23 de maio de 2017

Urgente: respeito procura-se

Estava um dia de calor intenso. Uma mosca insistia em rasar as nossas cabeças e colar-se às nossas peles. Não nos largava. Estávamos as duas sentadas num dos bancos de cimento que havia no pátio lá do liceu.

Em jeito de brincadeira, saiu-me “a mosca não nos larga porque tu és da cor do cocó”, e desatei-me a rir, achando que tinha dito a melhor piada do mundo, sem pensar que ela poderia ficar magoada com aquilo.

A Raquel olhou para mim e, sem sequer mudar de expressão, levantou a mão e espetou-me uma bofetada digna do nome. Nunca tinha levado uma bofetada. No segundo seguinte estava a pedir-lhe desculpa. Não por medo de levar mais, mas por vergonha daquilo que tinha acabado de dizer.

A Raquel tinha chegado de Angola há alguns anos e vivia num prédio em ruínas, ali para os lados do Campo Grande. Eramos colegas de turma. Não tínhamos mais do que 10 ou 11 anos.

Ainda hoje sinto o coração a ficar mais pequeno, quando penso nisto.


Esta história marcou-me profundamente. Como me marca cada notícia que leio nos jornais ou vejo na televisão sobre este assunto que, quase de um momento para o outro, passou a fazer parte do alinhamento de todos os noticiários.

Naquele tempo, não havia nome para isto. Era apenas a profunda estupidez e maldade de uma pré adolescente parva a funcionar, neste caso, minha. Hoje poderia ser considerado uma espécie de bullying, e muito bem.

Li recentemente que, segundo alguns investigadores, uma em cada cinco crianças em idade escolar está ou esteve envolvida em algum caso de bullying. Uma em cada cinco crianças agride ou é agredida direta ou indiretamente. Contas feitas pelos mesmos investigadores, estamos a falar de quase 250 mil miúdos que maltratam ou são maltratados. 250 mil futuros adultos, entre médicos, engenheiros, eletricistas, mecânicos, veterinários, jornalistas, ou profissionais de quaisquer outras áreas, com potenciais problemas de segurança e autoestima. 250 mil seres humanos com menos capacidade para lutarem por aquilo em que acreditam. Mais grave ainda, por aquilo que os faz felizes. E, se assim for, o que é que lhes restará?

É preciso olhar para o problema do bullying como um dos maiores flagelos da idade jovem. Se olharmos à nossa volta, não há quem não sofra, quem não abuse, ou quem não conheça quem veja e cale. É urgente explicar a estes jovens que o respeito pelo outro é a base de uma sociedade saudável. E que sem esse respeito pelo outro, nunca conseguirão ser, também eles, respeitados. 

Quanto à Raquel, apesar daquele espisódio infeliz, mantivemos a nossa amizade. Mais tarde, com o passar do tempo, perdemo-nos uma da outra. Se um dia a reencontrar volto a pedir-lhe desculpa. 

14 de maio de 2017

F de “Ficar quietinho”

Já muito se escreveu sobre os 3 Fs que levaram Portugal e os Portugueses ao rubro nos últimos dias. Chegou a minha vez.

Entrámos no fim de semana com a vinda do Papa a Fátima, que juntou no santuário muitos milhares de pessoas. 55 países representados, entre velhos e novos, gente com mais ou menos conforto financeiro. Cada um com a sua história, cada um com o seu objetivo, cada um com a sua fé. Enquanto uns pagam promessas, outros fazem-nas, crendo que a vida ficará mais leve.

Do avião saiu mais do que o representante máximo da Igreja Católica. Saiu um homem simples, de sorriso e toque fácil, de afetos. Um homem que une quem acredita e quem não acredita. Um homem que tem o dom de aproximar países. Um homem que faz política sem a fazer. Que diz o que muitos nunca tiveram coragem de dizer. Que toca nas feridas. Um homem bom.




Às 18h15, grande parte dos portugueses vibrou com a vitória do Benfica frente ao clube de Guimarães e, dizem, mais de 200 mil juntaram-se no Marquês de Pombal, para comemorar o “tetra”.

Ao início da noite, famílias inteiras sentaram-se em frente da televisão para assistirem à atuação de Portugal, pela belíssima voz de Salvador Sobral, no Festival da Eurovisão. Há 20 ou 30 anos que ninguém o fazia, tal tem sido a fraca qualidade do que Portugal lá tem levado. “Vergonha alheia”, respondiam quando se lhes perguntava porque não seguiam o programa. “Vergonha alheia” foi também a minha resposta tantas vezes. O “Amar pelos Dois” uniu pais e filhos, avós e netos, Portugueses ou não, na esperança de trazer o caneco para o nosso país. E trouxe.

No dia seguinte, foram outros tantos os que se deslocaram ao Aeroporto de Lisboa para receberem o miúdo em braços, como se de um “Salvador” se tratasse.

Em apenas 3 dias, vimos Portugal a unir-se por 3 causas: Fátima, Futebol e Festival. E foi emocionante, ninguém põe em causa. Mas que tão facilmente se unisse também pela causa dos que vivem na rua, pelos que são vítimas de violência doméstica, pelos que procuram emprego, por todos os que precisam de ajuda para fazerem gritar a sua palavra, e tantas vezes os seus direitos, mais alto.

Porque como já alguém disse - e bem - se o objetivo é ir rápido, devemos ir sozinhos, mas para irmos longe, só acompanhados. Ou, nas palavras do Papa "o todo é superior à parte".





25 de abril de 2017

Voltar onde já fui feliz

Vou à varanda e deixo lá dentro a televisão ligada para ouvir os discursos sobre abril. Há qualquer coisa naquele som de fundo, ouvido ao longe, que me tranquiliza. Como o que vem do rádio.

