7 de fevereiro de 2013

Girls just wanna have fun!



Epá, se calhar nem devia dizer isto mas, quando comecei a sair à noite devia ter, uns 13 ou 14 anos.


Comecei por experimentar as matinés do Crazy Nights e do Loucuras, mas sair à noite, mesmo sair à noite, foi aos 13,14. Não me esqueço porque fiquei de cadeira de rodas aos 15 e lembro-me de sair sem ser de cadeira de rodas.


Ia sempre com a minha irmã. Lembro-me que a minha mãe nos dava 1000 escudos para os táxis. E do nosso pai lhe dizer “se alguma coisa lhes acontecer, a responsabilidade é toda tua!”. Mas a minha mãe confiava em nós. Acima de tudo nos valores que nos tinha passado. E nunca lhe falhámos. Nunca. Mas não arredava pé da janela enquanto não chegávamos ou, pelo menos, não pregava olho enquanto não ouvia o táxi na rua.


Morávamos em Alvalade e na altura íamos para o Alcântara-Mar. E, mais tarde, para a 24 de Julho. Mas havia dias em que nem chegava a sair da Av. de Roma: preferíamos ir ao Bingo Roma. Eu era grandalhona e passava bem por 18 anos. Esse não era o problema. O problema era nunca que ganhava uma linha. Quanto mais um bingo.


Mas quando optávamos por ir sair, a nossa preferência era, de facto, o Alcântara. Era a discoteca da moda. Também frequentámos o BBA no Bairro Alto, e outras, mas o Alcântara era o Alcântara. Não era fácil entrar sem pagar mas conseguíamos sempre. Lá dentro era a loucura. E uma das coisas que mais gozo me dava na altura era subir para cima das colunas e dançar. Visto agora à distância, constato que só podia estar doida. Enfim.


Os anos foram passando e “mudámo-nos” para a 24 de Julho, onde parávamos no Metalúrgica e no Última Ceia antes de entrarmos na Kapital.



Lembro-me da primeira vez que fomos à Kapital. Era o Lúcio que estava à porta. Conhecido como um porteiro duro de roer. A sua frase preferida era “desculpe, mas só clientes habituais”. Dito, claro, com um sorriso nos lábios.


Estávamos em 91 ou 92. O espaço tinha acabado de abrir. Nesse dia levava comigo um grupo de 10 ou 15 pessoas. Ia ser bonito. Bom, respirei fundo, cheguei-me à frente e fiz um ar de “vá, tu não ias ter coragem de barrar a entrada a uma pessoa de cadeira de rodas…”. Ele olha para mim, perde o ar de durão e diz “está sozinha?”. Respondi que não, que me tinham dito que havia escadas dentro da discoteca e que por isso tinha trazido alguns amigos para me ajudarem…Sempre com ar de “não ias ter coragem…”. E não teve. Perguntou-me quantas pessoas estavam comigo e eu olhei para o meu grupo de umas 15 pessoas e disse: “estes todos…”. Engoliu em seco e disse “ok, fique aqui ao meu lado e vá deixando passar o seu grupo”. Fiquei, entrámos todos. Aliás, em boa verdade entrámos nós e mais uns quantos desconhecidos que se aproveitaram da situação e se infiltraram no meio. Claro que me apercebi mas até achei graça e calei-me.

Este foi o primeiro dia de Kapital. De muitos. Eram noites inesquecíveis. Tínhamos um grupo de gente divertida e saudável. Começávamos a noite por jantar na Taska, que ficava na pequena rua ao lado da Kapital. Depois entravamos por uma porta lateral, que nos dava acesso ao interior da discoteca. Chamávamos-lhes as catacumbas. Por elas também tínhamos acesso ao Kremlin.


Mas na Kapital preferíamos sempre o piso do meio, onde o Miguel punha música. Aliás, a nossa música. Passávamos o tempo a chateá-lo com o que queríamos ouvir. Mas giro, giro era quando o Sporting jogava nessa noite e ganhava (sim, nessa altura o meu querido Sporting ainda ganhava…). Estávamos no espaço dos irmãos Rocha, que mais sportinguistas não podiam ser e, por isso, tomávamos a pista com o hino da Maria José Valério e o “Só eu sei porque não fico em casa”. Era o delírio!


