás feito. Com ela e connosco, que a protegemos aqui. É uma joia, um doce de rapariga”. E conta-me isto com uma espécie de orgulho no olhar por saber da minha vida e por ter falado assim de mim a um novato por aquelas bandas.

É verdade. Trabalho “numa empresa grande e o dia todo”. Na Gare, como em todo o lado, faço “o mesmo” que os meus outros voluntários/colegas/amigos. A cadeira “não tem nada a ver”. Não sou “para brincadeiras”, mas passo o dia a brincar. Se se metem comigo, sim, estão “feitos” porque não tenho medo. Estou longe de ser “uma joia”, muito menos “um doce de rapariga”. Mas enquanto eu chegar a casa com histórias destas dentro de mim, é ali que grande parte das minhas quartas feiras vão continuar a acabar.

Faz hoje 15 anos que tive alta da septicémia. E hoje apareceu-me esta foto, como memória que partilhei há 2 anos, tirada na preparação da reportagem alargada que a RTP fez na altura sobre a minha história - A Orquídea -, e onde explorou o facto de haver malta que como eu, dizem eles, talvez tenha nascido com o chamado Gene da Felicidade. O gene mágico que, defenderam, me coloca no grupo das poucas pessoas que enfrenta as coisas menos boas da vida com uma cara feliz, e as transforma em desafios. Esta fotografia não tem cadeira nem tem que ter, porque ela é só um acessório na minha vida. Muito importante, de preferência linda de morrer, mas um acessório.

Se nasci com o tal gene não sei, e até acho que esta é uma história com muita fantasia à mistura. Mas que não sei ser infeliz, isso não sei. Se é por causa do gene ou apenas por ser (e gostar de ser) meia louca, pouco me interessa.

Hoje apetece-me dizer-vos algo muito simples mas que esquecemos com demasiada frequência: vejam a vida como um privilégio único e vivam-na todos os dias com a consciência de que há por aí muita malta que trocava de lugar convosco num estalar de dedos.

Hoje apetece-me dizer-vos: mexam-me esses rabos e façam mesmo por serem felizes.💓



11 de março de 2019

O que é que me faz feliz?


Há uns dias, durante um painel que assinalava o Dia Internacional da Mulher em que eu participava, perguntaram-me o que é que me fazia feliz.

Respondi “eh pá…tanta coisa…”, porque tinha aprendido a encontrar felicidade nos pequenos momentos que a vida me trazia todos os dias. E aprendi mesmo.

Nasci no último dia do verão, de cesariana, e depois de um parto difícil, que ia acabando mal.

“Vou salvar a mãe, porque a filha já não será possível”. Foi assim que o meu pai recebeu a notícia de que as coisas estavam a complicar-se lá para dentro.

No fim, tudo acabou bem, comigo cá fora, num berreiro digno de quem tinha esperado 9 meses para sair e que tinha estado perto de não conseguir. “Eras linda, filha. Cor-de-rosa, perfeitinha e, como todos diziam, a bebé mais bonita da maternidade”, lembra-me tantas vezes a minha mãe.

Vivi e cresci no bairro de Alvalade, em Lisboa. Uma infância feliz, com direito a liberdade na rua, nos quintais das traseiras, onde nos imaginávamos sempre em Angra dos Reis, inspiradas nas novelas que a noite nos trazia.

Era um prédio antigo, a casa do avô, estrela do futebol e do clube que me acompanha até hoje. Era a vizinha de cima, 2ª avó, onde ficávamos depois das aulas e à espera que os nossos pais chegassem do trabalho. Eramos as irmãs Metralha, sempre prontas para fazer a vida negra a alguém.

Foi assim por 15 anos. Até àquele décimo primeiro dia de março de 1991.

Arrancou frio, ainda com cheiro a inverno. Com ele, uma casa de banho, um esquentador ligado, uma janela e uma porta fechadas, uma adolescente a preparar o banho para depois seguir para mais um dia de escola. Tudo normal.

Depois veio uma campainha que tocou porque eram horas de ir ao café fumar um cigarro às escondidas antes das aulas, mas uma porta que já não se abriu porque, do outro lado, algo tinha acontecido.

Um dia que resumiu àquele banho da manhã 15 anos de uma vida curta mas cheia de aventuras, namoricos, saídas à noite, idas à praia com os amigos, boas notas, más notas, verdades e mentiras. 

Foram 15 anos com tudo o que cabia neles. Nada ficou por fazer.

Naquele dia, um acidente estúpido, quase fatal. Mas também um recomeço. Uma realidade desconhecida que me propus enfrentar com todas as forças do meu corpo. E que fiquei a dominar como poucos.

Hoje comemoro essa 2ª oportunidade que a vida me deu.

Passaram-se 28 anos. Mesmo que custe a acreditar, porque o tempo corre mais rápido do que conseguimos acompanhar.

28 anos vividos sentada numa cadeira que se tornou na minha mais fiel companheira e que me leva para todo o lado. 28 anos de malta boa à minha volta. Alguma todos os dias, outra só de vez em quando - mas com um lugar cativo no meu melhor canto, o coração - e sempre com vontade de deixar entrar novas personagens, desde que elas acrescentem valor e me deem na mesma proporção que lhes dou. 28 anos e com a capacidade de me renovar a cada dia, de viver como nunca.

28 anos depois, estou hoje mais atenta ao que me rodeia porque deixei de olhar só para mim. 28 anos depois, estou hoje mais tolerante com quem não pensa como eu, mas cada vez menos em relação às injustiças que acontecem à minha volta e com cada vez mais necessidade de fazer algo para as mudar.