É assim desde miúda, quando eu e a mana passávamos a tarde de domingo em casa, no nosso quarto, cada uma sentada na sua escrivaninha, a fazer os trabalhos de casa, enquanto a mãe preparava o bolo de laranja para o lanche. Ou quando ouvíamos o relato de um qualquer jogo de futebol com o pai, enquanto encaixávamos as centenas de peças da Lego que, para desespero da mãe, espalhávamos no centro da sala. 

Em casa da avó Olinda era a Renascença. À hora da sesta, deitava-nos em cima da cama dela, tapava-nos com uma manta, sentava-se no sofá ao lado e acompanhava o terço pelo rádio. Sempre lhe gabei a paciência. Ensinou-nos a rezar desde muito cedo mas, a quantidade de “Avés Marias”, “Pais nossos” e “Glórias” que ela rezava ali, eram demasiado para nós. E quando começava, com o “Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos, Deus Nosso Senhor, dos nossos inimigos. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, Amém”, dávamos por nós a tentar controlar o riso debaixo da manta, porque nos lembrávamos da versão que o nosso pai, ateu convicto, nos ensinara, só para a irritar. “Pelo sinal do Santo Pardal, comi toucinho e não me fez mal, se mais me dessem, mais comia, adeus Senhor Padre, até outro dia.” A desgraçada da D. Olinda subia as paredes, mas não era fácil controlar duas pestes com 8 ou 9 anos.


Estou de volta à varanda e continuo a ouvir, por entre os carros que passam, as palavras que vêm lá de dentro, e que marcam este que é o dia da Liberdade. 

É cedo, já tenho a casa arrumada e deixo-me ficar, sem pressa para nada. A tranquilidade aqui é grande.

Enternece-me a vizinha do prédio ao lado que, na varanda, sentada perto da mãe já velhota, lhe arranja o cabelo. Sempre a achei parecida com a minha avó Olinda. Tal como ela, também é baixa, gorducha, cabelo todo branco, desloca-se devagarinho e apoiada por uma bengala. Imagino que tenha, tal como a avó tinha, as mãos enrugadas, com sinais, arranjadas e, nos dedos, a aliança dela e do marido, juntas.

Vejo-a sempre de bata. A avó também as usava, feitas por si, sempre na velha Singer, que estacionou no fundo da cozinha, junto à janela que dava para as traseiras. Um espaço que recebia toda a luz necessária para ela, que já não via bem, marcar os tecidos que comprava a uma amiga no mercado de Alvalade e fazer as inseparáveis batas. 

Cresci com a televisão ligada. Ou o rádio. É para recordações destas que viajo quando ficam ligados, a fazerem de som de fundo.

E a minha varanda, essa, continua mágica. 

10 de abril de 2017

Sim, eu tenho um anjo da guarda disfarçado de irmã

Engraçado, sempre a tratei por mana, ela sempre me tratou pelo nome. Coisas de irmãs mais novas, temos 18 meses de diferença.

Quando nasci, ainda na maternidade, pregou-se ao meu berço com uma espécie de cola tudo, e não deixou que ninguém se aproximasse.

Mais tarde, mas pouco mais, conta a mãe que, durante um jantar de amigos em casa, foi ao quarto, agarrou-me por baixo dos braços, virou-me para a frente e apareceu no meio da sala comigo ao colo.

Pela idade, entrava nas escolas sempre um ano antes de mim. Popular, preparava-me o terreno. Era a “irmã da Patrícia” e isso dava-me um estatuto superior e uma vantagem à partida.

Tínhamos muitos amigos, uns em comum, outros não, mas eramos a melhor amiga uma da outra. E não por termos os mesmos gostos, porque eramos muito diferentes. Ela, uma desportista. Eu, nem por isso. Saltava ao elástico como ninguém. Eu, “enrolava-me ao elástico”. Ao fim de semana, o nosso pai pegava em nós e levava-nos a ver jogos de futebol entre equipas pequenas, de 3ª divisão, em campos em que a terra era batida e sem bancadas. Ela ia feliz, eu ia porque sim. Vestidas de igual, quase sempre de cores diferentes.

Lá no bairro chamavam-nos as “irmãs Metralha”. Não foram poucas as vezes que os vizinhos se queixaram à mãe, assim que a apanhavam a entrar na rua, ao fim do dia. Ou eram as corridas em casa que rebentavam com os candeeiros do teto da pobre da D. Leonor, ou ideias mais criativas como atar os cintos dos “robes” que a avó Olinda nos dava todos os Natais – que comprava na banca da amiga que tinha no Mercado de Alvalade, para nós, irmãs Metralha, "a Nariguda" -, prendê-los à maçaneta da porta do Sr. Amaro e da D. Susana (2ª direito e 2ª esquerdo, respetivamente), tocar às campaínhas ao mesmo tempo, pisgando-nos de seguida. As portas, claro está, não abriam. E nós delirávamos com o cenário. Ao fim do dia era certinho: queixa à mãe Teresa.

E assim vivemos a infância e a pré-adolescência, sempre à procura de "novas vítimas".


Aos 15 a vida trava a fundo. Sai de pista, bate no raile, amolga-se, mas volta ao sítio. E nós sempre ao lado uma da outra. A partir dali, de duas passámos a uma.

Aos 29, nova travagem da vida. Desta vez, derrapa, capota várias vezes. Não comeu, emagreceu, passou os dias que se seguiram numa espécie de stand by interior, à espera de voltar a poder carregar no play.  Mas nós, sempre ao lado uma da outra. 

Hoje assobio o “nosso assobio”, ela vem à varanda, do outro lado da rua, e eu digo “traz-me o casaco verde e o anel das pedras!”. Ela vai à rua com o Chico, assobia o “nosso assobio”, eu apareço na varanda e fico a vê-los a entrar no pinhal.

O plano é envelhecermos as duas, marretas. Quem sabe em Alvalade. O bairro que nos viu crescer será o que nos verá morrer. Ela velha seca, eu velha gorda, mas felizes. E juntas.

