1 de novembro de 2013

Porque a vida é rara

Sempre contei esta parte da minha história da mesma maneira.
 
Uma vez, duas vezes, três. Muitas. Acabei por estruturá-la daquela forma na minha cabeça e habituei-me a contá-la assim, com aquela sequência. Com os mesmos pormenores, as mesmas graças. Mas há histórias para além da história, que nunca passei para o papel.
 
Passaram-se 23 anos mas lembro-me daquele dia como se fosse hoje.
 
Estávamos em Março. Um Março frio.
 
Os dias passavam-se sempre com a mesma rotina. Lá em casa, depois de todos saírem, preparava-me para mais um dia de aulas. Andava no 10º ano. Turma da tarde. Era uma miúda feliz. Aluna razoável. Bons amigos. Popular. Com um namorado há 2 meses. O Rui. Um miúdo impecável. Aturou-me 7 anos.
 
Naquele dia, a Cláudia, a minha melhor amiga, tinha ficado de passar lá por casa para irmos juntas para a escola. Mas não íamos directas. Antes passávamos pelo Don Pomodoro, onde bebíamos um café e fumávamos um cigarro. Como os crescidos. Comprávamos um maço a meias que ela escondia religiosamente na mala.
 
A Agostinha trabalhava lá em casa há alguns anos e nunca falhava. Naquele dia ia falhar mas, nesta altura, ainda não sabíamos.
 
Lembro-me de pegar no Coca-cola, a nossa mistura de caniche com bichon, mais parecido com um desperdício do que com um cão, e de o levar comigo para a casa de banho, para evitar que se engalfinhasse com o Pantufa, um velho pequinois albino de nariz cor-de-rosa, que tudo o que queria era o descanso do sofá da sala.
 
Lembro-me de ter sentido frio e de ligar o aquecedor de ambiente. De fechar a porta e a janela.
 
Lembro-me do banho mais demorado. De lavar cuidadosamente o cabelo, que ia sempre molhado para a escola.
 
Lembro-me de me estar a saber bem. E de cantar.
 
É nesta altura que oiço o Coca a ladrar, insistentemente. Queria ir lá para fora, quem sabe presentindo algo que eu ainda não tinha sentido. Irritada saí do banho, abri-lhe a porta, deixei-o ir. Voltei lá para dentro.
 
Naquela época, ter os esquentadores nas casas de banho era um hábito em prédios antigos. Alvalade era um bairro desses. Tinha mais de 50 anos. Prédios baixinhos, sem elevador, em que cada inquilino tinha direito a um espaço nas traseiras. O nosso quintal. O bairro de Alvalade era o bairro dos nossos avós.
 
Já perto do fim daquele banho, senti-me estranha. Sem perceber o que se passava, fechei a água. Sentei-me. Esperei. Apaguei. Entrei em coma.
 
Passam-se duas horas e a Cláudia bate à porta. Já não abri. Minutos depois a minha irmã chega a casa, estranhando não se ter cruzado comigo no caminho. A essa hora, o telefone também tocava em Setúbal, onde a minha mãe escolhia as peças de uma colecção de roupa para a loja que tinha na Baixa.
 
Nunca o percurso Setúbal-Lisboa foi tão curto. Dali até ao Santa Maria, o carro voou.
 
Quando tenta entrar na UCI, alguém a pára para lhe vestir uma bata. Em vão. A pressa de chegar perto era maior.
 
Eu já estava acordada. A cabeça estalava de dor. Pedi bolachas Maria e bebi um chá. Fui vista por dezenas de médicos. A quem disse que estava bem...mas que não sentia as pernas.
 
A história que se segue é sobejamente conhecida. Exames, lesão medular, paraplegia. Médicos, Alcoitão, Londres. Fisioterapia, acupunctura, homeopatia, massagens. Mas, ao mesmo tempo, amigos, praia, namorado, escola. Vida normal de uma miúda de 15 anos.
 
Foi o terminar de um ciclo e o início de outro. Como se alguém tivesse pegado nas cartas da minha vida e as baralhasse para começar um novo jogo. Mais difícil, com outras regras.
 
Desde aquele dia aprendi a viver com o que a vida me deu. Cresci. Passei a querer sentir todos os minutos. A ver com o coração aquilo que tantas vezes só via com os olhos. A chuva. Os pássaros. O mundo.
 
E realizei a sorte que tive. Uma reviravolta indesejada, é certo, mas que me fez perceber que, se fiquei por cá, todos os dias tenho que conseguir fazer um bocadinho melhor. Ser um bocadinho melhor. E que, quando há um dia em que isso não acontece – porque estou mais em baixo, porque o saco está cheio, porque tenho a certeza que o mundo se uniu para me lixar -, devo aproveitar o dia seguinte e fazer a dobrar, recuperando o tempo que perdi.
 
Tudo sem nunca perder o foco: prefiro passar pelo tempo, do que deixar o tempo passar por mim.
 
Porque a vida não pára. E eu quero ir com ela.
 
 

5 comentários:

  1. Acabei de ler. Deve ter saído agora do 'forno'... TIPO acabadinho de publicar. Como dizes Marta, a vida é para levar a sério e gastar todos os momentos... Bom texto. Simples. Completo. Bj

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  2. Olá Marta,
    é mesmo verdade que a vida não pára, e as supresas que ela nos reserva não páram também. Contudo aprendi que este sentimento de q a vida não pára pode levar-nos a correr atrás dela e a tropeçar e dar valentes tombos. Apesar de os tombos se tornarem sempre em aprendizagem, hoje prefiro dar tempo ao tempo saborear o q há para saborear e sem correrias. :)
    Obrigado. Até ao próximo!
    Bruno

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