Eu tinha poiso fixo: na cabine d DJ, ao lado do armário dos cds do Miguel. Por brincadeira ponderou-se inclusive desenhar um dístico de cadeira de rodas no chão, a reservar o meu lugar.


Várias foram as vezes que os porteiros fecharam a porta quando eu chegava sozinha com a minha irmã, ajudavam-me a subir as escadas até ao 2º piso, bebiam um shot connosco e voltavam ao trabalho. E nunca mais me vou esquecer do Paulo, o porteiro que sucedeu ao Lúcio que, como ele dizia “por tanto gostar de ti”, deu o meu nome à primeira filha. Hoje é porteiro de outro espaço nocturno e, quando nos vemos, fazemos uma festa.



Passámos anos nisto. Às Sextas e aos Sábados. E alguns, os mais resistentes, também às Quintas. Mas eu e a mana não alinhavamos nesses dias. No dia seguinte era dia de escola e a D.Teresa não ia na cantiga. Apesar de não termos hora para chegar a casa, raramente chegávamos depois das 4h. Sabíamos que, a partir dessa hora, a noite ganhava uma dimensão e um tipo de clientes com quem não nos identificávamos.


A primeira vez que entrei na Kapital devia ter uns 16 anos…E só parei com 25 ou 26. A partir dessa altura comecei a fartar-me de saídas à noite. Só saíamos esporadicamente.


Até porque foi com essa idade que comecei a ter alguns problemas de saúde. Primeiro a vesícula, depois as escaras, mais tarda a minha querida septicemia. Por isso os nossos hábitos foram mudando. Mas não necessariamente para pior.


Passámos a preferir um bom jantar à roda de uma mesa cheia de amigos. Acho que a isto se chama crescer. Há mesmo um tempo para tudo. 



Hoje, quando saímos, ou melhor, se saímos, preferimos o Urban Beach. Os irmãos Rocha sempre nos souberem receber. Quando aparecemos, é como se o tempo tivesse parado.

Foram anos memoráveis. Deles guardo grandes momentos. E muita, muita amizade. Que dura até hoje. O divertimento, a loucura. Mas também o juízo, o bom senso. Acima de tudo, sem precisarmos de perder o controlo. Como infelizmente hoje os jovens perdem. Sem drogas. Bastavam-nos uns bons jantares, um ou dois shots, muita música, dançar. E a noite estava feita. 


O mundo mudou, a noite mudou. Hoje nada disto é assim. Tornou-se tudo demasiado perigoso, demasiado gratuito. 

Mas os miúdos não podem ficar isolados e fechados em casa. Têm que continuar a divertir-se. Precisam de o fazer.

Na minha opinião, o segredo é educação. Conversa, explicar os perigos. Passar os valores certos, princípios. Precisamente porque a noite se tornou perigosa, acompanhar de perto.


E, no fim, confiar. Tãoimportante...Porque, quando crescerem, é precisamente isso que vão passar aos filhos.

2 comentários:

  1. Não podia estar mais de acordo, excepto no hino da Maria José Valério...

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  2. Olá Marta,

    Uma vez li algo sobre esta questão do relacionamento de confiança, de "luzes" e da passagem de valores de uma geração para outra e em concreto de pais para os filhos.

    Não vou citar tim tim por tim tim até pq nem me lembro aonde li, mas a ideia era a seguinte, só saberemos se os valores que passamos foram bem passados se, sem a nossa supervisão eles forem bem aplicados.

    E a pessoa q escreveu (acho q psicólogo) dizia que na maioria das vezes na presença dos pais, as crianças/adolescentes/quasi-adultos não aplicavam de forma correcta os valores passados pelos pais. Estes valores ficam em segundo plano e o dito "mimo" prevalece. E portanto o q este autor defendia era mesmo isso não abram mão de passar valores, de conversar, e depois deixem-nos pôr à prova e testar esses mesmos valores no seu próprio ambiente.

    Outra coisa importante referida era sermos capazes de fazer com que a nova geração seja ela tb veículo dos principios e das "luzes" apreendidas. E este teu blog é isto mesmo.

    Abraço e até ao próximo :)

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