Feliz Dia dos Irmãos, mana. <3


7 de abril de 2017

"Nem o céu será o meu limite!”

(entrevista publicada no site "Onde ir")


Marta Canário tinha 15 anos quando a sua vida mudou drasticamente e um simples duche empurrou-a para uma cadeira de rodas. Em vez de ficar de braços cruzados, deu a volta e da adolescente nasceu uma mulher lindíssima, por dentro e por fora. É assessora de imprensa da Novabase desde 1998 e tem ainda tempo para ajudar pessoas sem-abrigo. Escreveu o livro “Ser feliz é uma escolha” e o Onde Ir escolheu-a para a entrevista que se segue.
Texto Sandra Martins Pereira Fotografia Rodrigo Cabrita

Marta decidi pegar no seu livro e abri-lo ao acaso para ver Onde nos leva. O primeiro capítulo a sair foi o IV “Supera as adversidades (e aprende com elas)”. Toda a história da Marta é uma constante prova de superação, não só nas coisas mais graves, como a septicémia que fala logo no início do capítulo, mas calculo que também no seu dia a dia. Quais as maiores dificuldades que encontra numa simples ida ao cinema, a um restaurante ou espetáculo ou numas férias? O que é preciso alterar na mentalidade das pessoas em relação a pessoas com mobilidade reduzida?
Encontram-se várias, umas mais fáceis de ultrapassar do que outras, mas várias, por todo o lado e para todos os gostos. Portugal está mais sensível ao tema das acessibilidades para pessoas com mobilidade condicionada, mas ainda há muito caminho para percorrer. E a lei não nos ajuda. Apesar do DecretoLei nº163/2006 legislar o tema, este apresenta um problema de base: depois do artigo que obriga os espaços públicos a estarem acessíveis, segue-se outro com as chamadas “exceções”, onde tudo cabe, e passo a citar: “obras desproporcionadamente difíceis, ou que requeiram a aplicação de meios económico-financeiros desproporcionados ou não disponíveis, ou ainda quando afetem sensivelmente o património cultural ou histórico, cujas características morfológicas, arquitetónicas e ambientais se pretende preservar.” Como facilmente se percebe, é muito simples alegar um ou mais destes argumentos e não adaptar ou adequar o espaço.
No meu caso em particular, em que a minha “limitação” é deslocar-me numa cadeira de rodas, preciso de planear as minhas saídas sempre que quero ir a algum lado. Seja em lazer seja em deslocação profissional. E por vezes acontece que não consigo mesmo ir, porque as dificuldades são tantas, que prefiro não arriscar.
Tenho, felizmente, assistido a algumas mudanças de mentalidade nos últimos tempos, nomeadamente ao nível da cidade que me viu nascer, Lisboa, e isso deixa-me muito, muito feliz. Mas merecemos muito mais. Há um longo caminho pela frente, até chegarmos ao nível que considero satisfatório e até justo. Quero poder ir a qualquer restaurante e não me preocupar como vou entrar, se tem casa de banho adaptada. Quero poder andar de transportes públicos sem ter que avisar a empresa de transportes que estou a chegar, quero poder passear na minha cidade e no meu país sem correr o risco de empancar numa pedra e cair, ou de ser confrontada com um degrau e não poder avançar mais.
É urgente abrirmos as nossas cabeças. Defendo a teoria do “para todos”. Até porque todos, sem exceção, passamos por um episódio de mobilidade condicionada ou reduzida ao longo da nossa vida. Ou porque torcemos um pé, ou porque ficamos grávidas, ou porque precisamos de passear o carrinho do nosso bebé, ou porque partimos uma perna, ou porque envelhecemos. Por isso, devemos pensar num mundo universal. Afinal, na grande maioria dos casos, o que dá para mim, dá para todos.
O que faz para superar essas adversidades? Ou seja, como é que dá a “volta ao texto”?
Com uma enorme capacidade de planeamento, que aprendi a ter. Com a ajuda da família e dos amigos, que nunca me falham. E com uma paciência infinita para não me passar sempre que me deparo com alguma destas situações. Naturalmente que já tenho muita experiência no assunto e consigo rapidamente perceber onde posso e onde não posso ir. Isso ajuda a não passar a vida a bater de frente contra essas situações.
Depois também tem a ver com o meu feitio. Não sou de ficar agarrada ao que não consigo fazer. Sigo em frente, parto para outra.
A Marta trabalha como assessora da Novabase já há alguns anos e o facto de andar numa cadeira de rodas nunca a impediu de efetuar um bom trabalho. Hoje em dia acha que as empresas estão mais abertas a darem também hipóteses a pessoas com algum tipo de deficiência?
Entrei na Novabase em 1998, com 23 anos, para ajudar a empresa a preparar a entrada em Bolsa, no que dizia respeito à relação com a imprensa, que ia começar a ser necessário desenvolver. Não percebia nada de tecnologia – a Novabase é uma consultora com base tecnológica – mas expliquei que ia conseguir perceber do negócio rapidamente e que o explicaria com alguma facilidade aos jornalistas. Acreditaram em mim e lá estou, até hoje, 18 anos depois. O facto de eu estar de cadeira de rodas nunca foi sequer um tema para a Novabase. Porque também não o é para mim. Já mudámos de instalações 4 ou 5 vezes, e tiveram sempre a preocupação de garantir que eu tinha as condições necessárias para trabalhar e para me sentir parte daquele todo. Foi assim quando éramos 200, é assim hoje, que já somos mais de 2000 e estamos espalhados pelo mundo.
A Novabase teve a capacidade de ver para além da minha cadeira. E eu tenho conseguido provar que valho a pena. Porque dou sempre o meu melhor, todos os dias. E porque a Novabase me recompensa com reconhecimento e novos desafios. No fundo, é como numa relação entre duas pessoas. A nossa é uma relação saudável, em que ambas as partes são felizes. E, enquanto assim for, lá me terão.
Mas também tenho consciência de que me movo num mundo esclarecido, de gente com mente aberta. Infelizmente nem todos pensam assim e sinto que há ainda muito preconceito em apostar em pessoas com algum tipo de limitação. Há, também aqui, um longo caminho para trilhar. Talvez com a exposição de exemplos como o meu, e há muitos mais, outras portas se abram e outras empresas percebam que há limitações que em nada interferem com um excelente desempenho profissional. Para além disso, acho que as pessoas com limitações têm características únicas. São muito determinadas, focadas, orientadas à solução – fartos de problemas estamos nós! – e cheias de vontade de mostrar que conseguimos superar qualquer obstáculo. Isto, também em ambiente profissional, é fantástico!
Se nada disto funcionar, venham de lá as quotas, como em alguns países, em que por x pessoas ditas “normais” é obrigatório x com algum tipo de limitação.
Vou abrir o livro novamente: Página 109 “Perguntas difíceis, respostas verdadeiras”. O lançamento deste seu livro “Ser feliz é uma escolha” tem sido pretexto para várias entrevistas em diversos meios de Comunicação Social. Cada vez que recorda todos os episódios que passou é-lhe difícil ou pelo contrário aproveita o seu exemplo para dar força aos outros? Dá sempre respostas verdadeiras ou faz alguns floreados para o cenário não parecer tão mau?
