Lá fora estava um sol maravilhoso e decidi aproveitar a minha hora de almoço para ir até à varanda ler um livro.
Ao longe, começo a ouvir o som de pássaros a aproximarem-se.
Olho para o céu e vejo dois melros a rasarem as varandas dos prédios vizinhos. Pareciam crianças a divertirem-se quando fazem pequenos disparates. Mas pareciam fazê-lo a dançar. E os sons que emitiam… pareciam estranhamente coordenados. Desconfio que cantavam. Bom, iam felizes. Disso tenho a certeza.
De repente, naquele voo brincalhão, um deles distrai-se e embate com força - com tanta força… - contra o prédio em frente do meu. E cai no chão.
E eu a ver aquilo tudo. Nem queria acreditar.
Ali estava aquele pássaro, lindo, preto e de bico amarelo-torrado, no chão. Parado. Só mexia a cabeça. Magoado.
Nisto vejo o outro a voltar atrás. Aproxima-se devagarinho do amigo. Rodeia-o sem nunca lhe tocar. Depois abre as asas, em jeito de ritual, e faz uma espécie de dança à sua volta.
E eu sempre ali, a ver aquilo tudo...Sem perceber muito bem o que se passava, mas com a certeza de que aqueles movimentos tinham a ver com o sofrimento do companheiro.
Nesta altura passa o autocarro e o barulho do motor assusta o melro, que foge em direcção ao pinhal. E pousa num grande pinheiro. Mas não num pinheiro qualquer. Daquele podia ver de longe o amigo. Esse, magoado, permaneceu quieto. No passeio. Enroscado.
Passa um ciclista que pára, olha para o passarinho. Cá de cima tento explicar o que se tinha passado e pergunto como ele está. Responde-me de forma desinteressada que lhe parece apenas atordoado. E seguiu o seu caminho sem mais se preocupar. Nem olhou para trás. Nem para mim. Não percebo como conseguiu fazê-lo vendo o pássaro a sofrer, mas seguiu.
Passaram-se 20 ou 30 minutos e eu sempre com a esperança que ele acabasse por voar. Mas nada. Pensei "não deve haver nada a fazer. O bicho magoou-se e, sem a ajuda de alguém, vai mesmo acabar por morrer."
Eis que passam duas senhoras e reparam nele. "Olha...coitadinho...” disse uma delas. Mas, quando se aproxima um pouco mais, e sem que ninguém esperasse, o merlo ganha novamente força e faz um voo rápido até pinheiro onde estava o amigo. Que durante todo este tempo o esteve a observar. De longe mas a observar. Depois desaparecem juntos, por entre o verde da copa das árvores.

Respirei fundo. Respirei de alívio. Aliás, acho que aí sim, voltei a respirar de jeito.
Vim para dentro e pensei "safou-se". E deu-me um ataque de choro.
Ver aquele animal ali, sozinho, a sofrer, quebrou-me o coração. E ver a reacção do companheiro de voo, de aventura, do amigo, que nunca se afastou, emocionou-me.
Primeiro amaldiçoei o facto de ter ido à varanda àquela hora. Naquele momento. Mas acabei por agradecer tê-lo feito. Porque percebi que tinha tido a oportunidade de presenciar um momento único. De amizade, no seu estado mais puro. Entre animais. Mas amizade.
Há coisas que nos acontecem e que, muitas vezes, não conseguimos perceber a sua razão logo no momento. Mas que, mais tarde ou mais cedo, acabam por fazer sentido.
Enfim, há dias assim. Que valem a pena pelas pequenas coisas que nos relembram as grandes coisas. No fundo, as que interessam.
Experiência maravilhosa contada de uma forma linda.
ResponderEliminarPus-me aqui a pensar como no nosso dia a dia afastamos os momentos de contemplação que nos permitiriam viver momentos como o q viveste e que dariam uma ajuda a entender muitas coisas da "Vida".
Obrigado! :)
Olá Bruno!
EliminarA correria do dia a dia deixa-nos pouco tempo para vermos estas coisas com calma. Faço um esforço grande para conseguir, o que nem sempre acontece. Desta vez consegui e foi fantástico.
E obrigada eu, por continuares por aqui!
bj,
marta
Os animais têm tanto para nos ensinar...
ResponderEliminarÉ por isso e muito mais, que para mim, os animais são das melhores "coisas" deste Mundo!!!
Obrigado Marta, por partilhares esse episódio connosco.
Beijinhos
Patrícia