quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A dor dos outros.

Hoje pus-me a pensar, e percebi que lido melhor com a minha dor, do que com a dor dos outros.

É que com a minha sei como dar a volta. Se não sei, arranjo, invento. Distraio-a, troco-lhe as voltas. Passo-lhe uma rasteira. Ou dou-lhe, simplesmente, um belo pontapé no cu.
Com a dos outros não é assim. Com a dos outros fico muitas vezes sem saber o que dizer, sem saber o que fazer, sem conseguir ajudar. Sinto-me impotente. Eu, que estou habituada a saber sempre o que dizer. A controlar a dor. Mas, sim, a minha.
O que mais me custa é quando são causas aparentemente perdidas. Cientificamente perdidas. Causas onde o que nos resta é a esperança. Mas também o que é isto de nos "agarrarmos à esperança" quando estamos a falar de casos sem ela? Ou mesmo de pessoas que, por natureza, não a têm?
“Tens que ter calma”. “A vida é mesmo assim”. “Temos que aprender a aceitar”. “A ciência avança muito rapidamente”. “Pensa que algo vai acontecer de bom”. “És forte e vais superar”. "Luta, luta, luta". “Tem esperança”. Pronto, estão a ver…? Até eu digo aos outros para se agarrem à esperança, mesmo sentindo no meu coração que de pouco vale. Mas, se não disser isto, digo o quê?
“Se acreditas em Deus, reza”. “Se acreditas noutra coisa qualquer, segue-a”. “Acima de tudo, faz o que o teu coração te manda fazer”. “Se for gritar, grita”. “Se for chorar, chora”. “Se for partilhar, partilha”. Porque quando gritamos, choramos ou partilhamos, deitamos cá para fora um bocadinho desta dor. Porque se a deixamos lá dentro, ainda nos corrói mais. E não lhe podemos dar esse espaço. É que se o fazemos, ela é má e toma mesmo conta de nós.
Tenho tanta pena...Mesmo. Há alturas, há casos, em que é difícil ter uma palavra de conforto. Daquelas que confortam. Que aliviam. Que mostram um caminho. O caminho.
E, por isso, nessas alturas só podemos dar o que temos. Um ombro forte. Um sorriso que compreende. Um abraço demorado. Um beijo mais profundo. Um dar a mão mais apertado. Como quem diz, “Nada posso fazer ou dizer, mas estou aqui”. E estou. E fico. E vou. Mesmo que esteja longe. Desenrasco-me e vou.
 
A presença da possibilidade da morte nas vidas dos outros, é uma merda. Rouba-me as palavras. Curioso que na minha soube quase sempre como a enfrentar. E vos garanto que não passou por aceitar. Porque isso, nunca fiz. Mas, se calhar, era diferente.

No fundo, mesmo lá no fundo, este texto todo só porque hoje o que me vai na alma era mesmo a vontade ter um dom. Não o da palavra. Esse, têm muitos. Mas o da palavra certa. No momento certo. Sempre na ponta da língua. Que acalmasse a dor nos outros, Que, bolas, é tão pior que a minha.
 
 

1 comentário:

  1. Só agora li este texto... sabes como me toca, parece que é escrito para mim... um beijo e obrigada!

    ResponderEliminar