Tudo pelo qual passei moldou-me. Tornou-me um bocadinho mais completa. Mais humana até. Percebi que não sou invencível. Sei os meus limites. Mas também sei que sou resistente. Sei que ando por cá com uma missão: mostrar que podemos ser felizes, mesmo que a vida nos passe algumas rasteiras. Aprendi com a própria pele que um dos segredos para isto tudo é aceitarmos o que a vida nos dá e aprender a fazer o nosso melhor com o que existe. Por isso, não me custa nada falar de tudo pelo qual passei. São temas resolvidos e bem-vindos. São situações que, apesar de difíceis, me ajudaram a crescer, a ser melhor. E que, quando abertas a todos, ajudam os outros a serem mais felizes e a verem a vida de outra forma. A darem valor às pequenas coisas, aos pequenos momentos. O que me deixa imensamente feliz. É uma responsabilidade gigante, mas o retorno é muito maior.
Quanto aos floreados, quem me conhece sabe que não os faço. A parte crua e dura da vida ensina-nos muito mais que a bem cozinhada e fácil de roer.
Nesta página do livro conta que foi a uma escola complicada falar com miúdos complicados. Intimidou-a? Qual foi a pergunta que a incomodou mais? De que forma pensa que o seu testemunho nessa escola ajudou esses adolescentes?
Nesse dia o objetivo era ir contar a minha história a miúdos adolescentes. Parecia simples. A sala estava cheia porque eles eram obrigados a assistir à palestra. Tinham que preencher aquela hora ali. Contei a história da paraplegia e, mais tarde, da septicémia. Penso que gostaram de ouvir e que os ajudei a perceber que podemos ser felizes mesmo assim.
A certa altura, uma das miúdas da fila da frente dispara uma pergunta mais íntima: “Se não sente, como é que se retira prazer de uma relação sexual?”
Confesso que engoli em seco e parei por segundos. A professora que me tinha convidado ficou da cor de um tomate e atravessou-se, pedindo para passar para a pergunta seguinte. Mas eu olhei para a miúda e disse-lhe “se é isto que queres saber, se é esta a tua curiosidade, vamos a isso.”
E tentei explicar-lhe que o nosso corpo é uma caixinha de surpresas e que devemos investir algum tempo a conhecê-las porque sairíamos dessa viagem muito surpreendidos com as respostas que ele nos dá. Que quando nos entregamos – e muitos daqueles miúdos estavam precisamente nesta fase da vida – devemos fazê-lo a quem gostamos muito e que nos respeite como somos. E terminei com a pergunta “gostas quando o teu namorado te dá um bom beijo no pescoço ou na orelha?”. Ela respondeu “gosto muito”, e riu-se, envergonhada. Aliás, riram-se todos e, quando demos por isso, estávamos ali há mais de 2h.
Respondendo à pergunta, tenho a certeza de que eles perceberam a mensagem e que vão olhar para a deficiência com menos preconceito, também a esse nível.
Nova abertura de livro: página 49 “Aceitar o diagnóstico, desistir dos tratamentos”. Não me parece que desistir seja a sua palavra preferida, no entanto às vezes é necessário saber aceitar as coisas tal como elas são. É difícil tomar estas decisões? Como sabemos que está na altura de aceitar? Que conselho pode dar a outras pessoas?
Naquela altura eu já tinha tido o acidente há cerca de 3 anos. Fazia fisioterapia todos os dias, massagens, acupunctura, homeopatia. Tinha ido a Londres, aos melhores especialistas. Mas a minha sensibilidade nas pernas continuava na mesma, sem alterações. O tempo que eu passava nestes tratamentos, era tempo que eu não passava com amigos, colegas, a divertir-me. Por isso, a certa altura, decidi parar com eles para me dedicar a viver ainda mais. Prometi estar atenta aos avanços da medicina, mas precisava de imprimir normalidade ao meu dia a dia. Tinha 18 ou 19 anos e queria ser como os outros.
Olhei para trás e era muito feliz, mesmo tendo ficado de cadeira de rodas. Era feliz assim, sentada. Aquele foi o meu momento, fechar um ciclo e abrir outro. Mantive-me na faculdade, anos depois fui trabalhar para a Novabase, namorei muito, saí à noite, diverti-me, fiz tudo a que tinha direito, mesmo assim, sentada. A vida continuou. E continua. Por muitos e bons anos, espero!
Página 138 “Naquele tempo, as férias de verão duravam meses…”
Vou seguindo a sua página do Facebook e vejo-a sempre bem-disposta e com um grande bronzeado. Penso que foi o ano passado que me deliciei com uma história de uma senhora de idade a quem emprestou o seu tiralô (carrinho anfíbio que nos leva para dentro de água) para que a mesma pudesse entrar no mar. É muito importante para si continuar a fazer as coisas mais naturais da vida, como ir à praia, entrar no mar, estar com os amigos? E como foi proporcionar essa mesma sensação a uma pessoa que há tantos anos não tinha esse prazer?
A minha vida é igual à de toda a gente, com pequenas adaptações, apenas isso. Claro que há coisas que não posso fazer, como correr, andar de bicicleta, jogar voleibol, que sempre gostei. mas há tanta coisa boa que me resta que, vendo bem, estas nem me fazem falta!
Banho de mar. Deixei de ir a certa altura, ou porque estava muito magra e não me queria despir, ou porque tinha feridas (escaras) e não as podia molhar, ou porque estava acima do peso e tinha vergonha. Ia para a praia com os meus amigos mas ficava na areia, a torrar ao sol, sempre perto deles. Não ia ao banho. Até ao dia em que fiz umas férias no Algarve com a minha família – mãe, irmã e sobrinha. Naquela manhã fomos até a uma praia e, assim que cheguei, percebi que era uma praia acessível, com passadiço até à zona dos chapéus, tiralô, etc. Quando cheguei lá abaixo percebi que havia várias pessoas como eu, e que elas iam ao banho com a ajuda dos monitores. O sol era abrasador, o mar calmo e quente, ninguém me conhecia, e estava com quem mais amo para me ajudarem a ultrapassar aquilo. E fui. Vinte anos depois, voltei a nadar em água salgada. Foi inesquecível. De tal forma, que hoje em dia tenho um tiralô na praia que frequento perto da minha casa – oferecido pelos donos do bar no dia dos meus anos – e não dispenso um bom banho de mar ou uma boa conversa à beira mar com os pés dentro de água. Nunca mais me vou privar disto.
Esse episódio da senhora de idade aconteceu no último verão. Nesse dia eu não ia à praia, e uma amiga ligou-me a perguntar se eu lhe emprestava o tiralô para levar a avó, uma senhora com 88 anos, ao mar, onde tinha deixado de ir há mais de 20. A D. Filomena. Revi ali a minha história e disse prontamente que sim. Minutos depois, a minha amiga enviou-me uma fotografia da avó dentro de água, sentada no tiralô, com os netos à volta e um sorriso enorme no rosto. Fiquei de coração cheio, por ter contribuído para aquele momento de felicidade. A D. Filomena faleceu há poucos meses, e sentir que ajudei a cumprir este seu sonho, dá-me uma sensação de felicidade enorme. E de gratidão, por um dia me terem oferecido aquele carrinho que tão feliz me faz a mim, e que tão feliz fez a D. Filomena e a sua família.
