3 de fevereiro de 2013

Falar de sexo é tabu? Ok, então falemos de sexo.

Sexo. É sempre um tema que prende a atenção...Pois bem, é precisamente sobre isso que vos vou falar hoje.

Escrever-vos sobre isto é expor-me, bem sei. Mas também é ajudar pessoas na mesma condição que eu a desbloquearem este tema, e vocês a entenderem um bocadinho como é estar deste lado. Posto isto, acho que vale o risco.

A idade é, de facto, um posto. À medida que avança, a cabecinha evolui e, o que antes nos constrangia, vai-se relativizando.

Desde que fiquei de cadeira de rodas, sinto que este é um tema tabu. Para muita gente e, durante muito tempo, para mim também. Não me sentia de todo confortável a partilhar o tema "sexualidade na pessoa com deficiência." (é assim que os especialistas lhe chamam)

Por isso não o fazia e deixava que pensassem o que quisessem.

Confesso que já não me lembro quantas vezes me fizeram perguntas sobre o que tinha realmente mudado na minha vida depois do acidente. Mas, tirando uma ou duas pessoas, nunca me perguntaram sobre a sexualidade de uma pessoa nas minhas condições.

Pois falemos de sexo, então.

E primeiro lugar, que fique claro que defendo sexo com amor. Não concebo a ideia de os separar. Chamem-me pudica, careta, o que quiserem mas, para mim, são uma coisa só. Ter e dar prazer, se não for com a pessoa que amamos, de pouco serve. E isto é válido para todos. Não só para pessoas com limitações físicas

Os jovens de hoje não percebem isto. Para eles, sexo é sexo. Não é fazer amor. O que é pena, porque não há nada mais bonito do que FAZER AMOR. E amor, meus caros, faz-se com a pessoa que se ama. 

Não pode ser algo descartável, como quem mastiga uma pastilha elástica e, quando perde o sabor, a deita fora.

Mas voltemos ao tema tabu: sexo em pessoas com limitações físicas. E notem que eu disse físicas, não psicológicas.

 

Sempre achei que o nosso corpo era o que de mais precioso tínhamos e que não fazia sentido partilhá-lo com quem pouca ligação emocional se tivesse. Só porque sim. Porque sabia bem. Porque que é bom ninguém discute.

Conto-vos uma história engraçada. Um dia convidaram-me para dar uma palestra numa escola situada numa zona complicada, com alunos igualmente complicados. Para partilhar com eles a minha história.

Quando entrei naquele ginásio deparei-me com uma plateia de uns 300 alunos, entre os 15 e os 20 anos. No auge da sua sexualidade, portanto. Ah, e de referir que a sua permanência ali era obrigatória. Não podiam baldar-se. O que ajudava imenso.

O barulho era ensurdecedor. Nem deram pela minha presença. E os que deram, olhavam-me com curiosidade. Mantive-me calada até perceberem que só começaria a falar quando se calassem. O que aconteceu passados alguns minutos.

E lá comecei a contar a história da Marta, que aos 15 anos tinha ficado paraplégica devido a uma intoxicação por monóxido de carbono, etc, etc, etc, como tinha ultrapassado a situação e optado por viver em vez de sobreviver. Expliquei que pouco tinha perdido depois do acidente. Que a minha vida tinha-se mantido encarrilada e quase “normal”.

No fim, fiquei à disposição para responder a todas as perguntas e para esclarecer todas as dúvidas que eles tivessem. Mal eu sabia onde me estava a meter!

É importante referir que na altura passava na tv uma novela brasileira onde a protagonista ficava paraplégica na sequência de um acidente. A história desenrolava-se à volta da vida dela. Até que conhece um rapaz por quem se apaixona. E ele por ela, sem que o facto de estar de cadeira de rodas fosse um problema. Nem a perspectiva de vir a ter uma vida sexual diferente.

Aquilo estava bem contado e até eu, durona, me emocionava com algumas cenas de grande ternura e realismo.

E porque os temas das novelas acabam sempre por estar na ordem do dia, uma das alunas, de forma atrevida mas envergonhada, pergunta-me: então mas se está paraplégica não sente, como é que consegue ter uma relação sexual?

A professora dela ia tendo uma síncope. Olha para mim com cor de pimento vermelho, pede desculpa pela pergunta e diz à plateia para alguém fazer outra pergunta.


Eu não tive uma síncope mas gelei. Pior: calou-se tudo para me ouvir. Tudo. E pensei: olha que caraças, como é que eu me safo desta? Como é que eu explico a miúdos de 15 a 20 anos esta conversa de fazer sexo vs fazer amor…?

É um tema bicudo mas pensei: se estas são as dúvidas destes miúdos, porquê fugir delas? Se o fizer, afinal vim aqui fazer exactamente o quê? Respirei fundo, decidi ser sincera, simples e responder com honestidade.

Foi o que fiz. Comecei por defender que, quando nos entregamos a alguém, esse alguém tem que ser mesmo especial. E que quando o fazemos, para além de levarmos o corpo, devemos levar a alma e o coração.