Nestes 28 anos, aprendi a conviver com as minhas zonas de conforto, mas já ouso sair delas de vez em quando. Aprendi a afastar-me do que não quero e a aventurar-me por caminhos que nunca tinha equacionado, talvez por achar que não seriam para mim. Aprendi que não sou finita, e a querer eternizar em mim experiências que antes não sentia vontade de viver.

Aceito com mais serenidade que há dias em que enfrento o mundo sozinha e cheia de pica, mas outros em que rezo para que se esqueçam do meu nome e me deixem em paz. Aceito que há pessoas que se aproximam de mim para me iluminarem, outras que apenas o fazem para se iluminarem a elas próprias. Aceito que também me engano e que, quando isso acontece, posso voltar atrás. Aceito que a verdade não é sempre a minha e que por vezes é preciso saber ouvir e seguir os outros. Aceito que tudo o que nos acontece, acontece no tempo que o tempo quer, e que os astros se alinham, se for o caso. Se não for o caso, também aceito e deixo seguir.

Tenho hoje o lado tranquilo e o lado louco bem arrumados cá dentro, mas dou-lhes como nunca dei antes a liberdade de se misturarem sempre que eles quiserem. Acelero nas retas e já não travo tanto nas curvas porque, se me despistar, sei que, mais ou menos dorida, com mais ou menos dentes, consigo sempre regressar à pista.

Hoje, 11 de março de 2019, é dia de comemorar a viagem incrível que tenho feito. De agradecer à tripulação brutal que a tem feito comigo. E de me orgulhar do piloto do caraças que tenho mostrado ser.

Mas porque eu não cheguei aqui para desistir, e porque conto viver ainda muitos momentos felizes, dizer-vos apenas que mais 28 parecem-me poucos, por isso que venha de lá, no mínimo, o dobro.

Se puderem, façam um “tchim tchim” ao dia de hoje. E mantenham-se por perto.




27 de janeiro de 2019

1000 razões para ficar, 1 para ir


“Muita gente não só lamenta o que não fez, como o que gostaria de ter feito diferente. Os grandes arrependimentos não dizem respeito a conquistas, mas a experiências. Todos os dias, abrimos mão de experiências que fazem sentido para a nossa vida, por causa do trabalho. Abrimos mão de um café porque só temos cinco minutos e então é melhor deixar para quando pudermos sair para jantar. Mas esse dia não chega nunca… Portanto, se tem cinco minutos, aproveite.”

As palavras são de uma médica brasileira que acaba de editar um livro sobre a sua experiência com doentes que enfrentam diagnósticos incuráveis. Li-as recentemente numa conversa que teve com o DN, e caíram cá dentro que nem uma bomba. “Porra, é isto”, foi mais ou menos assim.

Todos os dias deixamos coisas por fazer. Uma mensagem por enviar. Um telefonema por fazer. Um encontro que “fica para depois”. Um “gosto de ti”. Um “parabéns, és fantástico”. Um “olá, tudo bem contigo?”. Um “até ia, mas não vai dar”.

Refugiamo-nos na “falta de tempo” e no “digo/faço para a próxima”. Eu diria antes que é a nossa inacreditável incapacidade de perceber o que é realmente importante, e até medo de sair da nossa casca de sempre, do nosso quintal. No limite, de viver experiências novas.

Somos uma espécie de máquinas. Acordamos, vamos trabalhar sempre pelo caminho, ouvimos sempre as mesmas músicas, almoçamos sempre com as mesmas pessoas, nos mesmos sítios. No fim do dia, voltamos para casa, jantamos, lemos algumas notícias nos mesmos jornais, deitamo-nos, no dia seguinte, voltamos a ligar o botão “rotina” e entramos em modo “repeat”. E num mundo “repeat”. 

Quando damos por isso, temos mais 10 anos e não dissemos as palavras que devíamos ter dito, não demos os beijos que devíamos ter dado, não chorámos as lágrimas que devíamos ter chorado, não soltámos as gargalhadas que devíamos ter soltado, não tivemos as conversas que devíamos ter tido, não vivemos as experiências que devíamos ter vivido. É a tal “falta de tempo” ou o “digo/faço para a próxima” a marcar golos e a ganhar pontos.

Quando chegámos aos 40, fizemos muita coisa errada, mas já voltámos a encarrilar. Fomos os rookies da empresa, mas já somos respeitados profissionalmente. Vibrámos com o contrato promessa compra e venda da nossa casa, mas já a temos quase paga. Sonhámos com filhos, mas já os temos praticamente criados. Vivemos mergulhados em montanhas de dúvidas, mas já vivemos o suficiente para sabermos o que queremos. Tivemos vários grupos de amigos, mas mantivemos um e onde dificilmente deixamos entrar mais alguém.

E, depois, a gaita é que, aos 40, com o sucesso ou conforto que conseguimos, já não nos apetece mudar porque dá trabalho. Afinal, tornou-se tudo tão seguro, tão “direitinho” e controlado, que mudar para quê, não é? É, mas não devia ser.

No meu caso em particular - e admito que haja quem pense de outra forma - os 40 trouxeram-me isto tudo, mas também me trouxeram a certeza de que sou finita, que há muito mais para além disto, e que devo aproveitar a 2ª metade da minha vida para a viver em pleno, e divertir-me muito a fazê-lo.

Se depender de mim - e tal implica contrariar a minha também por vezes gigante incapacidade e medo de sair da minha casca, do meu quintal e de viver coisas novas - não vai ficar uma mensagem, um telefonema, um encontro, um “gosto de ti”, um “foste fantástico” ou um “olá, tudo bem contigo?” para mais tarde. 

Se depender de mim, por muito que também eu tenha mil razões para ficar, os 40 ensinaram-me que já só preciso de uma para ir.