Que diferenças encontra entre o estrangeiro e Portugal em termos de facilidades nos hotéis e em outros empreendimentos turísticos por forma a facultar uma vida “normal” a pessoas com mobilidade reduzida? A Marta tem postado no Facebook várias fotografias de piscinas adaptadas. É um recado?
Sinto que ainda há muita gente para sensibilizar. No outro dia tinha uma reunião até muito tarde, e outra no dia seguinte, muito cedo. Por isso decidi ficar a dormir no hotel ao lado da minha empresa, já que não justificava ir a casa para dormir e tomar banho – não vivo perto do escritório – e voltar. Liguei para o hotel, perguntei se tinham um quarto adaptado, garantiram-me que sim. Mas, como já conheço os truques e sei que há muita falta de conhecimento, pedi para me descreverem o quarto e o wc e percebi que não tinham cadeira para me ajudar na banheira. Perguntei se havia espaço para comprarem uma, que serviria para mim, mas também para os próximos clientes. Não foi fácil, mas lá compraram. E ela já me serviu mais 1 ou 2 vezes, em que tive que lá ficar. Há uns anos, fui a Bruxelas e fiquei num dos melhores hotéis da cidade, num quarto supostamente adaptado. Quando lá cheguei percebi que, para eles, um quarto adaptado era um quarto com 50 metros quadrados. Expliquei que preciso de pouco espaço, mas pensado para mim. Lá compraram uma cadeira de banho, mas também a custo. Para compensar, uma história feliz: há 2 anos estive em Madrid em férias e desloquei-me sempre para o centro da cidade de comboio, sem problemas de acesso e com direito a wc dentro da carruagem que, mesmo sem necessidade, decidi usar porque nunca tinha visto!
Não me atrevo a fazer viagens de avião de longo curso porque ainda não percebi como resolvem se eu precisar de ir à casa de banho a meio da viagem. Fico-me por locais mais próximos.
Todos os anos alugo casas de férias no Algarve e também tenho sempre problemas em encontrar uma com acessos para mim e dentro do que quero gastar. Mas, neste caso, como vou em família, acabo por ter ajuda, se necessário. Mas não devia ser assim. É uma vergonha.
Abri de novo ao acaso: Capítulo IX “Sê o melhor que conseguires”. Já disse em várias entrevistas que está rodeada de mulheres e dedica mesmo este livro a elas – a sua mãe, irmã e sobrinha – como se explica a uma criança que não podemos andar?
A Carlota nunca me conheceu de outra forma, pelo que para ela sempre foi normal ver-me na cadeira, a passar para a cama, a tomar banho sentada, a ser ajudada por terceiros. Claro que ela foi crescendo e percebendo que a tia era, de alguma forma, diferente dos outros. Mas como também sempre cresceu perto de uma pessoa que, mesmo de cadeira, faz uma vida normal, adaptada mas normal, nunca foi para ela um problema. Muitas vezes até me disse que me preferia assim do que se andasse. Ainda mal articulava o discurso, e já me dizia estas coisas fantásticas.
Sinto que é uma miúda mais atenta e sensível, por ter crescido perto de mim. Gosta de ajudar os outros, defender os que, por uma razão ou por outra, são mais frágeis aos olhos da sociedade. Um dia, no infantário, perante um colega que se deslocava de cadeira de rodas e que não queria, por isso, entrar numa atividade de grupo, levantou-se, pôs a mão na cintura e disse: “tens que fazer. Olha que eu tenho uma tia lá em casa que faz tudo! Até se pinta!” Acho esta história deliciosa porque para ela, eu fazer tudo não é trabalhar, dar-lhe banho, fazer o jantar, arrumar a casa. É pintar-me…!
A Marta, apesar da sua mobilidade reduzida faz muito mais do que muitas pessoas que têm os movimentos livres. Uma dessas coisas é ajudar pessoas sem-abrigo, dando-lhes comer. A frase “Sê o melhor que conseguires” aplica-se?
Sou voluntária do CASA – Centro de Apoio ao Sem-abrigo há 3 ou 4 anos. Todas as 4ªas feiras me junto a um grupo de malta que, depois de um dia de trabalho, vai até à Gare do Oriente depois do jantar, para distribuir uma refeição quente, um pão, um bolo, um sumo e roupa a quem ali perto passa a noite.
A causa dos Sem-abrigo toca-me especialmente. A falta de dignidade com que aquela gente é tratada pela sociedade, incomoda-me. Julgamos demais, sabe? Há ali pessoas que precisam de nós, ponto final parágrafo. Se erraram na vida ou não, pouco me interessa. São seres humanos que precisam de alguém que lhes dê um prato de comida e, tantas vezes, que os oiça. Garanto-lhe que não está ali ninguém por gozo. Todos os dias que lá vou aprendo mais um bocadinho sobre a vida. Sinto que a nossa presença os conforta. E saio de lá com mais energia do que a que levo comigo. Costumo dizer que é a melhor parte do meu dia.
Se todos dessem um bocadinho de si, a esta ou a outra causa, o mundo era muito mais equilibrado e havia mais gente feliz.
Finalmente e para terminarmos, impõe-se a pergunta: Ser feliz é uma escolha sua. Onde pensa que a levará?
Todos dias, desde que acordamos até que nos deitamos, fazemos escolhas. O que vestir, o que comer, o que fazer durante o dia, como o fazer, etc. Mas as nossas escolhas passam também por: com que cara saio de casa, bem ou maldisposta, com mais ou menos vontade, mais ou menos motivada para o dia que me espera…Enfim, escolher é algo que nos acompanha todos os dias da nossa vida.
A vida ensinou-me a tentar fazer sempre as escolhas que me levem ao principal objetivo que tenho na vida: ser feliz. E tenho conseguido.
Tudo pelo qual tenho passado, principalmente os momentos mais duros, serviu para eu constatar que o meu corpo segue uma espécie de padrão sempre que entra em modo de sobrevivência. Um bocadinho como os smartphones quando entram em modo de economia de energia, e passam para segundo plano uma série de tarefas/aplicações/funções, assim faço eu. Desligo o que não interessa e foco toda a minha energia a executar tarefas essenciais à minha “sobrevivência”: ultrapassar a situação, sair dela. Umas vezes conseguimos sozinhos, noutras precisamos de ajuda. Devemos pedi-la se necessário. Sem vergonha.
Mas o segredo é este: quando somos confrontados com algum tipo de problema, há que aceitar que eles existem, não lhes podemos fugir, devemos trazer para dentro do barco, o mais rapidamente possível, o lado racional. Como eu costumo dizer, juntar ao word da vida, o excel, muito mais frio, mais analítico. Definir um plano de ataque, um caminho para encontrar a solução: ultrapassar a situação. Focar em ser feliz. Daí o título do meu livro “Ser Feliz é Uma Escolha”.
Tenho feito esta escolha todos os dias. E tenho a certeza que, se continuar a fazê-la, vou chegar longe. Aliás, acho que nem o céu será o meu limite! 