Expliquei que sexo é bom, mas que fazer amor é muuuuito melhor...

Achei que o caso estava encerrado mas enganei-me. A miúda responde: ok, mas se não há sensibilidade, ou pelo menos se não é igual às outras pessoas, como é que sente prazer?

Percebi que estava lixada e que não me ia safar facilmente. Mas lá continuei. Expliquei-lhe que havia várias formas de sentir prazer. E em várias zonas do corpo. E arrisquei perguntar: gostas quando o teu namorado te dá um beijo apaixonado no pescoço? Ou quando te acaricia a orelha? Ela respondeu de imediato: “A-d-o-r-o!” Gargalhada geral.

Disse-lhe que aí estava a resposta e que ela estava a chegar onde eu queria. O nosso corpo é uma caixinha cheia de surpresas e, se investirmos tempo a explorá-lo e a conhecê-lo, ele nos vai surpreender. Muito. E que quando fazemos amor com quem amamos, dar prazer é também mais uma forma de o sentir. Estava tudo ligado.

Quando me calei, o silêncio na sala foi total. Olhei em volta, já não via risinhos escondidos, expressões de gozo, ou de provocação. Via, sim, um grupo de miúdos atentos, com um sorriso sincero nos lábios como quem diz: “Bolas, se calhar tens razão…”

E vi outra coisa que nunca mais me vou esquecer: um rapaz a piscar o olho à namorada, a dar-lhe a mão, e a abraçá-la, apertando-a contra ele.

No fim da sessão, que em vez de durar 1h durou 2h, levantaram-se e bateram palmas. Que bom, tinham gostado, pensei. E tinham gostado porque queriam mesmo perceber isto e nunca ninguém lhes tinha explicado de uma forma simples e directa.

Foi nessa altura que percebi que a mensagem tinha passado: que a fórmula é juntar amor ao sexo e, claro, alguma imaginação! E que, se assim for, o corpo corresponde.

E que o amor, quando é sincero, não é descartável. Porque, ao contrário da pastilha elástica, o amor quando é verdadeiro, nunca perde o sabor. 

30 comentários:

  1. FANTÁSTICO. Amei de paixão este texto.

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  2. Maravilhoso, Marta ... e está tudo dito :)
    O amor sincro não é mesmo descartável, é cheio de momentos bons :)
    Um beijinho

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  3. Adorei, Marta. Concordo plenamente com tudo o que escreveste. Beijo grande!
    Helô André

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  4. Nem mais Marta, óptimo post.

    (Acho que) Ao contrário da maioria das pessoas q deixam um comentário aqui eu sou daqueles que não te conhece, ou que não se cruzou contigo ao longo dos anos. Mas pronto feedback é sempre bem vindo e portanto cá fica.

    Creio que ouvi do Julio Machado Vaz numas conversas que ele tinha(tem) na RDP1, aonde ele dizia que sexo sem amor é como comer algo sem sal.

    E realmente quando descobrimos o q é o tal verdadeiro amor tudo fica relativizado de uma outra forma. Se somarmos a este amor a idade e a experiencia, conseguimos alcançar uma grande serenidade e bem estar.

    Um e-abraço e até ao próximo.

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    1. Olá Bruno, concordo com tudo o que dizes e obrigada por andares por aqui! Um bjo.

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  5. Lembro-me duma conversa que tivemos sobre isto. Brilhante este texto Canária :)

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    1. É verdade João, foste dos poucos a quem expliquei isto tim tim por tim tim.

      Chegou a hora de contar ao mundo, para ajudar muitos!

      Um grande beijo.

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  6. De uma Marta para outra Marta,brilhante,Parabéns, tenho um filho com 12 anos e fiz questão de lhe mostrar este blog; foi optimo e permitiu dar consistência ao assunto da sexualidade dentro doutra realidade, creio que o fez ver de um modo pragmático a importância dos sentimentos aplicados a todas as acções, neste caso ao sexo, mas inserido em toda uma vivência.
    Carpe Diem

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    1. Marta, não sabes como é importante o que me dizes.

      Chegar aos jovens e fazê-los perceber o que é o sexo e o que é fazer amor, é muito importante!

      Obrigada por partilhare com o teu filhote!

      bj
      marta

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  7. Marta, és uma comunicadora fantástica!!
    Quanto ao assunto em questão...nem mais ;)
    Cumprimentos
    Vitor Gaspar (aquele que não é ministro)

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    1. Obrigada Tó!

      E ainda bem que não és o Gaspar ministro! Saltavas já daqui! :) :) :)

      bj
      marta

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  8. és linda!!! por isso gosto de ti :) adoro quando se fala sem "papas na lingua" para dizer o que vai no coração :D é tão mais fácil chegar aos outros :)

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  9. Marta,

    Gostei do tema, mas já que tocaste no tema poderias ir ao tema propriamente dito.
    Claro que o sexo com amor pode-se explorar várias partes do corpo, nomeadamente a mente. Mas pode-se fazer tudo de igual modo, correcto? Então porque não dizer? Assim soa a que as pessoas deficientes só podem fazer algo que não sexo própriamente dito e fica o tabu na mesma. Bem como qualquer parceiro "normal" quer ter sexo\amor com toda a gente.