12 de março de 2017

O 1º dia do resto da minha vida

Enquanto me picavam as pernas com uma agulha, olhavam-me nos olhos, à espera de uma reação de dor. Mas ela não aparecia. Não doía. Não sentia. Se não estivesse a olhar para os movimentos daquela agulha, diria que nada estava a acontecer.

Ainda hoje me lembro do cheiro da sala fria das urgências. Dos apitos das máquinas que me rodeavam. E da mão calçada com uma luva azul que me libertou dos fios que me ligaram durante 5 horas a uma delas. Já não era preciso, porque eu tinha acordado.

Doía-me a cabeça como não sabia que podia doer. O corpo pedia algo para comer, mas o estômago rejeitava tudo o que lá entrava. O meu cérebro esforçava-se por comunicar pelos canais certos, mas as vias tinha sido trocadas. E, algumas delas, soubemos mais tarde, cortadas.

Os médicos que rodeavam a minha cama falavam baixinho, como se não quisessem que eu ouvisse o pânico deles, pelo desconhecido. Nunca tinham tido um caso destes nas mãos. Quem era exposto a monóxido de carbono raramente tinha a sorte de lhes chegar vivo às mãos, quanto mais vivo mas sem sentir metade do corpo. E agora?

Nos dias que se seguiram, o Hospital de Santa Maria foi pequeno para receber quem me quis dar a mão. Se lhes fechavam uma porta, rapidamente descobriam outra, e tomavam de assalto o meu quarto. A certa altura a ordem foi “deixem entrar, não há muito a fazer.”

Lembro-me da Marta, uma colega baixinha mas arrebitada, a barrar a entrada da sala onde eu deveria ir fazer os Potenciais Evocados Somatossensitivos, um exame que analisava a atividade nervosa que as minhas pernas deveriam transportar até ao cérebro – as coisas que eu aprendi! “Para onde é que a levam”, dizia ela, de braços abertos entre a porta, não deixando ninguém passar.

Foram 45 dias de internamento e dalí saí formalmente com uma lesão medular devido a intoxicação por monóxido de carbono. Paraplégica. Passaria a ser este o diagnóstico para algo tão simples como “não sinto as pernas”.

Algures entre as 17 e as 18 horas daquele dia frio de março, 5 horas depois de um sono profundo, foi o despertar para uma vida que, a partir dali, ia ser diferente. Não necessariamente pior, queria acreditar, mas claramente diferente.

Com 15 anos, a realidade tinha passado a ser outra, e era preciso perceber e aceitar isso. Acima de tudo aceitar, porque perceber exigiria – sem eu saber na altura – alguns anos de experiência em cima.

Ontem, 11 de março de 2017, às 17 horas, estava em cima de um palco a partilhar esta história.

O convite tinha chegado uns dias antes através da presidente da Vida Ama-me, uma associação que tem como objetivo ajudar as pessoas a tomarem consciência do que lhes vai por dentro, para serem mais felizes. Seria um dia com várias atividades e dedicado essencialmente às mulheres.

Teria 20 minutos para contar como tudo se passou. O que não seria um problema, tendo em conta que já o tinha feito outras vezes. Mas seria a 1ª que acertava no mesmo dia em que tudo começou. 

Escolhi começar às 17 horas. Este seria o gancho.

Terminei com um “mais do que a celebrar o Dia da Mulher, estou aqui a celebrar a vida. Porque esta cadeira entrou na minha faz hoje 26 anos. E há 26 anos, precisamente por esta hora, estava a acordar do coma para uma vida nova. Acima de tudo, para uma nova forma de a encarar."

Talvez nem tenham reparado que a minha voz cedeu por segundos, mas ainda consegui fechar com um “obrigada a todos, e sejam felizes”.

As palmas chegaram de pé, os abraços foram apertados. 

Senti-me, mais uma vez, uma mulher cheia de sorte. E com ainda maior certeza de que nada me fará voltar para trás. Só se for para tomar balanço.


3 de março de 2017

Porque é que o dia de hoje é um dos mais felizes da minha vida?

Há um ano não estava com borboletas na barriga. Estava com tudo o que tivesse asas a batê-las pelo meu corpo todo.

Depois de meses de trabalho, tinha chegado a hora. O Ser Feliz é Uma Escolha estava à venda há uns dias e eu ia juntar os meus amigos para um momento único: o lançamento da minha história em livro.

Quando acordei, sentei-me na cama e disse a mim própria “Canária, isto é um dia especial mas vais vivê-lo com tranquilidade para o conseguires saborear.”. Nada me iria stressar.

Escolhi minuciosamente o que ia vestir mas, acima de tudo, tive o cuidado de optar por algo simples e confortável, que não me obrigasse a estar constantemente preocupada com o decote, com a manga, etc.

Não quis ir ao cabeleireiro. Quem me conhece sabe que, apesar de gostar do resultado final e de ser sempre tratada como uma princesa, aquelas horas tiram-me energia.

Tentei ter um dia normal, de trabalho. Marquei reuniões, para me obrigar a estar focada em mais do que aquilo que seria o meu fim do dia.

Mas, depois de almoço, já a passarada se tinha começado a mexer dentro de mim, não deu para evitar.

Cheguei ao local do lançamento, o magnífico Oceanário de Lisboa. onde estava um auditório enorme à minha espera. E caiu sobre mim o terror de não o conseguir encher.


Aquilo estava marcado para as 18h. E a essa hora começaram a chegar convidados. 10, 20, 30, tantos. Foram-se sentando e compondo aquele espaço que, em tão pouco tempo, se tornou pequeno. Centenas de amigos aceitaram o convite. Saíram mais cedo. Deram a volta à vida para ali estarem.

Tremi quando vi o presidente da minha empresa a sentar-se lá em cima, discretamente, junto da restante administração. Tal como tremi quando vi o Dr. Balsemão a chegar e a sentar-se ali mesmo, à minha frente. Perto da minha mãe e da minha irmã, e ao lado da Carlota, vestida com a camisola do Sporting que o meu treinador, famous JJ, apareceu para me oferecer. Se aquilo era um sonho, não me acordassem, sff.

Diverti-me com a apresentação do João Miguel Tavares, emocionei-me com a história do João Duque, viajei no tempo com a memória do Aurélio Pereira. Enquanto eles falavam, percorri várias vezes a plateia com os olhos. E parei nas enfermeiras que me trataram. Nos colegas que tinham acabado de reunir comigo. Nos amigos que não via há anos. Nos que vejo sempre. Nos que só me conheceram ali. E pensei “porra, se me der um chilique agora, morro feliz”. Juro que pensei.

Seguiram-se semanas alucinantes, necessárias à promoção do livro, em que me senti em excesso de velocidade. Lembro-me de ter entrado na sala de um dos meus administradores no dia seguinte ao lançamento, e de ele ter comentado: “entããão…grande momento o de ontem!”. Coitado, mas ele sabia o que o esperava. Meti a primeira e o desgraçado nem conseguiu falar mais. A não ser para me travar a fundo com um “bom, já percebi que estás imparável, é muito bom ver-te assim, um orgulho, aproveita cada minuto, vive-o…mas agora temos que terminar a nossa conversa porque já estou atrasado para uma reunião…”. “Ops”, pensei, “cala-te lá um bocadinho Marta Canário, e deixa o homem trabalhar!”.

A partir daquele dia mudei mais um bocadinho. A peça que era o livro, encaixou na perfeição no puzzle tenho vindo a construir da minha vida. Tinha feito mais uns quilómetros do meu caminho. Estava mais próxima daquilo que queria para mim.