    A minha experiência enquanto deficiente e o que penso:

    A mente quando bem explorada é muito mais importante que apenas a senssibilidade, o facto de algumas pessoas deficientes não sentirem a penetração, podem sentir o momento, a posição, a parte visual, o tacto,...
    Mas uma mulher deficiente pode fazer sexo\amor com um parceiro de todas as formas e feitios, em todos os locais como todas as outras pessoas - haja criatividade!
    A mulher deficiente tem mais vantagens do que homem deficiente, pois normalmente os homens podem ajudar mais com a "força" que é necessária para algumas aventuras. Entre outras vantagens "acessórias".

    Um homem com deficiência (eu) pode de facto não fazer de todas as formas e feitios, mas ainda assim tem muito explorar e se tiver criatividade, pode igualmente explorar a sua parceira de igual forma através de penetração, ou até mais, do que um homem "normal". Pois o homem deficiente, quando criativo, tende a compensar algumas posições e aventuras, com outras formas de explorar a sua parceira.

    Resumindo, haja paixão e criatividade e é tudo igual ou até mais intenso.

    P.S.
    E também outro tema tabu. As pessoas deficientes podem ter filhos, seja homem ou mulher.

    Ass: Ricardo

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  10. Bem, Marta, fiquei arrepiada de emoção ao ler este teu texto!
    Ganhaste uma seguidora para o teu blog.
    Obrigada pela partilha :)

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  11. Olá Marta, parabéns pelo tema!
    Concordo que de facto o tema sexo ainda é tabu, sexo com pessoas que têm defeciência física...um super tabu!!:))) mas que quase todas as pessoas têm muitíssima curiosidade em saber como tudo se passa, lá isso é verdade!

    Fiquei á espera de lêr acerca do tema até ao fim do texto, acima de tudo do ponto de vista de uma mulher que está numa cadeira de rodas,e não li:(
    Li ( e também concordo ) que o sexo aliado ao amor torna-se especial, que o sexo não deve ser gratuito nem descartável etc etc, mas e o título?

    Fiquei com a sensação ao lêr o texto, que alguém que está de cadeira , não pode/consegue ter uma vida sexual normal( entenda-se que o normal é absolutamente subjectivo)

    Do meu ponto de vista, que sou casada com uma pessoa que é tetraplégica posso acrescentar que é totalmente possível ter uma vida sexual , com tudo aquilo que os casais ( "normais" ) fazem.

    As mulheres precisam de um estimulo diferente, estejam ou nao de cadeira, somos mais emocionais, mais pele , mais cerebrais ...

    Os homens são mais gráficos, os estímulos deles nem sempre passam pelos nossos, estejam também ou nao de cadeira.
    Mas a percepção que hoje em dia tenho, ( muito diferente da que tinha antes de casar com uma pessoa que tem esta deficiência) é que o que parece extraordinariamente complicado aos olhos de terceiros é incrivelmente simples e descomplicado. :-))

    E na grande maioria dos aspectos o sexo e as as vontades com alguém que tenha uma deficiência , é muito semelhante aos aspectos de quem nao esta !
    Até porque ,lá vem o velho ditado " que da necessidade vem o engenho" e de facto a criatividade é um plus

    A pergunta que te fizeram na tal escola, e que fez ruborizar a professora, é a pergunta que toda a gente que nos é mais próxima que perguntar...que perguntem! Porque isto do sexo, nao é tabu:))

    Sofia T.

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  12. Sofia e Ricardo:)

    O titulo tem precisamente a ver com o facto de falar de sexo ser tabu para aqueles miúdos e até para a professora.

    "Fiquei com a sensação ao lêr o texto, que alguém que está de cadeira , não pode/consegue ter uma vida sexual normal( entenda-se que o normal é absolutamente subjectivo)". Sobre isto só te posso falar por mim. E não, não é igual. É bom mas não é igual. A sensibilidade é diferente é preciso procurar outros pontos. Com forte componente mental, é certo.

    Mas, como te disse, falo do meu caso. Não do caso dos outros. :)

    um bjo aos dois!

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  13. http://www.sabado.pt//Multimedia/FOTOS/-span--b-Sociedade-b---span--(1)/Fotogaleria-(889).aspx?id=574559

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  14. FANTÁSTICO!!!
    Gosto de ti, sou tua fã porque... Falas sem papas na língua!!!
    Beijinhos

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  15. Belo texto, belo exemplo e belo princípio.
    Eu não sou uma "pessoa com deficiência" (aparentemente...)
    A minha namorada é! Já era, quando eu a conheci!
    O amor não olha a condições e sempre que existir vai encontrar o seu caminho para que possa florescer!
    Deficiências? Eu chamo-lhes "atenções para com quem se ama"!

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  16. SoParaEla.Net ( SexShop , Sex Shop )
    http://www.soparaela.net/

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