Mas não fui só eu que mudei com isto. De repente, a frase “ser feliz é uma escolha” passou a fazer parte do vocabulário de quem me rodeia. No meio de reuniões de trabalho ou de conversas com amigos, não são poucas as vezes que alguém se sai com um “olha que que ser feliz é uma escolha, pá!”.

(até o #serfelizéumaescolha acompanha os posts dos meus amigos, caraças!).

Sinto sempre o peso da responsabilidade, mas também um orgulho gigante.

2016 não foi mais um ano. Foi o 1º ano do resto da minha vida.


23 de fevereiro de 2017

Ter tempo.

“Às 8h já estou no pc, tento fazer uma pausa às 13h, para almoço, regresso 30 minutos depois, e só volto a parar lá para as 19h.”

Perdi a conta às vezes em que disse isto. Não deixava de ser verdade mas, fazê-lo, era uma espécie de necessidade de provar aos outros que trabalhava mais em casa do que quando ia à empresa.

Passaram-se 12 anos, desde que, por questões de saúde tive que optar por este método de trabalho. Foi numa altura de viragem da minha vida em que, depois de ter estado quase a sair de pista com uma septicémia, decidi “passar-me” para primeiro lugar, o que, naquele caso, implicou não passar quase 16 horas por dia sentada na minha cadeira e começar a trabalhar de casa.

Pouco ou nada me fazia sair de frente do pc. Pouco ou nada me desfocava. Nem o barulho do aspirador que vinha lá de fora, quando a Lucy limpava a sala para só depois passar para o meu quarto.

E foi assim por muito tempo. Mas há pouco mais de 2 anos, a coisa mudou.

Não sei explicar porquê, mas passou a ser importante para mim poder desligar o “piloto automático” e fazer pausas durante as horas de trabalho. Parar para ler 2 páginas do meu livro. Parar para acabar de ver aquela série que sigo. Para saltar para a cadeira enquanto aumento o som daquela música e dançar que nem uma maluca. Ou parar apenas para ir à varanda e ficar ali por alguns minutos. Os textos que ficaram por escrever ou rever podiam esperar. O email de resposta que ficou a meio também. Que tivessem calma, que eu já voltaria, sim?

E fi-lo. Sem a preocupação de estar a tirar tempo à empresa. Sem espaço para sentimentos de culpa. Com a certeza de que aquilo me fazia bem, passei depois à fase de o fazer sem qualquer pudor em dizê-lo em voz alta. Mais: sugerindo aos outros que fizessem o mesmo. Seriam mais produtivos, mais focados no que é verdadeiramente importante, mais conscientes das reais necessidades dos seus clientes. Seriam, como eu passei a ser, tão, mas tão mais felizes.

E o curioso é que, depois de ter tomado esta consciência em casa, passei a fazê-lo na empresa. Não tenho a minha varanda para ir nem páro para ler o meu livro. Mas, sempre que posso, ponho o trabalho em pausa para circular pela empresa e dar um “olá” aos que nem sempre vejo. Para os ouvir dizer que estão bem, para lhes dizer que também estou. Para soltar a uma gargalhada sem me preocupar se ela ecoa nos corredores.

Feita esta desaceleração, retomo a velocidade que me caracteriza, algumas vezes quase irritante.

Hoje trabalhei de casa. A meio da manhã recebi um telefonema de uma jornalista que conheço há mais de 10 anos. Falámos de trabalho, mas rapidamente a conversa passou para o plano pessoal.

Também ela trabalha de casa, mas há pouco tempo. Ainda está na fase “non stop”. Não pára para fazer uma máquina de roupa…quanto mais para ler umas páginas do livro preferido. Sugeri que experimentasse fazê-lo. Acho que ela me ouviu.

A vida já me ensinou umas quantas coisas. E uma delas é que se é certo que o tempo não pára, mais certo é que sou eu que decido o que faço com ele.


11 de fevereiro de 2017

Eu quero.




"O que é que tu não podes fazer agora que estás de cadeira de rodas?"

Perguntaram-me isto há uns dias, depois de uma palestra em que a ideia era partilhar a minha história em 10 minutos.

Pensei uns segundos e, porra, não conseguia lembrar-me de nada. Perante uma plateia atenta, saiu-me a resposta “subir escadas.” E rematei com um “mas subo rampas como ninguém”, seguido de uma gargalhada.

Na altura aquilo pareceu-me parvo e pensei “que bela figurinha, Marta Canário”, mas a verdade era aquela. E, mesmo que pense mais do que uns segundos, não me ocorre mais nada que eu não possa fazer, por estar de cadeira.

Hoje, por exemplo. 

Acordei, olhei para o meu quarto e pensei “hum...aqueles móveis ficavam melhor se os trocasse de lugar um com o outro”. Até aqui tudo bem, queria mudar a disposição daquilo, bastava-me um “Mãããe, anda cá ajudar-me!” E ela vinha. 

Pois, mas hoje não há mãe em casa, foi trabalhar. 

Estava sozinha.

Deixei de mudar o raio dos móveis? Não. Fiz por fases. 

Primeiro, tirei tudo o que estava em cima deles e que podia cair. Depois, arrastei um, devagar, empurrei-o com a força que tenho de braços – e tenho muita -, tranquei-o contra os pedais da cadeira e dei às rooodaaaaas. Dasse! Centímetro a centímetro, desloquei-o até à outra ponta do quarto. Caminho aberto para o outro, fiz o mesmo: centímetro e centímetro, parando aqui e ali para ganhar fôlego, arrasta, arrasta, só mais um bocadinho e...já está! Os móveis ficaram exatamente como eu queria. Feito. Siga.

E a palavra é mesmo esta: querer. Se não é de uma forma é de outra. Se não é mais fácil é mais difícil. Se não é de seguida, é por etapas. Mas não fazer “por estar de cadeira de rodas”?

Para além da questão das escadas, não me ocorre mais nada, sinceramente.